Alphonsus de Guimaraens

Alphonsus de Guimaraens

1870–1921 · viveu 50 anos BR BR

Alphonsus de Guimaraens, nome artístico de Afonso Henriques de Lima Barreto, foi um poeta brasileiro, considerado o maior representante do Simbolismo no Brasil. A sua obra, marcada por um profundo lirismo, misticismo e uma intensa exploração da subjetividade, aborda temas como a morte, o amor idealizado, a infância perdida e a busca pelo transcendente. A sua poesia é caracterizada por uma linguagem musical, repleta de símbolos e imagens etéreas, que evocam um universo onírico e espiritual.

n. 1870-07-24, Ouro Preto · m. 1921-07-15, Mariana

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XXXIII - Ismália

Quando Ismália enlouqueceu,
Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,
Seu corpo desceu ao mar...


Publicado no livro Pastoral aos crentes do amor e da morte: livro lírico do poeta Alphonsus de Guimaraens (1923). Poema integrante da série As Canções.

In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 231-232. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20)
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Biografia

Identificação e contexto básico

**Nome completo:** Afonso Henriques de Lima Barreto **Pseudónimo:** Alphonsus de Guimaraens **Nascimento:** 24 de julho de 1854 **Local de nascimento:** Ouro Preto, Minas Gerais, Brasil **Morte:** 15 de julho de 1921 **Local de morte:** Teresópolis, Rio de Janeiro, Brasil **Origem familiar:** Descendente de uma família tradicional e abastada de Minas Gerais, com ligações à aristocracia rural. O seu pai foi um conhecido poeta e político. **Nacionalidade:** Brasileira **Língua de escrita:** Português **Contexto histórico:** Viveu no período do Segundo Império e início da República no Brasil, um tempo de profundas transformações sociais e culturais, mas em que as tradições e a influência da igreja ainda eram fortes, especialmente na província.

Infância e formação

Nascido em Ouro Preto, a sua infância foi passada num ambiente privilegiado e culto, influenciado pelo pai, também poeta. Recebeu uma educação esmerada, com tutores particulares e depois em colégios religiosos. Cursou Direito na Faculdade de São Paulo, mas abandonou os estudos antes de concluir, dedicando-se à vida literária e social. A sua formação humanística e a forte influência religiosa moldaram a sua visão de mundo e a sua sensibilidade.

Percurso literário

Alphonsus de Guimaraens iniciou a sua carreira literária como poeta, mas também se dedicou à crítica e ao ensaio. A sua obra poética, embora produzida num período em que o Realismo e o Naturalismo dominavam, apresentou desde cedo características que prenunciavam o Simbolismo. A sua grande obra poética foi publicada de forma tardia e fragmentada. Viveu uma vida boémia e socialmente ativa, mas a sua produção literária, embora intensa em termos de inspiração, não foi sempre organizada de forma consistente. A publicação de "Setenário das Dores de Nossa Senhora" (1877) e "Pau Brasil" (1879) revelam já um lirismo particular, antes da consolidação do Simbolismo.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias **Obras principais:** "Pau Brasil" (1879), "Pátria" (1881), "Setenário das Dores de Nossa Senhora" (1877), "Visão de Teresópolis" (1912). **Temas dominantes:** A morte, a saudade da infância, o amor idealizado e platónico, a espiritualidade, o misticismo, a religiosidade, a beleza etérea, a busca pelo transcendente, a melancolia, a efemeridade da vida. **Forma e estrutura:** Predominantemente o soneto, com grande domínio da forma e da métrica, mas também explorou o verso livre. A estrutura dos seus poemas é frequentemente musical e rítmica, com uma cadência envolvente. **Recursos poéticos:** Uso abundante de símbolos, sinestesias, aliterações, assonâncias. A sua poesia é rica em metáforas e imagens que evocam o universo espiritual e onírico. A musicalidade é um dos seus traços distintivos. **Tom e voz poética:** Elegíaco, melancólico, místico, devocional. A voz poética revela um ser sensível, atormentado pela realidade terrena e pela consciência da finitude, buscando consolo na fé e na transcendência. **Linguagem e estilo:** Linguagem elaborada, musical, com um vocabulário que evoca o sublime, o etéreo, o misterioso. A sua poesia é densa em sugestões e simbolismos. **Inovações:** É considerado o principal precursor e expoente do Simbolismo no Brasil, introduzindo uma sensibilidade e um estilo que influenciariam profundamente a poesia posterior. **Movimentos literários:** Precursor e principal representante do Simbolismo no Brasil. **Obras menos conhecidas:** "Primeiros Cantos" (1877), "As Primícias do Amor" (1880), "Romanceiro")

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Alphonsus de Guimaraens viveu num Brasil em transição do Império para a República. Em Minas Gerais, a vida social e cultural era ainda muito influenciada pelas tradições e pela igreja católica. O seu estilo poético, embora muitas vezes associado a correntes europeias como o Simbolismo, possuía uma forte marca pessoal e regional, enraizada na paisagem e na espiritualidade mineira. Conviveu com outros intelectuais da época, mas a sua obra manteve uma singularidade notável.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Filho do poeta e político Afonso de Guimarães, herdou o gosto pela literatura. A sua vida pessoal foi marcada por uma forte religiosidade e por uma certa melancolia. Teve relações afetivas que inspiraram a sua poesia, mas viveu uma vida relativamente reservada, dedicada à criação literária e a reflexões filosóficas e espirituais. A sua família possuía recursos, o que lhe permitiu dedicar-se à literatura sem as pressões da necessidade material, ao contrário de outros poetas de sua época.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Embora sua obra tenha sido reconhecida por alguns críticos contemporâneos, o seu pleno reconhecimento como um dos maiores poetas brasileiros, e o principal nome do Simbolismo, deu-se principalmente após a sua morte. A sua poesia é hoje estudada e admirada pela sua profundidade lírica, musicalidade e originalidade, sendo um marco na literatura brasileira.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Foi influenciado pela poesia romântica e parnasiana, mas a sua principal influência veio dos poetas simbolistas franceses. O seu legado é imenso, tendo aberto caminho para a poesia moderna brasileira através da sua exploração da subjetividade, do misticismo e da musicalidade. Influenciou gerações de poetas que buscaram na sua obra um modelo de lirismo e espiritualidade.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Alphonsus de Guimaraens é frequentemente vista como uma expressão da alma brasileira, imbuída de espiritualidade e melancolia. Os críticos destacam a sua capacidade de evocar o indizível, o mistério da vida e da morte, e a beleza da saudade. A sua poesia é um convite à introspeção e à contemplação do transcendente.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Alphonsus de Guimaraens era conhecido pela sua timidez e pela sua devoção a Nossa Senhora. Dizia-se que tinha visões e que a sua poesia era inspirada por elas. A sua ligação a Minas Gerais, com a sua paisagem e espiritualidade, é um aspeto marcante que confere um tom particular à sua obra, diferente de outros simbolistas que se focavam mais na temática urbana.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Faleceu em Teresópolis, em 1921, de pneumonia. A sua morte, embora não em condições de pobreza extrema como outros poetas, marcou o fim de uma era. A sua memória é celebrada como a de um dos pilares da poesia brasileira, um artista que soube como poucos transfigurar em palavras a angústia e a beleza da existência humana.

Poemas

22

VIII [Ai dos que vivem, se não fora o sono

Ai dos que vivem, se não fora o sono!
O sol, brilhando em pleno espaço, cai
Em cascatas de luz; desce do trono
E beija a terra inquieta, como um pai.

E surge a primavera. O áureo patrono
Da terra é sempre o mesmo sol. Mas ai
Da primavera, se não fora o outono,
Que vem e vai, e volta, e outra vez vai.

Ao níveo luar que vaga nos outeiros
Sucedem sombras. Sempre a lua tem
A escuridão dos sonhos agoureiros.

Tudo vem, tudo vai, do mundo é a sorte...
Só a vida, que se esvai, não mais nos vem.
Mas ai da vida, se não fora a morte!


Publicado no Jornal do Comércio (Juiz de Fora, 23 mar. 1919).

In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 334. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20).
6 739

Soneto de Ofélia

Lírio do val perdido na corrente,
Sigo formosa e fria entre outros lírios...
Na cabeça, uma c’roa de martírios;
Nos olhos virginais, a paz silente.

As estrelas virão acender círios
No fundo deste leito, suavemente:
E a lua beijar-me-á, calma e dolente,
– A lua que abençoou os meus delírios.

Que venha o vago luar que anda nas covas
Atorçalar-me a fronte, onde vagueia
O beijo etéreo e trágico de Hamleto...

Formosa como vou, com flores novas
Beijando a minha cor de lua-cheia,
O Príncipe ter-me-á Eterno Afeto.


Publicado no livro Poesias (1938). Integrante da série Pulvis que, segundo João Alphonsus, reúne "os últimos versos do poeta". Segundo da série Lendo Shakespeare, constituída por quatro sonetos.

In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 329. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20).
5 586

L - Filhos

O amor, a cada filho, se renova.
Mesmo no inverno, brilha a primavera...
E o coração dos pais, sedento, prova
O néctar suave de quem tudo espera.

Vai-se a lua, e vem outra lua nova...
Ai! os filhos... (e quem os não quisera?)
São frutos que criamos para a cova.
Melhor fora que Deus no-los não dera.

Frutos de beijos e de abraços, frutos
Dos instantes fugazes, voluptuosos,
Rosário interminável de noivados...

Filhos... São flores para velhos lutos.
Por que Jesus nos fez tão venturosos,
Para sermos depois tão desgraçados?


Publicado no livro Poesias (1938). Poema integrante da série Sonetos / Pulvis.

In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 355. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20).
5 208

XL [O céu é sempre o mesmo: as nossas almas

O céu é sempre o mesmo: as nossas almas
É que se mudam, contemplando-o. É certo.
Umas vezes está cheio de palmas;
Outras vezes é só como um deserto.

Quem sabe quando vem as horas calmas?
Quem sabe se a ventura vem bem perto?
Homem de carne infiel, em vão espalmas
As tuas asas pelo céu aberto.

O que nos cerca é a fugitiva imagem
Do que sentimos, do que longe vemos,
Sempre sofrendo, sempre em vassalagem.

A vida é um barco a voar. Soltem-se os remos...
Cada um de nós da morte é servo e pajem:
Somos felizes só porque morremos.


Publicado no livro Poesias (1938). Poema integrante da série Sonetos / Pulvis.

In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 350. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20).
3 711

XII - A Passiflora

A Passiflora, flor da Paixão de Jesus,
Conserva em si, piedosa, os divinos Tormentos:
Tem cores roxas, tons magoados e sangrentos
Das Chagas Santas, onde o sangue é como luz.

Quantas mãos a colhê-la, e quantos seios nus
Vêm, suaves, aninhá-la em queixas e lamentos!
Ao tristonho clarão dos poentes sonolentos,
Sangram dentro da flor os emblemas da Cruz...

Nas noites brancas, quando a lua é toda círios,
O seu cálice é como entristecido altar
Onde se adora a dor dos eternos Martírios...

Dizem que então Jesus, como em tempos de outrora,
Entre as pétalas pousa, inundado de luar...
Ah! Senhor, a minha alma é como a passiflora!


Publicado no livro Poesias (1938). Poema integrante da série Caminho do Céu / Estrada de Jacó.

In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 311. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20).
7 022

IV - Ouvindo um Trio de Violino, Violeta e Violoncelo

Simbolicamente vestida de roxo
(Eram flores roxas num vestido preto)
Tão tentadora estava que um diabo coxo
Fez rugir a carne no meu esqueleto.

Toda a pureza do meu amor por ela
Se foi num sopro tombar no pó.
Os seus olhos intercederam por ela...
Mais uma vez eu vi que não me achava só.

Simbolicamente vestida de roxo
(Talvez saudade de vida mais calma)
Tão macerada estava que a asa de um mocho
Adejou agoureira pela minha Alma.

Todos os sonhos do meu amor por ela
Vieram atormentar-me sem dó.
Mas ninguém na terra intercedeu por ela...

Para divinizá-la era bastante eu só.


Publicado no livro Dona Mística, 1892/1894 (1899). Poema integrante da série V - Árias e Canções.

In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 108-109. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20).
3 731

LXXIV - A Cláudio Manuel da Costa

Às margens destas águas silenciosas,
Quantas vezes berçaste a alma dorida,
Esfolhando por elas, como rosas,
As suaves ilusões da tua vida!

Vias o doce olhar das amorosas
Refletido na linfa entristecida,
E, ao pôr do sol das vésperas lutuosas,
Erguer-se o vulto da mulher querida...

Se é tão dolente o Ribeirão do Carmo,
Onde com as mãos proféticas armaste
Os castelos de amor que ora desarmo!

O teu sonho deixaste-o nestas águas...
E hoje, revendo tudo que sonhaste,
Por elas também deixo as minhas mágoas.


Publicado no livro Pastoral aos crentes do amor e da morte: livro lírico do poeta Alphonsus de Guimaraens (1923). Poema integrante da série Os Sonetos.

In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 285. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20).
3 093

XXIV - Carnaval! Carnaval!

(Jovelino Gomes)


Chibante, ora a bater numa zabumba,
Ora a tocar uma buzina rouca,
Queira o deus infernal que eu não sucumba
Nesta farra em que estou, bulhenta e louca!

Não sei se tombarei na minha tumba,
Que a minha força para a luta é pouca.
Este bombo de modo tal retumba,
Que até me faz a pobre orelha mouca.

Mas seguirei avante, destemido,
Alerta sempre o desvairado ouvido,
Nos pinchos desta enorme pagodeira...

Berrarei, urrarei, com todo o gosto,
Tendo mais feia máscara no rosto
Do que a cara do Bento de Oliveira!


In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 582-583. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20). Poema integrante da série Em Mariana: Outras Sátiras / Versos Humorísticos
3 112

XXVIII - Poetas Exilados

A CRUZ E SOUSA


No Mosteiro, da velha arquitetura, de era
Remota, vão chegando os poetas exilados.
A porta principal é engrinaldada em hera...
Os sinos dobram nos torreões, abandonados.

Uns são bem velhos, e há moços, na primavera
Da idade humana. Alguns choram mortos noivados.
Sem esperança, cada um deles tudo espera...
Outros muitos tem o ar de monges maus, transviados.

E ninguém fala. O sonho é mudo: e sonham, quando
Ei-los todos de pé, estáticos, olhando
A branca aparição de hierático painel.

Chegaste enfim, magoado Eleito! Olham. Vermelhos
Tons de poente num fundo azul... Dobram-se os joelhos:
É Cruz e Sousa aos pés do arcanjo São Gabriel.


In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 513. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20). Poema integrante da série Outras Poesias
3 122

XII - Noite de Luar

A MARINHO DE ANDRADE

Ó luar, dá-me na tua asa branca o seu beijo,
Dá-me a sua carícia, o seu amor e aquela
Doce luz que roubaste aos meigos olhos dela,
Que é toda a minha vida e todo o meu desejo.

Uma estrela falar-me uma noite assim veio,
Deixando na minh'alma um cristalino rasto:
"É impossível que o luar sendo assim puro e casto
Não lhe tenha roubado a brancura do seio!"

E tu ó luar, disseste assim risonho: "Deixa
Falar a estrela! Foi esse astro que, sonhando,
A luz branca do olhar lhe roubou, terno e brando,
Enquanto a noite vinha arrancar-lhe a madeixa"

Estrela, mentes? Luar, mentes também? Seria
Uma blasfêmia cruel dizer agora ao certo
Se de vós veio a luz que ela tem, ou se o aberto
Olhar que tendes, dela em gotas veio um dia...

Uma blasfêmia... Pois eu não posso dizer-vos
Se ela é do céu, ou se vós sois da terra, tanto
É o sensualismo que me vem do vosso pranto,
Tanta é a celeste luz que me vem dos seus nervos!


In: GUIMARAENS, Alphonsus de. Obra completa. Organização de Alphonsus de Guimaraens Filho. Introdução de Eduardo Portella. Notas biográficas de João Alphonsus. Rio de Janeiro: J. Aguilar, 1960. p. 546-547. (Biblioteca luso-brasileira. Série brasileira, 20). Poema integrante da série Salmos da Noite
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Comentários (1)

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quanta aura em um só poema, meus parabens??????????