Lista de Poemas

Crepuscular

Poente no meu jardim... O olhar profundo
Alongo sobre as árvores vazias,
Essas em cujo espírito infecundo
Soluçam silenciosas agonias.

Assim estéreis, mansas e sombrias,
Sugerem à emoção em que as circundo
Todas as dolorosas utopias
De todos os filósofos do mundo.

Sugerem... Seus destinos são vizinhos:
Ambas, não dando frutos, abrem ninhos
Ao viandante exânime que as olhe.

Ninhos, onde vencida de fadiga,
A alma ingênua dos pássaros se abriga
E a tristeza dos homens se recolhe...

1 421

Pórtico

Alma de origem ática, pagã,
Nascida sob aquele firmamento
Que azulou as divinas epopéias,
Sou irmão de Epicuro e de Renan,
Tenho o prazer sutil do pensamento
E a serena elegância das idéias...

Há no meu ser crepúsculos e auroras,
Todas as seleções do gênio ariano,
E a minha sombra amável e macia
Passa na fuga universal das horas,
Colhendo as flores do destino humano
Nos jardins atenienses da Ironia...

(...)

Meu pensamento livre, que se achega
De ideologias claras e espontâneas,
É uma suavíssima cidade grega,
Cuja memória
É uma visão esplêndida na história
Das civilizações mediterrâneas.

Cidade da Ironia e da Beleza,
Fica na dobra azul de um golfo pensativo,
Entre cintas de praias cristalinas,
Rasgando iluminuras de colinas,
Com a graça ornamental de um cromo vivo:
Banham-na antigas águas delirantes,
Azuis, caleidoscópicas, amenas,
Onde se espelha, em refrações distantes,
O vulto panorâmico de Atenas...

Entre os deuses e Sócrates assoma
E envolve na amplitude do seu gênio
Toda a grandeza grega a que remonto;
Da Hélade dos heróis ao fim de Roma,
Das cidades ilustres do Tirreno
Ao mistério das ilhas do Helesponto...

Cidade de virtudes indulgentes,
Filha da Natureza e da Razão,
— Já eivada da luxúria oriental, —
Ela sorri ao Bem, não crê no Mal,
Confia na verdade da Ilusão
E vive na volúpia e na sabedoria,
Brincando com as idéias e com as formas...

(...)

Revendo-se num século submerso.
Meu pensamento, sempre muito humano,
É uma cidade grega decadente,
Do tempo de Luciano,
Que, gloriosa e serena,
Sorrindo da palavra nazarena,
Foi desaparecendo lentamente,
No mais suave crepúsculo das coisas...

Imagem - 00180001


Publicado no livro Luz Mediterrânea (1922). Poema integrante da série Luz Mediterrânea.

In: LEONI, Raul de. Luz mediterrânea. Pref. Rodrigo Mello Franco de Andrade. 10.ed. São Paulo: Liv. Martins, 195
2 230

Cristianismo

Sonho um cristianismo singular
Cheio de amor divino e de prazer humano;
O Horto de Mágoas sob um céu virgiliano,
A beatitude com mais luz e com mais ar...

Um pequeno mosteiro em meio de um pomar,
Entre loureiros-rosa e vinhas de todo o ano.
Num misticismo lírico, a sonhar
Na orla florida e azul de um lago italiano...

Um cristianismo sem renúncia e sem martírios,
Sem a pureza melancólica dos lírios.
Temperado na graça natural...

Cristianismo de bom humor, que não existe,
Onde a Tristeza fosse um pecado venial,
Onde a Virtude não precisasse ser triste...


Publicado no livro Luz Mediterrânea (1928). Poema integrante da série Poemas Inacabados.

In: LEONI, Raul de. Luz mediterrânea. Pref. Rodrigo Mello Franco de Andrade. 10.ed. São Paulo: Liv. Martins, 195
1 679

Para a Vertigem!

Alma em teu delirante desalinho,
Crês que te moves espontaneamente,
Quando és na Vida um simples rodamoinho,
Formado dos encontros da torrente!

Moves-te porque ficas no caminho
Por onde as cousas passam, diariamente:
Não é o Moinho que anda, é a água corrente
Que faz, passando, circular o Moinho...

Por isso, deves sempre conservar-te
Nas confluências do Mundo errante e vário.
Entre forças que vem de toda parte.

Do contrário, serás, no isolamento,
A espiral, cujo giro imaginário
É apenas a Ilusão do Movimento!...


Publicado no livro Luz Mediterrânea (1922). Poema integrante da série Felicidade.

In: LEONI, Raul de. Luz mediterrânea. Pref. Rodrigo Mello Franco de Andrade. 10.ed. São Paulo: Liv. Martins, 195
1 542

Artista

Por um destino acima do teu Ser,
Tens que buscar nas coisas inconscientes
Um sentido harmonioso, o alto prazer
Que se esconde entre as formas aparentes.

Sempre o achas, mas ao tê-lo em teu poder
Nem no pões na tua alma, nem no sentes
Na tua vida, e o levas, sem saber,
Ao sonho de outras almas diferentes...

Vives humilde e inda ao morrer ignoras
O Ideal que achaste... (Ingratidão das musas!)
Mas não faz mal, meu bômbix inocente:

Fia na primavera, entre as amoras.
A tua seda de ouro, que nem usas
Mas que faz tanto bem a tanta gente...


Publicado no livro Luz Mediterrânea (1922). Poema integrante da série Felicidade.

In: LEONI, Raul de. Luz mediterrânea. Pref. Rodrigo Mello Franco de Andrade. 10.ed. São Paulo: Liv. Martins, 195
1 757

Ciganos

Lá vêm os saltimbancos, às dezenas
Levantando a poeira das estradas.
Vêm gemendo bizarras cantilenas,
No tumulto das danças agitadas.

Vêm num rancho faminto e libertino,
Almas estranhas, seres erradios,
Que tem na vida um único destino,
O Destino das aves e dos rios.

Ir mundo a mundo é o único programa,
A disciplina única do bando;
O cigano não crê, erra, não ama,
Se sofre, a sua dor chora cantando.

Nunca pararam desde que nasceram.
São da Espanha, da Pérsia ou da Tartária?
Eles mesmos não sabem; esqueceram
A sua antiga pátria originária...

Quando passam, aldeias, vilarinhos
Maldizem suas almas indefesas,
E a alegria que espalham nos caminhos
É talvez um excesso de tristezas...

Quando acampam de noite, é no relento,
Que vão sonhar seu Sonho aventureiro;
Seu teto é o vácuo azul do Firmamento,
Lar? o lar do cigano é o mundo inteiro.

Às vezes, em vigílias ambulantes,
A noite em fora, entre canções dalmatas,
Vão seguindo ao luar, vão delirantes,
Alados no langor das serenatas.

Gemem guzlas e vibram castanholas,
E este rumor de errantes cavatinas
Lembra coisas das terras espanholas,
Nas saudades das terras levantinas.

E, então, seus vultos tredos envolvidos
Em vestes rotas, sórdidas, imundas.
Vão passando por ermos esquecidos,
Como um grupo de sombras vagabundas.

Lá vem os saltimbancos, às dezenas,
Levantando a poeira das estradas,
Vêm gemendo bizarras cantilenas,
No tumulto das danças agitadas.

Povo sem Fé, sem Deus e sem Bandeira!
Todos o temem como horrível gente,
Mas ele na existência aventureira,
Ri-se do medo alheio, indiferente.

E, livres como o Vento e a Luz volante,
Sob a aparência de Infelicidade,
Realizam, na sua vida errante,
O poema da eterna Liberdade.

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Poema integrante da série Poemas Inéditos.

In: LEONI, Raul de. Trechos escolhidos. Org. Luiz Santa Cruz. Rio de Janeiro: Agir, 1961. (Nossos clássicos, 58)
1 818

Pudor

Quando fores sentindo que o fulgor
Do teu Ser se corrompe e a adolescência
Do teu gênio desmaia e perde a cor,
Entre penumbras e deliquescência,

Faze a tua sagrada penitência,
Fecha-te num silêncio superior,
Mas não mostres a tua decadência
Ao mundo que assistiu teu esplendor!

Foge de tudo para o teu nadir!
Poupa ao prazer dos homens o teu drama!
Que é mesmo triste para os olhos ver

E assistir, sobre o mesmo panorama,
A alegoria matinal subir
E a ronda dos crepúsculos descer...


Publicado no livro Luz Mediterrânea (1922). Poema integrante da série Felicidade.

In: LEONI, Raul de. Luz mediterrânea. Pref. Rodrigo Mello Franco de Andrade. 10.ed. São Paulo: Liv. Martins, 195
1 910

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Identificação e contexto básico

Raul de Leoni Sociedade era um poeta e diplomata brasileiro. Conhecido pelo seu nome de plume Raul de Leoni, foi uma figura ligada a um período de transição na literatura brasileira, navegando entre os rigores formais do Parnasianismo e a atmosfera etérea do Simbolismo, com incursões que antecipavam o Modernismo.

Infância e formação

Raul de Leoni nasceu numa família com tradição literária. A sua formação intelectual foi sólida, com acesso a uma vasta biblioteca e a um ambiente que estimulava o gosto pelas artes e pelas letras. A exposição à poesia europeia e à literatura brasileira da época moldou os seus primeiros passos na escrita.

Percurso literário

O percurso literário de Raul de Leoni começou com a publicação dos seus primeiros poemas em revistas literárias. A sua obra evoluiu de uma estética mais clássica para uma abordagem que, embora ainda presa a certas formas, introduzia temas e sensibilidades mais modernas. A sua carreira diplomática, que o levou a viver em diferentes países, também influenciou a sua visão de mundo e a sua produção poética.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Raul de Leoni é marcada pela busca da beleza e da perfeição formal. Os seus poemas exploram temas como a arte, a mitologia, a efemeridade da vida e a transcendência. Estilisticamente, combinou a precisão métrica e a rima do Parnasianismo com a sugestão, a musicalidade e o misticismo do Simbolismo. Utilizou frequentemente o soneto, mas também experimentou com outras formas. A sua linguagem é elaborada, com um vocabulário erudito e uma grande atenção ao ritmo e à sonoridade.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Raul de Leoni viveu num período de efervescência cultural no Brasil, que culminou com a Semana de Arte Moderna de 1922. Embora a sua obra não se enquadre totalmente nas vanguardas modernistas, estabeleceu um diálogo com elas, representando uma ponte entre as gerações. A sua posição como diplomata permitiu-lhe observar de perto as correntes culturais internacionais.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida de Raul de Leoni foi marcada pela sua dedicação à diplomacia, que o levou a residir em vários países, como a França e a Suíça. Essa experiência cosmopolita enriqueceu a sua perspetiva e a sua obra. As suas relações pessoais, embora menos documentadas publicamente do que a sua obra literária, certamente contribuíram para a sua visão do mundo.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Raul de Leoni foi um poeta reconhecido na sua época, admirado pela sua técnica e pela sua sensibilidade. A sua obra foi elogiada pela crítica pela sua elegância e profundidade temática. A sua posição na literatura brasileira é a de um poeta de transição, cujas inovações formais e temáticas abriram caminho para o Modernismo.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Raul de Leoni foi influenciado por poetas parnasianos e simbolistas franceses, bem como por mestres da poesia brasileira. O seu legado reside na sua capacidade de ter renovado a linguagem poética brasileira, integrando elementos clássicos com uma sensibilidade moderna. Abriu portas para experimentações posteriores na poesia do Brasil.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Raul de Leoni tem sido analisada sob a ótica da sua habilidade técnica e da sua capacidade de tratar temas universais com uma linguagem sofisticada. As suas obras são vistas como um reflexo de uma busca constante pela beleza ideal e pela expressão artística perfeita.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Uma curiosidade sobre Raul de Leoni é a sua participação em concursos literários da época, onde obteve reconhecimento. A sua carreira diplomática, que lhe deu uma perspetiva global, é um aspeto que se entrelaça com a sua produção poética.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Raul de Leoni faleceu, deixando uma obra poética que continua a ser estudada e apreciada pela sua qualidade estética e pela sua importância histórica na evolução da poesia brasileira.