Lâminas
Um fogo frio sob as pedras
tela seca
a madeira no lugar dos ossos
o cheiro do ferro
a calma violência do sangue alimentado
punho acerado
porta de ar
lâmina entre os lábios
Manhã sem caminho
pedra alta e seca
e mão pousada ouvindo
cratera de cal
meio-dia sem relógio
um dedo na ranhura soletra
a boca da terra
Chão de seda
a flor ágil que respira
move-se
um tronco de água dura
o odor de ferro
a terra cheia até aos bordos
Configurações
A mão limpa na pedra
levanta-se outra devagar.
Rede do dia,
de madeira e de ar.
O pó do ar.
A sombra branca na palma
como uma lâmina
de ar.
A manhã pela janela.
Outras janelas pelo ar.
A face errante e fresca.
Nervos livres na prata solta
do ar.
Casa erguida com ervas e gritos
na luz da rocha ao vento.
Trespassada e sólida.
O tempo de soltar uma vela
rente à sombra da árvore,
os prédios contra o céu claros.
Agulha, estilhas de ar.
O pente das cores e a água do caminho
Um tempo sob os passos,
caminho inextinguível,
a luz jogando leve,
para respirar sem eco
um tronco
um tempo inalterável.
A luz como uma árvore sem bordos.
Horizonte Imediato
Todos os dias me apoio em qualquer coisa
ando, como, esqueço
alguma coisa aprendo
e desaprendo
alguma coisa limpa nua grave
surge
ao lado passa
eu não sou este desejo
que às vezes arde
alto sobre o chão
O Esquiador
homenagem a Vespeira
Facilidade e neve.
E uns traços leves, duros:
a precisão de quem desliza e marca,
a claridade do acto solar e frio.
Rasgos no solo de lâmina,
a vertigem exacta
quase minuciosa:
o desenho branco:
a perspectiva infinita.
A força leve.
*
A felicidade é o sinal da vertigem.
Concêntrica.
Mesmo no salto mortal e vivo.
Braços abertos, silenciosamente, no ar.
E amando a terra
cai
e continua.
*
Deslizando sobre precipícios,
uma só linha o conduz
e o envolve,
uma superfície isenta para todos os traços.
Afável e mortal,
dura e fria,
renascente,
extremamente visível.
Um só entusiasmo.
*
Sem palavras, uma palavra o anima
ao fim da primeira silenciosa descida.
Depois a brancura rodeia-o como uma capa
de uma bailarina.
Mas ele percorre um corpo
e de todos os sulcos
(branco no branco)
outro corpo nupcial descreve.
*
A cegueira branca não o vence.
Mesmo quando se abre a bandeira das cores.
A rede em que se enreda e se liberta
reafirma a soberania polar
da inalterável página que desvenda.
*
Uma força imóvel, aguda e vertiginosa e ténue
e a claridade das arestas percutidas,
uma habitação modelada aereamente
e, no entanto, sem sair da terra,
uma terra branca, uma terra de ar.
Terrear.
*
Corpo desnudo, aparentemente oferto.
Proposta indemne, mas acabada e hostil.
Propícia à tentativa abrupta,
ao salto que inicia
o espaço temperado: a animação do ar.
A pulsação vasta, lenta, infindável.
Um abraço volante no inviolável.
*
Não é a terra que dança nem o homem
mas a força clara lavrando
o nome branco, sulco a sulco,
livre afirmação exacta
de um corpo que descobre
e se propaga.
*
Assim a fonte cria-se da sede
e do salto.
A fonte nasce sob os pés: é um corpo sedoso.
A fonte nasce continuamente
do próprio pulso.
A terra não roda.
Descendo, subindo: não contorna um rosto.
Um rosto forma
de neve e sol.
*
Tudo é sonoro porque o silêncio se deslumbra
e todas as diferenças se ligam
individualmente puras.
Só ele afirma a luz que não lhe pertence.
A luz que lemos.
Neste Campo
Neste campo não divago e nada emerge
e um lago subsiste e a pedra investe o sol,
rápidos vestidos soçobram,
nervuras que não vês murmuram,
a terra é um sossego sem cristal,
uma veia plena de sono e de sorriso.
A terra não canta: tu não esperas
na alta mesa do meio-dia.
Um animal surge tímido
e duas mãos o envolvem de folhas e de sol.
O Espaço Livre
Desocupado, livre,
sem vestígios, ao sol,
tronco devorado pela luz,
ondulada frescura no dorso,
sem laços, sem raízes, desabitado.
Conheço o tempo
e a demora
lenta,
o vazio da casa na manhã,
a manhã deserta ao sol,
a cegueira da luz tão leve,
o deserto simples,
o nome prolongado e nulo.
Estou
no silêncio,
na habitação do silêncio,
no mar imaginado,
na planura verde sussurrante,
na seara das brisas,
nos adeuses prolongados em ondas desfeitas,
no vazio da terra fresca,
no silêncio sempre novo,
nas vozes sobre o mar,
no sono sobre o mar.
Estou deitado
e alto.
Sou a tranquilidade dos montes,
a lenta curva das baías,
os olhos subterrâneos da água,
a liberdade dispersa do vento,
a claridade de tudo.
Escrevo sobre dunas
silenciosamente.
Oiço o tempo que não passa.
Um século de frescura
inunda-me.
Não esperava habitar esta vasta clareira
límpida.
Não esperava respirar esta brisa de paz,
de liberdade isenta,
de morte desvelada,
de vida renovada.
Abraço todo o espaço na liberdade viva.
O Aparelho Estranho
O aparelho estranho, delgada aranha
deitada e vertical harmoniosa
o mar e o sol no mesmo mar
e entre os arames o espaço ainda mais vivo
quase aereamente radica-se e penetra-nos
e são raios e raízes voos feridos
que nos libertam num trabalho claro.
O Papel, a Mesa, o Sol, a Pena…
O papel, a mesa, o sol, a pena…
Ao lado, a janela. E nada tenho
e nada sou que escrevo. E nada espero
de quanto espero.
Enquanto escrevo não sou nem mesmo quero
não escuto nem palavras nem silêncio.
Alinho palavras mas ainda não caminho.
Estou a uma mesa pobre sem movimento.
O papel, a mesa, o sol, a pena…
Nada começa, nem à sombra respiro.
Tudo é distinto e claro.
Tudo é certo ou obscuro. Em vão caminho.
Não quero esperar,
não quero navegar num mar fácil de palavras.
Quero caminhar somente com o corpo que sou,
quero, sem querer, ser o próprio sangue,
músculos, língua, braços, pernas, sexo,
a mesma certeza oculta e única, tantas vezes clara,
a mesma força que nos pulsos aflora, tensa,
a mesma noite aberta que a todo o dia estendo,
a mesma alta, elástica dança de um corpo vivo!
Mas agora estou no intervalo em que
toda a sombra é fria e todo o sangue é pobre.
Escrevo para não viver sem espaço,
para que o corpo não morra na sombra fria.
Sou a pobreza ilimitada de uma página.
Sou um campo abandonado. A margem
sem respiração.
Mas o corpo jamais cessa, o corpo sabe
a ciência certa da navegação no espaço,
o corpo abre-se ao dia, circula no próprio dia,
o corpo pode vencer a fria sombra do dia.
Todas as palavras se iluminam
ao lume certo do corpo que se despe,
todas as palavras ficam nuas
na tua sombra ardente.
Momento 2
Lentamente inalterada
a curva radiosa e justa
(comunhão de olhar e de mulher
os corpos salvos
na larga clareira em frente ao mar)
Momento imenso de espaço
a terra silenciosa e escura
atrás da casa
uma palavra nova apaga o sol
Diálogo Imóvel
No quarto lavado
perfeito quadrado
— que diálogo branco
entre a flor e a lâmpada
Uma vida acesa
e branca
outra silêncio de rosa apagada
Que vem dizer o sol
entre a flor e a lâmpada
que vem dizer o poema
no silêncio da casa?
*
Eis a palavra que inicia
é limiar e lábio ainda mudo
e já nos abre o espaço
de ó silencioso e claro
todo o quarto se desenha
a janela entreaberta
a luminosa mancha do sol
a mão que escreve
nada muda
senão o silêncio que se ilumina
*
Qual é o coração da casa?
Será o punho que palpita, mudo?
A flor diz o perfume do silêncio
A lâmpada confirma estática
a mão que procura traduzir
o diálogo suspenso
e intérmino
O coração da lâmpada
é uma pequena raiz metálica
A flor tem estames amarelos
e folhas brancas
*
Uma haste e um caule
— uma vertical ao centro
surge da água ao dia
suspende a inocência e a graça
em pétalas
A lâmpada debruçada
envolta na campânula
— recolhe-se
como um punho
A flor é totalmente presente
*
Quando se apaga no punho
a vibração
— quando a mão suspende o gesto
curvo
e o silêncio não fala
todo o diálogo se perdeu
— ninguém viu a flor
ou ela está ausente
*
Se o desejo se acende
quando a corrente se propaga
por fios unidos
se a vontade se dobra
ao dúctil fascínio
da flor
— a graça se abrirá em pétalas
tudo será presença luminosa.
Cópia de parte da narrativa «a Vadim», datilografado, s/d. "... . Adormeci e sonhei que me encontrava no meio de um canavial, à beira de um regato, embalado pelos oscilantes rumores da folhagem e das águas. De súbito, uma mulher nua, opulenta mas elegante (...) graciosa, surgiu de entre a espessura do canavial e continuou a atravessá-lo até à beira do regato, em cujas águas transparentes mergulhou o corpo deslumbrante. Se conto este sonho é porque me parece que representa o meu desejo dum paraíso vegetal ou de um retorno a uma simplicidade elementar. (...)
António Ramos Rosa, verdadeiramente, não fez do desenho atividade diária. O dia do poeta começava cedo e por reler os poemas do dia anterior. Sempre cheio de incertezas quanto à sua qualidade. Socorria-se do telefone e falava sobre os seus escritos, sempre perguntando sobre este ou aquele conteúdo. Quando recebia, o elogio, ouvia-se um som especialíssimo. Mas somente questionava mulheres, algumas, em trabalho de teses sobre António Ramos Rosa. Embora fosse uma pessoa sensível (embora em situações públicas, por vezes impaciente e nervoso) algumas "alunas" impacientavam-se e sofria por não o atenderem. Ora os seus desenhos, sempre de figuras femininas, só no outono da vida, e isto, para oferecer a quem o visitava.
António Ramos Rosa, - até prova, - não trabalhou no comércio.
Conheci, pessoalmente, António Ramos Rosa, um homem tímido, mas que surpreendia, que ao dentista desdenhoso respondeu "estar tão nervoso como quando lhe disseram que fora proposto para Prémio Nobel ou quando o empregado do café não o deixava entrar dado o vestuário pobre. Sim, considerava-se "diferente", "anómalo", "inferior". Mais tarde descobriu que era condição humana, pela contingência de cada ser "um mundo"; uma "composição", onde cada constitui a individualidade irredutível que resulta da organização da pessoa no mundo. "A consciência da minha separação provinha da minha ferida, que era para mim uma irremediável singularidade". Até que a individualidade lhe aparece como "resolução da diversidade do mundo" ... "embora conserve a sua singularidade abissal" ... . Conquistei, assim, a minha liberdade, a minha voz ganhou timbre de neutralidade do mundo em que eu me inseria e que era a minha composição pessoal, mas também transpessoal, do mundo" (...), Cf. doc. dact. "A COMPOSIÇÃO DOS MUNDOS"; manuscrito "A Vadim muito afectuosamente", s/d.
António ramos ??. Somente reescrever um nome de altiloquência literária me confere armas para eu próprio me precaver contra a ignorância que sou face ao Mundo que me inunda