Álvares de Azevedo

Álvares de Azevedo

1831–1852 · viveu 20 anos BR BR

Álvares de Azevedo foi um poeta brasileiro, figura proeminente do Romantismo e um dos expoentes do Ultrarromantismo em seu país. Sua obra, marcada por um profundo pessimismo, melancolia, e a exploração de temas como a morte, o amor idealizado e a fuga da realidade, reflete as angústias de uma juventude que se sentia deslocada em seu tempo. Apesar de sua curta vida, deixou um legado poético e em prosa de grande intensidade e lirismo, influenciando gerações posteriores com sua visão sombria e sua exploração do gótico e do sublime.

n. 1831-09-12, São Paulo · m. 1852-04-25, Rio de Janeiro

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Lembrança de Morrer

No more! o never more!
SHELLEY.


Quando em meu peito rebentar-se a fibra
Que o espírito enlaça à dor vivente,
Não derramem por mim nem uma lágrima
Em pálpebra demente.

E nem desfolhem na matéria impura
A flor do vale que adormece ao vento:
Não quero que uma nota de alegria
Se cale por meu triste passamento.

Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto, o poento caminheiro
— Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;

Como o desterro de minh'alma errante,
Onde fogo insensato a consumia:
Só levo uma saudade — é desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia.

Só levo uma saudade — é dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas...
De ti, ó minha mãe, pobre coitada
Que por minha tristeza te definhas!

De meu pai... de meus únicos amigos,
Poucos — bem poucos — e que não zombavam
Quando, em noite de febre endoudecido,
Minhas pálidas crenças duvidavam.

Se uma lágrima as pálpebras me inunda,
Se um suspiro nos seios treme ainda
É pela virgem que sonhei... que nunca
Aos lábios me encostou a face linda!

Só tu à mocidade sonhadora
Do pálido poeta deste flores...
Se viveu, foi por ti! e de esperança
De na vida gozar de teus amores.

Beijarei a verdade santa e nua,
Verei cristalizar-se o sonho amigo....
Ó minha virgem dos errantes sonhos,
Filha do céu, eu vou amar contigo!

Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nelas
— Foi poeta — sonhou — e amou na vida.—

Sombras do vale, noites da montanha
Que minh'alma cantou e amava tanto,
Protegei o meu corpo abandonado,
E no silêncio derramai-lhe canto!

Mas quando preludia ave d'aurora
E quando à meia-noite o céu repousa,
Arvoredos do bosque, abri os ramos...
Deixai a lua prantear-me a lousa!




Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853). Poema integrante da série Primeira Parte.

In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Nome completo: Manuel Antônio Álvares de Azevedo. Pseudónimos: Era conhecido por "o poeta". Data e local de nascimento: 15 de setembro de 1831, no Rio de Janeiro, Brasil. Data e local de morte: 25 de abril de 1852, no Rio de Janeiro, Brasil. Origem familiar, classe social e contexto cultural de origem: Nascido numa família abastada e intelectualizada, o que lhe proporcionou acesso à educação e à cultura. Seu pai era um poeta e jurista influente. Nacionalidade e língua(s) de escrita: Brasileiro, escreveu em português. Contexto histórico em que viveu: Viveu a segunda metade do século XIX, um período de grandes transformações no Brasil, como a consolidação do Império, o auge da escravatura e o desenvolvimento cultural e literário, com a emergência do Romantismo.

Infância e formação

Origem familiar e ambiente social: Cresceu num ambiente familiar propício ao desenvolvimento intelectual e literário. Seu pai era um intelectual respeitado. Educação formal e autodidatismo: Fez os estudos preparatórios no Colégio Cláudio Manuel da Costa e, posteriormente, ingressou na Faculdade de Direito de São Paulo em 1848, onde se destacou nos estudos jurídicos. Influências iniciais (leituras, cultura, religião, política): Foi fortemente influenciado pela literatura romântica europeia, especialmente a alemã (Goethe, Schiller, Byron), e pela francesa (Chateaubriand, Lamartine). O ambiente intelectual da época no Brasil também o moldou, com a efervescência cultural do Rio de Janeiro. Movimentos literários, filosóficos ou artísticos que absorveu: Absorveu as tendências do Romantismo, em particular o Ultrarromantismo, com seu foco no individualismo, no pessimismo, na melancolia e na exaltação dos sentimentos. Eventos marcantes na juventude: A morte precoce de sua mãe e a própria fragilidade de sua saúde foram eventos que intensificaram seu pessimismo e sua visão sombria da vida.

Percurso literário

Início da escrita (quando e como começou): Começou a escrever poesia e prosa ainda muito jovem, destacando-se por sua precocidade e talento. Evolução ao longo do tempo (fases, mudanças de estilo): Sua obra, embora curta, demonstra uma evolução do lirismo mais convencional para uma expressão mais sombria e intimista, característica do Ultrarromantismo. Evolução cronológica da obra: Sua produção literária concentrou-se entre o período em que estudava no Rio de Janeiro e, principalmente, durante seus anos em São Paulo para cursar Direito. Colaborações em revistas, jornais e antologias: Colaborou em diversas publicações periódicas da época, como "Crônica Maranhense", "Guanabacoa", "Oller das Novidades", "Revista Contemporânea" e "Jornal dos Dias". Sua obra "Lira dos Vinte Anos" foi publicada postumamente. Atividade como crítico, tradutor ou editor: Traduziu obras do francês e do inglês, demonstrando seu domínio de outras línguas e seu interesse pela literatura estrangeira.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Obras principais com datas e contexto de produção: "Lira dos Vinte Anos" (publicada postumamente em 1853), "Noite na Taverna" (contos, publicados postumamente em 1855), "Folhas Caídas" (poemas, publicados postumamente em 1853). Temas dominantes — amor, morte, tempo, natureza, identidade, espiritualidade, etc.: Amor idealizado e platônico, morte como fuga da realidade, o tédio (spleen), a melancolia, a loucura, o sobrenatural, a natureza como cenário de desolação, a efemeridade da vida, a saudade do passado, a revolta contra o destino. Forma e estrutura — uso do soneto, verso livre, forma fixa, experimentação métrica: Utilizou o soneto e outras formas poéticas tradicionais, mas com um conteúdo que subvertia a leveza esperada, explorando a gravidade dos temas. Recursos poéticos (metáfora, ritmo, musicalidade): Empregou metáforas que evocavam o universo gótico e sombrio, um ritmo cadenciado e melancólico, e uma musicalidade que realçava a tristeza e a introspecção. Tom e voz poética — lírico, satírico, elegíaco, épico, irónico, confessional: O tom predominante é o elegíaco, o confessional e o sombrio. Há uma voz poética que expressa angústia, desilusão e um profundo pessimismo. Voz poética (pessoal, universal, fragmentada, etc.): A voz poética é intensamente pessoal, refletindo suas próprias angústias e desilusões, mas ao tratar de temas universais como a morte e o amor, alcança uma dimensão de universalidade. Linguagem e estilo — vocabulário, densidade imagética, recursos retóricos preferidos: Linguagem elevada e culta, com um vocabulário rico em termos que remetem ao sublime, ao sombrio e ao tétrico. Utilizou hipérboles e antíteses para expressar a dualidade entre o ideal e o real, a vida e a morte. Inovações formais ou temáticas introduzidas na literatura: Introduziu na literatura brasileira uma temática ultrarromântica mais acentuada, com um foco acentuado no macabro, no gótico e no pessimismo existencial, antecipando alguns elementos do Simbolismo. Relação com a tradição e com a modernidade: Representante máximo do Ultrarromantismo brasileiro, que se insere no Romantismo, dialogando com a tradição literária europeia e adaptando-a à realidade brasileira. Movimentos literários associados (ex: simbolismo, modernismo): Ultrarromantismo, Romantismo. Obras menos conhecidas ou inéditas: Seus contos reunidos em "Noite na Taverna" são menos conhecidos que sua poesia, mas de grande importância para a compreensão de sua visão de mundo.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Relação com acontecimentos históricos (guerras, revoluções, regimes): Viveu durante o Segundo Reinado, um período de relativa estabilidade política no Brasil, mas sua obra foca-se nas questões interiores e existenciais, mais do que em eventos históricos. Relação com outros escritores ou círculos literários: Foi amigo de outros jovens intelectuais e estudantes de Direito que compartilhavam de seus ideais literários e românticos, formando um grupo unido pelo idealismo e pela produção literária. Geração ou movimento a que pertence (ex.: Romantismo, Modernismo, Surrealismo): Pertence à Segunda Geração do Romantismo brasileiro, conhecida como "Mal do Século" ou Ultrarromantismo. Posição política ou filosófica: Não expressou posições políticas explícitas em sua obra, mas seu individualismo e pessimismo podem ser vistos como uma forma de distanciamento das questões sociais e políticas de sua época. Influência da sociedade e cultura na obra: A sociedade brasileira do século XIX, com suas contradições e a emergência de uma identidade nacional, serviu de pano de fundo para a sua obra, que, no entanto, se volta para temas universais e interiores. Diálogos e tensões com contemporâneos: Sua obra dialogou com a produção de outros românticos, mas o seu tom ultrarromântico e pessimista o destacou e, por vezes, o distanciou de uma recepção mais ampla na época. Receção crítica em vida vs. reconhecimento póstumo: Em vida, sua obra teve uma recepção limitada devido à sua curta existência e à publicação tardia de suas principais obras. O reconhecimento de sua importância se deu principalmente após sua morte, quando "Lira dos Vinte Anos" e "Noite na Taverna" foram publicadas e aclamadas.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Relações afetivas e familiares significativas e como moldaram a obra: A perda da mãe e a relação com o pai influenciaram sua visão sobre a vida e a morte. O amor idealizado, frequentemente inacessível, é um tema central em sua poesia. Amizades e rivalidades literárias: Teve um círculo de amigos próximos, também estudantes de direito e escritores, com quem compartilhava ideias e aspirações literárias. Experiências e crises pessoais, doenças ou conflitos: Sofreu de tuberculose, doença que o acompanhou e o debilitou, contribuindo para seu pessimismo e para a obsessão com a morte. Sua saúde frágil marcou sua juventude. Profissões paralelas (se não viveu só da poesia): Foi estudante de Direito. Não chegou a exercer uma profissão, pois faleceu muito jovem. Crenças religiosas, espirituais ou filosóficas: Sua obra sugere uma profunda angústia existencial e uma busca por sentido, mas a sua visão pessimista e a atração pelo macabro indicam um distanciamento das doutrinas religiosas tradicionais. Posições políticas e envolvimento cívico: Não há registro de envolvimento cívico ou posições políticas marcantes.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Lugar na literatura nacional e internacional: É considerado um dos maiores poetas do Romantismo brasileiro e um dos principais representantes do Ultrarromantismo. Sua obra é estudada e valorizada pela crítica. Prémios, distinções e reconhecimento institucional: Devido à sua morte precoce, não teve tempo de receber prêmios em vida. O reconhecimento veio postumamente, com a publicação de suas obras. Receção crítica na época e ao longo do tempo: A recepção em vida foi limitada. O reconhecimento póstumo consolidou sua posição como um poeta de grande sensibilidade e profundidade. Popularidade vs reconhecimento académico: É uma figura estudada academicamente e admirada por leitores que se interessam pelo Romantismo e pela poesia com temas sombrios e existenciais.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Autores que o influenciaram: Lord Byron, Johann Wolfgang von Goethe, Friedrich Schiller, Victor Hugo, Alfred de Musset, Alphonse de Lamartine, Edgar Allan Poe. Poetas e movimentos que influenciou: Influenciou a poesia brasileira posterior com sua temática sombria, seu pessimismo e sua exploração do gótico e do sublime. Foi um precursor na abordagem de temas que seriam retomados em outras estéticas literárias. Impacto na literatura nacional e mundial e gerações posteriores de poetas: Deixou uma marca indelével na literatura brasileira, sendo um dos pilares do Romantismo. Sua obra continua a ser lida e estudada como um reflexo das angústias da juventude e da condição humana. Entrada no cânone literário: É figura consolidada no cânone da literatura brasileira, presente em antologias e estudos sobre o Romantismo e a poesia do século XIX. Traduções e difusão internacional: Sua obra, embora reconhecida no Brasil, tem menor difusão internacional comparada a outros autores românticos, mas é estudada em cursos de literatura brasileira e lusófona. Adaptações (música, teatro, cinema): A atmosfera de seus contos, especialmente "Noite na Taverna", inspirou adaptações teatrais e cinematográficas, explorando o caráter gótico e sombrio de suas narrativas. Estudos académicos dedicados à obra: Sua obra é objeto de muitos estudos acadêmicos, que analisam sua temática, estilo e inserção no contexto do Romantismo brasileiro.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica Leituras possíveis da obra: A obra pode ser lida como a expressão da "doença da alma" romântica, o tédio existencial, a desilusão amorosa e a busca por uma transcendência inatingível. Também como uma forma de lidar com a própria mortalidade. Temas filosóficos e existenciais: A fugacidade da vida, a busca pelo ideal, a impossibilidade do amor puro, a atração pela morte como refúgio, o descompasso entre o eu e o mundo, a angústia existencial. Controvérsias ou debates críticos: Um dos debates é sobre a sua classificação como um poeta meramente pessimista e superficial, versus a visão de sua obra como uma profunda exploração da alma humana em conflito com a realidade e a finitude.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Aspetos menos conhecidos da personalidade: Apesar da imagem melancólica e sombria, relatos indicam que em vida era um jovem vivaz e com senso de humor, especialmente em seu círculo de amigos. Contradições entre vida e obra: A contradição reside na sua juventude e na prematura maturidade e pessimismo que transparecem em sua obra, muitas vezes antecipando a própria morte que o ceifaria. Episódios marcantes ou anedóticos que iluminam o perfil do autor: Sua dedicação aos estudos jurídicos, mesmo com a paixão pela poesia, e sua participação ativa em debates intelectuais com os colegas de faculdade. Objetos, lugares ou rituais associados à criação poética: A cidade de São Paulo, durante seus estudos, e o Rio de Janeiro de sua infância foram cenários importantes. A leitura e a escrita eram seus principais rituais. Hábitos de escrita: Escrevia com intensidade e rapidez, muitas vezes inspirado por suas emoções e leituras, como se pressentisse a brevidade de sua vida. Episódios curiosos: A sua morte em plena epidemia de varíola no Rio de Janeiro contribuiu para a aura trágica de sua vida e obra. Manuscritos, diários ou correspondência: Conservam-se manuscritos de seus poemas e cartas que revelam sua intimidade, seus pensamentos e sua relação com amigos e familiares.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Circunstâncias da morte: Morreu aos 20 anos, no Rio de Janeiro, vítima de tuberculose, numa época em que a doença era incurável e altamente contagiosa. Publicações póstumas: Suas obras mais importantes, "Lira dos Vinte Anos" e "Noite na Taverna", foram publicadas postumamente, consolidando sua fama e sua posição na literatura brasileira.

Poemas

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Canto Primeiro

XIV

Escutai-me, leitor, a minha história,
E'fantasia sim, porém amei-a.
Sonhei-a em sua palidez marmórea
Como a ninfa que volve-se na areia
Co'os lindos seios nus... Não sonho glória;
Escrevi porque a alma tinha cheia
— Numa insônia que o spleen entristecia —
De vibrações convulsas de ironia!

XV

Mas não vos pedirei perdão contudo
Se não gostais desta canção sombria
Não penseis que me enterre longo estudo
Por vossa alma fartar de outra harmonia!
Se vario no verso e idéias mudo
E'que assim me desliza a fantasia...
Mas a crítica, não ... eu rio dela...
Prefiro a inspiração de noite bela!

XVI

A crítica é uma bela desgraçada
Que nada cria nem jamais criara;
Tem entranhas de areia regelada:
E'a esposa de Abrão, a pobre Sara
Que nunca foi por Anjo fecundada:
Qual a mãe que por ela assassinara
Por sua inveja e vil desesperança
Dos mais santos amores a criança!

(...)

XXIV

Meu herói é um moço preguiçoso
Que viveu e bebia porventura
Como vós, meu leitor... se era formoso
Ao certo não o sei. Em mesa impura
Esgotara com lábio fervoroso
Como vós e como eu a taça escura.
Era pálido sim... mas não d'estudo:
No mais... era um devasso e disse tudo!

XXV

Dizer que era poeta — é cousa velha:
No século da luz assim é todo.
O que herói de novelas assemelha.
Vemos agora a poesia a rodo!
Nem há nos botequins face vermelha,
Amarelo caixeiro, alma de lodo,
Nem Bocage d'esquina, vate imundo,
Que não se creia um Dante vagabundo!

XXVI

O meu não era assim: não se imprimia,
Nem versos no teatro declamava!
Só quando o fogo do licor corria
Da fronte no palor que avermelhava,
Com as convulsas mãos a taça enchia.
Então a inspiração lhe afervorava
E do vinho no eflúvio e nos ressábios
Vinha o fogo do gênio à flor dos lábios!

(...)

XXXII

Olvidei a canção: só lembro dela
Que d'alma a languidez a estremecia:
Como um anjo num sonho de donzela
Sobre o peito a guitarra lhe gemia!
E quando à frouxa lua, da janela,
Cheia a face de lágrimas erguia,
Como as brisas do amor lhe palpitavam
Os lábios no palor que bafejavam!

XXXIII

Amar, beber, dormir, eis o que amava:
Perfumava de amor a vida inteira,
Como o cantor de Don Juan pensava
Que é da vida o melhor a bebedeira...
E a sua filosofia executava...
Com Alfredo Musset, a tanta asneira
Acrescento porém... juro o que digo!
Não se parece Jônatas comigo.

XXXIV

Prometi um poema, e nesse dia
Em que a tanto obriguei a minha idéia
Não prometi por certo a biografia
Do sublime cantor desta Epopéia
Consagro a outro fim minha harmonia...
Por favor cantarei nesta Odisséia
De Jônatas a glória não sabida...
Mas não quero contar a minha vida.

XXXV

Basta! foi longo o prólogo! confesso!
Mas é preciso à casa uma fachada,
À fronte da mulher um adereço,
No muro um lampião à torta escada!
E agora desse canto me despeço
Com a face de lágrimas banhada,
Qual o moço Don Juan no enjôo rola
Chorando sobre a carta da Espanhola.




Publicado no livro Obras de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1862). Poema integrante da série O Poema do Frade.

In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
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Idéias Íntimas

FRAGMENTO.
La chaise ou je m'assieds, la natte ou je me couche,
La table ou je t'écris, ............................
....................................................
Mes gros souliers ferrés, mon bâton, mon chapeau,
Mes livres pêle-mêle entassés sur leur planche
.....................................................
De cet espace étroit sont tout l'ameublement.
LAMARTINE. Jocelyn.

I

Ossian o bardo é triste como a sombra
Que seus cantos povoa. O Lamartine
E' monótono e belo como a noite,
Como a lua no mar e o som da ondas...
Mas pranteia uma eterna monodia,
Tem na lira do gênio uma só corda,
Fibra de amor e Deus que um sopro agita:
Se desmaia de amor a Deus se volta,
Se pranteia por Deus de amor suspira.
Basta de Shakespeare. Vem tu agora,
Fantástico alemão, poeta ardente
Que ilumina o clarão das gotas pálidas
Do nobre Johannisberg! Nos teus romances
Meu coração deleita-se... Contudo
Parece-me que vou perdendo o gosto,
Vou ficando blasé, passeio os dias
Pelo meu corredor, sem companheiro,
Sem ler, nem poetar. Vivo fumando.
Minha casa não tem menores névoas
Que as deste céu d'inverno.... Solitário
Passo as noites aqui e os dias longos;
Dei-me agora ao charuto em corpo e alma;
Debalde ali de um canto um beijo implora,
Como a beleza que o Sultão despreza,
Meu cachimbo alemão abandonado!
Não passeio a cavalo e não namoro;
Odeio o lasquenet... Palavra d'honra!
Se asim me continuam por dois meses
Os diabos azuis nos frouxos membros,
Dou na Praia Vermelha ou no Parnaso.

II

Enchi o meu salão de mil figuras.
Aqui voa um cavalo no galope,
Um roxo dominó as costas volta
A um cavaleiro de alemães bigodes,
Um preto beberrão sobre uma pipa,
Aos grossos beiços a garrafa aperta...
Ao longo das paredes se derramam
Extintas inscrições de versos mortos,
E mortos ao nascer... Ali na alcova
Em águas negras se levanta a ilha
Romântica, sombria à flor das ondas
De um rio que se perde na floresta...
Um sonho de mancebo e de poeta,
El-Dorado de amor que a mente cria
Como um Édem de noites deleitosas...
Era ali que eu podia no silêncio
Junto de um anjo... Além o romantismo!
Borra adiante folgaz caricatura
Com tinta de escrever e pó vermelho
A gorda face, o volumoso abdômen,
E a grossa penca do nariz purpúreo
Do alegre vendilhão entre botelhas
Metido num tonel... Na minha cômoda
Meio encetado o copo inda verbera
As águas d'ouro do Cognac fogoso.
Negreja ao pé narcótica botelha
Que da essência de flores de laranja
Guarda o licor que nectariza os nervos.
Ali mistura-se o charuto Havano
Ao mesquinho cigarro e ao meu cachimbo.
A mesa escura cambaleia ao peso
Do titânio Digesto, e ao lado dele
Childe-Harold entreaberto ou Lamartine
Mostra que o romantismo se descuida
E que a poesia sobrenada sempre
Ao pesadelo clássico do estudo.

(...)

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Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853). Poema integrante da série Segunda Parte.

In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.1

NOTA: Poema composto de 14 parte
8 905

Panteísmo

MEDITAÇÃO

O dia descobre a terra: a noite descobre os céus.
MARQUÊS DE MARICÁ.


Eu creio, amigo, que a existência inteira
É um mistério talvez; — mas n'alma sinto
De noite e dia respirando flores,
Sentindo as brisas, recordando aromas
E esses ais que ao silêncio a sombra exala
E enchem o coração de ignota pena
Como a íntima voz de um ser amigo,
Que essas tardes e brisas, esse mundo
Que na fronte do moço entorna flores,
Que harmonias embebem-lhe no seio —
Têm uma alma também que vive e sente...

A natureza bela e sempre virgem
Com suas galas gentis na fresca aurora,
Com suas mágoas na tarde escura e fria,
E essa melancolia e morbideza
Que nos eflúvios do luar ressumbra —
Não é apenas uma lira muda
Onde as mãos do poeta acordam hinos
E a alma do sonhador lembranças vibra...

Por essas fibras da natura viva,
Nessas folhas e vagas, nesses astros,
Nessa mágica luz que me deslumbra
E enche de fantasia até meus sonhos —
Palpita porventura um almo sopro,
Espírito do céu que as reanima,
E talvez lhes murmura em horas mortas
Estes sons de mistério e de saudade,
Que lá no coração repercutidos
O gênio acordam que enlanguesce e canta!

(...)

São idéias talvez... Embora riam
Homens sem alma, estéreis criaturas:
Não posso desamar as utopias,
Ouvir e amar à noite entre as palmeiras
Na varanda ao luar o som das vagas,
Beijar nos lábios uma flor que murcha,
E crer em Deus como alma animadora
Que não criou somente a natureza,
Mas que ainda a relenta em seu bafejo,
Ainda influi-lhe no sequioso seio
De amor e vida a eternal centelha !

Por isso, ó meu amigo, à meia-noite
Eu deito-me na relva umedecida,
Contemplo o azul do céu, amo as estrelas,
Respiro aromas, e o arquejante peito
Parece remoçar em tanta vida,
Parece-me alentar-se em tanta mágoa,
Tanta melancolia, e nos meus sonhos,
Filho de amor e Deus, eu amo e creio!

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Publicado no livro Obras de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1862). Poema integrante da série Lira dos Vinte Anos: Continuação.

In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
2 132

Canto Segundo

And her head droo'd as when the lily lies
O'er charged with rain.
Don Juan.


I

Dorme! ao colo do amor, pálido amante,
Repousa, sonhador, nos lábios dela!
Qual em seio de mãe, febril infante!
No olhar, nos lábios da infantil donzela
Inebria teu seio palpitante!
O murmúrio do amor em forma bela
Tem doçuras que esmaiam no desejo
Dos sonhos ao vapor, na onda de um beijo!

II

Que importa a perdição manchasse um dia
A alvura virginal das roupas santas
E o mundo a esse corpo que tremia
Rompesse o véu que tímido alevantas?
E à noite lhe pousasse a fronte fria
Nesse leito em que trêmulo te encantas
E ao batejo venal murchasse flores,
Flores que abriam a infantis amores?

III

Que importa? se o amor teu rosto beija,
Se a beijas nua e sobre o peito dela
Teu peito juvenil ama e lateja!
Se tua langue palidez revela
Que tua alma febril sonha e deseja
Desmaiar-lhe de amor, gemer com ela,
Ébrio de vida, a soluçar d'enleio,
Pálido sonhador morrer-lhe ao seio!

IV

Que importa o mundo além? teu mundo é esse
Onde na vida o coração te alegra!
Teu mundo é o serafim que às noites desce
E que lava no amor a mancha negra!
É a névoa de luz onde não lê-se
Escrita à porta vil a infame regra
Que assinala o bordel à mão poluta
E diz nas letras fundas — prostituta!

V

A essa pobre mulher na fronte bela
Anátema, escreveu a turba fria!
Banhe o remorso o travesseiro dela,
Corram-lhe a mil da pálpebra sombria
Prantos do coração, não há erguê-la
A eterna maldição. E quem diria
A solitária dor, da noite ao manto
Que lavra o seio à cortesã em pranto?

VI

Ah! Madalenas míseras! ardentes
Quantos olhos azuis se não inundam
Nos transes do prazer em prantos quentes
Quando os seios febris em ais abundam,
Que o amante nos óculos trementes
Crê sonhos que do amor no mar se afundam!
Que suspiros no beijo que delira
Que são lágrimas só! que são mentira!

VII

E quantas vezes na cheirosa seda
Da longa trança desatada, solta,
Onde o moço de gozos embebeda
A fronte à febre juvenil revolta;
Quando a vida, o frescor, a imagem leda
De esp'rança que morreu ao leito volta;
As lágrimas na dor ferventes correm...
Como em céu de verão estrelas morrem?

(...)

IX

Amar uma perdida! que loucura!
Mas tão bela! que seio de Madona!
Nunca amara tão nívea criatura
Como aquela mulher que ali ressona!
(...)

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Publicado no livro Obras de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1862). Poema integrante da série O Poema do Frade.

In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.1

NOTA: "O Poema do Frade" é composto de 5 cantos; o segundo é composto de 28 oitava
2 137

Tenho um seio que delira

I

Tenho um seio que delira
Como as tuas harmonias!
Que treme quando suspira,
Que geme como gemias!

II

Tenho músicas ardentes,
Ais do meu amor insano,
Que palpitam mais dormentes
Do que os sons do teu piano!

III

Tenho cordas argentinas
Que a noite faz acordar,
Como as nuvens peregrinas
Das gaivotas do alto mar!

IV
Como a teus dedos lindinhos
O teu piano gemeu,
Vibra-me o seio aos dedinhos
Dos anjos loiros do céu!

V

Vibra à noite do mistério,
Se o banha o frouxo luar,
Se passa teu rosto aéreo
No vaporoso sonhar!

VI

Como tremem teus dedinhos
O saudoso piano teu,
Vibram-me n'alma os anjinhos,
Os anjos loiros do céu!


Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853). Poema integrante da série Primeira Parte.

In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
3 051

SONHANDO

Hier, la nuit d'été, que nous prêtait ses voiles,
Était digne de toi, tant elle avait d'étoiles!
VICTOR HUGO

Na praia deserta que a lua branqueia,
Que mimo! que rosa! que filha de Deus!
Tão pálida... ao vê-la meu ser devaneia,
Sufoco nos lábios os hálitos meus!
Não corras na areia,
Não corras assim!
Donzela, onde vais?
Tem pena de mim!

A praia é tão longa! e a onda bravia
As roupas de gaza te molha de escuma...
De noite, aos serenos, a areia é tão fria...
Tão úmido o vento que os ares perfuma!
És tão doentia...
Não corras assim...
Donzela, onde vais?
Tem pena de mim!

A brisa teus negros cabelos soltou,
O orvalho da face te esfria o suor,
Teus seios palpitam - a brisa os roçou,
Beijou-os, suspira, desmaia de amor!
Teu pé tropeçou...
Não corras assim...
Donzela, onde vais?
Tem pena de mim!

E o pálido mimo da minha paixão
Num longo soluço tremeu e parou,
Sentou-se na praia, sozinha no chão,
A mão regelada no colo pousou!
Que tens, coração
Que tremes assim?
Cansaste, donzela?
Tem pena de mim!

Deitou-se na areia que a vaga molhou.
Imóvel e branca na praia dormia;
Mas nem os seus olhos o sono fechou
E nem o seu colo de neve tremia...
O seio gelou?...
Não durmas assim!
O pálida fria,
Tem pena de mim!

Dormia: - na fronte que níveo suar...
Que mão regelada no lânguido peito...
Não era mais alvo seu leito do mar,
Não era mais frio seu gélido leito!
Nem um ressonar...
Não durmas assim...
O pálida fria,
Tem pena de mim!

Aqui no meu peito vem antes sonhar
Nos longos suspiros do meu coração:
Eu quero em meus lábios teu seio aquentar,
Teu colo, essas faces, e a gélida mão...
Não durmas no mar!
Não durmas assim.
Estátua sem vida,
Tem pena de mim!

E a vaga crescia seu corpo banhando,
As cândidas formas movendo de leve!
E eu vi-a suave nas águas boiando
Com soltos cabelos nas roupas de neve!
Nas vagas sonhando
Não durmas assim...
Donzela, onde vais?
Tem pena de mim!

E a imagem da virgem nas águas do mar
Brilhava tão branca no límpido véu...
Nem mais transparente luzia o luar
No ambiente sem nuvens da noite do céu!
Nas águas do mar
Não durmas assim...
Não morras, donzela,
Espera por mim!



Lira dos Vinte Anos - Primeira Parte
2 332

RELÓGIOS E BEIJOS

Lira dos Vinte Anos
Segunda Parte
TRADUZIDO DE HENRIQUE HEINE

Quem os relógios inventou? Decerto
Algum homem sombrio e friorento:
Numa noite de inverno, tristemente
Sentado na lareira ele cismava,
Ouvindo os ratos a roer na alcova
E o palpitar monótono do pulso.

Quem o beijo inventou? Foi lábio ardente,
Foi boca venturosa, que vivia
Sem um cuidado mais que dar beijinhos...
Era no mês de maio. As flores cândidas
A mil abriam sobre a terra verde,
O sol brilhou mais vivo em céu d'esmalte
E cantaram mais doce os passarinhos.

2 155

PÁLIDA IMAGEM

Lira dos Vinte Anos
Segunda Parte

- J'ai cru que j'oublierais; mais j'avais mal sondé
Les abîmes du coeur que remplit un seul rêve:
Le souvenir est là, le souvenir se lève
Flot toujours renaissant et toujours débordé.
TURQUÉTY

No delírio da ardente mocidade
Por tua imagem pálida vivi!
A flor do coração no amor dos anjos
Orvalhei-a por ti!

O expirar de teu canto lamentoso
Sobre teus lábios que o palor cobria,
Minhas noites de lágrimas ardentes
E de sonhos enchia!

Foi por ti que eu pensei que a vida inteira
Não valia uma lágrima... sequer,
Senão num beijo trêmulo de noite...
Num olhar de mulher!

Mesmo nas horas de um amor insano,
Quando em meus braços outro seio ardia,
A tua imagem pálida passando
A minh'alma perdia.

Sempre e sempre teu rosto! as negras tranças,
Tua alma nos teus olhos se expandindo!
E o colo de cetim que pulsa e geme
E teus lábios sorrindo!

Nas longas horas do sonhar da noite
No teu peito eu sonhava que dormia;
Pousa em meu coração a mão de neve......
Treme... como tremia.

Como palpita agora se afogando
Na morna languidez do teu olhar...
Assim viveu e morrerá sonhando
Em teus seios amar!

Se a vida é lírio que a paixão desflora,
Meu lírio virginal eu conservei...
Somente no passado tive sonhos
E outrora nunca amei!

Foi por ti que na ardente mocidade
Por uma imagem pálida vivi!
E a flor do coração no amor dos anjos
Orvalhei... só por ti!

2 149

MORENA

Lira dos Vinte Anos
Segunda Parte

Ó Teresa, um outro beijo! e abandona-me
a meus sonhos e a meus suaves delírios.
JACOPO ORTIS

É loucura, meu anjo, é loucura
Os amores por anjos... bem sei!
Foram sonhos, foi louca ternura
Esse amor que a teus pés derramei!

Quando a fronte requeima e delira,
Quando o lábio desbota de amor,
Quando as cordas rebentam na lira
Que palpita no seio ao cantor...

Quando a vida nas dores é morta,
Ter amores nos sonhos é crime?
E loucura: eu o sei! mas que importa?
Ai! morena! és tão bela!... perdi-me!

Quando tudo, na insônia do leito,
No delírio de amor devaneia
E no fundo do trêmulo peito
Fogo lento no sangue se ateia...

Quando a vida nos prantos se escoa
Não merece o amante perdão?
Ai! morena! és tão bela! perdoa!
Foi um sonho do meu coração!

Foi um sonho... não cores de pejo!
Foi um sonho tão puro!... ai de mim!
Mal gozei-lhe as frescuras de um beijo!
Ai! não cores, não cores assim!

Não suspires! por que suspirar?
Quando o vento num lírio soluça,
E desmaia no longo beijar,
E ofegante de amor se debruça...

Quando a vida lhe foge, lhe treme,
Pobre vida do seu coração,
Essa flor que o ouvira, que geme,
Não lhe dera no seio o perdão?

Mas não cores! se queres, afogo
No meu seio o fogoso anelar!
Calarei meus suspiros de fogo
E esse amor que me há de matar!

Morrerei, ó morena, em segredo!
Um perdido na terra sou eu!
Ai! teu sonho não morra tão cedo
Como a vida em meu peito morreu!

3 150

MINHA AMANTE

Lira dos Vinte Anos
Segunda Parte

Coração de mulher, qual filomela,
É todo amor e canto ao pé da noite.
JOÃO DE LEMOS

Fulcite me floribus... quia amore langueo.
Cant. Canticorum

Ah! volta inda uma vez! foi só contigo
Que, à noite, de ventura eu desmaiava...
E só nos lábios teus eu me embebia
De volúpias divinas!

Volta, minha ventura! eu tenho sede
Desses beijos ardentes que os suspiros
Ofegando interrompem! quantas noites
Fui ditoso contigo!

E quantas vezes te embalei tremendo
Sobre os joelhos meus! Quanto amorosa
Unindo à minha tua face pálida
De amor e febre ardias!

Oh! volta inda uma vez! ergue-se a lua,
Formosa como dantes, é bem noite,
Na minha solidão brilha, de novo,
Estrela de minh'alma!

Desmaio-me de amor, descoro e tremo...
Morno suor me banha o peito langue...
Meu olhar se escurece e eu te procuro
Com os lábios sedentos!

Oh! quem pudera sempre em teus amores
Sobre teu seio perfumar seus dias,
Beijar a tua fronte e em teus cabelos
Respirar ebrioso!

És a coroa de meus anos breves,
És a corda de amor d'íntima lira,
O canto ignoto, que me enleva em sonhos
De saudosas ternuras!

E tu és como a lua: inda és mais bela,
Quando a sombra nos vales se derrama,
Astro misterioso à meia-noite
Te revela a minh'alma!

Ó! minha lira, ó viração noturna,
Flores, sombras do vale, à minha amante...
Dizei que nesta noite de desejos
E de ternuras morro!

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Comentários (2)

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Isabelle
Isabelle

muito interessante

thomas shelby skibidi
thomas shelby skibidi

incrivel autor