A Esperança do Livro
Como um painel, soerguendo-se da névoa marinha, um busto vermelho, carcomido, a boca hiante, de um mistério vazio. A meus pés, um exército de formigas negras procura, num árido frenesim, o caminho para a pedra. A orla branca de espuma, as vagas que rolam violentas, impedem o acesso do negro exército de insectos.
Quem poderá escutar da boca daquela divindade algo para além da sua mudez de morte? O seu frio eco trespassa-me de horror, a distância perdida torna-se fúnebre. As máscaras encobrem em vão o inexorável.
«Onde está a esperança?» alguém grita ou seria apenas o amplo espaço que flamejara? Era um esplendor cruel e o grito, se alguém o gritara, logo fora varrido pela força do vento. Alguém no entanto gritara: «Não feches o livro.» Respondi: «Virei todas as páginas sem encontrar a esperança.» A voz pronunciara ainda algumas palavras de um além da bruma: «A esperança é talvez o livro.»
Cansara-me de fitar a carcaça de pedra vermelha, olhos e boca abertos por onde entravam o sol e a água. A tenacidade da ruína muda aterrorizava-me. Mas além da bruma eu ouvia a voz de uma possível esperança. Era preciso atravessar a inexorável claridade e procurar na tarde a merenda que me desse o alento para prolongar o livro. As folhas escritas pesavam sobre o dorso direito; as folhas brancas curvavam o ombro esquerdo. Desejava libertar-me das primeiras, como de um fardo, mas as outras, na vertigem do possível, tornam a marcha ébria, de um vagabundo prenhe do murmúrio de todas as palavras que um dia seriam o Livro, que já o eram no passo ligeiro em que caminhava através da bruma.
A Palavra Transfigurada
Como incendiar a página com uma linguagem nua e frágil? Nada se escreve sem terror perante o inerte e a plenitude de uma linguagem vã. As folhas fatigam-se, envelhecem, e o bolor é o futuro condenado de todos os vocábulos. Como penetrar nos interstícios do invisível e aí buscar a libertação soberana de uma linguagem fulgurante? A criação é uma destruição em que os gritos e os murmúrios de uma insondável agonia são sufocados na garganta das palavras. Como libertar a palavra da passiva escravidão da morte? O que nos liga é o que nos liberta: a sede de um lugar livre sem o peso da servidão e dos discursos. Se cada palavra é o limiar de um deserto, como incendiar os grãos de areia para construir a casa de fogo que é o poema? Serão as palavras sombras sobre um invisível muro? Os vocábulos imitam as pedras e as estrelas e podem tornar-se a vivacidade feliz de uma festa miniatural. Mais do que as palavras, o que resta é o espaço que resta entre os vocábulos no branco da página. A linguagem é uma página de sinais esquecidos. Depois de todas as imagens, depois da última palavra, permanece o amor frágil de uma imagem suspensa, como que interdita sobre a aresta de um obstáculo. É a imagem que se apaga, que se perde, e no entanto caminha para o desconhecido e ganha o sombrio fulgor da palavra transfigurada.
A Superfície da Página
Seule l’écriture maintient le regard de
l’écrivain à la surface.
EDMOND JABÈS
Escrevo com estas moedas que nada simbolizam e que se elevam e avançam na superfície lisa da página, no dorso ondulante do deserto. É esta superfície que me tenta, como se uma escrita de água percorresse o deserto em cada sílaba, como se em cada letra deflagrasse o escuro sol da sombra. Escrevo sem acreditar, escrevo, isto é, vou de sombra em sombra, apago-me e apago a ordem do discurso, as peremptórias leis dos homens. Há uma palavra que viaja no mar, há uma palavra viva no espaço, no rumor da vida, no silêncio inominável das coisas. Essa palavra não está longe de nenhuma palavra, todas as palavras se dirigem para ela, todas elas morrem e estremecem por essa única palavra que povoa os espaços e os vocábulos. O sol e o mar, os animais, as estrelas, a luz e a noite, tudo se contém, freme e adeja como se na página um pássaro de vento de súbito surgisse, visível, invisível, vivo e apagado como uma sombra branca. Entre as margens e os intervalos das linhas gera-se uma comunicação e é o branco que raia num sentido ou as sombras de súbito se encontram e resplandecem. Este fogo, esta luz, esta pulsação animal, esta sombra fulgurante são a própria substância escrita mas igualmente o segredo incomunicável, a palpitação única de um lábio materno, de uma vegetação elementar, de uma terra secreta e original. Eis que sinto a vida nova dos vocábulos, a sua vocação vocálica, a sua alma livre, a sua orientação seminal. São os vocábulos que perpassam sobre os abismos brancos e as espirais da loucura, são eles que, nas suas volutas, na sua corrente vivaz e obstinada abrem um caminho e criam a possibilidade da infinita palavra impossível.
O Caminho Errante
Talvez uma palavra… Sobre esta sombra nua e ofuscante. Escrevo. Talvez uma sombra, uma única sombra. Detenho-me… A visão desfoca-se, uma avidez hirta apossa-se da visão branca, perplexa, paralisante… Que sei eu demais para que a água não trabalhe o pulso, a água, o sangue, o ritmo do dia, a pulsação da noite? Quero respirar porque tu respiras ou porque sufocas, quero respirar por ti em cada palavra e cada palavra é fria e clara sem a respiração do caminho, sem o sopro obscuro. Não quero nem posso desistir, porque talvez, talvez os vocábulos de súbito se obscureçam e cada um deles fulgure com o fôlego da noite e da linguagem perdida. Detém-te mas não desistas. Como poderias desistir? Haverá algum apelo mais obstinado do que o da palavra nua que ainda não se ouviu e, ouvida, será sempre inaudita? Este — este?… — será o percurso mais sombrio e fresco onde todas as manchas serão máculas de um nocturno sangue, sangue que ainda não pulsou, que ainda não ascendeu, que está preso na parede negra do teu e do meu corpo. As palavras percorrem um caminho errante e cada uma é um muro e uma porta que se abre para outro muro e para uma outra porta. Eis que as palavras me inundam de sombras e são lâmpadas e lábios e sempre muros, sempre sombras que transportam um impossível desejo, o ardor do contacto original, da primeira febre e da primeira manhã. Que escreves? Estes primeiros lábios que se acendem de novo, estes lábios antigos, lábios já descritos em todos os livros ou no único Livro, lábios de mil leitores mas não do primeiro e do último leitor, o único de sempre, o único que vem restabelecer o circuito vivo e é a promessa constante destes vocábulos com que respiro de ferida em ferida, de pedra em pedra, de muro em muro, de porta em porta.
Ei-La Despida Ou
Ei-la despida ou
dir-se-ia a altura de uma nuvem
a árvore seria densa espada
A expressão é forte
é ela própria o que diz
e mais forte ainda quando
se implanta no músculo
por onde
O vento é a inteligência libertada
E agora a árvore se adensa
no músculo
para que o acto da forma seja intenso
Descida Oblíqua Leve
Descida oblíqua leve
iluminação do corpo
Inclinas-te
para o ângulo direito fascinante
os traços negros
incendeiam-se
e algo se estende algo se ilumina
O Poder E o Fazer da Linguagem
O caminho surgirá na página, um caminho há-de surgir talvez, um caminho durável, um caminho fugaz. As palavras fogem ao pensamento e ao dito, abrem um caminho no escuro. O verbo é sempre inaugural, porque desagrega e se desagrega, porque (re)começa sempre de dúvida em dúvida, de ferida em ferida, de interrogação em interrogação. Os vocábulos vivos são os que se ligam ao vazio, às margens, à ausência, ao silêncio. A linguagem da sombra e do fogo, da água e das ervas, da luz e da terra, é uma música despojada, quase inaudível. As palavras perdem o sentido da generalidade e do conceito, caminham no obscuro para encontrarem a vitalidade dos vocábulos. Assim, encontram o seu verdadeiro corpo de sangue e sombra. É o princípio do mundo, uma reconquista do outro no nulo, do um no outro. As palavras vão ao encontro das palavras para descobrirem os vértices da intensidade, as superfícies das diferenças puras. Este é o tempo da criação (des)contínua, o tempo da palavra que inaugura a palavra. Não há nada a dizer, tudo está dito e por isso tudo está por dizer. A palavra escava continuamente o sentido, estabelece o espaço do silêncio, desmorona as significações, provoca abalos sísmicos na linguagem. A escrita é uma estrela em perpétua deflagração.
O Duelo de Um Braço
O duelo de um braço
lutando pelo contrário
no seu duplo ou duo
branco ou negro ou negro e branco
forma do obscuro
e nu
e nulo
Mais Raso
Mais raso
onde não é aqui
e o que vibra apenas vibra
ou nada vibra
quase ou já o limiar
incessante
que requer o limite ou o obstáculo
contra o grito
Aqui quando se diz
aqui
o desejo e o espaço
a palavra limite e não limite
do vazio
Ruptura/Continuidade
Cansei-me não das palavras, nem da vida, cansei-me. Cansei-me da linguagem, não do real. Cansei-me da realidade, não da linguagem. Nunca me cansei, nunca pude cansar-me na (da) realidade. Impossível ter-me cansado se nunca caminhei sobre a língua, sobre a lande, sobre a glande. Que digo eu, que diz a linguagem? Diz a língua urgente, a beleza urgente a pique, a orientação viva? Que é o poema, que é a língua? Perguntas só por perguntar ou porque não há respostas, não há caminho, não há cama, não há coma? O que há é linguagem, é a visão de um ininteligível fragmento do real. Tu viajaste. Nunca saíste do teu quarto. Nunca viajaste no teu quarto. Ignoras o espaço, o eros do espaço. Ignoras o espaço. A linguagem apresenta-te, representa-te a árvore, a pedra, a água, o linho e a seda de um corpo, o rictus da máscara, o ritmo do real inatingível. A linguagem é um corpo vivo, mas também é eloquência, grandiloquência, verbo inflado, empolamento de útero sem nascimento, válvula de hemorragias. Cansaste-te não do sémen nem da disseminação (da utopia) da linguagem, mas das suas versões eloquentes, demasiado belas para poderem corresponder ao (quase) imperceptível murmúrio da realidade? A realidade é linguagem, a linguagem é realidade? Porque te emaranhas nos círculos do inferno cerebral? Não é a realidade que procuras, a realidade natural, a realidade animal, a realidade sensual? Sai, se puderes, deste poema vicioso, abre a janela (abre-a, se puderes) abre e respira. Respira a linguagem (do real), respira o poema (real), não, não podes respirar sem a linguagem, não podes abrir a janela sem romperes o cordão que te liga ao umbigo deste poema fétido que se cerra e que se abre mas que não é como uma pálpebra nem como um lábio, que não é nada, nada, nada, pois nem é um grito, nem uma gruta, nem uma trave, nem uma pedra. A linguagem desdiz tudo o que diz e desdizendo diz. É preciso apagar este poema, enterrá-lo na areia como um animal e que dele reste só a areia redemoinhando acima do focinho que tenta a sufocada respiração. Acima da respiração. A linguagem que respira é o verbo da erva, a palavra verde que murmura e nada diz se diz o nada, o imperceptível sorriso das coisas que não choraram, a alacridade eterna ( efémera) de uma chama, de um espaço, de um corpo.
Cópia de parte da narrativa «a Vadim», datilografado, s/d. "... . Adormeci e sonhei que me encontrava no meio de um canavial, à beira de um regato, embalado pelos oscilantes rumores da folhagem e das águas. De súbito, uma mulher nua, opulenta mas elegante (...) graciosa, surgiu de entre a espessura do canavial e continuou a atravessá-lo até à beira do regato, em cujas águas transparentes mergulhou o corpo deslumbrante. Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo dum paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...)
António Ramos Rosa, verdadeiramente, não fez do desenho atividade diária. O dia do poeta começava cedo e por reler os poemas do dia anterior. Sempre cheio de incertezas quanto à sua qualidade. Socorria-se do telefone e falava sobre os seus escritos, sempre perguntando sobre este ou aquele conteúdo. Quando recebia, o elogio, ouvia-se um som especialíssimo. Mas somente questionava mulheres, algumas, em trabalho de teses sobre António Ramos Rosa. Embora fosse uma pessoa sensível (embora em situações públicas, por vezes impaciente e nervoso) algumas "alunas" impacientavam-se e sofria por não o atenderem. Ora os seus desenhos, sempre de figuras femininas, só no outono da vida, e isto, para oferecer a quem o visitava.
António Ramos Rosa, - até prova, - não trabalhou no comércio.
Conheci, pessoalmente, António Ramos Rosa, um homem tímido, mas que surpreendia, que ao dentista desdenhoso respondeu "estar tão nervoso como quando lhe disseram que fora proposto para Prémio Nobel ou quando o empregado do café não o deixava entrar dado o vestuário pobre. Sim, considerava-se "diferente", "anómalo", "inferior". Mais tarde descobriu que era condição humana, pela contingência de cada ser "um mundo"; uma "composição", onde cada constitui a individualidade irredutível que resulta da organização da pessoa no mundo. "A consciência da minha separação provinha da minha ferida, que era para mim uma irremediável singularidade". Até que a individualidade lhe aparece como "resolução da diversidade do mundo" ... "embora conserve a sua singularidade abissal" ... . Conquistei, assim, a minha liberdade, a minha voz ganhou timbre de neutralidade do mundo em que eu me inseria e que era a minha composição pessoal, mas também transpessoal, do mundo" (...), Cf. doc. dact. "A COMPOSIÇÃO DOS MUNDOS"; manuscrito "A Vadim muito afectuosamente", s/d.
António ramos ??. Somente reescrever um nome de altiloquência literária me confere armas para eu próprio me precaver contra a ignorância que sou face ao Mundo que me inunda