Álvares de Azevedo

Álvares de Azevedo

1831–1852 · viveu 20 anos BR BR

Álvares de Azevedo foi um poeta brasileiro, figura proeminente do Romantismo e um dos expoentes do Ultrarromantismo em seu país. Sua obra, marcada por um profundo pessimismo, melancolia, e a exploração de temas como a morte, o amor idealizado e a fuga da realidade, reflete as angústias de uma juventude que se sentia deslocada em seu tempo. Apesar de sua curta vida, deixou um legado poético e em prosa de grande intensidade e lirismo, influenciando gerações posteriores com sua visão sombria e sua exploração do gótico e do sublime.

n. 1831-09-12, São Paulo · m. 1852-04-25, Rio de Janeiro

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Lembrança de Morrer

No more! o never more!
SHELLEY.


Quando em meu peito rebentar-se a fibra
Que o espírito enlaça à dor vivente,
Não derramem por mim nem uma lágrima
Em pálpebra demente.

E nem desfolhem na matéria impura
A flor do vale que adormece ao vento:
Não quero que uma nota de alegria
Se cale por meu triste passamento.

Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto, o poento caminheiro
— Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;

Como o desterro de minh'alma errante,
Onde fogo insensato a consumia:
Só levo uma saudade — é desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia.

Só levo uma saudade — é dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas...
De ti, ó minha mãe, pobre coitada
Que por minha tristeza te definhas!

De meu pai... de meus únicos amigos,
Poucos — bem poucos — e que não zombavam
Quando, em noite de febre endoudecido,
Minhas pálidas crenças duvidavam.

Se uma lágrima as pálpebras me inunda,
Se um suspiro nos seios treme ainda
É pela virgem que sonhei... que nunca
Aos lábios me encostou a face linda!

Só tu à mocidade sonhadora
Do pálido poeta deste flores...
Se viveu, foi por ti! e de esperança
De na vida gozar de teus amores.

Beijarei a verdade santa e nua,
Verei cristalizar-se o sonho amigo....
Ó minha virgem dos errantes sonhos,
Filha do céu, eu vou amar contigo!

Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nelas
— Foi poeta — sonhou — e amou na vida.—

Sombras do vale, noites da montanha
Que minh'alma cantou e amava tanto,
Protegei o meu corpo abandonado,
E no silêncio derramai-lhe canto!

Mas quando preludia ave d'aurora
E quando à meia-noite o céu repousa,
Arvoredos do bosque, abri os ramos...
Deixai a lua prantear-me a lousa!




Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853). Poema integrante da série Primeira Parte.

In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Nome completo: Manuel Antônio Álvares de Azevedo. Pseudónimos: Era conhecido por "o poeta". Data e local de nascimento: 15 de setembro de 1831, no Rio de Janeiro, Brasil. Data e local de morte: 25 de abril de 1852, no Rio de Janeiro, Brasil. Origem familiar, classe social e contexto cultural de origem: Nascido numa família abastada e intelectualizada, o que lhe proporcionou acesso à educação e à cultura. Seu pai era um poeta e jurista influente. Nacionalidade e língua(s) de escrita: Brasileiro, escreveu em português. Contexto histórico em que viveu: Viveu a segunda metade do século XIX, um período de grandes transformações no Brasil, como a consolidação do Império, o auge da escravatura e o desenvolvimento cultural e literário, com a emergência do Romantismo.

Infância e formação

Origem familiar e ambiente social: Cresceu num ambiente familiar propício ao desenvolvimento intelectual e literário. Seu pai era um intelectual respeitado. Educação formal e autodidatismo: Fez os estudos preparatórios no Colégio Cláudio Manuel da Costa e, posteriormente, ingressou na Faculdade de Direito de São Paulo em 1848, onde se destacou nos estudos jurídicos. Influências iniciais (leituras, cultura, religião, política): Foi fortemente influenciado pela literatura romântica europeia, especialmente a alemã (Goethe, Schiller, Byron), e pela francesa (Chateaubriand, Lamartine). O ambiente intelectual da época no Brasil também o moldou, com a efervescência cultural do Rio de Janeiro. Movimentos literários, filosóficos ou artísticos que absorveu: Absorveu as tendências do Romantismo, em particular o Ultrarromantismo, com seu foco no individualismo, no pessimismo, na melancolia e na exaltação dos sentimentos. Eventos marcantes na juventude: A morte precoce de sua mãe e a própria fragilidade de sua saúde foram eventos que intensificaram seu pessimismo e sua visão sombria da vida.

Percurso literário

Início da escrita (quando e como começou): Começou a escrever poesia e prosa ainda muito jovem, destacando-se por sua precocidade e talento. Evolução ao longo do tempo (fases, mudanças de estilo): Sua obra, embora curta, demonstra uma evolução do lirismo mais convencional para uma expressão mais sombria e intimista, característica do Ultrarromantismo. Evolução cronológica da obra: Sua produção literária concentrou-se entre o período em que estudava no Rio de Janeiro e, principalmente, durante seus anos em São Paulo para cursar Direito. Colaborações em revistas, jornais e antologias: Colaborou em diversas publicações periódicas da época, como "Crônica Maranhense", "Guanabacoa", "Oller das Novidades", "Revista Contemporânea" e "Jornal dos Dias". Sua obra "Lira dos Vinte Anos" foi publicada postumamente. Atividade como crítico, tradutor ou editor: Traduziu obras do francês e do inglês, demonstrando seu domínio de outras línguas e seu interesse pela literatura estrangeira.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Obras principais com datas e contexto de produção: "Lira dos Vinte Anos" (publicada postumamente em 1853), "Noite na Taverna" (contos, publicados postumamente em 1855), "Folhas Caídas" (poemas, publicados postumamente em 1853). Temas dominantes — amor, morte, tempo, natureza, identidade, espiritualidade, etc.: Amor idealizado e platônico, morte como fuga da realidade, o tédio (spleen), a melancolia, a loucura, o sobrenatural, a natureza como cenário de desolação, a efemeridade da vida, a saudade do passado, a revolta contra o destino. Forma e estrutura — uso do soneto, verso livre, forma fixa, experimentação métrica: Utilizou o soneto e outras formas poéticas tradicionais, mas com um conteúdo que subvertia a leveza esperada, explorando a gravidade dos temas. Recursos poéticos (metáfora, ritmo, musicalidade): Empregou metáforas que evocavam o universo gótico e sombrio, um ritmo cadenciado e melancólico, e uma musicalidade que realçava a tristeza e a introspecção. Tom e voz poética — lírico, satírico, elegíaco, épico, irónico, confessional: O tom predominante é o elegíaco, o confessional e o sombrio. Há uma voz poética que expressa angústia, desilusão e um profundo pessimismo. Voz poética (pessoal, universal, fragmentada, etc.): A voz poética é intensamente pessoal, refletindo suas próprias angústias e desilusões, mas ao tratar de temas universais como a morte e o amor, alcança uma dimensão de universalidade. Linguagem e estilo — vocabulário, densidade imagética, recursos retóricos preferidos: Linguagem elevada e culta, com um vocabulário rico em termos que remetem ao sublime, ao sombrio e ao tétrico. Utilizou hipérboles e antíteses para expressar a dualidade entre o ideal e o real, a vida e a morte. Inovações formais ou temáticas introduzidas na literatura: Introduziu na literatura brasileira uma temática ultrarromântica mais acentuada, com um foco acentuado no macabro, no gótico e no pessimismo existencial, antecipando alguns elementos do Simbolismo. Relação com a tradição e com a modernidade: Representante máximo do Ultrarromantismo brasileiro, que se insere no Romantismo, dialogando com a tradição literária europeia e adaptando-a à realidade brasileira. Movimentos literários associados (ex: simbolismo, modernismo): Ultrarromantismo, Romantismo. Obras menos conhecidas ou inéditas: Seus contos reunidos em "Noite na Taverna" são menos conhecidos que sua poesia, mas de grande importância para a compreensão de sua visão de mundo.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Relação com acontecimentos históricos (guerras, revoluções, regimes): Viveu durante o Segundo Reinado, um período de relativa estabilidade política no Brasil, mas sua obra foca-se nas questões interiores e existenciais, mais do que em eventos históricos. Relação com outros escritores ou círculos literários: Foi amigo de outros jovens intelectuais e estudantes de Direito que compartilhavam de seus ideais literários e românticos, formando um grupo unido pelo idealismo e pela produção literária. Geração ou movimento a que pertence (ex.: Romantismo, Modernismo, Surrealismo): Pertence à Segunda Geração do Romantismo brasileiro, conhecida como "Mal do Século" ou Ultrarromantismo. Posição política ou filosófica: Não expressou posições políticas explícitas em sua obra, mas seu individualismo e pessimismo podem ser vistos como uma forma de distanciamento das questões sociais e políticas de sua época. Influência da sociedade e cultura na obra: A sociedade brasileira do século XIX, com suas contradições e a emergência de uma identidade nacional, serviu de pano de fundo para a sua obra, que, no entanto, se volta para temas universais e interiores. Diálogos e tensões com contemporâneos: Sua obra dialogou com a produção de outros românticos, mas o seu tom ultrarromântico e pessimista o destacou e, por vezes, o distanciou de uma recepção mais ampla na época. Receção crítica em vida vs. reconhecimento póstumo: Em vida, sua obra teve uma recepção limitada devido à sua curta existência e à publicação tardia de suas principais obras. O reconhecimento de sua importância se deu principalmente após sua morte, quando "Lira dos Vinte Anos" e "Noite na Taverna" foram publicadas e aclamadas.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Relações afetivas e familiares significativas e como moldaram a obra: A perda da mãe e a relação com o pai influenciaram sua visão sobre a vida e a morte. O amor idealizado, frequentemente inacessível, é um tema central em sua poesia. Amizades e rivalidades literárias: Teve um círculo de amigos próximos, também estudantes de direito e escritores, com quem compartilhava ideias e aspirações literárias. Experiências e crises pessoais, doenças ou conflitos: Sofreu de tuberculose, doença que o acompanhou e o debilitou, contribuindo para seu pessimismo e para a obsessão com a morte. Sua saúde frágil marcou sua juventude. Profissões paralelas (se não viveu só da poesia): Foi estudante de Direito. Não chegou a exercer uma profissão, pois faleceu muito jovem. Crenças religiosas, espirituais ou filosóficas: Sua obra sugere uma profunda angústia existencial e uma busca por sentido, mas a sua visão pessimista e a atração pelo macabro indicam um distanciamento das doutrinas religiosas tradicionais. Posições políticas e envolvimento cívico: Não há registro de envolvimento cívico ou posições políticas marcantes.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Lugar na literatura nacional e internacional: É considerado um dos maiores poetas do Romantismo brasileiro e um dos principais representantes do Ultrarromantismo. Sua obra é estudada e valorizada pela crítica. Prémios, distinções e reconhecimento institucional: Devido à sua morte precoce, não teve tempo de receber prêmios em vida. O reconhecimento veio postumamente, com a publicação de suas obras. Receção crítica na época e ao longo do tempo: A recepção em vida foi limitada. O reconhecimento póstumo consolidou sua posição como um poeta de grande sensibilidade e profundidade. Popularidade vs reconhecimento académico: É uma figura estudada academicamente e admirada por leitores que se interessam pelo Romantismo e pela poesia com temas sombrios e existenciais.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Autores que o influenciaram: Lord Byron, Johann Wolfgang von Goethe, Friedrich Schiller, Victor Hugo, Alfred de Musset, Alphonse de Lamartine, Edgar Allan Poe. Poetas e movimentos que influenciou: Influenciou a poesia brasileira posterior com sua temática sombria, seu pessimismo e sua exploração do gótico e do sublime. Foi um precursor na abordagem de temas que seriam retomados em outras estéticas literárias. Impacto na literatura nacional e mundial e gerações posteriores de poetas: Deixou uma marca indelével na literatura brasileira, sendo um dos pilares do Romantismo. Sua obra continua a ser lida e estudada como um reflexo das angústias da juventude e da condição humana. Entrada no cânone literário: É figura consolidada no cânone da literatura brasileira, presente em antologias e estudos sobre o Romantismo e a poesia do século XIX. Traduções e difusão internacional: Sua obra, embora reconhecida no Brasil, tem menor difusão internacional comparada a outros autores românticos, mas é estudada em cursos de literatura brasileira e lusófona. Adaptações (música, teatro, cinema): A atmosfera de seus contos, especialmente "Noite na Taverna", inspirou adaptações teatrais e cinematográficas, explorando o caráter gótico e sombrio de suas narrativas. Estudos académicos dedicados à obra: Sua obra é objeto de muitos estudos acadêmicos, que analisam sua temática, estilo e inserção no contexto do Romantismo brasileiro.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica Leituras possíveis da obra: A obra pode ser lida como a expressão da "doença da alma" romântica, o tédio existencial, a desilusão amorosa e a busca por uma transcendência inatingível. Também como uma forma de lidar com a própria mortalidade. Temas filosóficos e existenciais: A fugacidade da vida, a busca pelo ideal, a impossibilidade do amor puro, a atração pela morte como refúgio, o descompasso entre o eu e o mundo, a angústia existencial. Controvérsias ou debates críticos: Um dos debates é sobre a sua classificação como um poeta meramente pessimista e superficial, versus a visão de sua obra como uma profunda exploração da alma humana em conflito com a realidade e a finitude.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Aspetos menos conhecidos da personalidade: Apesar da imagem melancólica e sombria, relatos indicam que em vida era um jovem vivaz e com senso de humor, especialmente em seu círculo de amigos. Contradições entre vida e obra: A contradição reside na sua juventude e na prematura maturidade e pessimismo que transparecem em sua obra, muitas vezes antecipando a própria morte que o ceifaria. Episódios marcantes ou anedóticos que iluminam o perfil do autor: Sua dedicação aos estudos jurídicos, mesmo com a paixão pela poesia, e sua participação ativa em debates intelectuais com os colegas de faculdade. Objetos, lugares ou rituais associados à criação poética: A cidade de São Paulo, durante seus estudos, e o Rio de Janeiro de sua infância foram cenários importantes. A leitura e a escrita eram seus principais rituais. Hábitos de escrita: Escrevia com intensidade e rapidez, muitas vezes inspirado por suas emoções e leituras, como se pressentisse a brevidade de sua vida. Episódios curiosos: A sua morte em plena epidemia de varíola no Rio de Janeiro contribuiu para a aura trágica de sua vida e obra. Manuscritos, diários ou correspondência: Conservam-se manuscritos de seus poemas e cartas que revelam sua intimidade, seus pensamentos e sua relação com amigos e familiares.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Circunstâncias da morte: Morreu aos 20 anos, no Rio de Janeiro, vítima de tuberculose, numa época em que a doença era incurável e altamente contagiosa. Publicações póstumas: Suas obras mais importantes, "Lira dos Vinte Anos" e "Noite na Taverna", foram publicadas postumamente, consolidando sua fama e sua posição na literatura brasileira.

Poemas

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TARDE DE VERÃO

Lira dos Vinte Anos
Primeira Parte

Viens!...
Que l'arbre pénétré de parfums et de chants,
.....................................................................
Et l'o,bre et le soleil, et l'onde et la verdure,
Et le rayonnement de toute la nature
Fassent épanouir comme une double fleur
La beauté sur ton front, et l'amour dans ton coeur!
V. HUGO

Como cheirosa e doce a tarde expira!
De amor e luz inunda a praia bela...
E o sol já roxo e trêmulo desdobra
Um íris furta-cor na fronte dela.

Deixai que eu morra só! enquanto o fogo
Da última febre dentro em mim vacila,
Não venham ilusões chamar-me à vida,
De saudades banhar a hora tranqüila!

Meu Deus! que eu morra em paz! não me coroem
De flores infecundas a agonia!
Oh! não doire o sonhar do moribundo
Lisonjeiro pincel da fantasia!

Exaurido de dor e d'esperança
Posso aqui respirar mais livremente,
Sentir ao vento dilatar-se a vida,
Como a flor da lagoa transparente!

Se ela estivesse aqui! no vale agora
Cai doce a brisa morna desmaiando:
Nos murmúrios do mar fora tão doce
Da tarde no palor viver amando!

Uni-la ao peito meu - nos lábios dela
Respirar uma vez, cobrando alento;
A divina visão de seus amores
Acordar o meu peito inda um momento!

Fulgura a minha amante entre meus sonhos,
Como a estrela do mar nas águas brilha,
Bebe à noite o favônio em seus cabelos
Aroma mais suave que a baunilha.

Se ela estivesse aqui! jamais tão doce
O crepúsculo o céu embelecera...
E a tarde de verão fora mais bela,
Brilhando sobre a sua primavera!

Da lânguida pupila de seus olhos
Num olhar de desdém entorna amores,
Como à brisa vernal na relva mole
O pessegueiro em flor derrama flores.

Árvore florescente desta vida,
Que amor, beleza e mocidade encantam,
Derrama no meu seio as tuas flores
Onde as aves do céu à noite cantam!

Vem! a areia do mar cobri de flores,
Perfumei de jasmins teu doce leito;
Podes suave, ó noiva do poeta,
Suspirosa dormir sobre meu peito!

Não tardes, minha vida! no crepúsculo
Ave da noite me acompanha a lira...
É um canto de amor... Meu Deus! que sonhos!
Era ainda ilusão - era mentira!

1 720

MINHA AMANTE

Lira dos Vinte Anos
Segunda Parte

Coração de mulher, qual filomela,
É todo amor e canto ao pé da noite.
JOÃO DE LEMOS

Fulcite me floribus... quia amore langueo.
Cant. Canticorum

Ah! volta inda uma vez! foi só contigo
Que, à noite, de ventura eu desmaiava...
E só nos lábios teus eu me embebia
De volúpias divinas!

Volta, minha ventura! eu tenho sede
Desses beijos ardentes que os suspiros
Ofegando interrompem! quantas noites
Fui ditoso contigo!

E quantas vezes te embalei tremendo
Sobre os joelhos meus! Quanto amorosa
Unindo à minha tua face pálida
De amor e febre ardias!

Oh! volta inda uma vez! ergue-se a lua,
Formosa como dantes, é bem noite,
Na minha solidão brilha, de novo,
Estrela de minh'alma!

Desmaio-me de amor, descoro e tremo...
Morno suor me banha o peito langue...
Meu olhar se escurece e eu te procuro
Com os lábios sedentos!

Oh! quem pudera sempre em teus amores
Sobre teu seio perfumar seus dias,
Beijar a tua fronte e em teus cabelos
Respirar ebrioso!

És a coroa de meus anos breves,
És a corda de amor d'íntima lira,
O canto ignoto, que me enleva em sonhos
De saudosas ternuras!

E tu és como a lua: inda és mais bela,
Quando a sombra nos vales se derrama,
Astro misterioso à meia-noite
Te revela a minh'alma!

Ó! minha lira, ó viração noturna,
Flores, sombras do vale, à minha amante...
Dizei que nesta noite de desejos
E de ternuras morro!

2 573

MORENA

Lira dos Vinte Anos
Segunda Parte

Ó Teresa, um outro beijo! e abandona-me
a meus sonhos e a meus suaves delírios.
JACOPO ORTIS

É loucura, meu anjo, é loucura
Os amores por anjos... bem sei!
Foram sonhos, foi louca ternura
Esse amor que a teus pés derramei!

Quando a fronte requeima e delira,
Quando o lábio desbota de amor,
Quando as cordas rebentam na lira
Que palpita no seio ao cantor...

Quando a vida nas dores é morta,
Ter amores nos sonhos é crime?
E loucura: eu o sei! mas que importa?
Ai! morena! és tão bela!... perdi-me!

Quando tudo, na insônia do leito,
No delírio de amor devaneia
E no fundo do trêmulo peito
Fogo lento no sangue se ateia...

Quando a vida nos prantos se escoa
Não merece o amante perdão?
Ai! morena! és tão bela! perdoa!
Foi um sonho do meu coração!

Foi um sonho... não cores de pejo!
Foi um sonho tão puro!... ai de mim!
Mal gozei-lhe as frescuras de um beijo!
Ai! não cores, não cores assim!

Não suspires! por que suspirar?
Quando o vento num lírio soluça,
E desmaia no longo beijar,
E ofegante de amor se debruça...

Quando a vida lhe foge, lhe treme,
Pobre vida do seu coração,
Essa flor que o ouvira, que geme,
Não lhe dera no seio o perdão?

Mas não cores! se queres, afogo
No meu seio o fogoso anelar!
Calarei meus suspiros de fogo
E esse amor que me há de matar!

Morrerei, ó morena, em segredo!
Um perdido na terra sou eu!
Ai! teu sonho não morra tão cedo
Como a vida em meu peito morreu!

3 115

MINHA MUSA

Lira dos Vinte Anos
Segunda Parte

Minha musa é a lembrança
Dos sonhos em que eu vivi,
É de uns lábios a esperança
E a saudade que eu nutri!
É a crença que alentei,
As luas belas que amei
E os olhos por quem morri!

Os meus cantos de saudade
São amores que eu chorei,
São lírios da mocidade
Que murcham porque te amei!
As minhas notas ardentes
São as lágrimas dementes
Que em teu seio derramei!

Do meu outono os desfolhos,
Os astros do teu verão,
A languidez de teus olhos
Inspiram minha canção...
Sou poeta porque és bela,
Tenho em teus olhos, donzela,
A musa do coração!

Se na lira voluptuosa
Entre as fibras que estalei
Um dia atei uma rosa
Cujo aroma respirei...
Foi nas noites de ventura,
Quando em tua formosura
Meus lábios embriaguei!

E se tu queres, donzela,
Sentir minh'alma vibrar,
Solta essa trança tão bela,
Quero nela suspirar!
E dá repousar-me teu seio...
Ouvirás no devaneio
A minha lira cantar!

2 993

PÁLIDA IMAGEM

Lira dos Vinte Anos
Segunda Parte

- J'ai cru que j'oublierais; mais j'avais mal sondé
Les abîmes du coeur que remplit un seul rêve:
Le souvenir est là, le souvenir se lève
Flot toujours renaissant et toujours débordé.
TURQUÉTY

No delírio da ardente mocidade
Por tua imagem pálida vivi!
A flor do coração no amor dos anjos
Orvalhei-a por ti!

O expirar de teu canto lamentoso
Sobre teus lábios que o palor cobria,
Minhas noites de lágrimas ardentes
E de sonhos enchia!

Foi por ti que eu pensei que a vida inteira
Não valia uma lágrima... sequer,
Senão num beijo trêmulo de noite...
Num olhar de mulher!

Mesmo nas horas de um amor insano,
Quando em meus braços outro seio ardia,
A tua imagem pálida passando
A minh'alma perdia.

Sempre e sempre teu rosto! as negras tranças,
Tua alma nos teus olhos se expandindo!
E o colo de cetim que pulsa e geme
E teus lábios sorrindo!

Nas longas horas do sonhar da noite
No teu peito eu sonhava que dormia;
Pousa em meu coração a mão de neve......
Treme... como tremia.

Como palpita agora se afogando
Na morna languidez do teu olhar...
Assim viveu e morrerá sonhando
Em teus seios amar!

Se a vida é lírio que a paixão desflora,
Meu lírio virginal eu conservei...
Somente no passado tive sonhos
E outrora nunca amei!

Foi por ti que na ardente mocidade
Por uma imagem pálida vivi!
E a flor do coração no amor dos anjos
Orvalhei... só por ti!

2 128

SONHANDO

Hier, la nuit d'été, que nous prêtait ses voiles,
Était digne de toi, tant elle avait d'étoiles!
VICTOR HUGO

Na praia deserta que a lua branqueia,
Que mimo! que rosa! que filha de Deus!
Tão pálida... ao vê-la meu ser devaneia,
Sufoco nos lábios os hálitos meus!
Não corras na areia,
Não corras assim!
Donzela, onde vais?
Tem pena de mim!

A praia é tão longa! e a onda bravia
As roupas de gaza te molha de escuma...
De noite, aos serenos, a areia é tão fria...
Tão úmido o vento que os ares perfuma!
És tão doentia...
Não corras assim...
Donzela, onde vais?
Tem pena de mim!

A brisa teus negros cabelos soltou,
O orvalho da face te esfria o suor,
Teus seios palpitam - a brisa os roçou,
Beijou-os, suspira, desmaia de amor!
Teu pé tropeçou...
Não corras assim...
Donzela, onde vais?
Tem pena de mim!

E o pálido mimo da minha paixão
Num longo soluço tremeu e parou,
Sentou-se na praia, sozinha no chão,
A mão regelada no colo pousou!
Que tens, coração
Que tremes assim?
Cansaste, donzela?
Tem pena de mim!

Deitou-se na areia que a vaga molhou.
Imóvel e branca na praia dormia;
Mas nem os seus olhos o sono fechou
E nem o seu colo de neve tremia...
O seio gelou?...
Não durmas assim!
O pálida fria,
Tem pena de mim!

Dormia: - na fronte que níveo suar...
Que mão regelada no lânguido peito...
Não era mais alvo seu leito do mar,
Não era mais frio seu gélido leito!
Nem um ressonar...
Não durmas assim...
O pálida fria,
Tem pena de mim!

Aqui no meu peito vem antes sonhar
Nos longos suspiros do meu coração:
Eu quero em meus lábios teu seio aquentar,
Teu colo, essas faces, e a gélida mão...
Não durmas no mar!
Não durmas assim.
Estátua sem vida,
Tem pena de mim!

E a vaga crescia seu corpo banhando,
As cândidas formas movendo de leve!
E eu vi-a suave nas águas boiando
Com soltos cabelos nas roupas de neve!
Nas vagas sonhando
Não durmas assim...
Donzela, onde vais?
Tem pena de mim!

E a imagem da virgem nas águas do mar
Brilhava tão branca no límpido véu...
Nem mais transparente luzia o luar
No ambiente sem nuvens da noite do céu!
Nas águas do mar
Não durmas assim...
Não morras, donzela,
Espera por mim!



Lira dos Vinte Anos - Primeira Parte
2 298

DESALENTO

Lira dos Vinte Anos
Primeira Parte

Por que havíeis passar tão doces dias?
A. F. DE SERPA PIMENTEL

Feliz daquele que no livro d'alma
Não tem folhas escritas
E nem saudade amarga, arrependida,
Nem lágrimas malditas!

Feliz daquele que de um anjo as tranças
Não respirou sequer
E nem bebeu eflúvios descorando
Numa voz de mulher...

E não sentiu-lhe a mão cheirosa e branca
Perdida em seus cabelos,
Nem resvalou do sonho deleitoso
A reais pesadelos...

Quem nunca te beijou, flor dos amores,
Flor do meu coração,
E não pediu frescor, febril e insano
Da noite à viração!

Ah! feliz quem dormiu no colo ardente
Da huri dos amores,
Que sôfrego bebeu o orvalho santo
Das perfumadas flores...

E pôde vê-la morta ou esquecida
Dos longos beijos seus,
Sem blasfemar das ilusões mais puras
E sem rir-se de Deus!

Mas, nesse doloroso sofrimento
Do pobre peito meu,
Sentir no coração que à dor da vida
A esperança morreu!...

Que me resta, meu Deus? aos meus suspiros
Nem geme a viração...
E dentro, no deserto do meu peito,
Não dorme o coração!

2 092

DESÂNIMO

Lira dos Vinte Anos
Segunda Parte

Estou agora triste. Há nesta vida
Páginas torvas que se não apagam,
Nódoas que não se lavam... se esquecê-las
De todo não é dado a quem padece...
Ao menos resta ao sonhador consolo
No imaginar dos sonhos de mancebo!

Oh! voltai uma vez! eu sofro tanto!
Meus sonhos, consolai-me! distraí-me!
Anjos das ilusões, as asas brancas
As névoas puras, que outro sol matiza.
Abri ante meus olhos que abraseiam
E lágrimas não tem que a dor do peito
Transbordem um momento...

E tu, imagem,
Ilusão de mulher, querido sonho,
Na hora derradeira, vem sentar-te,
Pensativa e saudosa no meu leito!
O que sofres? que dor desconhecida
Inunda de palor teu rosto virgem?
Por que tu'alma dobra taciturna,
Como um lírio a um bafo d'infortúnio?
Por que tão melancólica suspiras?

Ilusão, ideal, a ti meus sonhos,
Como os cantos a Deus se erguem gemendo!
Por ti meu pobre coração palpita...
Eu sofro tanto! meus exaustos dias
Não sei por que logo ao nascer manchou-os
De negra profecia um Deus irado.
Outros meu fado invejam... Que loucura!
Que valem as ridículas vaidades
De uma vida opulenta, os falsos mimos
De gente que não ama? Até o gênio
Que Deus lançou-me à doentia fronte,
Qual semente perdida num rochedo,
Tudo isso que vale, se padeço!

Nessas horas talvez em mim não pensas:
Pousas sombria a desmaiada face
Na doce mão e pendes-te sonhando
No teu mundo ideal de fantasia...
Se meu orgulho, que fraqueia agora,
Pudesse crer que ao pobre desditoso
Sagravas uma idéia, uma saudade...
Eu seria um instante venturoso!

Mas não... ali no baile fascinante,
Na alegria brutal da noite ardente,
No sorriso ebrioso e tresloucado
Daqueles homens que, pra rir um pouco,
Encobrem sob a máscara o semblante,
Tu não pensas em mim. Na tua idéia
Se minha imagem retratou-se um dia
Foi como a estrela peregrina e pálida
Sobre a face de um lago...

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Amoroso palor

No amor basta uma noite para fazer de um homem um Deus.
PROPÉRCIO

Amoroso palor meu rosto inunda,
Mórbida languidez me banha os olhos,
Ardem sem sono as pálpebras doridas,
Convulsivo tremor meu corpo vibra...
Quanto sofro por ti! Nas longas noites
Adoeço de amor e de desejos...
E nos meus sonhos desmaiando passa
A imagem voluptuosa da ventura:
Eu sinto-a de paixão encher a brisa,
Embalsamar a noite e o céu sem nuvens;
E ela mesma suave descorando
Os alvacentos véus soltar do colo,
Cheirosas flores desparzir sorrindo
Da mágica cintura.
Sinto na fronte pétalas de flores,
Sinto-as nos lábios e de amor suspiro...
Mas flores e perfumes embriagam...
E no fogo da febre, e em meu delírio
Embebem na minh'alma enamorada
Delicioso veneno.

Estrela de mistério! em tua fronte
Os céus revela e mostra-me na terra,
Como um anjo que dorme, a tua imagem
E teus encantos, onde amor estende
Nessa morena tez a cor de rosa.
Meu amor, minha vida, eu sofro tanto!
O fogo de teus olhos me fascina,
O langor de teus olhos me enlanguece,
Cada suspiro que te abala o seio
Vem no meu peito enlouquecer minh'alma!

Ah! vem, pálida virgem, se tens pena
De quem morre por ti, e morre amando,
Dá vida em teu alento à minha vida,
Une nos lábios meus minh'alma à tua!
Eu quero ao pé de ti sentir o mundo
Na tu'alma infantil; na tua fronte
Beijar a luz de Deus; nos teus suspiros
Sentir as virações do paraíso...
E a teus pés, de joelhos, crer ainda
Que não mente o amor que um anjo inspira,
Que eu posso na tu'alma ser ditoso,
Beijar-te nos cabelos soluçando
E no teu seio ser feliz morrendo!

Dezembro, 1851.
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Ai Jesus!

Ai Jesus! não vês que gemo,
Que desmaio de paixão
Pelos teus olhos azuis?
Que empalideço, que tremo,
Que me expira o coração?
Ai Jesus!

Que por um olhar, donzela,
Eu poderia morrer
Dos teus olhos pela luz?
Que morte! que morte bela!
Antes seria viver!
Ai Jesus!

Que por um beijo perdido
Eu de gozo morreria
Em teus níveos seios nus?
Que no oceano dum gemido
Minh'alma se afogaria?
Ai Jesus!



Lira dos Vinte Anos - Primeira Parte
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Comentários (2)

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Isabelle
Isabelle

muito interessante

thomas shelby skibidi
thomas shelby skibidi

incrivel autor