Momento
Tudo está imóvel na luz: nada indica
uma passagem possível e imediata, o ar
não promove o caminho, o brilho do papel
não sugere a palavra ou o estilo cintilante,
a fidelidade do fogo, os matizes do canto.
Nada que irrompa de um seio e se estenda num aroma.
Mas que urgência volúvel nasce na espessura da sombra!
Para que as linhas de força se transformem em palavras,
para que o estranho se ligue ao simples e o abolido ao pleno.
A maneira como a árvore se inclina, o sol que a atravessa
no seu móvel fulgor, são os estímulos de uma mudança
ou um princípio ardente e claro entre o papel e o corpo.
A claridade vibra no rigor do solo e nas sílabas definidas
e uns lábios latem ainda entre sombrios cães.
A felicidade liberta-se por fim nas grandes superfícies.
Um Rosto Ou Uma Folha
É um rosto ou uma folha com um hálito de sangue.
Nas têmporas as teclas tenazes do excesso.
Como unir um desígnio claro a um gesto obscuro?
Uma haste toca a narina do monstro fluvial.
Ergue-se nas paredes um vulto de reflexos e de sombras,
é cada vez mais noite e a sombra mais profunda
e a noite com as suas pontes os seus mastros corre silenciosa
e o deus da noite é um óleo errante entre músculos feridos.
E é um rosto ou uma folha ou uma folha que é um rosto
no instante em que a luz regressa à sua fonte.
E a noite amadurece com o mar numa aliança imóvel.
Presente
Neste círculo de pedras simplifica-se a ausência.
Eclipse na cabeça onde germina o branco.
Abolição no presente, soberania do gérmen
que dorme acordado entre o todo e o nada.
Quem não tem nome é um filho do vento
mais perto do enigma do ar e da distância.
O nada em pleno rosto volve-se o instante azul.
O fundo inacessível torna-se a superfície.
O inominado ilumina-se nos seus sombrios flancos.
O inerte mutismo vibra no silêncio que é o vento.
O Movimento do Dia
Assim prolongo a paisagem e as suas pistas cálidas.
Defendo o meu peito árido com a gramática do sono.
Penetro no seio do esplendor e nas fendas de argila.
Que temeridade, que confiança no movimento do dia!
O horizonte corre à velocidade de um rio.
Os sinais são azuis ou rosa, amarelos ou fulvos.
Na fluidez vagarosa vejo as áreas deslumbradas
de um reino táctil anterior à palavra.
Colho um resto de frescura entre a poeira e a água
e alguns calhaus esparsos que irradiam na areia.
Nada desvendei: tudo é liso e tudo é vago.
Trago nas mãos o odor a pedra e a orvalho.
O Losango da Pureza
Imagino na pedra o losango da pureza
e o turbilhão fixado na leveza de uns traços.
A subtil gazela detém-se numa pausa,
cúmplice de um insecto e de uma chuva florida.
Gracioso é o fogo do arbusto que cintila
e adormece entre anjos e formigas.
Ágil seda e já sopro diurno
do pleno espaço puro, na trama verde,
o corpo é língua harmoniosa e sombra nítida.
Um canto branco, mas um hálito, uma noção
nua para um destino de asa ou para um sonho
que fosse a ordem límpida de um teatro
ou a imóvel geometria de um relâmpago.
O Corpo Inacessível
Cabeça adormecida iluminada nas varandas,
completa sonhadora do mar e dos caminhos,
mescla os troncos nas ladeiras dos bosques,
multiplica-se nos ramos como uma cigarra obstinada.
Dorme mas caminha em perspectivas coerentes
embora errantes: e separadas por um vazio silencioso.
Sente a alegria sempre incerta
de uma futura floração branca.
Tudo o que não é nomeado no limiar dos olhos
é o imenso fundo em que crepita rápida.
Ela não evita o tumulto e a abundância dos vocábulos,
os ecos e a dança, a fúria, os acordes e a graça.
Ela procura o ponto de equilíbrio, a equivalência
da nudez profunda. No centro de si mesma um animal
que se estende em transparente oval
vibra e desaparece desenhando um rastro
inextricável. Mas um olhar arbitrário penetra
através das frestas o corpo seminu.
No limbo ainda verde, numa respiração pausada,
ela confunde-se com a hera e a silenciosa música.
Terra
Terra verde e ensanguentada
e negra sob as folhas,
quero pintar o teu sono, a espádua nua
que estremece entre as árvores e a espuma obscura.
Desço aos teus húmidos patamares,
às clareiras onde a paz da seiva é o ignorado.
Bebo perto da tua sede
a água incerta e fresca da primeira manhã.
Toco as tuas espigas verdes e pesadas
e um seio inchado pelo fluxo da sombra.
Escorrem delgadas línguas entre ciprestes,
cabeleiras amarelas entre braços.
Ouço o fundo clamor das entranhas vermelhas
e os suspiros tíbios de um corpo juvenil.
Um sossegado barco preso a uma muralha
diz o vazio verde e o seu cego rumor.
Terra, quantos latidos, quantos metais furiosos,
quantas vacilações, quantos volumes densos!
Crispada a mão quer afagar as tuas ancas,
o teu púbis violento e fulgurante.
Ó generoso corpo que te curvas a um vento cálido
e voas como pólen à deliciosa superfície,
que estas palavras sejam papel, areia ou lua,
mas que sejam também as coxas negras
e o teu ventre escuro de soberana mãe.
As Palavras
Compreendo lentamente a voracidade branca
das palavras. Que ardam e ondulem como carícias nuas,
que o pulso as articule às árvores, que se arredondem
até à inteligência de uma visão sem febre,
que tragam a distância para a mesa e adormeçam
em sossegadas virilhas. Que procurem
as plácidas clareiras onde a ignorância de ser
é a aliança. Palavras que não interrompem
e seguem a fluência de que nascem.
Matéria fiel ao fundo com estrelas rápidas,
cintilações de seixos minúsculos, clarões suaves
e a folhagem entre as pedras, a música no ombro.
Entreabertas entre os espelhos e os reflexos de astros,
as palavras buscam a consistência da terra
e toda a revolta feliz do vento que recomeça.
As Imagens
Sucedem-se sem coincidirem entre silêncios
e simultâneas vencem o inexplicável vazio.
Cada uma inteira com um gesto inicial.
Novas e limpas embriagam e despertam.
Não são ilhas. Trazem o vento completo.
Serei algum dia parte desta plenitude?
Sou já o amor da terra nestas vértebras.
As sílabas afluem como se um deus dormisse.
Tudo pertence às árvores, a uma frescura louca.
A exacta realidade é a mais viva fábula.
As imagens estremecem magníficas, errantes.
Uma linha trémula separa o rosa do cinzento.
Alguns vocábulos tenazes: vértebras, estrelas.
Uma segurança no incerto, um brilho no obscuro.
A mão vegetal toca a rosa libertada.
Quantas nascentes, quantas portas livres!
Na Colina
Apenas margem e talvez lua, um torso que resvala
pela colina que amanhece numa neblina azul.
A figura recorta-se colorida no silêncio como uma melodia.
É ténue como uma moeda e como um halo entre os arbustos.
Musical na polpa terna das palavras, madeira, vinho.
Quase se desagrega sobre o rio tremulando como poeira.
Sob nomes disseminados recolhe a corola do vazio.
Interroga a chama onde ela é verde, onde ela se perde.
A sua boca desaparece na luz silenciosa.
O desejo apazigua-se entre as abelhas da folhagem.
Cópia de parte da narrativa «a Vadim», datilografado, s/d. "... . Adormeci e sonhei que me encontrava no meio de um canavial, à beira de um regato, embalado pelos oscilantes rumores da folhagem e das águas. De súbito, uma mulher nua, opulenta mas elegante (...) graciosa, surgiu de entre a espessura do canavial e continuou a atravessá-lo até à beira do regato, em cujas águas transparentes mergulhou o corpo deslumbrante. Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo dum paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...)
António Ramos Rosa, verdadeiramente, não fez do desenho atividade diária. O dia do poeta começava cedo e por reler os poemas do dia anterior. Sempre cheio de incertezas quanto à sua qualidade. Socorria-se do telefone e falava sobre os seus escritos, sempre perguntando sobre este ou aquele conteúdo. Quando recebia, o elogio, ouvia-se um som especialíssimo. Mas somente questionava mulheres, algumas, em trabalho de teses sobre António Ramos Rosa. Embora fosse uma pessoa sensível (embora em situações públicas, por vezes impaciente e nervoso) algumas "alunas" impacientavam-se e sofria por não o atenderem. Ora os seus desenhos, sempre de figuras femininas, só no outono da vida, e isto, para oferecer a quem o visitava.
António Ramos Rosa, - até prova, - não trabalhou no comércio.
Conheci, pessoalmente, António Ramos Rosa, um homem tímido, mas que surpreendia, que ao dentista desdenhoso respondeu "estar tão nervoso como quando lhe disseram que fora proposto para Prémio Nobel ou quando o empregado do café não o deixava entrar dado o vestuário pobre. Sim, considerava-se "diferente", "anómalo", "inferior". Mais tarde descobriu que era condição humana, pela contingência de cada ser "um mundo"; uma "composição", onde cada constitui a individualidade irredutível que resulta da organização da pessoa no mundo. "A consciência da minha separação provinha da minha ferida, que era para mim uma irremediável singularidade". Até que a individualidade lhe aparece como "resolução da diversidade do mundo" ... "embora conserve a sua singularidade abissal" ... . Conquistei, assim, a minha liberdade, a minha voz ganhou timbre de neutralidade do mundo em que eu me inseria e que era a minha composição pessoal, mas também transpessoal, do mundo" (...), Cf. doc. dact. "A COMPOSIÇÃO DOS MUNDOS"; manuscrito "A Vadim muito afectuosamente", s/d.
António ramos ??. Somente reescrever um nome de altiloquência literária me confere armas para eu próprio me precaver contra a ignorância que sou face ao Mundo que me inunda