Até À Pedra Que
Até à pedra que
resvala
na terra e no silêncio
o espaço obscuro estranho
e algo cintilando lá no fundo
nada se diz
porque se vê
não sei o quê ou só o escuro azul
A Superfície da Página
Seule l’écriture maintient le regard de
l’écrivain à la surface.
EDMOND JABÈS
Escrevo com estas moedas que nada simbolizam e que se elevam e avançam na superfície lisa da página, no dorso ondulante do deserto. É esta superfície que me tenta, como se uma escrita de água percorresse o deserto em cada sílaba, como se em cada letra deflagrasse o escuro sol da sombra. Escrevo sem acreditar, escrevo, isto é, vou de sombra em sombra, apago-me e apago a ordem do discurso, as peremptórias leis dos homens. Há uma palavra que viaja no mar, há uma palavra viva no espaço, no rumor da vida, no silêncio inominável das coisas. Essa palavra não está longe de nenhuma palavra, todas as palavras se dirigem para ela, todas elas morrem e estremecem por essa única palavra que povoa os espaços e os vocábulos. O sol e o mar, os animais, as estrelas, a luz e a noite, tudo se contém, freme e adeja como se na página um pássaro de vento de súbito surgisse, visível, invisível, vivo e apagado como uma sombra branca. Entre as margens e os intervalos das linhas gera-se uma comunicação e é o branco que raia num sentido ou as sombras de súbito se encontram e resplandecem. Este fogo, esta luz, esta pulsação animal, esta sombra fulgurante são a própria substância escrita mas igualmente o segredo incomunicável, a palpitação única de um lábio materno, de uma vegetação elementar, de uma terra secreta e original. Eis que sinto a vida nova dos vocábulos, a sua vocação vocálica, a sua alma livre, a sua orientação seminal. São os vocábulos que perpassam sobre os abismos brancos e as espirais da loucura, são eles que, nas suas volutas, na sua corrente vivaz e obstinada abrem um caminho e criam a possibilidade da infinita palavra impossível.
A Palavra Transfigurada
Como incendiar a página com uma linguagem nua e frágil? Nada se escreve sem terror perante o inerte e a plenitude de uma linguagem vã. As folhas fatigam-se, envelhecem, e o bolor é o futuro condenado de todos os vocábulos. Como penetrar nos interstícios do invisível e aí buscar a libertação soberana de uma linguagem fulgurante? A criação é uma destruição em que os gritos e os murmúrios de uma insondável agonia são sufocados na garganta das palavras. Como libertar a palavra da passiva escravidão da morte? O que nos liga é o que nos liberta: a sede de um lugar livre sem o peso da servidão e dos discursos. Se cada palavra é o limiar de um deserto, como incendiar os grãos de areia para construir a casa de fogo que é o poema? Serão as palavras sombras sobre um invisível muro? Os vocábulos imitam as pedras e as estrelas e podem tornar-se a vivacidade feliz de uma festa miniatural. Mais do que as palavras, o que resta é o espaço que resta entre os vocábulos no branco da página. A linguagem é uma página de sinais esquecidos. Depois de todas as imagens, depois da última palavra, permanece o amor frágil de uma imagem suspensa, como que interdita sobre a aresta de um obstáculo. É a imagem que se apaga, que se perde, e no entanto caminha para o desconhecido e ganha o sombrio fulgor da palavra transfigurada.
Verde a Lentidão
Verde A lentidão
da curva
A anca surge branca
A forma vive na folhagem o seu dia
Nuvem cintilante ou forma
sobre forma
Surpresa dita ou por dizer
um outro sempre
É preciso cingi-lo
inventar-lhe os limites
à superfície branca
Aqui quando se diz
Ignorância do Caminho
Ignoro o caminho, a mais pura ciência de viver. Não importa já a razão dominadora com o seu cerco que expulsa o silêncio e disseca o próprio ar que se respira. A palavra só existe em função da realidade que cria e à qual se furta. A palavra viva é a impossível nudez do corpo, a lâmpada do silêncio, o retorno ao aqui. Estar aqui, voltar aqui é recomeçar o começo, é começar o que ainda e sempre está por começar. Todas as palavras são pedras de um exílio e todas nos abrem os lábios da ferida. Todo o vocábulo é nascimento e morte. O branco é cúmplice do exílio e do milagre da linguagem. Nenhuma sombra poderia respirar se não fosse a ficção nula da brancura da página. A página acende o obscuro sangue de uma lâmpada, de um corpo ou de um silêncio, e logo o apaga para reavivar a mesma chama de silêncio, a própria língua do corpo.
A Diferença Desejada, a Página Prometida
Como que uma obrigação de renascer, de respirar. Algures, aqui, além, a sombra da frescura…
Tu escreves, percorres a igualdade da página, a sua inenarrável brancura. Qual a experiência que em parte se dissimula, oculta pelo visível-invisível véu da superfície insondavelmente branca?
Um animal de luz, um animal de sombra?
Tu não podes dizer ainda o teu nome. Tens de defender-te pelo risco, pela audácia, pela minuciosa avaliação que te conduzirá à diferença desejada, à página prometida.
O arco de aliança não é o arco de amanhã. Desviaste-te da estrada principal e procuras a disseminação do solo onde todos os caminhos conduzem aos caminhos que se perdem.
Essa, a tua perda, o teu risco, a possibilidade do renovo.
Há um tremor nas tuas mãos, és tu que tremes, não as palavras como fugidios desenhos, como lábios de uma ferida viva.
As palavras são sempre demasiado rígidas ou fluidas. O traço nunca é diáfano ou transparente.
Escreve-se sempre com as mãos nuas mas a nudez e a transparência da página é que permitem a penetração no obscuro, a revelação do invisível.
Quando todos os vocábulos são de água e de ar e terra e fogo…
O Poder E o Fazer da Linguagem
O caminho surgirá na página, um caminho há-de surgir talvez, um caminho durável, um caminho fugaz. As palavras fogem ao pensamento e ao dito, abrem um caminho no escuro. O verbo é sempre inaugural, porque desagrega e se desagrega, porque (re)começa sempre de dúvida em dúvida, de ferida em ferida, de interrogação em interrogação. Os vocábulos vivos são os que se ligam ao vazio, às margens, à ausência, ao silêncio. A linguagem da sombra e do fogo, da água e das ervas, da luz e da terra, é uma música despojada, quase inaudível. As palavras perdem o sentido da generalidade e do conceito, caminham no obscuro para encontrarem a vitalidade dos vocábulos. Assim, encontram o seu verdadeiro corpo de sangue e sombra. É o princípio do mundo, uma reconquista do outro no nulo, do um no outro. As palavras vão ao encontro das palavras para descobrirem os vértices da intensidade, as superfícies das diferenças puras. Este é o tempo da criação (des)contínua, o tempo da palavra que inaugura a palavra. Não há nada a dizer, tudo está dito e por isso tudo está por dizer. A palavra escava continuamente o sentido, estabelece o espaço do silêncio, desmorona as significações, provoca abalos sísmicos na linguagem. A escrita é uma estrela em perpétua deflagração.
Matéria Incerta
Em contacto com Matéria ardente
sem visíveis margens Nenhum lugar
ou objecto Cegueira
quase
*
No papel a opacidade é branca
*
Respiro esta matéria
agora fria agora mais ardente
*
Mas o lugar é impensável
nada que possa suscitar uma perspectiva
nem um plano imediatamente presente
*
Mas há o odor do mar Um cheiro a força
e a mão como se estende dilata-se no papel
*
Intensidades breves sem um arco
Vida sem visão autónoma Vazio sem teia
*
É um trabalho incerto reunir estes sinais
*
Estas palavras serão talvez o indício ou o início
das figuras mais frescas da manhã
Origem
É preciso queimar os livros e calarmo-nos
Esta é a matéria bárbara a matéria viscosa
Aqui a vida conduz a uma ruptura
a mão procura a suavidade firme
tacteia e segue as suas linhas de força as primícias de um acorde
Fascinante ameaça
veneno que oculta vida nova
uma seiva já
um sabor dos gestos que tremem e que sabem
A palavra mais viva é a mais inesperada é a palavra nua
Eis o domínio interdito e obscuro
impenetrável
balbuciante memória do que não é a memória
luz que irriga as coisas em vez de as iluminar
sinal de uma madrugada de uma irradiação múltipla
Aqui começará o meu ritmo a minha melodia
Respiro já pela garganta do poema
Deixamos a segurança e a certeza
ante o arco da única pergunta
Somos a ruptura e o fluxo na falha
e subimos talvez para
a vertente de um silêncio que ascende constelado
Subversiva é a respiração desta palavra
surpresa de um ritmo e de um espaço
numa terra sem caminho
É um fogo líquido que abrasa este trajecto
Uma fé muscular uma fé lúcida
faz latir estas palavras subterrâneas
Para chegar às palavras que dão vida
Por um desenlace uma inconfessável evidência
Uma plenitude? Uma luz? Uma pobreza?
Numa terra queimada as crianças que brincam na poeira
olham deslumbradas uma palheta de mica
Pára detém-te junto deste muro arruinado
perto de uma pedra Palpa o grão de luz
segregada Toca nessa crepitação porosa
Modela na origem a matéria dos sinais
Escreve mas para dissipar o que está escrito
Ruptura/Continuidade
Cansei-me não das palavras, nem da vida, cansei-me. Cansei-me da linguagem, não do real. Cansei-me da realidade, não da linguagem. Nunca me cansei, nunca pude cansar-me na (da) realidade. Impossível ter-me cansado se nunca caminhei sobre a língua, sobre a lande, sobre a glande. Que digo eu, que diz a linguagem? Diz a língua urgente, a beleza urgente a pique, a orientação viva? Que é o poema, que é a língua? Perguntas só por perguntar ou porque não há respostas, não há caminho, não há cama, não há coma? O que há é linguagem, é a visão de um ininteligível fragmento do real. Tu viajaste. Nunca saíste do teu quarto. Nunca viajaste no teu quarto. Ignoras o espaço, o eros do espaço. Ignoras o espaço. A linguagem apresenta-te, representa-te a árvore, a pedra, a água, o linho e a seda de um corpo, o rictus da máscara, o ritmo do real inatingível. A linguagem é um corpo vivo, mas também é eloquência, grandiloquência, verbo inflado, empolamento de útero sem nascimento, válvula de hemorragias. Cansaste-te não do sémen nem da disseminação (da utopia) da linguagem, mas das suas versões eloquentes, demasiado belas para poderem corresponder ao (quase) imperceptível murmúrio da realidade? A realidade é linguagem, a linguagem é realidade? Porque te emaranhas nos círculos do inferno cerebral? Não é a realidade que procuras, a realidade natural, a realidade animal, a realidade sensual? Sai, se puderes, deste poema vicioso, abre a janela (abre-a, se puderes) abre e respira. Respira a linguagem (do real), respira o poema (real), não, não podes respirar sem a linguagem, não podes abrir a janela sem romperes o cordão que te liga ao umbigo deste poema fétido que se cerra e que se abre mas que não é como uma pálpebra nem como um lábio, que não é nada, nada, nada, pois nem é um grito, nem uma gruta, nem uma trave, nem uma pedra. A linguagem desdiz tudo o que diz e desdizendo diz. É preciso apagar este poema, enterrá-lo na areia como um animal e que dele reste só a areia redemoinhando acima do focinho que tenta a sufocada respiração. Acima da respiração. A linguagem que respira é o verbo da erva, a palavra verde que murmura e nada diz se diz o nada, o imperceptível sorriso das coisas que não choraram, a alacridade eterna ( efémera) de uma chama, de um espaço, de um corpo.
Cópia de parte da narrativa «a Vadim», datilografado, s/d. "... . Adormeci e sonhei que me encontrava no meio de um canavial, à beira de um regato, embalado pelos oscilantes rumores da folhagem e das águas. De súbito, uma mulher nua, opulenta mas elegante (...) graciosa, surgiu de entre a espessura do canavial e continuou a atravessá-lo até à beira do regato, em cujas águas transparentes mergulhou o corpo deslumbrante. Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo dum paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...)
António Ramos Rosa, verdadeiramente, não fez do desenho atividade diária. O dia do poeta começava cedo e por reler os poemas do dia anterior. Sempre cheio de incertezas quanto à sua qualidade. Socorria-se do telefone e falava sobre os seus escritos, sempre perguntando sobre este ou aquele conteúdo. Quando recebia, o elogio, ouvia-se um som especialíssimo. Mas somente questionava mulheres, algumas, em trabalho de teses sobre António Ramos Rosa. Embora fosse uma pessoa sensível (embora em situações públicas, por vezes impaciente e nervoso) algumas "alunas" impacientavam-se e sofria por não o atenderem. Ora os seus desenhos, sempre de figuras femininas, só no outono da vida, e isto, para oferecer a quem o visitava.
António Ramos Rosa, - até prova, - não trabalhou no comércio.
Conheci, pessoalmente, António Ramos Rosa, um homem tímido, mas que surpreendia, que ao dentista desdenhoso respondeu "estar tão nervoso como quando lhe disseram que fora proposto para Prémio Nobel ou quando o empregado do café não o deixava entrar dado o vestuário pobre. Sim, considerava-se "diferente", "anómalo", "inferior". Mais tarde descobriu que era condição humana, pela contingência de cada ser "um mundo"; uma "composição", onde cada constitui a individualidade irredutível que resulta da organização da pessoa no mundo. "A consciência da minha separação provinha da minha ferida, que era para mim uma irremediável singularidade". Até que a individualidade lhe aparece como "resolução da diversidade do mundo" ... "embora conserve a sua singularidade abissal" ... . Conquistei, assim, a minha liberdade, a minha voz ganhou timbre de neutralidade do mundo em que eu me inseria e que era a minha composição pessoal, mas também transpessoal, do mundo" (...), Cf. doc. dact. "A COMPOSIÇÃO DOS MUNDOS"; manuscrito "A Vadim muito afectuosamente", s/d.
António ramos ??. Somente reescrever um nome de altiloquência literária me confere armas para eu próprio me precaver contra a ignorância que sou face ao Mundo que me inunda