Raul de Leoni

Raul de Leoni

1895–1926 · viveu 31 anos BR BR

Raul de Leoni foi um poeta e diplomata brasileiro, conhecido pela sua poesia que mescla influências parnasianas e simbolistas, com um toque de modernidade. A sua obra explora temas como a beleza, a arte, a efemeridade e a busca pela perfeição formal. É uma figura importante na transição entre a poesia do século XIX e o modernismo brasileiro.

n. 1895-10-30, Petrópolis · m. 1926-11-21, Itaipava, distrito de Petrópolis

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História Antiga

No meu grande otimismo de inocente,
Eu nunca soube por que foi... um dia,
Ela me olhou indiferentemente,
Perguntei-lhe por que era... Não sabia...

Desde então, transformou-se de repente
A nossa intimidade correntia
Em saudações de simples cortesia
E a vida foi andando para frente...

Nunca mais nos falamos... vai distante...
Mas, quando a vejo, há sempre um vago instante
Em que seu mudo olhar no meu repousa,

E eu sinto, sem no entanto compreendê-la,
Que ela tenta dizer-me qualquer cousa,
Mas que é tarde demais para dizê-la...

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Biografia

Identificação e contexto básico

Raul de Leoni Sociedade era um poeta e diplomata brasileiro. Conhecido pelo seu nome de plume Raul de Leoni, foi uma figura ligada a um período de transição na literatura brasileira, navegando entre os rigores formais do Parnasianismo e a atmosfera etérea do Simbolismo, com incursões que antecipavam o Modernismo.

Infância e formação

Raul de Leoni nasceu numa família com tradição literária. A sua formação intelectual foi sólida, com acesso a uma vasta biblioteca e a um ambiente que estimulava o gosto pelas artes e pelas letras. A exposição à poesia europeia e à literatura brasileira da época moldou os seus primeiros passos na escrita.

Percurso literário

O percurso literário de Raul de Leoni começou com a publicação dos seus primeiros poemas em revistas literárias. A sua obra evoluiu de uma estética mais clássica para uma abordagem que, embora ainda presa a certas formas, introduzia temas e sensibilidades mais modernas. A sua carreira diplomática, que o levou a viver em diferentes países, também influenciou a sua visão de mundo e a sua produção poética.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Raul de Leoni é marcada pela busca da beleza e da perfeição formal. Os seus poemas exploram temas como a arte, a mitologia, a efemeridade da vida e a transcendência. Estilisticamente, combinou a precisão métrica e a rima do Parnasianismo com a sugestão, a musicalidade e o misticismo do Simbolismo. Utilizou frequentemente o soneto, mas também experimentou com outras formas. A sua linguagem é elaborada, com um vocabulário erudito e uma grande atenção ao ritmo e à sonoridade.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Raul de Leoni viveu num período de efervescência cultural no Brasil, que culminou com a Semana de Arte Moderna de 1922. Embora a sua obra não se enquadre totalmente nas vanguardas modernistas, estabeleceu um diálogo com elas, representando uma ponte entre as gerações. A sua posição como diplomata permitiu-lhe observar de perto as correntes culturais internacionais.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida de Raul de Leoni foi marcada pela sua dedicação à diplomacia, que o levou a residir em vários países, como a França e a Suíça. Essa experiência cosmopolita enriqueceu a sua perspetiva e a sua obra. As suas relações pessoais, embora menos documentadas publicamente do que a sua obra literária, certamente contribuíram para a sua visão do mundo.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Raul de Leoni foi um poeta reconhecido na sua época, admirado pela sua técnica e pela sua sensibilidade. A sua obra foi elogiada pela crítica pela sua elegância e profundidade temática. A sua posição na literatura brasileira é a de um poeta de transição, cujas inovações formais e temáticas abriram caminho para o Modernismo.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Raul de Leoni foi influenciado por poetas parnasianos e simbolistas franceses, bem como por mestres da poesia brasileira. O seu legado reside na sua capacidade de ter renovado a linguagem poética brasileira, integrando elementos clássicos com uma sensibilidade moderna. Abriu portas para experimentações posteriores na poesia do Brasil.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Raul de Leoni tem sido analisada sob a ótica da sua habilidade técnica e da sua capacidade de tratar temas universais com uma linguagem sofisticada. As suas obras são vistas como um reflexo de uma busca constante pela beleza ideal e pela expressão artística perfeita.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Uma curiosidade sobre Raul de Leoni é a sua participação em concursos literários da época, onde obteve reconhecimento. A sua carreira diplomática, que lhe deu uma perspetiva global, é um aspeto que se entrelaça com a sua produção poética.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Raul de Leoni faleceu, deixando uma obra poética que continua a ser estudada e apreciada pela sua qualidade estética e pela sua importância histórica na evolução da poesia brasileira.

Poemas

17

Artista

Por um destino acima do teu Ser,
Tens que buscar nas coisas inconscientes
Um sentido harmonioso, o alto prazer
Que se esconde entre as formas aparentes.

Sempre o achas, mas ao tê-lo em teu poder
Nem no pões na tua alma, nem no sentes
Na tua vida, e o levas, sem saber,
Ao sonho de outras almas diferentes...

Vives humilde e inda ao morrer ignoras
O Ideal que achaste... (Ingratidão das musas!)
Mas não faz mal, meu bômbix inocente:

Fia na primavera, entre as amoras.
A tua seda de ouro, que nem usas
Mas que faz tanto bem a tanta gente...


Publicado no livro Luz Mediterrânea (1922). Poema integrante da série Felicidade.

In: LEONI, Raul de. Luz mediterrânea. Pref. Rodrigo Mello Franco de Andrade. 10.ed. São Paulo: Liv. Martins, 195
1 795

Pudor

Quando fores sentindo que o fulgor
Do teu Ser se corrompe e a adolescência
Do teu gênio desmaia e perde a cor,
Entre penumbras e deliquescência,

Faze a tua sagrada penitência,
Fecha-te num silêncio superior,
Mas não mostres a tua decadência
Ao mundo que assistiu teu esplendor!

Foge de tudo para o teu nadir!
Poupa ao prazer dos homens o teu drama!
Que é mesmo triste para os olhos ver

E assistir, sobre o mesmo panorama,
A alegoria matinal subir
E a ronda dos crepúsculos descer...


Publicado no livro Luz Mediterrânea (1922). Poema integrante da série Felicidade.

In: LEONI, Raul de. Luz mediterrânea. Pref. Rodrigo Mello Franco de Andrade. 10.ed. São Paulo: Liv. Martins, 195
1 935

Pórtico

Alma de origem ática, pagã,
Nascida sob aquele firmamento
Que azulou as divinas epopéias,
Sou irmão de Epicuro e de Renan,
Tenho o prazer sutil do pensamento
E a serena elegância das idéias...

Há no meu ser crepúsculos e auroras,
Todas as seleções do gênio ariano,
E a minha sombra amável e macia
Passa na fuga universal das horas,
Colhendo as flores do destino humano
Nos jardins atenienses da Ironia...

(...)

Meu pensamento livre, que se achega
De ideologias claras e espontâneas,
É uma suavíssima cidade grega,
Cuja memória
É uma visão esplêndida na história
Das civilizações mediterrâneas.

Cidade da Ironia e da Beleza,
Fica na dobra azul de um golfo pensativo,
Entre cintas de praias cristalinas,
Rasgando iluminuras de colinas,
Com a graça ornamental de um cromo vivo:
Banham-na antigas águas delirantes,
Azuis, caleidoscópicas, amenas,
Onde se espelha, em refrações distantes,
O vulto panorâmico de Atenas...

Entre os deuses e Sócrates assoma
E envolve na amplitude do seu gênio
Toda a grandeza grega a que remonto;
Da Hélade dos heróis ao fim de Roma,
Das cidades ilustres do Tirreno
Ao mistério das ilhas do Helesponto...

Cidade de virtudes indulgentes,
Filha da Natureza e da Razão,
— Já eivada da luxúria oriental, —
Ela sorri ao Bem, não crê no Mal,
Confia na verdade da Ilusão
E vive na volúpia e na sabedoria,
Brincando com as idéias e com as formas...

(...)

Revendo-se num século submerso.
Meu pensamento, sempre muito humano,
É uma cidade grega decadente,
Do tempo de Luciano,
Que, gloriosa e serena,
Sorrindo da palavra nazarena,
Foi desaparecendo lentamente,
No mais suave crepúsculo das coisas...

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Publicado no livro Luz Mediterrânea (1922). Poema integrante da série Luz Mediterrânea.

In: LEONI, Raul de. Luz mediterrânea. Pref. Rodrigo Mello Franco de Andrade. 10.ed. São Paulo: Liv. Martins, 195
2 256

De um Fantasma

Na minha vida fluida de fantasma
Sou tão leve que quase nem me sinto.
Nem há nada mais leve nem tão leve.
Sou mais leve do que a euforia de um anjo,
Mais leve do que a sombra de uma sombra
Refletida no espelho da Ilusão.

Nenhuma brutal lei do Universo sensível
Atua e pesa e nem de longe influi
Sobre o meu ser vago, difuso, esquivo
E no éter sereníssimo flutuo
Com a doce sutileza imponderável
De uma essência ideal que se volatiza...

Passo através das cousas mais sensíveis
E as cousas que atravesso nem se sentem,
Porque na minha plástica sutil
Tenho a delicadeza transcendente
Da luz, que flui través os corpos transparentes.
Sou quase imaterial como uma idéia...

E da matéria cósmica que tem
Tantos e variadíssimos estados
Eu sou o estado-alma, quer dizer
O último estado rarefeito, o estado ideal:
Alma, o estado divino da matéria!...


Publicado no livro Luz Mediterrânea (1928). Poema integrante da série Poemas Inacabados.

In: LEONI, Raul de. Luz mediterrânea. Pref. Rodrigo Mello Franco de Andrade. 10.ed. São Paulo: Liv. Martins, 1959
1 864

Crepuscular

Poente no meu jardim... O olhar profundo
Alongo sobre as árvores vazias,
Essas em cujo espírito infecundo
Soluçam silenciosas agonias.

Assim estéreis, mansas e sombrias,
Sugerem à emoção em que as circundo
Todas as dolorosas utopias
De todos os filósofos do mundo.

Sugerem... Seus destinos são vizinhos:
Ambas, não dando frutos, abrem ninhos
Ao viandante exânime que as olhe.

Ninhos, onde vencida de fadiga,
A alma ingênua dos pássaros se abriga
E a tristeza dos homens se recolhe...

1 445

Platônico

As idéias são seres superiores,
— Almas recônditas de sensitivas —
Cheias de intimidades fugitivas,
De crepúsculos, melindres e pudores.

Por onde andares e por onde fores,
Cuidado com essas flores pensativas,
Que tem pólen, perfumes, órgãos e cores
E sofrem mais que as outras cousas vivas.

Colhe-as na solidão... são obras-primas
Que vieram de outros tempos e outros climas
Para os jardins de tua alma que transponho,

Para com ela teceres, na subida,
A coroa votiva do teu Sonho
E a legenda imperial da tua Vida.

1 633

Ingratidão

Nunca mais me esqueci! ... Eu era criança
E em meu velho quintal, ao sol-nascente,
Plantei, com a minha mão ingênua e mansa,
Uma linda amendoeira adolescente.

Era a mais rútila e íntima esperança...
Cresceu... cresceu... e aos poucos, suavemente,
Pendeu os ramos sobre um muro em frente
E foi frutificar na vizinhança...

Daí por diante, pela vida inteira,
Todas as grandes árvores que em minhas
Terras, num sonho esplêndido semeio,

Como aquela magnífica amendoeira,
Eflorescem nas chácaras vizinhas
E vão dar frutos no pomar alheio...

6 455

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