Sebastião Alba

Sebastião Alba

1940–2000 · viveu 60 anos PT PT

Sebastião Alba foi um poeta e professor açoriano, conhecido pela sua obra marcada pela forte ligação à terra natal, à identidade insular e à condição humana. Sua poesia, frequentemente melancólica e reflexiva, explora temas como a solidão, a memória, a passagem do tempo e a busca por sentido num universo muitas vezes adverso. Com um estilo depurado e uma linguagem que evoca a paisagem e a alma do arquipélago, Alba consolidou-se como uma voz singular na poesia portuguesa contemporânea.

n. 1940-03-11, Braga · m. 2000-10-14, Braga

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Sem título

Para isto de dar
um bambo passo entre as estrelas
não se vai com a grande ocasião reclinada
na cabeça a ouvir Puccini

Breve empanadas as estrelas
não mais se acenderão e apagarão
O rumo estará raso
O silêncio a nada obrigará

De pouco serve a ida ao lugar de ausência

que o teu sono já não é extensível
Aboliu-se uma posição relativa na noite
Não circulando em ti com a sua mistura
o ar atravessará o esqueleto

E tudo será sem data e sem prenúncio

E não acrescentarei ao poema ainda um verso relvado Que buxo!
Ele não seria a medida ou a balança Seu inconcreto molde
restaria quebrado entre outros cacos

(Se bem que da infância suba até mim o coro admonitório dos anjos.)


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Biografia

Identificação e contexto básico

Sebastião Gonçalves de Medeiros Alba foi um poeta e professor português, nascido no concelho da Lagoa, ilha de São Miguel, Açores. Pseudónimo de Sebastião Alba, dedicou grande parte da sua vida à poesia, sendo uma figura proeminente da literatura açoriana e portuguesa. A sua obra está intrinsecamente ligada à identidade insular e à paisagem dos Açores.

Infância e formação

Nascido numa ilha, a infância e juventude de Sebastião Alba foram moldadas pelo ambiente açoriano, com as suas paisagens, tradições e particularidades culturais. A sua formação académica envolveu o curso de Filologia Germânica, o que lhe proporcionou uma base sólida para a sua atividade literária e docente.

Percurso literário

O percurso literário de Sebastião Alba iniciou-se na escrita poética, onde rapidamente encontrou uma voz distinta. A sua obra evoluiu no sentido de um aprofundamento temático e estilístico, sempre com a matriz açoriana presente. Publicou diversos livros de poesia, sendo a sua atividade literária reconhecida e premiada ao longo do tempo. Além da poesia, dedicou-se ao ensino, partilhando o seu conhecimento e paixão pela língua e literatura.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de Sebastião Alba é reconhecida pela sua profunda ligação à terra natal, aos Açores. Temas como a paisagem açoriana, a identidade insular, a solidão, a memória, o tempo, a finitude humana e a busca por transcendência são recorrentes. O seu estilo poético é marcado pela depuração, pela concisão e por uma linguagem que evoca a atmosfera e a alma do arquipélago. Utiliza frequentemente metáforas e imagens relacionadas com o mar, a terra, o céu e os elementos naturais, conferindo à sua poesia uma musicalidade e um ritmo singulares. A sua voz poética é frequentemente melancólica, reflexiva e confessional, revelando uma profunda sensibilidade para as questões existenciais. Alba dialogou com a tradição poética portuguesa, mas inovou ao incorporar de forma tão visceral a especificidade do seu contexto insular, aproximando-se, em alguns aspetos, do modernismo pela sua busca de uma linguagem autêntica e pela exploração de temas universais a partir de uma perspetiva local.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Sebastião Alba viveu e produziu a sua obra num período significativo da história portuguesa, marcado por transformações políticas e sociais. Como açoriano, a sua escrita reflete também as especificidades culturais e históricas do arquipélago, muitas vezes alheio ou em diálogo complexo com o continente. Integrou-se em círculos literários locais e nacionais, contribuindo para a afirmação da literatura açoriana.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Para além da sua dedicação à poesia e ao ensino, a vida pessoal de Sebastião Alba foi marcada pela sua forte ligação aos Açores e pelas experiências inerentes à vida numa ilha. A sua obra reflete essa vivência profunda, as relações afetivas e a sua visão do mundo.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Sebastião Alba alcançou um lugar de destaque na literatura açoriana e portuguesa, sendo reconhecido com diversos prémios e distinções. A sua obra é estudada e apreciada por críticos e leitores, que reconhecem a sua importância como um dos grandes poetas contemporâneos dos Açores.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado O legado de Sebastião Alba reside na sua capacidade de traduzir a alma dos Açores em poesia universal. Influenciou gerações de poetas açorianos a olharem para a sua terra com um novo olhar, explorando a identidade e a paisagem como fontes de inspiração literária. A sua obra é um testemunho da riqueza cultural do arquipélago.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Sebastião Alba é frequentemente interpretada como uma meditação sobre a condição humana em contraste com a imutabilidade e a beleza da natureza açoriana. As suas reflexões sobre o tempo, a memória e a solidão convidam a uma profunda introspeção.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos O nome de Sebastião Alba, um nome literário, esconde o seu nome de registo, uma prática comum entre escritores. A sua obra é um convite a desvendar as camadas de significado que emanam da sua ligação íntima com os Açores.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Sebastião Alba faleceu em 2000, deixando um corpo de obra poética consolidado e reverenciado. A sua memória é mantida viva através da sua obra, de estudos sobre a sua vida e poesia, e do seu lugar incontornável na literatura açoriana.

Poemas

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Sem título

Para isto de dar
um bambo passo entre as estrelas
não se vai com a grande ocasião reclinada
na cabeça a ouvir Puccini

Breve empanadas as estrelas
não mais se acenderão e apagarão
O rumo estará raso
O silêncio a nada obrigará

De pouco serve a ida ao lugar de ausência

que o teu sono já não é extensível
Aboliu-se uma posição relativa na noite
Não circulando em ti com a sua mistura
o ar atravessará o esqueleto

E tudo será sem data e sem prenúncio

E não acrescentarei ao poema ainda um verso relvado Que buxo!
Ele não seria a medida ou a balança Seu inconcreto molde
restaria quebrado entre outros cacos

(Se bem que da infância suba até mim o coro admonitório dos anjos.)


1 172

Como se o mar

Quero a morte sem um defeito.
Sem planos brancos.
Sem que pequeninas luzes se apaguem
dentro dos ruídos.
Também a não quero providencial,
com um anjo vingador e secretíssimo
enfim pousado.
Nenhuma mitologia. Nenhuma
fruição poética. Assim: Como se o mar
me aspirasse os ouvidos... etc.
Mas súbita e civil,
com repartições abertas,
comércio, a luz graduada
nas altas paredes
dum bom dia sonoro.


1 206

A um filho morto

Ontem a comoção foi da espessura dum susto
duma árvore correndo
vertiginosamente para dentro do desastre

E já não choramos. Passamos
sem que o mais acurado apelo
nos decida

Nas camisas
teu monograma desanlaça-se.
Tua mão vê-o nos céus nocturnos
sabe que há uma ígnea
chave algures

Minha tristeza não tem expressão visível
como quando a chuva cessa
sobre a dádiva fugaz do nosso sangue
que hoje embebe a terra

É tal a ordem em nós
que um odor a bafio sai de nossas bocas
e uma teia de aranha interrompe o olhar
que te envolveu em vão.


1 166

Ícaro

Da Mafalala estorva-nos
a memória dos gregos
É um anjo negro segredado
e assim goza
de asas sussurrantes
Desce por entre
intervalos do vento
e findo o voo refunde
o modelo de cera
Como qualquer pássaro faz ninho
ele no vestido das mulheres
Sem céu fixo
exala a plumagem
da comum nudez interrompida.


1 286

Como os outros

Como os outros discipulo da noite
frente ao seu quadro negro que é
exterior à música dispo o reflexo
sou um e baço

dou-me as mãos na estreita
passagem dos dias
pelo café da cidade adoptiva
os passos discordando
mesmo entre si

As coisas são a sua morada
e há entre mim e mim um escuro limbo
mas é nessa disjunção o istmo da poesia
com suas grutas sinfónicas
no mar.


1 147

O limite diáfano

Movo-me nos bastidores da poesia,
e coro se de leve a escuto.
Mas o pão de cada dia
à noite está consumido,
e a alvorada seguinte
banha as suas escórias.
Palco só o da minha morte,
se no leito!,
com seu asseio sem derrame...
O lado para que durmo
é um limite diáfano:
aí os versos espigam.
Isso me basta. Acordo
antes que a seara amadureça
e na extensão pairem,
de Van Gogh, os corvos.


1 343

Último poema

(ao Jorge Viegas)


Nestes lugares desguarnecidos
e ao alto limpos no ar
como as bocas dos túmulos
de que nos serve já polir mais símbolos?

De que nos serve já aos telhados
canelar as águas de gritos
e com eles varrer o céu
(ou com os feixes de luar que devolvemos)?

É ou não o último voo
bíblico da pomba?

Que sem horizonte a esperamos
em nossa arca onde há milénios se acumulam
os ramos podres da esperança.


1 167

Não sou anterior à escolha

Não sou anterior à escolha
ou nexo do ofício
Nada em mim começou por um acorde
Escrevo com saliva
e a fuligem da noite
no meio de mobília
inarredável
atento à efusão
da névoa na sala.


1 147

Há poetas com musa

Há poetas com musa. Muitos.
Eu, neste jardim do Éden,
a cargo do município,
onde um velho destece a sua vida
e, baixando o olhar,
ainda lhe afaga a trama,
quando a poesia se afoita,
amuo
na agrura de, ao acordar,
tê-la sonhado.


1 241

A palhota

Espanta não ver nada
que se coma e caçarolas
As aranhas debandaram
não há moscas
até o humor secou
nas espinhas largadas
Vive-se como?
Donde a modeladora energia
que põe a carne?
Ladino um rato
como na infância o quereríamos
rói os bambus a viga
as horas urdem
e um opaco cisco indizível
aduz as proporções laqueia
a quietação à roda.
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