Álvares de Azevedo

Álvares de Azevedo

1831–1852 · viveu 20 anos BR BR

Álvares de Azevedo foi um poeta brasileiro, figura proeminente do Romantismo e um dos expoentes do Ultrarromantismo em seu país. Sua obra, marcada por um profundo pessimismo, melancolia, e a exploração de temas como a morte, o amor idealizado e a fuga da realidade, reflete as angústias de uma juventude que se sentia deslocada em seu tempo. Apesar de sua curta vida, deixou um legado poético e em prosa de grande intensidade e lirismo, influenciando gerações posteriores com sua visão sombria e sua exploração do gótico e do sublime.

n. 1831-09-12, São Paulo · m. 1852-04-25, Rio de Janeiro

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Lembrança de Morrer

No more! o never more!
SHELLEY.


Quando em meu peito rebentar-se a fibra
Que o espírito enlaça à dor vivente,
Não derramem por mim nem uma lágrima
Em pálpebra demente.

E nem desfolhem na matéria impura
A flor do vale que adormece ao vento:
Não quero que uma nota de alegria
Se cale por meu triste passamento.

Eu deixo a vida como deixa o tédio
Do deserto, o poento caminheiro
— Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;

Como o desterro de minh'alma errante,
Onde fogo insensato a consumia:
Só levo uma saudade — é desses tempos
Que amorosa ilusão embelecia.

Só levo uma saudade — é dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas...
De ti, ó minha mãe, pobre coitada
Que por minha tristeza te definhas!

De meu pai... de meus únicos amigos,
Poucos — bem poucos — e que não zombavam
Quando, em noite de febre endoudecido,
Minhas pálidas crenças duvidavam.

Se uma lágrima as pálpebras me inunda,
Se um suspiro nos seios treme ainda
É pela virgem que sonhei... que nunca
Aos lábios me encostou a face linda!

Só tu à mocidade sonhadora
Do pálido poeta deste flores...
Se viveu, foi por ti! e de esperança
De na vida gozar de teus amores.

Beijarei a verdade santa e nua,
Verei cristalizar-se o sonho amigo....
Ó minha virgem dos errantes sonhos,
Filha do céu, eu vou amar contigo!

Descansem o meu leito solitário
Na floresta dos homens esquecida,
À sombra de uma cruz, e escrevam nelas
— Foi poeta — sonhou — e amou na vida.—

Sombras do vale, noites da montanha
Que minh'alma cantou e amava tanto,
Protegei o meu corpo abandonado,
E no silêncio derramai-lhe canto!

Mas quando preludia ave d'aurora
E quando à meia-noite o céu repousa,
Arvoredos do bosque, abri os ramos...
Deixai a lua prantear-me a lousa!




Publicado no livro Poesias de Manuel Antônio Álvares de Azevedo (1853). Poema integrante da série Primeira Parte.

In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Nome completo: Manuel Antônio Álvares de Azevedo. Pseudónimos: Era conhecido por "o poeta". Data e local de nascimento: 15 de setembro de 1831, no Rio de Janeiro, Brasil. Data e local de morte: 25 de abril de 1852, no Rio de Janeiro, Brasil. Origem familiar, classe social e contexto cultural de origem: Nascido numa família abastada e intelectualizada, o que lhe proporcionou acesso à educação e à cultura. Seu pai era um poeta e jurista influente. Nacionalidade e língua(s) de escrita: Brasileiro, escreveu em português. Contexto histórico em que viveu: Viveu a segunda metade do século XIX, um período de grandes transformações no Brasil, como a consolidação do Império, o auge da escravatura e o desenvolvimento cultural e literário, com a emergência do Romantismo.

Infância e formação

Origem familiar e ambiente social: Cresceu num ambiente familiar propício ao desenvolvimento intelectual e literário. Seu pai era um intelectual respeitado. Educação formal e autodidatismo: Fez os estudos preparatórios no Colégio Cláudio Manuel da Costa e, posteriormente, ingressou na Faculdade de Direito de São Paulo em 1848, onde se destacou nos estudos jurídicos. Influências iniciais (leituras, cultura, religião, política): Foi fortemente influenciado pela literatura romântica europeia, especialmente a alemã (Goethe, Schiller, Byron), e pela francesa (Chateaubriand, Lamartine). O ambiente intelectual da época no Brasil também o moldou, com a efervescência cultural do Rio de Janeiro. Movimentos literários, filosóficos ou artísticos que absorveu: Absorveu as tendências do Romantismo, em particular o Ultrarromantismo, com seu foco no individualismo, no pessimismo, na melancolia e na exaltação dos sentimentos. Eventos marcantes na juventude: A morte precoce de sua mãe e a própria fragilidade de sua saúde foram eventos que intensificaram seu pessimismo e sua visão sombria da vida.

Percurso literário

Início da escrita (quando e como começou): Começou a escrever poesia e prosa ainda muito jovem, destacando-se por sua precocidade e talento. Evolução ao longo do tempo (fases, mudanças de estilo): Sua obra, embora curta, demonstra uma evolução do lirismo mais convencional para uma expressão mais sombria e intimista, característica do Ultrarromantismo. Evolução cronológica da obra: Sua produção literária concentrou-se entre o período em que estudava no Rio de Janeiro e, principalmente, durante seus anos em São Paulo para cursar Direito. Colaborações em revistas, jornais e antologias: Colaborou em diversas publicações periódicas da época, como "Crônica Maranhense", "Guanabacoa", "Oller das Novidades", "Revista Contemporânea" e "Jornal dos Dias". Sua obra "Lira dos Vinte Anos" foi publicada postumamente. Atividade como crítico, tradutor ou editor: Traduziu obras do francês e do inglês, demonstrando seu domínio de outras línguas e seu interesse pela literatura estrangeira.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Obras principais com datas e contexto de produção: "Lira dos Vinte Anos" (publicada postumamente em 1853), "Noite na Taverna" (contos, publicados postumamente em 1855), "Folhas Caídas" (poemas, publicados postumamente em 1853). Temas dominantes — amor, morte, tempo, natureza, identidade, espiritualidade, etc.: Amor idealizado e platônico, morte como fuga da realidade, o tédio (spleen), a melancolia, a loucura, o sobrenatural, a natureza como cenário de desolação, a efemeridade da vida, a saudade do passado, a revolta contra o destino. Forma e estrutura — uso do soneto, verso livre, forma fixa, experimentação métrica: Utilizou o soneto e outras formas poéticas tradicionais, mas com um conteúdo que subvertia a leveza esperada, explorando a gravidade dos temas. Recursos poéticos (metáfora, ritmo, musicalidade): Empregou metáforas que evocavam o universo gótico e sombrio, um ritmo cadenciado e melancólico, e uma musicalidade que realçava a tristeza e a introspecção. Tom e voz poética — lírico, satírico, elegíaco, épico, irónico, confessional: O tom predominante é o elegíaco, o confessional e o sombrio. Há uma voz poética que expressa angústia, desilusão e um profundo pessimismo. Voz poética (pessoal, universal, fragmentada, etc.): A voz poética é intensamente pessoal, refletindo suas próprias angústias e desilusões, mas ao tratar de temas universais como a morte e o amor, alcança uma dimensão de universalidade. Linguagem e estilo — vocabulário, densidade imagética, recursos retóricos preferidos: Linguagem elevada e culta, com um vocabulário rico em termos que remetem ao sublime, ao sombrio e ao tétrico. Utilizou hipérboles e antíteses para expressar a dualidade entre o ideal e o real, a vida e a morte. Inovações formais ou temáticas introduzidas na literatura: Introduziu na literatura brasileira uma temática ultrarromântica mais acentuada, com um foco acentuado no macabro, no gótico e no pessimismo existencial, antecipando alguns elementos do Simbolismo. Relação com a tradição e com a modernidade: Representante máximo do Ultrarromantismo brasileiro, que se insere no Romantismo, dialogando com a tradição literária europeia e adaptando-a à realidade brasileira. Movimentos literários associados (ex: simbolismo, modernismo): Ultrarromantismo, Romantismo. Obras menos conhecidas ou inéditas: Seus contos reunidos em "Noite na Taverna" são menos conhecidos que sua poesia, mas de grande importância para a compreensão de sua visão de mundo.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Relação com acontecimentos históricos (guerras, revoluções, regimes): Viveu durante o Segundo Reinado, um período de relativa estabilidade política no Brasil, mas sua obra foca-se nas questões interiores e existenciais, mais do que em eventos históricos. Relação com outros escritores ou círculos literários: Foi amigo de outros jovens intelectuais e estudantes de Direito que compartilhavam de seus ideais literários e românticos, formando um grupo unido pelo idealismo e pela produção literária. Geração ou movimento a que pertence (ex.: Romantismo, Modernismo, Surrealismo): Pertence à Segunda Geração do Romantismo brasileiro, conhecida como "Mal do Século" ou Ultrarromantismo. Posição política ou filosófica: Não expressou posições políticas explícitas em sua obra, mas seu individualismo e pessimismo podem ser vistos como uma forma de distanciamento das questões sociais e políticas de sua época. Influência da sociedade e cultura na obra: A sociedade brasileira do século XIX, com suas contradições e a emergência de uma identidade nacional, serviu de pano de fundo para a sua obra, que, no entanto, se volta para temas universais e interiores. Diálogos e tensões com contemporâneos: Sua obra dialogou com a produção de outros românticos, mas o seu tom ultrarromântico e pessimista o destacou e, por vezes, o distanciou de uma recepção mais ampla na época. Receção crítica em vida vs. reconhecimento póstumo: Em vida, sua obra teve uma recepção limitada devido à sua curta existência e à publicação tardia de suas principais obras. O reconhecimento de sua importância se deu principalmente após sua morte, quando "Lira dos Vinte Anos" e "Noite na Taverna" foram publicadas e aclamadas.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Relações afetivas e familiares significativas e como moldaram a obra: A perda da mãe e a relação com o pai influenciaram sua visão sobre a vida e a morte. O amor idealizado, frequentemente inacessível, é um tema central em sua poesia. Amizades e rivalidades literárias: Teve um círculo de amigos próximos, também estudantes de direito e escritores, com quem compartilhava ideias e aspirações literárias. Experiências e crises pessoais, doenças ou conflitos: Sofreu de tuberculose, doença que o acompanhou e o debilitou, contribuindo para seu pessimismo e para a obsessão com a morte. Sua saúde frágil marcou sua juventude. Profissões paralelas (se não viveu só da poesia): Foi estudante de Direito. Não chegou a exercer uma profissão, pois faleceu muito jovem. Crenças religiosas, espirituais ou filosóficas: Sua obra sugere uma profunda angústia existencial e uma busca por sentido, mas a sua visão pessimista e a atração pelo macabro indicam um distanciamento das doutrinas religiosas tradicionais. Posições políticas e envolvimento cívico: Não há registro de envolvimento cívico ou posições políticas marcantes.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Lugar na literatura nacional e internacional: É considerado um dos maiores poetas do Romantismo brasileiro e um dos principais representantes do Ultrarromantismo. Sua obra é estudada e valorizada pela crítica. Prémios, distinções e reconhecimento institucional: Devido à sua morte precoce, não teve tempo de receber prêmios em vida. O reconhecimento veio postumamente, com a publicação de suas obras. Receção crítica na época e ao longo do tempo: A recepção em vida foi limitada. O reconhecimento póstumo consolidou sua posição como um poeta de grande sensibilidade e profundidade. Popularidade vs reconhecimento académico: É uma figura estudada academicamente e admirada por leitores que se interessam pelo Romantismo e pela poesia com temas sombrios e existenciais.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Autores que o influenciaram: Lord Byron, Johann Wolfgang von Goethe, Friedrich Schiller, Victor Hugo, Alfred de Musset, Alphonse de Lamartine, Edgar Allan Poe. Poetas e movimentos que influenciou: Influenciou a poesia brasileira posterior com sua temática sombria, seu pessimismo e sua exploração do gótico e do sublime. Foi um precursor na abordagem de temas que seriam retomados em outras estéticas literárias. Impacto na literatura nacional e mundial e gerações posteriores de poetas: Deixou uma marca indelével na literatura brasileira, sendo um dos pilares do Romantismo. Sua obra continua a ser lida e estudada como um reflexo das angústias da juventude e da condição humana. Entrada no cânone literário: É figura consolidada no cânone da literatura brasileira, presente em antologias e estudos sobre o Romantismo e a poesia do século XIX. Traduções e difusão internacional: Sua obra, embora reconhecida no Brasil, tem menor difusão internacional comparada a outros autores românticos, mas é estudada em cursos de literatura brasileira e lusófona. Adaptações (música, teatro, cinema): A atmosfera de seus contos, especialmente "Noite na Taverna", inspirou adaptações teatrais e cinematográficas, explorando o caráter gótico e sombrio de suas narrativas. Estudos académicos dedicados à obra: Sua obra é objeto de muitos estudos acadêmicos, que analisam sua temática, estilo e inserção no contexto do Romantismo brasileiro.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica Leituras possíveis da obra: A obra pode ser lida como a expressão da "doença da alma" romântica, o tédio existencial, a desilusão amorosa e a busca por uma transcendência inatingível. Também como uma forma de lidar com a própria mortalidade. Temas filosóficos e existenciais: A fugacidade da vida, a busca pelo ideal, a impossibilidade do amor puro, a atração pela morte como refúgio, o descompasso entre o eu e o mundo, a angústia existencial. Controvérsias ou debates críticos: Um dos debates é sobre a sua classificação como um poeta meramente pessimista e superficial, versus a visão de sua obra como uma profunda exploração da alma humana em conflito com a realidade e a finitude.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Aspetos menos conhecidos da personalidade: Apesar da imagem melancólica e sombria, relatos indicam que em vida era um jovem vivaz e com senso de humor, especialmente em seu círculo de amigos. Contradições entre vida e obra: A contradição reside na sua juventude e na prematura maturidade e pessimismo que transparecem em sua obra, muitas vezes antecipando a própria morte que o ceifaria. Episódios marcantes ou anedóticos que iluminam o perfil do autor: Sua dedicação aos estudos jurídicos, mesmo com a paixão pela poesia, e sua participação ativa em debates intelectuais com os colegas de faculdade. Objetos, lugares ou rituais associados à criação poética: A cidade de São Paulo, durante seus estudos, e o Rio de Janeiro de sua infância foram cenários importantes. A leitura e a escrita eram seus principais rituais. Hábitos de escrita: Escrevia com intensidade e rapidez, muitas vezes inspirado por suas emoções e leituras, como se pressentisse a brevidade de sua vida. Episódios curiosos: A sua morte em plena epidemia de varíola no Rio de Janeiro contribuiu para a aura trágica de sua vida e obra. Manuscritos, diários ou correspondência: Conservam-se manuscritos de seus poemas e cartas que revelam sua intimidade, seus pensamentos e sua relação com amigos e familiares.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Circunstâncias da morte: Morreu aos 20 anos, no Rio de Janeiro, vítima de tuberculose, numa época em que a doença era incurável e altamente contagiosa. Publicações póstumas: Suas obras mais importantes, "Lira dos Vinte Anos" e "Noite na Taverna", foram publicadas postumamente, consolidando sua fama e sua posição na literatura brasileira.

Poemas

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Trindade

A vida é uma planta misteriosa
Cheia d’espinhos, negra de amarguras
Onde só abrem duas flores puras -
Poesia e amor...

E a mulher... é a nota suspirosa
Que treme d’alma a corda estremecida,
_É fada que nos leva além da vida
Pálidos de langor!

A poesia é a luz da mocidade,
O amor é o poema dos sentidos,
A febre dos momentos não dormidos
E o sonhar da ventura...

Voltai, sonhos de amor e de saudade!
Quero ainda sentir arder-me o sangue,
Os olhos turvos, o meu peito langue,
E morrer de ternura!

3 705

Dinheiro

Oh! argent! Avec toi on est beau, jeune, adoré; on a consideration,
honneur, qualités, vertus. Quand on n’a point d’argent, on est dans la
dépendance de toutes choses et de tout le monde.
Chateaubriand

Sem ele não há cova- quem enterra
Assim grátis, a Deo? O batizado
Também custa dinheiro. Quem namora
Sem pagar as pratinhas ao Mercúrio?
Demais, as Dânaes também o adoram...
Quem imprime seus versos, quem passeia,
Quem sobe a Deputado, até Ministro,
Quem é mesmo Eleitor, embora sábio,
Embora gênio, talentosa fronte,
Alma Romana, se não tem dinheiro?
Fora a canalha de vazios bolsos!
O mundo é para todos... Certamente
Assim o disse Deus mas esse texto
Explica-se melhor e doutro modo...
Houve um erro de imprensa no Evangelho:
O mundo é um festim, concordo nisso,
Mas não entra ninguém sem ter as louras.

2 696

Passei ontem a noite

Passei ontem a noite junto dela.
Do camarote a divisão se erguia
Apenas entre nós — e eu vivia
No doce alento dessa virgem bela...

Tanto amor, tanto fogo se revela
Naqueles olhos negros! Só a via!
Música mais do céu, mais harmonia
Aspirando nessa alma de donzela!

Como era doce aquele seio arfando!
Nos lábios que sorriso feiticeiro!
Daquelas horas lembro-me chorando!

Mas o que é triste e dói ao mundo inteiro
É sentir todo o seio palpitando...
Cheio de amores! E dormir solteiro!
3 841

Terza Rima

É belo dentre a cinza ver ardendo
Nas mãos do fumador um bom cigarro,
Sentir o fumo em névoas recendendo,

Do cachimbo alemão no louro barro
Ver a chama vermelha estremecendo
E até... perdoem... respirar-lhe o sarro!

Porém o que há mais doce nesta vida,
O que das mágoas desvanece o luto
E dá som a uma alma empobrecida,
Palavra d’honra, és tu, ó meu charuto!

2 480

Pálida Inocência

Cette image du ciel - innocence et beauté!
Lamartine

Por que, pálida inocência,
Os olhos teus em dormência
A medo lanças em mim?
No aperto de minha mão
Que sonho do coração
Tremeu-te os seios assim?

E tuas falas divinas
Em que amor lânguida afinas
Em que lânguido sonhar?
E dormindo sem receio
Por que geme no teu seio
Ansioso suspirar?

Inocência! Quem dissera
De tua azul primavera
As tuas brisas de amor!
Oh! Quem teus lábios sentira
E que trêmulo te abrira
Dos sonhos a tua flor!

Quem te dera a esperança
De tua alma de criança,
Que perfuma teu dormir!
Quem dos sonhos te acordasse,
Que num beijo t’embalasse
Desmaiada no sentir!

Quem te amasse! E um momento
Respirando o teu alento
Recendesse os lábios seus!
Quem lera, divina e bela,
Teu romance de donzela
Cheio de amor e de Deus!

2 031

Na Minha Terra

Amo o vento da noite sussurrante
A tremer nos pinheiros
E a cantiga do pobre caminhante
No rancho dos tropeiros;

E os monótonos sons de uma viola
No tardio verão,
E a estrada que além se desenrola
No véu da escuridão;

A restinga dareia onde rebenta
O oceano a bramir,
Onde a lua na praia macilenta
Vem pálida luzir;

E a névoa e flores e o doce ar cheiroso
Do amanhecer na serra,
E o céu azul e o manto nebuloso
Do céu de minha terra;

E o longo vale de florinhas cheio
E a névoa que desceu,
Como véu de donzela em branco seio,
Às estrelas do céu.

II

Não é mais bela, não, a argêntea praia
Que beija o mar do sul,
Onde eterno perfume a flor desmaia
E o céu é sempre azul;

Onde os serros fantásticos roxeiam
Nas tardes de verão
E os suspiros nos lábios incendeiam
E pulsa o coração!

Sonho da vida que doirou e azula
A fala dos amores,
Onde a mangueira ao vento que tremula
Sacode as brancas flores,

E é saudoso viver nessa dormência
Do lânguido sentir,
Nos enganos suaves da existência
Sentindo-se dormir;

Mais formoso não é: não doire embora
O verão tropical
Com seus rubores e alvacenta aurora
Na montanha natal,

Nem tão doirada se levante a lua
Pela noite do céu,
Mas venha triste, pensativa - e nua
Do prateado véu -

Que me importa? se as tardes purpurinas
E as auroras dali
Não deram luz às diáfamas cortinas
Do leito onde eu nasci?

Se adormeço tranqüilo no teu seio
E perfuma-se a flor
Que Deus abriu no peito do Poeta,
Gotejante de amor?

Minha terra sombria, és sempre bela,
Inda pálida a vida
Como o sono inocente da donzela
No deserto dormida!

No italiano céu nem mais suaves
São as noites os amores,
Não tem mais fogo o cântigo das aves
Nem o vale mais flores!

III

Quando o gênio da noite vaporosa
Pela encosta bravia
Na laranjeira em flor toda orvalhosa
De aroma se inebria,

No luar junto à sombra recendente
De um arvoredo em flor,
Que Saudades e amor que influi na mente
Da montanha o frescor!

E quando à noite no luar saudoso
Minha pálida amante
Ergue seus olhos úmidos de gozo,
E o lábio palpitante...

Cheia de argêntea luz do firmamento
Orando por seu Deus,
Então... eu curvo a fronte ao sentimento
Sobre os joelhos seus...

E quando sua voz entre harmonias
Sufoca-se de amor,
E dobra a fronte bela de magias
Como pálida flor,

E a arma pura nos seus olhos brilha
Em desmaiado véu,
Como de um anjo na cheirosa trilha
Respiro o amor do céu!

Melhor a viração uma por uma
Vem as folhas tremer,
E a floresta saudosa se perfuma
Da noite no morrer,

E eu amo as flores e o doce ar mimoso
Do amanhecer da serra
E o céu azul e o manto nebuloso
Do céu de minha terra!
5 040

Tarde de Outono

Un souvenir heureux est peut-être sur terre
Plus vrai que le bonheur.
Alfred de Musset

O Poeta:

Oh! Musa, por que vieste,
E contigo me trouxeste
A vagar na solidão?
Tu não sabes que a lembrança
De meus anos de esperança
Aqui fala ao coração?

A Saudade:

De um puro amor a lânguida Saudade
É doce como a lágrima perdida
Que banha no cismar um rosto virgem,
Volta o rosto ao passado, e chora a vida.

O Poeta:

Não sabe o quanto dói
Uma lembrança quye rói
A fibra que adormeuceu?...
Foi neste vale que amei,
Que a primavera sonhei,
Aqui minha alma viveu.

A Saudade:

Pálidos sonhos no passado morto
É dove reviver mesmo chorando.
A alma refez-se pura. Um vento aéreo
Parece que de amor nos vai roubando.

O Poeta:

Eu vejo ainda a janela
Onde à tarde junto dela
Eu lia versos de amor...
Como eu vivia d’enleio
No bater daquele seio,
Naquele aroma de flor!

Creio vê-la inda formosa,
Nos cabelos uma rosa,
De leve a janela abrir...
Tão bela, meu Deus, tão bela!
Por que amei tanto, donzela,
Se devias me trair ?

A Saudade:

A casa está deserta. A parasita
Das paredes estala a negra cor.
Os aposentos o ervaçal povoa.
A porta é franca... Entremos, trovador!

O Poeta:

Derramai-vos, prantos meus!
Dai-me prantos, ó meu Deus!
Eu quero chorar aqui!
Em que sonhos de ebriedade
No arrebol da mocidade
Eu nesta sombra dormi!

Passado, por que murchaste?
Ventura, por que passaste
Degenerando em Saudade?
Do estio secou-se a fonte,
Só ficou na minha fronte
A febre da mocidade.

A Saudade:

Sonha, Poeta, sonha! Ali sentado
No tosco assento da janela antiga,
Apóia sobre a mão a face pálida,
Sorrindo - dos amores à cantiga.

O Poeta:

Minha alma triste se enluta,
Quando a voz interna escuta
Que blasfema da esperaçança,
Aqui tudo se perdeu,
Minha pureza morreu
Com o enlevo de criança!

Ali amante ditoso,
Delirante, suspiroso,
Eflúvios dela sorvi.
No seu colo eu me deitava...
E ela tão doce cantava!
De amor e canto vivi!

Na sombra deste arvoredo
Oh! quantas vezes a medo
Nossos lábios se tocaram!
E os seios onde gemia
Uma voz que amor dizia,
Desmaiando me apertaram!

Foi doce nos braços teus,
Meu anjo belo de Deus,
Um instante do viver!
Tão doce, que em mim sentia
Que minhalma se esvaía
E eu pensava ali morrer!

A Saudade:

É berço de mistério e dharmonia
Seio mimoso de adorada amante.
A alma bebe nos sons que amor suspira
A voz, a doce voz de uma alma errante.

Tingem-se os olhos de amorosa sombra,
Os lábios convulsivos estremecem,
E a vida foge ao peito ... apenas tinge
As faces que de amor empalidecem.

Parece então que o agitar do gozo
Nossos lábios atrai a um bem divino:
Da amante o beijo é puro como as flores
E a voz dela é um hino.

Dizei-o vós, dizei, ternos amantes,
Almas ardentes que a paixão palpita,
Dizei essa emoção que o peito gela
E os frios nervos num espasmo agita.

Vinte anos! como tens doirados sonhos!
E como a névoa de falaz ventura
Que se estende nos olhos do Poeta
Doira a amante de nova formosura!

O Poeta:

Que gemer! não me enganava?
Era o anjo que velava
Minha casta solidão?
São minhas noites gozadas,
As venturas tão choradas
Que vibram meu coração?

É tarde, amores, é tarde;
Uma centelha não arde
Na cinza dos seios meus...
.........................................
.........................................

3 145

Malva-maçã

De teus seios tão mimosos
quem gozasse o talismã!
Quem ali deitasse a fronte
cheia de amoroso afã!
E quem nele respirasse
a tua malva-maçã!

Dá-me essa folha cheirosa
que treine no seio teu!
Dá-me a folha... hei de beijá-la
sedenta no lábio meu!
Não vês que o calor do seio
tua malva emurcheceu...

A pobrezinha em teu colo
tantos amores gozou,
viveu em tanto perfume
que de enlevos expirou!
Quem pudesse no teu seio
morrer como ela murchou!

Teu cabelo me inebria,
teu ardente olhar seduz;
a flor dos teus olhos negros
de tua alma raia à luz,
e sinto nos lábios teus
fogo do céu que transluz!

O teu seio que estremece
enlaguece-me de gozo.
Há um quê de tão suave
no colo voluptuoso,
que num trêmulo delíquio
faz-me sonhar venturoso!

Descansar nesses teus braços
fora angélica ventura:
fora morrer – nos teus lábios
aspirar tua alma pura!
Fora ser Deus dar-te um beijo
na divina formosura!

Mas o que eu peço, donzela,
meus amores, não é tanto!
Basta-me afolha do seio
para que eu viva no encanto,
e em noites enamoradas
eu verta amoroso pranto!

Oh! virgem dos meus amores,
dá-me essa folha singela!
Quero sentir teu perfume
nos doces aromas dela...
E nessa malva-maçã
sonhar teu seio, donzela!

Uma folha assim perdida
de um seio virgem no afã
acorda ignotas doçuras
com divino talismã!
Dá-me do seio esta folha
– a tua malva-maçã!

Quero apertá-la a meu peito
e beijá-la com ternura...
Dormir com ela nos lábios
desse aroma na frescura...
Beijando-a sonhar contigo
e desmaiar de ventura!

A folha que tens no seio
de joelhos pedirei...
Se posso viver sem ela
não o creio!... Oh, eu não sei!...
Dá-ma pelo amor de Deus,
que sem ela morrerei.

Pelas estrelas da noite,
pelas brisas da manhã,
por teus amores mais puros,
pelo amor de tua irmã,
dá-me essa folha cheirosa
– a tua malva-maçã!
2 037

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Comentários (2)

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Isabelle
Isabelle

muito interessante

thomas shelby skibidi
thomas shelby skibidi

incrivel autor