

Carlos Queirós
Carlos Queirós é um poeta e escritor português, cuja obra se caracteriza por uma abordagem multifacetada da realidade, combinando lirismo com uma aguda observação social e existencial. A sua poesia explora frequentemente as complexidades das relações humanas, a efemeridade do tempo e a busca por significado num mundo em constante transformação. Com uma linguagem depurada e um olhar atento aos detalhes do quotidiano, Queirós consegue construir universos poéticos que ressoam com a experiência do leitor. A sua escrita é marcada pela capacidade de transitar entre a melancolia e a esperança, o íntimo e o coletivo, firmando-se como uma voz singular na poesia contemporânea de língua portuguesa.
1907-04-05 Lisboa
1949-10-27 Paris
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Teatro da Boneca
A menina tinha os cabelos louros.
A boneca também.
A menina tinha os olhos castanhos.
Os da boneca eram azuis.
A menina gostava loucamente da boneca
A boneca ninguém sabe se gostava da menina.
Mas a menina morreu.
A boneca ficou.
Agora já ninguém sabe se a menina gosta da boneca.
E a boneca não cabe em nenhuma gaveta.
A boneca abre as tampas de todas as malas.
A boneca é maior que a presença de todas as coisas.
A boneca está em toda a parte.
A boneca enche a casa toda.
É preciso esconder a boneca.
É preciso que a boneca desapareça para sempre.
É preciso matar, é preciso enterrar a boneca.
A boneca.
A boneca.
A boneca também.
A menina tinha os olhos castanhos.
Os da boneca eram azuis.
A menina gostava loucamente da boneca
A boneca ninguém sabe se gostava da menina.
Mas a menina morreu.
A boneca ficou.
Agora já ninguém sabe se a menina gosta da boneca.
E a boneca não cabe em nenhuma gaveta.
A boneca abre as tampas de todas as malas.
A boneca é maior que a presença de todas as coisas.
A boneca está em toda a parte.
A boneca enche a casa toda.
É preciso esconder a boneca.
É preciso que a boneca desapareça para sempre.
É preciso matar, é preciso enterrar a boneca.
A boneca.
A boneca.
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