Vasco Graça Moura

Vasco Graça Moura

Vasco Navarro da Graça Moura foi um escritor, tradutor e político português.

1942-01-03 Porto, Portugal
2014-04-27 Lisboa
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Alguns Poemas

Auto-retrato com a musa

1.
vejo-me ao espelho: a cara
severa dos sessenta,
alguns cabelos brancos,
os óculos por vezes
já mais embaciados.

sobrancelhas espessas,
nariz nem muito ou pouco,
sinal na face esquerda, 
golpe breve no queixo
(andanças da gilette).

ia a passar fumando 
mais uma cigarrilha
medindo em tempo e cinza 
coisas atrás de mim.
que coisas? tantas coisas,

palavras e objectos,
sentimentos, paisagens.
também pessoas, claro,
e desfocagens, tudo
o que assim se mistUra

e se entrevê no espelho, 
tingindo as suas águas 
de um dúbio maneirismo 
a que hoje cedo. e fico 
feito de tinta e feio.

2
quem amo o que é que pode 
fazer deste retrato?
nem sabê-lo de cor,
nem tê-lo encaixilhado, 
nem guardá-lo num livro,

nem rasgá-lo ou queimá-lo, 
mas pode pôr-se ao lado 
e ter prazer ou pena
por nos achar parecidos 
ou não achar. quem amo

não fica desenhado,
fica dentro de mim
e é quando mais me apago 
e deixo de me ver
e apenas me confundo,

amador transformado 
na própria coisa amada 
por muito imaginar. 
assim nem john ashberry, 
nem o parmegianino,

nem espelho convexo, 
nem mesmo auto-retrato. 
só uma sombra que é 
na sombra de quem amo 
provavelmente a minha.


3
quem amo tem cabelos
castanhos e castanhos
os olhos, o nariz
direito, a boca doce.
em mais ninguém conheço

tal porte do pescoço
nem tão esguias mãos
com aro de safira,
nem tanta luz tão húmida
que sai do seu olhar,

nem riso tão contente,
contido e comovente,
nem tão discretos gestos,
nem corpo tão macio
quem amo tem feições

de uma beleza grave
e música na alma
flutua nas volutas
de um madrigal antigo
em ondas de ternura.

é quando eu sinto a musa
pousando no meu ombro
sua cabeça, assim
me enredo horas a fio
e fico a magicar.

Para uma canção de embalar

embalo a minha filha joana que acordou num berreiro. 
a casa está às escuras, vou passando com cuidado 
para não dar encontrões nos móveis, embalo esta menina 
que se calou mas está de olho muito aberto e quer brincar, 
e há um halo de luz parda a coar-se pelas persianas 
e às vezes uns faróis riscando estrias a correrem pelo tecto. 

levo-a bem presa ao colo, toda de porcelana pesadinha, 
enquanto a irmã está a dormir meio atravessada nos lençóis. 
ao chegar-me a outra janela vejo as luzes fugindo na auto-estrada 
em direcção ao rio, a uma placa da lua sobre o rio, 
e trauteio «já gostava de te ve-er», enquanto acendo o fogão 
para aquecer o leite e embalo a minha filha e a outra está a dormir. 

oxalá cresçam ambas airosas e bem seguras, 
e possam ir na vida serenamente como os rios correm, 
ou como os veleiros voam, ou como elas agora respiram 
em cadências regulares neste silêncio táctil. 
a meio da noite um homem acordou no sossego da casa 
e pôs-se a cuidar do sono das suas filhas pequenas. 

oxalá haja fadas benfazejas esvoaçando das histórias 
de princesas felizes e potros azul turquesa, e forrem esta casa, 
e pelas malvadas bruxas alegres sinos dobrem, 
e estas meninas existam incólumes e puras no seu quente contentamento, 
mesmo que o mundo vá girando numa ordem sobressaltada, 
mesmo que os mares agonizem nos seus gonzos de chumbo. 

lá fora os carros passam, ainda não é a manhã, só alta madrugada, 
mas passam alguns carros, deve estar frio. e há passos no andar de cima 
a minha filha teresa tosse e volta-se na cama, a minha mulher dorme, 
mas a joana ainda não adormeceu e presta a maior atenção 
e mexe-me na cara quando eu chego outra vez a «inda mal abria os olhos», 
já ouviu esta toada umas centenas de vezes e passa a mão pelo meu queixo 

e aconchega a cabeça e as pálpebras começam a baixar-lhe 
muito devagarinho e a pequenina mão abandona-se na gola do meu pijama 
e há que dar ainda uns passos para cá e para lá, 
a cantar uma sombra de modinha, para ela ficar bem adormecida, 
e como da irmã, quando a irmã tinha esta idade, eu digo 
que sei muito desta menina, e sei. e vou deitá-la outra vez. 
Escritor, poeta e tradutor português, natural do Porto. Licenciado em Direito, actividade que chegou a exercer, foi secretário de estado da Segurança Social do IV Governo Provisório e secretário de estado dos Retornados do VI Governo Provisório. Nomeado director de programas da RTP, em 1978, nesse mesmo ano passou à Imprensa Nacional-Casa da Moeda, cuja área editorial administrou até 1988. Entre 1988 e 1995 foi presidente da Comissão Nacional para as Comemorações dos Descobrimentos Portugueses. É autor de obras de ensaio, poesia, romance, e ainda de traduções. Paralelamente, tem desenvolvido uma ampla intervenção pública como comentador e analista político. A sua obra iniciou-se em 1963, com o título Modo Mudando, a que se seguiram O Mês de Dezembro (1977), Instrumentos para a Melancolia (1980), A Variação dos Semestres deste Ano; 365 Versos (1981), Nó Cego, o regresso (1982), Os Rostos Comunicantes (1984), A Sombra das Figuras (1985), A Furiosa Paixão pelo Tangível (1987), O Concerto Campestre (1993), Sonetos Familiares (1994), Poemas Escolhidos 1963-1995 (1996), Poemas com Pessoas (1997), Uma Carta no Inverno (1997, prémio de Poesia APE/CTT de 1997) e Retrato de Francisca Matroco e Outros Poemas (1998). Entre os seus ensaios encontram-se David Mourão-Ferreira ou a Mestria de Eros (1978), Camões e a Divina Proporção (1985), Os Penhascos e a Serpente e Outros Ensaios Camonianos (1987), Várias Vozes (1987), Retrato de Isabel e Outras Tentativas (1994) e Contra Bernardo Soares e Outras Observações (1999). Na sua vasta obra encontramos igualmente obras de ficção, entre as quais Quatro Últimas Canções (1987), Naufrágio de Sepúlveda (1988), Partida de Sofonista às Seis e Doze da Manhã (1993) e A Morte de Ninguém (1998). Vasco Graça Moura escreveu ainda uma peça de teatro (Ronda dos Meninos Expostos, 1987), um diário (As Circunstâncias Vividas, 1995) e as crónicas de Papéis de Jornal (1995). Distinguindo-se publicamente como tradutor, amplamente consagrado, as suas traduções da Vita Nuova e da Divina Comédia de Dante (1995) mereceram-lhe a atribuição do Prémio Pessoa, em 1995. Em 2000, publica Poesia 1997-2000, seguido do romance Meu Amor, era de Noite (2001)
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10/maio/2021
bessinha
vocês não levam isto a serio... cultura portuguesa, respeitem o camilo castelo branco
10/maio/2021
Jpila
ála a uta da boca chavalo
14/abril/2021
20comer100saberes
esse cavalheiro fodeu-me ...na poesia, digo na poesia mas concretamente na poesia...tantas saudades
20/janeiro/2021
nenhum
é giro
22/maio/2020
Nuno
Ao tempo que já n te vejo desde Timor um dia destes anda lá a casa mpt
12/março/2020
Mafalda
Adorei a companhia deste senhor, noites mágicas, muito atencioso, um verdadeiro cavalheiro, bem dotado
12/março/2020

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