António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

1924–2013 · viveu 88 anos PT PT

António Ramos Rosa foi um dos mais influentes poetas portugueses do século XX, conhecido pela sua poesia densa, reflexiva e profundamente ligada à condição humana e à linguagem. A sua obra é marcada por uma busca constante pela expressão autêntica, explorando temas como a existência, a morte, o tempo e a própria poesia. A sua escrita evoluiu ao longo de décadas, mantendo uma coerência temática e estilística, mas sempre aberta a novas explorações formais e lexicais. É considerado um pilar da poesia contemporânea em língua portuguesa.

n. 1924-10-17, Faro · m. 2013-09-23, Lisboa

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Não Posso Adiar o Amor Para Outro Século

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração
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Biografia

Identificação e contexto básico

António Ramos Rosa, nome completo António Ramos Rosa, nasceu em 1924 e faleceu em 2013. Foi um poeta, ensaísta e crítico literário português. Residia em Lisboa. Era conhecido pela sua nacionalidade portuguesa e por escrever em língua portuguesa. O contexto histórico em que viveu foi marcado por profundas transformações sociais, políticas e culturais em Portugal e no mundo, incluindo a ditadura salazarista e a transição para a democracia.

Infância e formação

Passou a infância e adolescência em Lourenço Marques (atual Maputo), Moçambique, onde o pai era funcionário público. Esta experiência africana marcou profundamente a sua sensibilidade e a sua obra, introduzindo elementos de exotismo e uma perspetiva singular sobre a identidade e o exílio. A sua formação inicial ocorreu em Moçambique, mas regressou a Portugal para prosseguir os seus estudos universitários em Coimbra, onde frequentou Direito e Letras.

Percurso literário

O início da sua atividade literária remonta à década de 1940. A sua obra poética publicou-se a partir de 1950, com "O Grito Amargo". Ao longo da sua carreira, a sua poesia atravessou diferentes fases, mas manteve uma linha de investigação profunda sobre a linguagem e a existência. Foi um ativo colaborador em diversas publicações literárias, como a revista "Távola Redonda", e desenvolveu uma importante atividade como crítico literário e tradutor.

Obra, estilo e características literárias

Entre as suas obras mais importantes destacam-se "O Grito Amargo" (1950), "Viagem Através duma Neblina" (1960), "A Nuvem" (1962), "Ocupação do Espaço" (1963) e "A Dança Inicial" (1968). Os temas dominantes na sua poesia incluem a angústia existencial, a passagem do tempo, a morte, a busca pela identidade e a reflexão sobre a própria linguagem. Ramos Rosa explorou diversas formas poéticas, transitando entre o verso livre e estruturas mais elaboradas, com um uso marcante da metáfora e de um ritmo denso e reflexivo. A sua voz poética é frequentemente confessional e introspectiva, mas com uma dimensão universal. O seu estilo é caracterizado por um vocabulário rico, imagética poderosa e uma linguagem precisa e interrogativa. É associado ao movimento neorrealista e, posteriormente, a uma linha de modernismo mais pessoal e reflexiva.

Contexto cultural e histórico

António Ramos Rosa viveu sob a ditadura salazarista, o que influenciou a sua obra com um tom de resistência e crítica, embora muitas vezes de forma subtil e centrada na liberdade interior e na linguagem. Foi uma figura central na vida cultural portuguesa, mantendo relações com outros escritores e intelectuais da sua geração, embora mantivesse uma postura muitas vezes solitária e de profunda reflexão.

Vida pessoal

As suas experiências em Moçambique e o regresso a Portugal moldaram a sua visão do mundo e da identidade. Manteve relações próximas com outros poetas e intelectuais, participando ativamente nos debates culturais da época. A sua vida foi marcada por uma dedicação intensa à poesia e à reflexão, sendo um intelectual respeitado e admirado.

Reconhecimento e receção

António Ramos Rosa é amplamente reconhecido como um dos grandes poetas portugueses contemporâneos, com um lugar de destaque na literatura nacional. Recebeu diversos prémios e distinções ao longo da sua carreira, sendo a sua obra objeto de estudo académico e de grande apreço entre leitores e críticos.

Influências e legado

Foi influenciado por poetas como Fernando Pessoa, Walt Whitman e pela poesia simbolista. O seu legado estende-se a várias gerações de poetas que encontraram na sua obra uma referência de rigor, profundidade e inovação. A sua poesia continua a ser estudada e a inspirar novos criadores em Portugal e no mundo lusófono.

Interpretação e análise crítica

A obra de Ramos Rosa é frequentemente interpretada como uma profunda meditação sobre a condição humana, a fragilidade da existência e a complexidade da linguagem como ferramenta para apreender o real. As suas reflexões existenciais e filosóficas convidam a uma análise profunda sobre o sentido da vida e da arte.

Curiosidades e aspetos menos conhecidos

Uma curiosidade é a sua ligação inicial a Moçambique, que lhe proporcionou uma perspetiva única sobre a realidade africana e a identidade colonial. Os seus hábitos de escrita eram marcados pela disciplina e pela dedicação, procurando sempre a palavra exata e a expressão mais autêntica.

Morte e memória

António Ramos Rosa faleceu em 2013. A sua memória é preservada através da sua vasta obra, que continua a ser publicada, estudada e admirada, consolidando o seu lugar como um dos vultos maiores da poesia em língua portuguesa.

Poemas

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55. Terra Não Só do Olhar Mas da Boca Límpida

55
Terra não só do olhar mas da boca límpida
e grafia do pulso língua absoluta
com uma perspectiva perene e sempre verde
tapeçaria subjacente e os socalcos da encosta.

Entusiasmo quase sem cor às vezes
no sem-cor da língua na escrita viva
ó terra do pulso e sexo secreto
macieza maternal do pai na escrita.

Tu dirás sempre e nunca a terra
tu serás não formosa mas terrestre bela
com um vasto conjunto dos aspectos
com um conjunto negro e amoroso.
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32. o Curso No Abandono Na Erva

32
O curso no abandono na erva
sob a curva do seio: a figura
do desenho, luz ou folhagem.

Pomba presente viajando em ramos
de pobreza e solidão ausente
será fatal sua presença branca.

Este o aspecto o solitário incêndio
da parede que restava com as letras vivas
chamas de sangue que ainda sangram vivas.
1 059

51. Pedaço Inteiro do Frio Verde

51
Pedaço inteiro do frio verde
e mão do gelo iluminado
quebre
a unidade de pedra ou harmonia.

Beleza brusca no azul opaco
negação do acaso negando o acaso
por uma coisa graciosa
corça perdida no bosque das palavras.

No preciso atalho mas tão simples
como a clareza do pulso
quebrando a pedra do nome o nome-pedra.
1 016

42. Depressa Antes De

42
Depressa antes de
talvez seja o acto de ser na folha
talvez o sangue ascenda à lâmpada da língua.

Quando (aqui: é o desejo) a folha
na limpeza do vento
descubra as brancas pernas altas da mulher
a alegria da nudez
do súbito do ser.

Depressa na lentidão do acto azul
por dentro do opaco na direcção partida
fora do círculo no aberto instante.
954

20. de Amor — Na Pedra E Cinza Verde

20
De amor — na pedra e cinza verde
o corpo no húmus sem jardim
memória que perdeu o azul anel.

De amor por ela e por ele, o sim
da ausência neste espaço não
iluminado mas branco, imune
por amor do amor no vazio amado.

Qualidade do instante na boca, língua
de palpitante sede que ressurge o corpo
para além da memória, na pedra do incesto.
912

19. o Desenlace (Aqui) Petrificado

19
O desenlace (aqui) petrificado
isto de istmo, era de hera
a qualidade em resultado absoluto

aqui reverdecendo — o jorro e a perna
na só imagem que unifica a frase
no extremo sopro da velocidade.

— Verbo de pedra em profecia, sem
a pedra — substância, no não do sopro
que ilumina a terra no interior da terra.
1 128

17. Purificada Pela Paz Dos Olhos Lindos

17
Purificada pela paz dos olhos lindos
sob o arbusto frio
ilimitada a pobreza a amêndoa incorruptível.

Filha de quem dormindo sob
a ameaça da sílaba sinistra
filha de nada e da noite da árvore.

Por quem a sílaba formada
por quem ou pela nuvem enublada
armada pela mão da morte armada.
1 100

48. Um Caduco Tema Levanta a Cabeleira

48
Um caduco tema levanta a cabeleira
na tessitura cálida a crespa cabeleira
mais escura: assim as línguas tensas
ou um punhado de estrelas no ondear das ondas.

Cintilações que em ancas reverberam
e fragrâncias da inocência da água
de um seio, a teia canta, a teia tensa
e o corpo é lobo e pomba, é recesso e fragrância.

Alguns dirão: subsiste o tema: mas só palavras se levantam
só palavras se lêem no vento das candeias
só a língua é legível e acende a íris.
990

36. Imagem (Não Ardente Aqui) da Figura

36
Imagem (não ardente aqui) da figura
ardente e enterrada sob o ventre
do cavalo e da mulher ardente igreja
sendo a pausa do seio vermelho e branco.

A nuvem que atravessa o dom da boca
da imagem liberta do deserto
institui o segredo do ouvido da ave
abrindo o horizonte às negras ancas.

Traição presente da nuvem da figura
redução ao simples animal da erva
pedra para saber o segredo do insecto.
1 059

14. Este (Aqui Formulado) Sobre Os Cílios

14
Este (aqui formulado) sobre os cílios
ou as pestanas pretas pretas mesmo
sob o deserto dele, a casa nuvem.

Terra (designação que nega) areia
do grito das pestanas, cílios sérios,
adormecendo a noite da folhagem.

Arranca à aragem o perfume sóbrio
desses cílios negros cílios
e colhe aí a perfumada imagem.
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Obras

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Comentários (10)

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Muito belo este este homem , que esperou e tentou mudar sua vida e se transformou mais leve que sua sombra.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha

Como já anotei; conheci o poeta António Ramos Rosa, já no outono da sua vida, indo a minha num aproximar-se do mesmo tempo natural. Tempo em que já não fumava, mas gostava da bica e do queque, sempre antes, em um amável sorriso, fazia o gesto de que alguém pagasse, aliás, era de um "espírito franciscano, em muitas dimensões". Lembro a nossa ida ao café, ele sorrindo e falando baixo, sobe o sua barba branca, imperfeitamente, aparada. Sentado, escolhia uma conversa de informação e gostava, muitas vezes de contar a história do nome "queque" para o bolo que mais gostava. Era de uma atmosfera serena simples "e vegetal" o pouco tempo da sua companhia.

Luis Rodrigues

Obrigado pela contribuição, irei arranjar um espaço para colocar estes apontamentos.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha

Conheci este génio da poesia já nos íamos em idade. Visitava-o sempre em companhia, talvez, como privilégio comum. No seu espaço pilhas de livros literários, de autores de algumas nacionalidades. O seu dia de poesia passava-o relendo em inspiração e pela noite, até não muito tarde, escrevia meia dúzia de poemas, quase sempre, extensos. Certas vezes achava-se em interrogação de dúvida e queria saber de nós se "ainda era poeta". Com a grandeza que a humildade concede aos génios Ramos Rosa sorria, sorria quase sempre, emitindo nele certos sons de garganta, que provavelmente lhe ficara do tempo em que ainda não tinha deixado de fumar. Agora António Ramos Rosa era um ser de leveza, - embora tocado pelos anos, mas o seu ESPÍRITO subia; subia com as palavras escritas.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha

Continuação de parte do mesmo doc. "(...) Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo de um paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...).