A Mão Ainda Resiste
à Maria Inês
A princípio a queda sobre a boca
sem intervalo
o frémito apodrecido no ar escuro
Nenhum aspecto da palavra ou da figura se ergue da sombra
onde o corpo se perdia Algures
um tumulto de folhas e de vozes As sombras geladas
sobre o corpo
Que ocorre quando
na folha a mão se perde
quando não há a esperar senão a pedra
do silêncio ou talvez um ininteligível
grito?
O corpo jaz sobre a boca sobre
escombros A mão resiste
à suavidade mortal Tropeço
em membros de palavras um jogo
quase de acaso e pura perda
Mas joga no acaso e ainda resiste
um espaço
uma paisagem quase um negro violento
um ruído branco áspero surdo
As árvores são de sombra Não cantam pássaros
nas sombras
As pedras tombaram sobre o rosto
que sangra de silêncio
como um óleo na terra putrefacta
A mão escreve sangue e o sangue é branco
ou negro e um espaço
interminável
e cinzento
envolve o olhar que mal distingue as coisas das palavras
e as palavras
das pedras
e as pedras do silêncio
Ouvem-se ruídos velozes estridentes sopra tanto vento
sobre o corpo
e sombras nulas acumulam-se nos membros
dispersos e inertes
Mas a mão ainda resiste é um insecto ferido
a caminhar no muro
em busca da palavra
de uma trémula folha
uma figura
na intermitência livre
Talvez um movimento surja
em que a figura súbito estremeça
libertando o corpo da pedra do silêncio
ou do vão acaso
ou talvez nunca
a mão se acenda
e nada ocorra além do silêncio ou ruídos vãos
mas ela insiste
pedra sobre
pedra
na espera
do ardor súbito
de uma cor
como se de uma palavra incandescente
o corpo renascesse
A mão vive da esperança sem esperança do próprio vão da distância em que se esvai Quem sabe se as pálpebras se abrem se o olhar descobre a trémula figura
se tudo principia
de cada vez que a mão traça palavras sobre o muro
ignorante incerta e quase calma
Nada ocorreu senão a queda e a busca vã E só palavras sem a figura e sem o rosto A mão insiste sem saber no risco de juntar-se ao próprio nada que é Ó paciência vã mortal serás tu ainda a última palpitação do corpo a única possível e incessante respiração?
A Mulher Cede Ante a Visão Mais Viva.
A mulher cede ante a visão mais viva.
Mais forte do que a esperança é ela a pedra de água.
Ataca o núcleo forte; a serpente desenrola-se
para que a tua boca se abra sibilina.
Ouço-te: és a pedra. Vejo-te: és o corpo.
Na funda pausa encanto o teu olhar.
Sílaba a sílaba conheço as nervuras fortes
e a cor que tu emanas vem de uma infância atroz.
Mutilada voz, os braços decepados, sou um tronco
voraz.
Sou o teu olhar que cede
ante a visão mais viva,
sou o silêncio sóbrio
sobre os teus olhos fortes.
Escrevo Pela Paixão de Te Inventar de Um Nada,
Escrevo pela paixão de te inventar de um nada,
um filamento apenas e logo outro sinal,
um tecido febril e temos um cavalo
inteiro com o som e a exactidão do nome.
Não sei a tua cor, mas tens em ti o campo,
a liberdade e a força que eu experimento em ti.
Para onde vais, cavalo, tão veloz, violento
ou na paz do teu trote, sem sela e livre, livre!
Percorro esta terra como um seio amoroso,
corres já no meu corpo com a vida do fogo,
tua paixão me cega e me ilumina a terra.
És tu que me crias com as palavras justas
que da tua elegância e ritmo se libertam
e me erguem a uma vida pura e vertical.
Quem Pega o Sol do Osso E Lhe Dá a Boca?
Quem pega o sol do osso e lhe dá a boca?
Quem dá o seio firme à mão dilacerada?
Quem saceia de orvalho uma sede nocturna?
Quem abriu esta mão ao turbilhão do dia?
Pulsa a terra e o pulso torna-se o movimento
de fibras minerais ferindo a pedra feliz.
Mil filhos do sol, mil campos, mil abraços
restabelecem a torre, sua pureza rubra.
Ó sabor da alegria, ó sabor de argila!
Aqui é o campo da boca mais sedenta:
Liberta o arco da cabeça,
diz bom dia ao vento.
A Teoria do Cavalo — o Friso Das Mulheres.
A teoria do cavalo — o friso das mulheres.
Os animais que auscultam o silêncio da noite,
a mulher enleada numa teia de aranha,
um grito que morreu no silêncio mais frio.
A explosão dos ombros, o punho desse olhar,
a torsão desse corpo na fúria do amor,
a explosão das palavras como o sémen na vulva,
a suavidade sedosa no seio de uma lâmpada.
A noite amorosa até ao fim da noite.
Não existe espectáculo para a visão mais íntima.
Os corpos mais suaves arrancam-se da fúria
e banham-se no óleo feliz do absoluto.
Que As Palavras Sejam o Fogo Escrito
Que as palavras sejam o fogo escrito
nas paredes verdes dos escarros
que venham sobre o sono e a fadiga do poeta
altas leves ardentes humildes nuas
Que elas digam a sombra e o azul sob a sombra
e a impossível vida sem árvores sem mulheres
sem horizonte sem mar
Que digam o supremo desejo renascido
na boca atroz
que sejam a frescura na ferida atroz
O Meu Trabalho É Este Sobre a Página Branca
O meu trabalho é este sobre a página branca
com a lâmpada branca desvendar as cores
do dia e do cavalo, o crescimento sóbrio,
dilatação de vasos, circulação de rios.
Ordenar lá do fundo o vigor que me impele
e me converte na força da página vivida
por um sangue de amar e de rasgar as folhas,
unir na casa única a multiplicidade.
Meu amor — agora sim — posso dizer amor
através de insectos e serpentes e fetos
sobre a baba e o ranho do nascimento puro.
Atravessei os pântanos e afundei-me no lodo.
Caminho tropeçando e aos nervos do cavalo
arranco este galope, este vagar de estar.
Em Paredes Esverdeadas, À Luz do Nevoeiro,
Em paredes esverdeadas, à luz do nevoeiro,
atravessas as casas e as cabeças dos homens.
Tuas pastagens são a relva e a raiva
viril da perfeição no pavor negro da força,
com que saltas os muros e rebentas os quartos,
onde já foram casas, famílias ou palácios
e corres pelo papel sem fome e no desejo
de um touro ou unicórnio que furasse o pasmo
de tudo ser um além inapreensível, ferro-velho
da vida, cronologias, notícias, tudo alheio,
perícia para atravessares os vales negativos,
as opacas montanhas, os mais pobres mistérios.
Quem Vive No Silêncio, Quem Vibra No Silêncio,
Quem vive no silêncio, quem vibra no silêncio,
Quem subiu à torre do silêncio.
Quem viu a equivalência espaço e fogo.
Quem construiu a casa no centro do labirinto.
Eu acendo apenas estas poucas palavras
com alguma sombra e a transparência fulva
do ar; animais na clareira,
a fundação do corpo pelo mais forte alento.
Quem domina o ar e permanece em terra,
quem foge de uma sombra para uma sombra menor,
quem procura procura com uma lâmpada branca.
Por Uma Serena Viagem Em Busca de Uma Pedra
Por uma serena viagem em busca de uma pedra
de fogo e desse olhar cuja cor é de outono,
parti com meu cavalo e um olho amigo e triste.
Atrás ficou a cinza, a terra calcinada.
Por uma serena viagem em busca de outro espaço
onde o cavalo beba a luz do horizonte
onde eu próprio me perca no lugar que é o meu,
de ninguém e de todos, na paz do espaço interno.
Por uma serena viagem em que eu leia o que escrevo
à luz de olhos amigos e ardentes de desejo
amando este cavalo que do amor nasceu
ou da fúria de ser num combate infindável.
Cópia de parte da narrativa «a Vadim», datilografado, s/d. "... . Adormeci e sonhei que me encontrava no meio de um canavial, à beira de um regato, embalado pelos oscilantes rumores da folhagem e das águas. De súbito, uma mulher nua, opulenta mas elegante (...) graciosa, surgiu de entre a espessura do canavial e continuou a atravessá-lo até à beira do regato, em cujas águas transparentes mergulhou o corpo deslumbrante. Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo dum paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...)
António Ramos Rosa, verdadeiramente, não fez do desenho atividade diária. O dia do poeta começava cedo e por reler os poemas do dia anterior. Sempre cheio de incertezas quanto à sua qualidade. Socorria-se do telefone e falava sobre os seus escritos, sempre perguntando sobre este ou aquele conteúdo. Quando recebia, o elogio, ouvia-se um som especialíssimo. Mas somente questionava mulheres, algumas, em trabalho de teses sobre António Ramos Rosa. Embora fosse uma pessoa sensível (embora em situações públicas, por vezes impaciente e nervoso) algumas "alunas" impacientavam-se e sofria por não o atenderem. Ora os seus desenhos, sempre de figuras femininas, só no outono da vida, e isto, para oferecer a quem o visitava.
António Ramos Rosa, - até prova, - não trabalhou no comércio.
Conheci, pessoalmente, António Ramos Rosa, um homem tímido, mas que surpreendia, que ao dentista desdenhoso respondeu "estar tão nervoso como quando lhe disseram que fora proposto para Prémio Nobel ou quando o empregado do café não o deixava entrar dado o vestuário pobre. Sim, considerava-se "diferente", "anómalo", "inferior". Mais tarde descobriu que era condição humana, pela contingência de cada ser "um mundo"; uma "composição", onde cada constitui a individualidade irredutível que resulta da organização da pessoa no mundo. "A consciência da minha separação provinha da minha ferida, que era para mim uma irremediável singularidade". Até que a individualidade lhe aparece como "resolução da diversidade do mundo" ... "embora conserve a sua singularidade abissal" ... . Conquistei, assim, a minha liberdade, a minha voz ganhou timbre de neutralidade do mundo em que eu me inseria e que era a minha composição pessoal, mas também transpessoal, do mundo" (...), Cf. doc. dact. "A COMPOSIÇÃO DOS MUNDOS"; manuscrito "A Vadim muito afectuosamente", s/d.
António ramos ??. Somente reescrever um nome de altiloquência literária me confere armas para eu próprio me precaver contra a ignorância que sou face ao Mundo que me inunda