António Ramos Rosa

António Ramos Rosa

1924–2013 · viveu 88 anos PT PT

António Ramos Rosa foi um dos mais influentes poetas portugueses do século XX, conhecido pela sua poesia densa, reflexiva e profundamente ligada à condição humana e à linguagem. A sua obra é marcada por uma busca constante pela expressão autêntica, explorando temas como a existência, a morte, o tempo e a própria poesia. A sua escrita evoluiu ao longo de décadas, mantendo uma coerência temática e estilística, mas sempre aberta a novas explorações formais e lexicais. É considerado um pilar da poesia contemporânea em língua portuguesa.

n. 1924-10-17, Faro · m. 2013-09-23, Lisboa

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Não Posso Adiar o Amor Para Outro Século

Não posso adiar o amor para outro século
não posso
ainda que o grito sufoque na garganta
ainda que o ódio estale e crepite e arda
sob montanhas cinzentas
e montanhas cinzentas

Não posso adiar este abraço
que é uma arma de dois gumes
amor e ódio

Não posso adiar
ainda que a noite pese séculos sobre as costas
e a aurora indecisa demore
não posso adiar para outro século a minha vida
nem o meu amor
nem o meu grito de libertação

Não posso adiar o coração
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Biografia

Identificação e contexto básico

António Ramos Rosa, nome completo António Ramos Rosa, nasceu em 1924 e faleceu em 2013. Foi um poeta, ensaísta e crítico literário português. Residia em Lisboa. Era conhecido pela sua nacionalidade portuguesa e por escrever em língua portuguesa. O contexto histórico em que viveu foi marcado por profundas transformações sociais, políticas e culturais em Portugal e no mundo, incluindo a ditadura salazarista e a transição para a democracia.

Infância e formação

Passou a infância e adolescência em Lourenço Marques (atual Maputo), Moçambique, onde o pai era funcionário público. Esta experiência africana marcou profundamente a sua sensibilidade e a sua obra, introduzindo elementos de exotismo e uma perspetiva singular sobre a identidade e o exílio. A sua formação inicial ocorreu em Moçambique, mas regressou a Portugal para prosseguir os seus estudos universitários em Coimbra, onde frequentou Direito e Letras.

Percurso literário

O início da sua atividade literária remonta à década de 1940. A sua obra poética publicou-se a partir de 1950, com "O Grito Amargo". Ao longo da sua carreira, a sua poesia atravessou diferentes fases, mas manteve uma linha de investigação profunda sobre a linguagem e a existência. Foi um ativo colaborador em diversas publicações literárias, como a revista "Távola Redonda", e desenvolveu uma importante atividade como crítico literário e tradutor.

Obra, estilo e características literárias

Entre as suas obras mais importantes destacam-se "O Grito Amargo" (1950), "Viagem Através duma Neblina" (1960), "A Nuvem" (1962), "Ocupação do Espaço" (1963) e "A Dança Inicial" (1968). Os temas dominantes na sua poesia incluem a angústia existencial, a passagem do tempo, a morte, a busca pela identidade e a reflexão sobre a própria linguagem. Ramos Rosa explorou diversas formas poéticas, transitando entre o verso livre e estruturas mais elaboradas, com um uso marcante da metáfora e de um ritmo denso e reflexivo. A sua voz poética é frequentemente confessional e introspectiva, mas com uma dimensão universal. O seu estilo é caracterizado por um vocabulário rico, imagética poderosa e uma linguagem precisa e interrogativa. É associado ao movimento neorrealista e, posteriormente, a uma linha de modernismo mais pessoal e reflexiva.

Contexto cultural e histórico

António Ramos Rosa viveu sob a ditadura salazarista, o que influenciou a sua obra com um tom de resistência e crítica, embora muitas vezes de forma subtil e centrada na liberdade interior e na linguagem. Foi uma figura central na vida cultural portuguesa, mantendo relações com outros escritores e intelectuais da sua geração, embora mantivesse uma postura muitas vezes solitária e de profunda reflexão.

Vida pessoal

As suas experiências em Moçambique e o regresso a Portugal moldaram a sua visão do mundo e da identidade. Manteve relações próximas com outros poetas e intelectuais, participando ativamente nos debates culturais da época. A sua vida foi marcada por uma dedicação intensa à poesia e à reflexão, sendo um intelectual respeitado e admirado.

Reconhecimento e receção

António Ramos Rosa é amplamente reconhecido como um dos grandes poetas portugueses contemporâneos, com um lugar de destaque na literatura nacional. Recebeu diversos prémios e distinções ao longo da sua carreira, sendo a sua obra objeto de estudo académico e de grande apreço entre leitores e críticos.

Influências e legado

Foi influenciado por poetas como Fernando Pessoa, Walt Whitman e pela poesia simbolista. O seu legado estende-se a várias gerações de poetas que encontraram na sua obra uma referência de rigor, profundidade e inovação. A sua poesia continua a ser estudada e a inspirar novos criadores em Portugal e no mundo lusófono.

Interpretação e análise crítica

A obra de Ramos Rosa é frequentemente interpretada como uma profunda meditação sobre a condição humana, a fragilidade da existência e a complexidade da linguagem como ferramenta para apreender o real. As suas reflexões existenciais e filosóficas convidam a uma análise profunda sobre o sentido da vida e da arte.

Curiosidades e aspetos menos conhecidos

Uma curiosidade é a sua ligação inicial a Moçambique, que lhe proporcionou uma perspetiva única sobre a realidade africana e a identidade colonial. Os seus hábitos de escrita eram marcados pela disciplina e pela dedicação, procurando sempre a palavra exata e a expressão mais autêntica.

Morte e memória

António Ramos Rosa faleceu em 2013. A sua memória é preservada através da sua vasta obra, que continua a ser publicada, estudada e admirada, consolidando o seu lugar como um dos vultos maiores da poesia em língua portuguesa.

Poemas

1092

Nascer Com a Palavra

à Eugénia Maria
e à Kitty
Nascer começa com o desejo? Com a sede do nome?
Que todo o sinal seja ao mesmo tempo carne
Se alguma coisa tu dizes acende-se na página

É um nome que eu quero dizer mas
o que eu desejo não tem nome porque
é anterior a todas as palavras
e é por ele que cada coisa ganha um nome

Aqui é o lugar onde se forma a face
visível e silenciosa das palavras
Neste instante desapareço
As palavras começam a ter cor
e um equilíbrio alto
um rio de formas surge
Neste momento vejo um verde ígneo e um cinzento suave

Escrever é como beber por um copo de barro
a água de um corpo em que sombras se movem
e as sombras iluminam-se e iluminam as coisas
e o secreto nome brilha na parede alta

Posso abrir um parêntesis e incluir nele o muro
Esqueço tudo para poder respirar o princípio de tudo
em que de súbito uma folhagem estremece e as palavras surgem
trémulas ainda de silêncio e de desejo

Ouço um rumor ou não A lâmpada que empunho é obscura
mas busco seguir devagar um ritmo do conjunto branco
em que todas as palavras se aniquilam e a abertura se abre.
…………………………………………………………..

Nascer começa aqui onde se inaugura um incessante acto
em que se reúne o resto do que se produz continuamente
mas que é invisível deste lado do real
e é aí o centro líquido onde o corpo se refaz
a cada palavra que pronuncia a boca ferida

As palavras chamam as coisas e multiplicam-nas
sobre um fundo obscuro onde ressoam claras
Não é preciso saber não é preciso olhar
O contacto com o fundo produz a sequência feliz que principia

Um corpo desenha-se fora de nós habita o espaço
e é como se atingisse o solo onde se respira
Uma corrente única atravessa as coisas e as palavras
O mundo nasce a cada palavra e é a palavra que nasce
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A Imagem Que Conduz Ao Corpo

A mão dispersa na folhagem
a mão perdida a boca já exausta
onde tocar a pedra as sílabas da pedra?

Aqui uma sombra branca Não inicial
Este lugar inabitável não é o princípio nem o centro
Como alcançar o coração de alguma coisa
a substância o centro ou a terra do poema

Começo sem amor sempre demasiado cedo
Interrogo não um insecto nem uma pedra
Percorro um muro com um olhar cego
Estou tão longe da realidade como do poema
A distância é infinita Tu não estás aqui
E não sou eu e sou eu ainda Tudo é de menos
e de mais

A mão toca não um silêncio não as sílabas
de um corpo longo e fresco mas uma corrente
congelada uma parede árida calcinada

Como encontrar a imagem que conduz ao corpo
como percorrer as veias vivas do silêncio
e fazer-te estremecer os leves lábios?
Como estar sendo ser estando
junto à boca unida e firme
e trémula
do poema?

Se soubesse desenhar as linhas negras
que abrem a brancura completa
do corpo
que deixam entrever a espuma nos cabelos
no sulco que divide as amorosas pernas
onde o murmúrio permanece do sangue sob as mãos
escreveria as linhas intensas do poema?

As mãos completar-se-iam no perfil ardente
O presente seria o instante do abrigo imenso
A luz dos teus olhos banharia as palavras
e tu serias o corpo luminoso
com os membros libertos sob a água viva

Escrever seria amar-te? Seria
interromper este deserto limpar a ferida aberta?
Seria entrar no interior do centro fresco
percorrer essa praia que ninguém ainda pisou
beijar os teus sinais e a sede límpida
que desenha toda a chama alta do teu corpo?

Escrever seria estar contigo no interior da chama
beber o orvalho das palavras nos teus lábios?
No interior de um barco de folhagem verde
animado de um braço intensamente vivo
ligando-me cada vez mais à linguagem do teu corpo?

Estou já tão perto de ti que uma sombra soluça
Estou tão perto de ti que o poema principia
Toco as sílabas da pedra as sílabas do corpo
A minha língua arde sobre o teu ombro frágil
O perdão do teu olhar é o amor da luz
1 126

A Caminho Na Ausência

à Ângela Maria
É talvez uma pedra ou talvez uma folha
uma pedra sem sombra uma folha sem sangue

Talvez o primeiro nome o primeiro grito
seja esta pedra ou esta folha ou este nome

Este é o único lado da sombra
mas qual é a ferida
de que lado é a boca
a sombra oculta um rosto
o muro terá uma boca?
onde é que a ferida fala?

A mão conhece a pedra
o lugar do silêncio
mas o frio desta pedra
a sombra desta folha
não desoculta o nome
e apenas no branco
um ombro se desenha
o ombro do muro e não do corpo

A sede desta boca sobre a página
não inicia o nome que a mão tacteia em vão
Onde é que a folha ou a boca sabe a sangue
onde está o sangue desta sombra?

A porta aonde bate a mão não soa
são pedras e folhas nomes sem o nome
abraço os braços mas são braços de terra
e a terra é uma palavra no papel

Digo árvore árvore como um grito
ou chamo as folhas o vento a terra o fogo
Onde é que o pulso vibra com a tensão do nome?
Onde é que pedra a pedra se diz o nome e a ferida?

O grito desenha um rasto na sombra das palavras
O corpo encontrará sobre os ossos das letras
a graça dos músculos a música da água?

O que resta é a ferida silenciosa
a pedra silenciosa
resíduos filamentos ervas palavras sombras
entre as folhas
uma lâmpada escura
entre as mãos
esta folha
esta folha
silenciosa

O quarto está vazio e o eco só responde
a palavras indistintas

Interrogo a página
a porta branca do vazio
Até a sede morreu junto ao poço de escombros
A mão desenha o gesto vão de afugentar
a própria mão
O pulso ainda palpita
e a boca ainda deseja

Mas a mão não desiste de tocar pedras sombras
as raízes duras das palavras escuras
as pálpebras vazias
e o vazio entre as letras
e nunca a serenidade do nome

Onde é o outro lado da sombra?
A mão busca entre as folhas a lâmpada clara
Há um caminho que conduz ao horizonte
à casa
onde as palavras repousam
e a ferida fala o seu nome obscuro

A ausência renasce sob cada palavra
Um paciente furor apossa-se do corpo
Um paciente furor rasga a folha violenta
arranca a primeira pedra
o primeiro passo
sobre a água
de uma boca outra boca outro corpo

O caminho não cessa entre esta mão
e a folha
A mão há-de encontrar a mão
novas palavras nascerão
sobre outros lábios noutro muro noutro caminho

E talvez o caminho seja o princípio sempre
Sempre a ausência e o desejo ardente
Sempre o grito a renascer da ferida silenciosa
Sempre o silêncio e o seu nome incessante
1 101

Presença Ausência

a Jean Malrieu
Chamo-te chamo-te ao rés da terra
face de sombra e erva             Não és o rosto nem a
sombra do corpo
Chamo-te face de sombra
e erva
sem saber se te chamo
ou se escrevo apenas a sombra de uma palavra

Se te encontrasse diria esplendor     diria rosto
viveria como uma folha à sombra de uma folha

Tantas sombras sombras             Se escrever fosse
percorrer o teu corpo
ou as feridas em que a terra sangra

Que palavras são estas no deserto
que palavras tão lentas
tão pobres

Quando é que foste o esplendor
e os membros altos se juntavam lentos
chama sobre chama
boca contra boca?

Porquê estas palavras         estas sombras de pedra
pedras de sombra
jogos nulos no vazio da areia

Se te chamo não sei com que palavra
te acordarei
Que argila límpida
te moldará o rosto que olhos de água
me darão teu corpo na surpresa da terra

E todavia chamo-te na ténue pulsação destas palavras tão ténues como pálpebras de areia chamo-te sem saber se te vejo se

tu existes para aquém ou para além destas palavras
chamo-te com as ervas
com a sombra
com a água
com as pedras
com esta árvore de silêncio

Chamo-te com as mãos da terra

Mas não estarás tu sempre presente na ausência? Não serás tu a figura nula inacessível que vive no silêncio do espaço branco? Não sei já quem tu és se tens um corpo se escrever é perder-te ainda mais se caminho em vão ou se te encontro na própria perda se já te achei e te acho a cada passo

lâmpada branca
esparsa
nesta página
jovem braço
de um poema
em que posso escrever de novo
jardim
espaço
e ver os teus olhos
da cor do ar
1 177

O Corpo Sob As Palavras

à Maria Eduarda
Dorme o sono na folha dorme o braço na folha
O que desperta é um olho verde sob o musgo da árvore

Dorme o ar em torno
da página dorme sob o pólen
das pálpebras de terra

Dorme o corpo sob a mão inerte Dorme a boca do barco
Dorme uma nuvem devagar
Quando quando
se abrirão os lábios
daquela ferida vermelha     Para quando
a dança sobre a pedra negra e o furor branco
das palavras no corpo?
*
Chamar-lhe-ia barco pedra dança
chamar-lhe-ia pedra
chamar-lhe-ia dança
mas seria mulher seria praia
seria areia acesa

Chamar-lhe-ia se pudesse
a alegria ávida
ávida
de uma boca
sobre a espuma da praia

Chamar-lhe-ia o centro
da espessura
roxa
de um bosque
e beijá-la-ia como um olho

Mas não posso acordá-la
sob tantas pálpebras
São palavras demais
se eu soubesse
dizia
só a sua sombra na água
*
Como acender o corpo? Estou atento à pedra sobre a pedra e vejo a água nua no silêncio

O corpo possui uma ferida violenta um lugar branco um ombro na muralha

Ouço o muro ouço o ar da praia A casa é uma carícia pressentida um olho oculto na sombra     azul

Esta é a folha sobre as pálpebras do corpo adormecido. Nenhum nome acorda. É uma pedra que toco ou uma sombra?

Junto à muralha onde os cães urinam o corpo adormeceu. Algo cessou há muito no silêncio

Como se nunca mais pudesse despertar como se houvesse um único nome: pedra. E o eco desse nome: pedra E nem sequer a memória do que foi outrora uma dança vermelha.

O que toco é a pedra do sono
*
(Foi outrora o corpo folha ardente
Foi mão de fogo abelha de alegria
Quando? Quando?)
*
Será o rumor do mar ou será na sombra o rumor do próprio corpo branco? Serão folhas que tombam sobre a pedra ou os olhos que se movem sob as pálpebras?

Eu nada espero e espero Caminho no silêncio da folha Será esta a praia onde o corpo deixou os seus sinais?

O fogo verde escuro daqueles olhos sob a sombra da muralha A antiga e branca árvore do mar
*
Tento acordar o corpo Toco a língua de pedra o sinal do fogo Toco uma palavra minúscula na erva

Toco a sombria perfeição da perna Toco membro a membro dedo a dedo todos os sinais do corpo apodrecido

Toco todos os nomes do corpo: os braços de água na sombra da pedra a clareira branca do umbigo o negro crespo onde a ferida sangra

Beijo pálpebras olhos ombros Toco o segredo mais ardente frio língua a língua insuflo o meu desejo respiro a boca branca húmida de sombra

As palavras não despertam os membros estão dispersos é quase noite sobre o muro
Uma folha cai sobre o rosto putrefacto Os insectos corroem-lhe os pulsos e o ventre O corpo não estremece
*
Uma paciência ardente uma paciência de sombra sinuosa uma alta pedra do silêncio

Um ardor pulso a pulso insuflado sobre a espuma negra dessa boca

Uma língua que suba as silenciosas colunas até à terna e alucinante perfeição redonda

Umas palavras rasgadas na muralha sangrando nas mãos sobre a brancura mortal do corpo
*
Boca a boca nesta folha no teu corpo respirar-te-ei pela primeira vez

Recém-acordada recém-nascida da pedra dilacerada da parede do sono

Beijo-te a língua verde a língua vermelha a língua ainda de sombra

e fria

O teu olhar atónito ofuscado é ainda uma palavra destroçada e branca

Libertas-te do sono e da vertigem com a lentidão de uma onda negra

O teu corpo forte estremece finalmente sob as minhas mãos sob o meu corpo sob as minhas palavras vivas
*
Que suavidade de lençol que língua que mão ou lâmpada
te desnudou tão lenta tão vermelha e branca

Levantas-te e és alta muito alta sobre pernas claras
e perfeitas

E a praia é tua Esta mão pertence-te Este pulso
rasgado
(Eu fui o teu sono
a tua pedra
negra)

Agora insuflo-te as palavras com que danças
sobre a praia Agora explode a boca em palavras
mudas como lâmpadas
secretas e nuas crespas e negras suaves crispadas
lâminas
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4. É Frágil Esta Sombra

É frágil esta sombra, frágil. E
esta escrita sem lâmpada, sem
cavalos na montanha.

É frágil este pulso, e este início.
Uma porta que não se abre, uma manhã tão triste.
Esta casa cheia de dias e de dias
e eu só desejo
abrir não sei que espaço, romper, abrir.

Sinais
sinais da terra outra.
Estacas.
Palavras.
Estacas.
Lâminas.

E não o jardim, não a folhagem nem o fogo.
Porque estes dedos são dedos de sombra
e o fruto perde-se, o fruto e a pedra
do fruto.
Os dentes desertaram da boca. E onde a boca?
Onde a água da boca aqui na folha?
Onde se levanta o vento, a linguagem do fogo?

Invento um arco? E sem o mar
sem o teu corpo.
Mas escrevo estes sinais contra o deserto.
Tantas marcas atrozes, tanto silêncio.

Inscrevo (eu sei) apenas inúteis setas
no círculo, entre tenazes.

Eu sei (aqui o digo) busco o seio límpido
e esta é a dor da terra mais triste
e eu não sei se desisti se ainda insisto.

Animal é o fogo e o espaço livre.
E se as bocas se encontram, se o fruto vive
sobre a pedra branca, se o círculo se abre
se nós quisermos que a terra seja a terra.

Quem clama no escuro, que outras sombras
se revoltam — que outras palavras
poderiam inscrever a terra nesta folha?

Eu desejo outro espaço o espaço do desejo
na folha mesma
onde inscrever
as palavras dos arcos do silêncio
ou as pedras da liberdade livre.

A flexão feliz dos membros nus
e esse canto que ascende para as árvores
e o rosto os rostos sinais transfigurados
essa luz vermelha sobre os cílios negros.
1 158

O Flanco Negro a Decisão da Perna

O flanco negro a decisão da perna
a redondez de todo o ser no seio
a bondade da boca
os dentes
só os dentes
como um número

As vermelhas virilhas com os lábios
de púrpura
ferida acesa
o frenesim suave das sílabas do corpo

a chama alta no ventre da árvore
a língua
sobre a língua
a branca volúpia do umbigo

a palavra rasgada
a sangue
e ferida
a negro
a palavra de estar sob o bojo do barco
986

3. Para o Incêndio da Festa

Eis a língua em fogo
o corpo e a terra o horizonte interno
a pulsação das sílabas sobre a ferida ardente
o centro no centro:
as mandíbulas libertas
para a livre manducação
e alguém diz
estamos na terra
isto é um círculo
o centro no centro
este é o espaço da festa e a ferida canta
a voracidade limpa os últimos detritos
eu comerei o teu corpo: este é o meu corpo, é o meu sangue
este é o teu corpo é o teu sangue

O vento varre as vértebras a língua canta
contra o mar

Quem tem uma laranja na boca é uma laranja límpida
quem liberta o seu desejo sobre o centro
este é o polvo das trevas e do sangue

Assim se abrem as tenazes do tempo
Assim se estende o círculo da festa
Assim se grita na nudez completa

Correr vertigem da brancura escrever
a rapidez do corpo a rapidez da escrita
a boca escreve com os dentes e a saliva
Claridade contra claridade boca contra boca
a simplicidade existe na festa da folha sobre a praia

Os corpos ardem a praia arde o papel arde
arde esta boca     estas palavras ardem
no centro
do círculo da festa

Ardem os tentáculos do polvo e arde a rosa

E se eu dissesse
a minúcia da boca ou do minúsculo sexo
se atravessasse o papel com a nitidez milimétrica
e a matéria branca
dos mil membros que se enlaçam
se eu dissesse finalmente a origem de tudo
a criação completa

Mas como romper este silêncio esta mudez do silêncio
como descobrir essa outra língua sobre a pedra
como sulcar esta outra terra interior
como descobrir esse outro rosto do outro lado
como erigir o campo nestes campos sombrios
obscuridade obscuridade mudez do silêncio cinza e cinza

Sopro sobre a cinza
Se o cavalo surgisse da incompleta boca
se o vulcão se abrisse eu escreveria o fogo
Quem separou este silêncio da outra festa
Quem desuniu os membros e as línguas enlaçadas
Haverá outro país onde o silêncio reine?

Também aqui eu chamarei o corpo
do silêncio
aqui onde as formas se formam
aqui também procurarei o corpo do não-corpo
não se incendeia a folha o mar é triste

Eu queria encontrar aqui ainda a terra
e a chama
e a limpidez da simplicidade única
e reunir-me no silêncio a uma boca silenciosa

Eu desejava o centro e a festa na folhagem
mas estou submerso ou não afundo-me ou levanto-me
Caminho através da não-verdade
Esta palavra ou aquela uma palavra a mais
Eu não soube escutar-te eu oiço-te eu pergunto
quem unirá o silêncio da terra submersa
ao incêndio da festa à boca completa?
1 236

Nada Para Dizer Nem Como Dizer Nada

Nada para dizer nem como dizer nada
um plano de sombra a força opaca
demasiado depressa o fluxo de umas coxas
negras e invioláveis de lábios silenciosos

Uma boca tombada junto à sombra do muro
uma força subterrânea verde sem violência
e o desejo do corpo o lancinante lago
lábios e lâminas nomes perdidos vagos

Porque não o ardente azul e a água do cimo
para a figura oculta e branca e derradeira
porque não o abraço nas raízes do nu
a boca reencontrada na festa da folhagem?
1 066

Delírio Legível

à Maria Teresa Dias Furtado
Porque se tornou ilegível o canto é preciso ir de pedra em pedra No turbilhão das árvores sem nome (No muro lêem-se linhas ardem cores)

Tocar a nudez Quando? É o vento
nas pedras e no pulso intenso

Aqui é um quarto e uma trave o suor de um corpo os dedos duros sobre os nomes poucos Quando é o princípio da terra rente à mão A liberdade escura do desejo: o rude e espesso nome inominável Tudo se transforma na passagem que se lê de pedra em pedra de água em água

Aqui é o princípio das evidências
inacessíveis (Aqui o centro
das raízes onde um insecto se revolve
quando se escreve no ardor das letras)

Um bicho obsceno e puro muito frágil seco
Um ponto Um sinal da terra A liberdade de estar
no caos verde a liberdade de respirar ainda e sempre
com a tenacidade da terra
no ardor completo da palavra

Aqui é o turbilhão legível O quarto está coberto de pedras as paredes abriram a mão pode estender-se até um tronco arrancar uma raiz A secura branca entra na garganta as palavras mais rasas cobertas de poeira

Deixou de ser um crime estar vivo
no desejo de tudo
no nada de não saber e ser
há um conjunto impossível que principia algures
a arder
a terra o sol e a água uniram-se numa parede
cada vez mais branca e mais solar

Habito um movimento no impossível acto de ser
um murmúrio vem dos lábios escritos da terra
estou pronto para a liberdade de nascer com as palavras
e de nelas me perder até que o turbilhão
se torne o vocábulo vivo e habitável

Aqui é um lugar neutro o lugar nu O lugar livre
Lugar inacessivelmente pobre e nulo
Porque não se pode começar no princípio
Aqui nada se disse e por isso está tudo por dizer
e por isso nada se dirá e por isso tudo se dirá
Aqui não é o caminho
nada poderá sair daqui
aqui é a brecha do muro
a fissura inicial em que se inscrevem os sinais

Aqui estou à beira da origem
onde nada principia senão a sede
onde nada vive senão o desejo
nada cresce senão o nulo e neutro ser animal de água e ar
que me envolve como um olho
morada permanente interior inacessível
simples e prodigioso núcleo onde permanecer é começar sempre
e cada vez mais
o impossível acto de ser
a superabundância e a graça de nada ser
a ameaça suspensa e a angústia próxima de irrupção do exterior
a cada momento superado pelo movimento animal que escreve
em pleno delírio legível e branco

Aqui é a planície e o poço A dissidência originária
onde a boca bebe o princípio da alteridade acesa
Tudo se move num plano total que governa os movimentos paralelos
do corpo e da escrita
numa corrente que impele todas as sequências vivas da palavra
de argila e sangue

Eis uma nova brecha e outra rasgando-se no silêncio
Os sinais passam rápidos demais para se transformarem em palavras
A mão está seca sobre a pedra Aquelas árvores
não têm nome Quando é um indício apenas
para seguir uma chama branca antes do tempo
Abre-se um olho no tecto um cone de luz
onde perpassam sombras
e o pó a que se reduzem as palavras
A casa destruída aberta entre pedras e insectos
é o lugar nulo deserto no deserto
mas a página branca está cheia de caminhos
e a mão transforma o pó das palavras destruídas
noutras palavras novas frescas e rápidas
na parede cada vez mais branca e mais solar
1 077

Livros

95
📚

O grito claro

1958

Viagem através duma nebulosa

Viagem através duma nebulosa

1960

Voz inicial

Voz inicial

1961

Sobre o rosto da terra

Sobre o rosto da terra

1961

Poesia, liberdade livre

Poesia, liberdade livre

1962

Ocupação do espaço

Ocupação do espaço

1963

📚

Paul Éluard

1963

Terrear

Terrear

1964

Estou vivo e escrevo sol

Estou vivo e escrevo sol

1966

A construção do corpo

A construção do corpo

1969

Nos seus olhos de silêncio

Nos seus olhos de silêncio

1970

A pedra nua

A pedra nua

1972

Horizonte imediato

Horizonte imediato

1974

📚

Não posso adiar o coração. Obra poética

1974

Animal olhar. Obra poética

Animal olhar. Obra poética

1975

Ciclo do cavalo

Ciclo do cavalo

1975

📚

Respirar a sombra viva. Obra poética

1975

📚

A imagem

1977

A palavra e o lugar

A palavra e o lugar

1977

Boca incompleta

Boca incompleta

1977

A nuvem sobre a página

A nuvem sobre a página

1978

As marcas no deserto

As marcas no deserto

1978

A poesia moderna e a interrogação do real

A poesia moderna e a interrogação do real

1979

Círculo aberto

Círculo aberto

1979

📚

Figurações

1979

Declives

Declives

1980

📚

Figuras: fragmentos

1980

📚

Le domaine enchanté

1980

O incêndio dos aspectos

O incêndio dos aspectos

1980

O centro na distância

O centro na distância

1981

O incerto exacto

O incerto exacto

1982

Gravitações

Gravitações

1983

Matéria de amor

Matéria de amor

1983

Quando o inexorável

Quando o inexorável

1983

Dinâmica subtil

Dinâmica subtil

1984

Ficção

Ficção

1985

Mediadoras

Mediadoras

1985

Clareiras

Clareiras

1986

Vinte poemas para Albano Martins

Vinte poemas para Albano Martins

1986

Volante verde

Volante verde

1986

A mão de água e a mão de fogo

A mão de água e a mão de fogo

1987

Incisões oblíquas : estudos sobre poesia portuguesa contemporânea

Incisões oblíquas : estudos sobre poesia portuguesa contemporânea

1987

No calcanhar do vento

No calcanhar do vento

1987

O deus nu(lo)

O deus nu(lo)

1988

O livro da ignorância

O livro da ignorância

1988

Acordes

Acordes

1989

Duas águas: um rio

Duas águas: um rio

1989

Obra poética

Obra poética

1989

Três lições materiais

Três lições materiais

1989

Estrias

Estrias

1990

Facilidade do ar

Facilidade do ar

1990

O não e o sim

O não e o sim

1990

A intacta ferida

A intacta ferida

1991

A parede azul. Estudos sobre poesia e artes plásticas

A parede azul. Estudos sobre poesia e artes plásticas

1991

A rosa esquerda

A rosa esquerda

1991

Oásis branco

Oásis branco

1991

Rotações

Rotações

1991

As armas imprecisas

As armas imprecisas

1992

Clamores

Clamores

1992

Dezassete poemas

Dezassete poemas

1992

Pólen-silêncio

Pólen-silêncio

1992

Lâmpadas com alguns insectos

Lâmpadas com alguns insectos

1993

📚

O centro inteiro

1993

O navio da matéria

O navio da matéria

1994

O teu rosto

O teu rosto

1994

À la table du vent

À la table du vent

1995

Três

Três

1995

Delta seguido de Pela primeira vez

Delta seguido de Pela primeira vez

1996

Figuras solares

Figuras solares

1996

À mesa do vento seguido de As espirais de Dioniso

À mesa do vento seguido de As espirais de Dioniso

1997

Nomes de ninguém

Nomes de ninguém

1997

Poemas escolhidos

Poemas escolhidos

1997

📚

Versões/Inversões

1997

📚

A imagem e o desejo

1998

A imobilidade fulminante

A imobilidade fulminante

1998

Pátria soberana seguido de Nova ficção

Pátria soberana seguido de Nova ficção

1999

📚

O princípio da água

2000

Antologia poética

Antologia poética

2001

As palavras

As palavras

2001

📚

Deambulações oblíquas

2001

O aprendiz secreto

O aprendiz secreto

2001

📚

O deus da incerta ignorância seguido de Incertezas ou evidências

2001

Cada árvore é um ser para ser em nós

Cada árvore é um ser para ser em nós

2002

O alvor do mundo. Diálogo poético

O alvor do mundo. Diálogo poético

2002

📚

O sol é todo o espaço

2002

Os volúveis diademas

Os volúveis diademas

2002

Meditações metapoéticas

Meditações metapoéticas

2003

📚

O que não pode ser dito

2003

Os animais do sol e da sombra seguido de O corpo inicial

Os animais do sol e da sombra seguido de O corpo inicial

2003

📚

Relâmpago do nada

2004

Génese seguido de Constelações

Génese seguido de Constelações

2005

📚

Cartas poéticas entre António Ramos Rosa e Manuel Madeira

2007

Rosa intacta

Rosa intacta

2007

Obra poética I

Obra poética I

2018

Obra poética II

Obra poética II

2020

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Comentários (10)

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Muito belo este este homem , que esperou e tentou mudar sua vida e se transformou mais leve que sua sombra.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha

Como já anotei; conheci o poeta António Ramos Rosa, já no outono da sua vida, indo a minha num aproximar-se do mesmo tempo natural. Tempo em que já não fumava, mas gostava da bica e do queque, sempre antes, em um amável sorriso, fazia o gesto de que alguém pagasse, aliás, era de um "espírito franciscano, em muitas dimensões". Lembro a nossa ida ao café, ele sorrindo e falando baixo, sobe o sua barba branca, imperfeitamente, aparada. Sentado, escolhia uma conversa de informação e gostava, muitas vezes de contar a história do nome "queque" para o bolo que mais gostava. Era de uma atmosfera serena simples "e vegetal" o pouco tempo da sua companhia.

Luis Rodrigues

Obrigado pela contribuição, irei arranjar um espaço para colocar estes apontamentos.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha

Conheci este génio da poesia já nos íamos em idade. Visitava-o sempre em companhia, talvez, como privilégio comum. No seu espaço pilhas de livros literários, de autores de algumas nacionalidades. O seu dia de poesia passava-o relendo em inspiração e pela noite, até não muito tarde, escrevia meia dúzia de poemas, quase sempre, extensos. Certas vezes achava-se em interrogação de dúvida e queria saber de nós se "ainda era poeta". Com a grandeza que a humildade concede aos génios Ramos Rosa sorria, sorria quase sempre, emitindo nele certos sons de garganta, que provavelmente lhe ficara do tempo em que ainda não tinha deixado de fumar. Agora António Ramos Rosa era um ser de leveza, - embora tocado pelos anos, mas o seu ESPÍRITO subia; subia com as palavras escritas.

Manuel Luís Lopes Batalha
Manuel Luís Lopes Batalha

Continuação de parte do mesmo doc. "(...) Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo de um paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...).