Daniel Castro

1976-07-25 Atibaia
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Alguns Poemas

Segredo de nossas preces

O segredo da prece, verdade é
Deus condena quem
assina divisão da cruz às
costas.

Perdoa a quem dá
outrem a coça

pois que em cada qual é
sina, aprender por erro
experiência e fadiga

– vaga e extensa insolação.

Você, à volta com novena, ponha
fé na tabuada que lhe
consome, mal completa
jornada, irreal o real.

Peça nada ao santo; orçamento
de milagre, é faltar-lhe com
respeito.

Fica a cachaça ao balcão de
sonhos fins, e dos
pulmões tosse pigarro, presságio
ruim.

(você ainda à volta da tarde, noite
infinda, rouca de saudades de
menina, que é João).

Seja a sorte se não
for, nada a ver com lance
algum; crédito à mão
de vista grossa o
desjejum, benzido amor
pagão.

Há de oculto em toda prece
mentira que a gente nega.

Cicatriz da carne fraca, que
feliz guarda Araci, porque mulher
consorte de homem que
a maltrata, diz assim é
o macho

ela condiz.

Talvez passado
humano, de tempos
costume vassalo; em dia
de hoje sem
poder de prece

leão à cova ausente
a regurgitar
preceitos de bem querer:

Daniel:

– segredo da prece, não sei
decerto a alma conta;
sejam lágrimas do rosário, ou
reza de Francisca à mesa
posta

quando ainda é madrugada, e
filho quer café mais
palavra à entrevista

e hora já cadente,
deseja espaldar o
firmamento não, quer
estrelas pelo chão vir
semear.

Pressa antiga, prece nova
queira de mim seu duvidar.

Importa que
deidades mundanas ouçam
cantiga de língua morta?

Lendas que se confrontam
e desamor de quem um
dia fez-te mar?

Segredo e prece é
de avó; sequer o
Padre Nosso – cuja
grandeza é maior – se vasculha
aos cabelos seus; preceitos
quais piolhos da trama
esconde-esconde
mandinga, que a
terra parasita descorçoa

à prazo, à vista, que
diferença tem?

Quer anciã, escuta
atenta dos versos, nada
além.

Pois prece nenhuma recupera
gênio bom.

Prece perdida é
aquela feita, ingratidão.

Profanar deidades assentadas
à guisa de encosto, que de
Cafarnaum à Santa Sé
fez desgosto só

dessa fé trabalhadeira.

Pois que cuíca
de santos filha
ginga-gingante à ladeira
venha me condecorar
sorrindo.

Oremos, rezemos mundos
desdigamos enfim, anos
passados, porvir
Serafins.

Sejam preces de contas, de faz
de conta, de cor, de
sermão

bem-vindas serão todas

que segredo de prece
existe, às vezes não.

Afinal, Deus se fazer ouvir por
todas, quer saiba sua
religião, quer não

exista Deus, se desista em
vão do mistério – ateu (!)

O segredo da
prece, quem tiver o
traga à pele esfolada,
seja ou não Bartolomeu.

E prece será fé que
ditará, cantará
espanto assombro
devoção.

Da roseira, segredo
espinho que a
proteja contra
o que a per-rodeia
oração;

mistério que alma
traz consigo, e quer
batam os sinos,
direi sempre comigo

– não morreu.

Constelação de nós e de estrelas da manhã, passados

Enredo pouco compreendo
com os quais nesses retratos me encontro
seja o mesmo ou outro de mim
que os configura


pois meus já eram os sapatos calçados
quando me pus a caminhar
e rica a favela e pintura
que tomou minha alma por esposa.


Novela de assunto estéril
personagem dúbia e protagonista
faz de nós caricatura


e põe a acordar os pesadelos
ao que se contenta com perdão ligeiro
às confissões precárias de terço à mão
e muito cartucho à cintura.


Trazemos o olhar afora
no receio de que à volta estejam os demais
testemunha do todo que se mente e embota
aos parcos sentidos de tudo, e de ninguém.


Assim se expõe nessa galeria, pinturas não
confeitarias, que a gula faz comer
ainda que se tenha medo
de ser envenenado por instantes de prazer.


Absurdo é ter por merecer (confesso)
a reputação à prova
de todo o que tem somente a esconder
de si e do outro.


Nunca fui de guardar segredo
tenho feridas em relevo
que me orgulho de as ver sorrir.


Vida mesma é candelabro
velas postas em circunflexo acento
pastel de vento, maçã.


Visa sempre o amanhã
sem cuidar do dia de hoje
a enterrar os dias que se recusou viver.


É uma espécie de oratório
oferenda ou velório
de gente que dorme no quando
sono não lhe pertence mais.


Contenta-se com pouco e canta
vitórias com tanto encanto
a deixar-se enganar o santo
que a reza crer, satisfaz.


Sem paciência, e desespero
na gana de verdadeiro desejo
de ser tudo e capaz.


Tem desprezo por inteiro
de todo quem se expõe receios
que alma vã atrai.


Sou diferente em nada
um desses e todos juntos
que bate atrás de si a porta
e segue adiante, vagabundo.


Contudo às vezes consciente
bato e bato contente
portas que não quero ver abertas.


Pois que dão em salas antevistas
de mesmas caras e sentimentos
com deméritos e unguentos
desvelados de paixão.


Prefiro dessa maneira
não os ter à cabeceira
a guisa de ostentação.


E à vida itinerante
sempre esboço e avante
de cada um de nós


é que me faz de
gato e sapato
põe-me a lavar pratos
sem me dar água ou sabão.


Essa louça rude e precária
dessa fome temerária que faz
de mim e de você


entidades esfomeadas
de pernas cruzadas à beira da estrada
quando o sol levante e chama


- venham gente
venham agora e sem demora
façam valer a escolha e história
que de si vantagens conta


e as contas façam todos
se há razão ou distorção
na soma e subtração
do que se apaga ou pinta.


Sejam as cores dessa paisagem
vida nova ou tempestade
de outro inverno, verão.


Mas sejam cores intensas
com as quais se reclama verossimilhança
à cama posta na varanda
quando brisa morna agita


folhas dessa vegetação agreste
que vem o sol, a peste
de bichas cobrir-lhe
a pintura e restinga.


Mofina escultura de povo
sem opinião ou identidade
que faz de tudo espetáculo
haja graça, drama ou seja
banalidade.


Nada além de tédio da existência
quando se tem noventa aos vinte e sete


e muita virilidade na velhice
que mal dá conta da sandice
de o próprio nome esquecer.


Nós que de viver nos cansamos
mal saídos da infância
amamos e casamos, por dinheiro


importa se para o mundo inteiro, pouco
ou pra se dividir o desgosto
e somar as prestações.


Somos nós sempre os mesmos
desejosos de ser diferente
toda e qualquer gente
que não seja eu ou você.


Pomos vistas aos retratos
de barões calçamos os sapatos
e o resto fica para depois.

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