A Filha do Sono
Tu és a filha do sono e cintilas na folhagem.
Vieste do fundo do rio ainda envolta na noite.
O meu apelo recebeste-o e é a claridade que vibra.
A confiança nasceu numa onda mais verde
e inclinei-me sobre os teus joelhos num ardor tranquilo
para que a verdadeira chama fosse reconhecida na árvore do desejo.
De caminhos, de árvores, de nascentes,
de signos impenetráveis que se tornaram vibrantes
eras o corpo que se reunia na alegria partilhada
e consentias a palavra como um redemoinho
que culminava numa tranquila abóbada.
Que serenidade nas claras árvores
e nas folhas profusas onde repousam novos frutos!
Os desejos adormecem no silêncio e entre as pedras.
A infinita sede acalma-se e a ausência desce até à terra nua.
A Presença
Entre o não saber e o poder
a mais ligeira ponte.
Entre as ruínas dos olhos e a limpidez da luz
as frágeis escadas de sombra.
Entre a língua cega e as palavras intactas
a mão que procura o hálito de um deus
na revelação do mar e do poema.
O que se resolve em espuma no final de uma frase,
o que vem do fundo ininteligível da noite
e é uma súbita ordenação transparente
e o frémito de um equilíbrio, uma modulação, uma frescura
e o reino absoluto no instante, o verdadeiro lugar
e um grito, um grito de alegria na sua forma pura.
Simplicidade da presença discreta, furtiva e no entanto límpida.
Coerência fragílima, claridade confiante à beira de ser nada.
Era o que esperava, era o que não esperava no imediato sabor
das palavras e das coisas.
A Cidade Que Habito
Quem vê entre os ramos a delicada
aranha do sol? Um sopro abre as avenidas.
Quem escreve a cidade com o seu hálito?
Vapores cinza e rosa
levantam em leque a barca da terra.
Um ouvido subtil ouve o silêncio oblíquo.
Uma cidade de pedra e de água, de rumores
verticais, de ténues transparências,
que sede a surpreende inicial,
quem abraça no voo de um nascimento?
É aqui ainda a terra, nas colinas,
no odor a peixe, nos obscuros insectos.
Algo se espera talvez entre os plátanos.
Há estrelas e barcos nas calçadas.
Todas as superfícies oscilam à claridade do vento.
Dentro da Árvore
Por entre os ramos e as sombras sem tristeza
em claro e sonâmbulo vagar
mais baixo do que o dia com suas lâmpadas de espuma
em abóbadas de sombra entre o verde e a cinza.
Era a terra do sono e da solidão e da partilha
e a respiração da ausência. O destino
era próximo da mesa da folhagem, a sede
calma. E o sentido era um sonho
que se encarnava num flanco aberto.
Porque nascíamos em núpcias transparentes
com o ar adormecido num meio-dia completo.
Porque no fundo escuro amávamos a altura verde
e recebíamos a frescura de uns dedos ignorados.
Ele
Quem era ele? Onde se encontrava ele?
Quase incorpóreo, invertebrado, inconsciente,
que coerência lhe restava para se ligar ao mundo?
Que vagarosos enlaces, que amplexos, que trama viva
ainda o reteriam no mundo como um ser?
Pelas gretas do tempo, no tremor das palavras
procura o tranquilo fulgor da terra, as serenas vozes.
Era simples na obscuridade e era nulo e vago.
Que peso teriam as palavras agora, que imagens,
que rostos, que ruídos surdos à beira do abismo?
Em ténues linhas sobre o vazio vacila.
Enlaçado aos ramos, é uma figura vegetal
que encontrou talvez a vagarosa densidade.
Nas concavidades busca a materna proximidade.
Na sua fragilidade acolhe a palavra sem promessa.
O que o faz escrever é a enigmática profusão
da terra, onde renova o pacto com a matéria intensa.
A Terra
Um corpo estende-se no pó, entre estrelas, paredes, folhas. Tem o céu inteiro sobre a sombra intacta. A plenitude do espaço é um relâmpago perfeito. A grande respiração da noite, cálida e serena, é a língua da unidade com os seus cães e astros gloriosos. A distância já não anula nem separa na sua única vibração monótona. Tudo se reúne e se compreende sob a sombra da noite porque a terra nos rodeia sem confusão nem imagens ilusórias. A terra é agora um barco tranquilo. Abertas estão as portas do mundo silencioso adormecido e vivo.
No Cimo
Abolido no cimo com o deus nulo do ar. A verdade apaga-se sem caminho, sem trama, sem as consoantes de pedra. Nudez com a terra e o sol no prisma flexível, no extremo círculo do silêncio. Veias abertas. Sulcos subtis. O corpo abriu-se inteiramente às brancas nascentes do vazio. Enraizado num lugar errante onde tudo respira, o deserto já não é o exílio, mas o astro único onde a sombra reverdece. Terra, ainda, dos ardentes cabelos, das primaveras vivas. O segredo indizível, maravilha discreta, ondula no ar como um aroma, como um murmúrio ou um nome leve que perpassa sem sentido, um sabor apenas, uma luz breve na morada móvel, uma trémula ilha transparente.
Meio-Dia
Contemplo a mulher adormecida. Ocupa uma metade do terraço, longa e voluptuosamente extensa, constelada de um silêncio que é todo aéreo e ondulante. Em volta o mundo converteu-se num pomar unânime. É um meio-dia interminável. Tudo está imóvel, fixo, como um centro. As superfícies lisas, brancas, sem reflexos, sem sombras. Imperceptível, insondável é o gesto fulgurante da imobilidade. A intensidade da presença identifica-se com o vazio da ausência. O meu corpo entende o corpo da mulher, enrola-se nas volutas da sua música silenciosa, adere às paisagens brancas do seu sono completo. Imóvel, não procuro palavras, nem as mais leves e transparentes: sinto-me fluido, extremamente aberto. Conheço as sensações da mulher nua: água, terra, fogo e vento. Conheço-a e amo-a através delas, numa relação de felicidade intensa e ao mesmo tempo imponderável. O sono da mulher é de horizontes múltiplos e em si germina o centro abrindo o aberto sem limites.
Para Além Das Palavras Com As Palavras
Palavras com o seu peso, apaixonadas
pelo seu peso.
Palavras que demoram nas fronteiras do solo,
palavras trabalhadas pelo vento,
palavras com sede como a água.
Até onde as palavras já não possam progredir.
No cimo do cimo, numa árvore de estrelas.
Um deus murmura, se é um deus o ar, o deus do aberto e do intacto.
Tão perto de ser nada, renasço no vazio, renasço anónimo.
Nada me protege nesta abóbada aberta e tudo me soergue.
Tudo é vago, tudo é irmão do vento, tudo é informulável.
Se escrevesses as palavras poderiam ser lâmpadas de pólen.
Mais longe, mais alto desata-se a serpente dos sinais.
Todo o prodígio é de ar, todo o sentido é ar.
A Mulher Dilacerada
Tinhas um sabor a terra escura e à espuma
amarga de uma árvore. Descobri-te o rosto
sujo trabalhado pelo vento
e pelas marés negras. Um oleoso girassol
enublava-te. O rosto inclinava-se
sobre um ombro matinal dilacerado.
As tuas pernas densas eram nervos atrozes
implantados na pedra. Sobre o teu peito neutro
repercutiam as ondas e os metais furiosos.
O mundo obscurecera nas dilaceradas ancas.
Como um pássaro nocturno entre espelhos abolidos
movias a matéria da tua identidade.
No teu vestido opaco o vento ressoava
num furor de consoantes e relâmpagos escuros.
Cópia de parte da narrativa «a Vadim», datilografado, s/d. "... . Adormeci e sonhei que me encontrava no meio de um canavial, à beira de um regato, embalado pelos oscilantes rumores da folhagem e das águas. De súbito, uma mulher nua, opulenta mas elegante (...) graciosa, surgiu de entre a espessura do canavial e continuou a atravessá-lo até à beira do regato, em cujas águas transparentes mergulhou o corpo deslumbrante. Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo dum paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...)
António Ramos Rosa, verdadeiramente, não fez do desenho atividade diária. O dia do poeta começava cedo e por reler os poemas do dia anterior. Sempre cheio de incertezas quanto à sua qualidade. Socorria-se do telefone e falava sobre os seus escritos, sempre perguntando sobre este ou aquele conteúdo. Quando recebia, o elogio, ouvia-se um som especialíssimo. Mas somente questionava mulheres, algumas, em trabalho de teses sobre António Ramos Rosa. Embora fosse uma pessoa sensível (embora em situações públicas, por vezes impaciente e nervoso) algumas "alunas" impacientavam-se e sofria por não o atenderem. Ora os seus desenhos, sempre de figuras femininas, só no outono da vida, e isto, para oferecer a quem o visitava.
António Ramos Rosa, - até prova, - não trabalhou no comércio.
Conheci, pessoalmente, António Ramos Rosa, um homem tímido, mas que surpreendia, que ao dentista desdenhoso respondeu "estar tão nervoso como quando lhe disseram que fora proposto para Prémio Nobel ou quando o empregado do café não o deixava entrar dado o vestuário pobre. Sim, considerava-se "diferente", "anómalo", "inferior". Mais tarde descobriu que era condição humana, pela contingência de cada ser "um mundo"; uma "composição", onde cada constitui a individualidade irredutível que resulta da organização da pessoa no mundo. "A consciência da minha separação provinha da minha ferida, que era para mim uma irremediável singularidade". Até que a individualidade lhe aparece como "resolução da diversidade do mundo" ... "embora conserve a sua singularidade abissal" ... . Conquistei, assim, a minha liberdade, a minha voz ganhou timbre de neutralidade do mundo em que eu me inseria e que era a minha composição pessoal, mas também transpessoal, do mundo" (...), Cf. doc. dact. "A COMPOSIÇÃO DOS MUNDOS"; manuscrito "A Vadim muito afectuosamente", s/d.
António ramos ??. Somente reescrever um nome de altiloquência literária me confere armas para eu próprio me precaver contra a ignorância que sou face ao Mundo que me inunda