Carrancas do Rio São Francisco
As carrancas do rio São Francisco
largaram suas proas e vieram
para um banco da rua do Ouvidor.
O leão, o cavalo, o bicho estranho
deixam-se contemplar no rio seco,
entre cheques, recibos, duplicatas.
Já não defendem do caboclo-d’água
o barqueiro e seu barco. Porventura
vêm proteger-nos de perigos outros
que não sabemos, ou contra os assaltos
desfecham seus poderes ancestrais
o leão, o cavalo, o bicho estranho
postados no salão, longe das águas?
Interrogo, perscruto, sem resposta,
as rudes caras, os lanhados lenhos
que tanta coisa viram, navegando
no leito cor de barro. O velho Chico
fartou-se deles, já não crê nos mitos
que a figura de proa conjurava,
ou contra os mitos já não há defesa
nos mascarões zoomórficos enormes?
Quisera ouvi-los; muito contariam
de peixes e de homens, na difícil
aventura da vida dos remeiros.
O rio, esse caminho de canções,
de esperanças, de trocas, de naufrágios,
deixou nas carrancudas cataduras
um traço fluvial de nostalgia,
e vejo, pela rua do Ouvidor,
singrando o asfalto, graves, silenciosos,
o leão, o cavalo, o bicho estranho…
08/08/1970
Figuras de Carlos Leão
O corpo feminino revelado
em sua linha virginal e eterna
(cada manhã, surpresa e novo encontro
a cada novo olhar que nele pouse):
são de Carlos Leão estas figuras
fruto de sua mão ou se criaram
por si mesmas, à luz dos movimentos
que a mulher vai fazendo e desfazendo
no simples existir da intimidade?
A melodia corporal expande-se,
contrai-se, tudo é música no gesto
ou no repouso. O sono, esse escultor,
modela raras formas e aparências.
Carlos Leão, que tudo vê e sente,
recolhe-as no seu traço, com amor.
09/06/1970
Diabos de Itabira
Os demônios de Itabira
serão, de fato, diabólicos,
ou meros e pobres-diabos
vagamente melancólicos?
Li que, fazendo diabruras,
aturdem parapsicólogos
como os Capetas antigos
aturdiam sábios teólogos.
De nada vale exorcismo
contra o Demo itabirano?
Ou talvez quem o exorciza
quer ir na onda do engano?
Que Tinhoso hoje se lembra
de dizer crespas bocagens,
se todas elas agora
são as flores da linguagem?
Entra, Canhoto, no embalo,
vai ao teatro, ao cinema.
Vê lá se terias chance
de enrubescer Ipanema.
Fazes correr os sapatos,
por si, à frente dos pés?
Qualquer mágico de esquina
faz isso e inda faz mais dez.
E nem carece ser mágico,
que este truque a gente sabe:
o povo corre e não pega
as tabelas da Sunab.
Meu Pé-de-Pato pernóstico
no vazio do Cauê:
a tuas artes prefiro
as do Saci-Pererê.
Ele apenas assobia,
não quer saber de Latim,
que já saiu do currículo
como a pedra sai do rim.
Estás desatualizado,
se queres obrar o mal.
Ele hoje em dia se usa
é na escala universal.
Quebras pratos: nem ao menos,
como a Vale do Rio Doce,
fazes desertos na mata,
a fogo, a machado, a foice.
Desculpa-me a rima torta,
pois Torto também te chamas.
Mas por que tão mixo surges,
sem esplendores e chamas?
E por que em Itabira
teus cascos foram parar?
Se nas terras do sem-fim
havia tanto lugar?
Se aí onde tu aspiras
a chatear meio mundo,
não tens sorte, meu Carocho,
nem no espaço de um segundo?
Pois a ironia da terra
que deu Tico e deu Fernando
Terceiro e deu Minervino
ri de quem a está gozando.
E goza, por sua vez,
os seiscentos mil Diabos,
sem recorrer a água-benta
nas pias e nos lavabos.
Os diabos de Itabira
— juro — não são diabólicos.
São meros e pobres-diabos
sem assunto, melancólicos.
23/07/1967
Com Camisa, Sem Camisa
Cardin consulta o Velho Testamento
(um grão de cultura ajuda o talento):
O primeiro homem não tinha camisa,
expunha o tórax ao beijo da brisa.
O sol lhe imprimia uns toques bronzeados,
Eva, no peito, fazia-lhe agrados…
Tão bacaninha! Pierre decretou:
“Camisa, mes chers, agora acabou”.
Os camiseiros já fundem a cuca,
fecham-se teares, em plena sinuca.
“Olha só que pão!” exclama no cock
a moça vidrada, e tenta um bitoque
em cada tronco miguelangelesco
em que o pelo põe grácil arabesco.
Um convidado (?) chega de repente,
manda parar a prática inocente:
“Um lençol! uma toalha! um guardanapo
para cobrir o nu, depressa, um trapo,
um jornal de domingo, bem folhudo,
que esconda o peito, a perna, o pé e tudo!
Tem estátua pelada no salão?
Mesmo em foto, é demais a apelação!
Nu, nem no banheiro. Tá compreendido?
Melhor é ensaboar-se alguém vestido”.
Viste, Pierre Cardin, o que fizeste
com tua inovação, cabra da peste?
Ante o rigor de repressão tamanha,
era uma vez tua última façanha.
14/03/1970
Festivais
I — DA CANÇÃO
Vinte canções, depois mais vinte
pedem licença à lei do ruído,
fazem soar, entre estampidos,
sua lição.
O Rio volta para a música
os seus ouvidos triturados.
O som é pobre? A letra, manca?
Não sejamos tão exigentes,
vamos ser francos:
o que se escuta, normalmente
pelas ruas sem pauta e solfa,
é o canto bárbaro de estouros
regougos pipocos roucos
melhor vertidos em quadrinhos:
Auch! Grunt! Grr! Tabuuum!
Plaft! Pow! Waham!
Eis que flui do Maracanãzinho
a melidoçura de uma valsa
de noite brasileira antiga
com beija-flores acordados
por Luciana de olhos marinhos.
E tem uma garota, Evinha,
no país dos diminutivos,
que parece nossa irmãzinha,
de tantos irmãos que irmana,
oi cantiguinha irmanadeira.
Ficam alguns a resmungar,
a debater, a perquirir
como que deve ser o jeito
da canção, mas todos os jeitos,
todas as vozes, acalantos,
alegrias, mensagens, prantos,
soledades, exaltações,
ternurina bobeira lírica,
nostalgias, ânsias futuras,
cotovelo-em-dor, abraço-em-transe
cabem no canto, são o canto.
Se não há festa no momento,
há festival
e entre faixas, flâmulas flamengas
e outras que tais
o povo escolhe, soberaníssimo,
seus ritmos ao tempo e ao vento.
Um sabor de voto percorre
a miniarena do Maraca
e a eleição, em dupla fase,
está mostrando a face clara:
o amor faz seu gol de letra
pelas letras do mundo inteiro:
Love is all, Love is all around
Mon enfant, mon amour
me has enseñado a conocer,
em beijo sideral,
lo que es el amor.
Je t’aime et la Terre est bleue.
(Não será tão bleue quanto queres,
mas há sempre um resto de arco-íris
na íris móbil das mulheres.)
Que importa se a melhor canção
não foi escrita nem sonhada?
Se não palpita em folha branca
e muda garganta?
Eu canto meu possível, neste
possível mundo
e uma alegria sem rataplã,
leve, redonda, sobra num mágico
voo andorinho,
das noites-dias do Maracanãzinho.
04/10/1969
II — DO CINEMA
GENEVIÈVE WAITE
Pálida Joaninha
pálida e loura, muito loura e —
nem tão fria quanto no soneto
esvoaça entre leitos.
A borboleta presa no pulso
quer voar mas falta céu em Londres enevoada.
NEDA ARNERIC
O broto de 15
estrelando filmes
proibidos para
os brotos de 15.
BRASILEIRA
Florinda Bulcão, florido
balcão: com esse nome lindo
no frontispício do poema,
para que fazer cinema?
O NOME
Trintignant
trinta trinchantes
trinca nos troncos
tranca no trinco
tranco sonoro
— Adoro! —
diz num trinado
trêfega trintona.
LIQUIDAÇÃO
E Robbe-Grillet, de um lance,
mostra, encantado, seu lema:
— Já liquidei com o romance,
vou liquidar com o cinema.
TRÁFEGO
O diretor de Uma aventura no espaço
a poucos metros da Lua
veio ver pessoalmente
nossa terrível aventura no limitado
espaço de uma rua
de sinal enguiçado.
VELHA GUARDA
Joseph von Sternberg
Fritz Lang
Cavalcanti
3 ∑ 70:
210 anos de cinema
o poder é sempre jovem
quando é alguma coisa mais do que o poder.
MERCADO DE FILMES
Compra-se um
que tenha menos de 10 espiões
assassinos/assassinatos;
que, tendo cama,
tenha também outros móveis agradáveis
à vida comum do corpo,
como a espreguiçadeira, a mesa, a cadeira;
que tenha princípio,
meio e fim;
que não tenha charada nem blá-blá-blá,
enfim
um filme que não existe mais.
Paga-se tudo.
GENEALOGIA
Na piscina do Copa
tela líquida panorâmica
do festival de corpos
o repórter erudito
pergunta a Mireille Darc:
— Mademoiselle,
est-ce que vous êtes
la toute petite-fille de Jeanne d’Arc?
DESAFIO
Matemática de cine
a estudar em Ipanema
pelo jovem não quadrado
(Pasolini é quem previne):
Superbacana é o teorema
que não será demonstrado.
25/03/1969
Em Versiprosa
Soyez le bienvenu, mon général!
Que tal o meu sotaque? — Menos mal.
A questão é que as novas Diretrizes
e Bases não são lá muito felizes
ao deixar ao capricho do freguês
estudar tudo ou nada de francês.
Aprendemos assim, ano após ano,
somente inglês (inglês americano)
para dizer: Welcome, boy! a Charles,
como se fosse um falar novo de Arles?
(Daqui já estou sentindo, a breve alcance,
toldar-se o tempo na Maison de France.)
Ah! bem melhor, mais simples e faceiro,
falar ao general em brasileiro,
em carioca, na língua de Monsueto,
de samba, de “meu chapa”… O resto é espeto.
Mas, em momento de efusão cordial,
lembro e saúdo Béatrix Reynal,
tão francesa, tão nossa, no Leblon,
ensinando a ser útil e a ser bom.
Seu velho sonho: a França convidá-la
a ver de novo a França. O muito amá-la
e servi-la, na hora do perigo,
não justificaria o gesto amigo?
Sê gentil, Marianne, e sem detença
a querida Béatrix leva à Provença.
— Ei, amigos, chegou o dia onze.
Já pode repicar na torre o bronze,
acabaram-se as listas a granel.
Foi por falta de tempo ou de papel?
Se continuasse assim, pelo infinito,
não escapava gato nem mosquito.
Suspenso, aposentado, reformado,
demitido, cassado, processado,
e tudo mais em ido ou ado — geme
a justiça, se é que existe no IPM.
João Brandão, do bom gosto sentinela,
pleiteia novo horário de novela:
de zero a zero hora — obrigatório
para autor de novelas (punitório
e exclusivo, em cabines especiais,
para não perpetrá-las nunca mais).
Finda a semana, a chuva no lajedo
zarandando, ponho-me a ler Macedo
Miranda, e nos contos de As Três Chaves
engenho e arte, em requinte, são como aves
de agudo bico, e bicam no mistério
das coisas um encanto extraordinário.
É rima? Não é rima? Pingo um pingo
na cronicola, e a todos bom domingo.
11/10/1964
A Paulo de Tarso
São Paulo aos Coríntios:
“Ao soar a última trombeta
ressuscitarão os mortos,
incorruptíveis”.
Paulo, temos pressa de cumprir
teu maravilhoso anúncio.
Demora tanto essa final trombeta,
e acaso será ouvida entre milhões
de ruídos modernos
que o bel e o decibel não medem?
Queremos já, no chão terreno,
sobre a morte plantar nossa vitória.
Não te aborreças, Paulo.
O nosso irmão Ettinger, incumbido
de quebrar este galho, eis que inventou
uma casa de mortos especial,
que a morte dribla e ilude.
Estão mortos, parece?
Não, apenas
desligados da vida, congelados.
Daqui a 20, 30, talvez menos,
5 anos, quem sabe?, ressuscitam,
continuando a lavrar a mesma vida.
A mesma, Paulo. Não a outra,
aquela vida nova, azulfutura
a que teu verbo os preparava.
A 273 graus de zero abaixo
um tanto de glicerol e outro de
dimestilsulfóxido
(vocábulos de Novíssimo Testamento)
impedem a corrupção,
perdão,
detêm a corrupção na justa hora
de o coração parar.
Parou. Fica esperando
que uma droga sutil seja criada
pelos nossos irmãos, em cada caso.
A droga surge,
rompe-se o caixão plástico na câmara
mortu-refrigerada, cumpre-se
tua palavra, Paulo (ou a de Cristo)
a nosso modo:
a vida
com seus enigmas
ameaças
pânicos
difícil de ser cumprida e desejada
apesar disso, por isso?
ocupa novamente o peito ex-glaciar
e nele reinstala
sua dor de pensar
sua dor de amar
e a (que não dói, mas dói) de esquecer
e todas as complementares
que pelo ar haviam fugido
no tempo da morte clínica,
antes de mano Ettinger bolar
a mortivida frígida.
Dispensa o coro de trombetas,
Paulo,
nossa vitória aceita como boa:
“Ressuscitarão os mortos
(in)corruptíveis”.
Em verdade conseguimos
(perdoa)
a ressurreição em meia
confecção.
18/01/1967
O Pico de Itabirito
O Pico de Itabirito
será moído e exportado,
mas ficará no infinito
seu fantasma desolado.
Com tanto minério em roda
podendo ser extraído,
a Icominas se açoda
e nem sequer presta ouvido
ao grave apelo da História
que recortou nessa imagem
um marco azul da memória
e um assombro da paisagem.
St. John del Rey Mining sai
mais Hanna mais Icominas
e sem dizer água-vai
serram os serros de Minas,
nobres cimos altaneiros
que davam, com sobriedade,
aos de casa e a forasteiros
um curso de eternidade.
A tripla, agressiva empresa
acha que tudo se exporta
e galas da natureza
são luzes de estrela morta.
Tradição? Ora, bulufas,
ruínas, frases e ossos.
Algibeira, como estufas
de ouro feito de destroços!
Mas eis que salta o Conselho
dos homens bons da DPHAN,
no caso mete o bedelho
e na brisa da manhã
acende um sol de esperança
sobre a paisagem mineira.
(Até onde a vista alcança,
era dinamite e poeira.)
— O Pico de Itabirito,
este há de ser preservado
como presença, não mito,
de um borbulhante passado.
Conselho dixit. E “tombando”
a rocha, mais rocha agora,
demonstra-nos como, quando,
com peito, uma lei vigora.
St. John, Hanna e Ico, murchos,
detêm-se para pensar.
Queimaram-se os seus cartuchos
ou resta um jeitinho no ar?
— Vamos chorar nossas mágoas
e, reforçando o lamento,
arar em sabidas águas:
Ação, desenvolvimento!
Tudo exportar bem depressa,
suando as rotas camisas.
Ficam buracos? Ora essa,
o que vale são divisas
que tapem outros “buracos”
do Tesouro Nacional,
deixando em redor os cacos
de um país colonial.
Escorre o tempo. E, à cantiga
dessa viola afinada,
já ninguém mais lembra a antiga
voz do Conselho, nem nada.
E vem de cima um despacho
autorizando: Derruba!
Role tudo, de alto a baixo,
como, ao vento, uma embaúba!
E o Pico de Itabirito
será moído, exportado.
Só quedará, no infinito,
seu fantasma desolado.
16/06/1965
A Festa
I — CARNAVAL 1969
A festa acaba impreterivelmente às 4 da matina,
mas se houver vaia
continuará até as 5.
Wilza Carla de ovos de ouro distribui pintos de prata
à distinta comissão julgadora
indecisa entre Tason, o ídolo de Marfim
e Eleonora de Aquitânia à la tour abolie.
Helena entra a cavalo.
Pode não, pode não, cavalo não é paetê.
Prego! pregou na hora e vez de desfilar.
Minuto de silêncio corta o samba
em duas fatias doloridas de nunca mais.
Naval navega onde que não vejo?
70 PMs, 40 detetives especializados
engrossam o Golden Room do Copa.
Ford e Veruschka, o Poder e a Glória,
dividem entre si o terceiro mundo,
mas resta sempre um quarto, um quinto, um
solivagante Eu Sozinho a carregar
todo o peso da graça antiga na Avenida.
Boneco gigante prende o passarinho na gaiola,
embaixo o letreiro: SOL E ALEGRIA.
Salgueiro ao sol
abafa no atabaque e na harmonia.
A gata de vison arranha a bela
acordada nos bosques de Portela.
Dante já não escreve: assiste
à divina comédia de Bornay.
Machado de Assis segue no encalço
de Capitu metida num enredo
mano a mano com Gabriela amor-amado.
Turistas fantasiados de
turista
em vão tentam galgar o olimpo das bancadas.
Pau comeu.
400 músicas gravadas,
6 ou 7 cantadas,
52 mortos em desastre,
17 homicídios,
suicídios 5,
2 fetos,
355 menores apreendidos,
400 garis a postos
para varrer o lixo da alegria.
É cedo, espera um pouco; Chave de Ouro,
festa depois da festa, enfrenta o gás
e o cassetete.
Júri soberano,
os grandes derrotados te saúdam.
Júri safado,
premiou fantasia do baile de 1920.
Pobre júri de escolas,
20 horas, 20 anos indormidos.
A noite cobre a noite do desfile
interminável qual fio de navalha
e deixa cair a peteca.
Que é que eu vou, que é que eu vou dizer em casa?
Levanta a cabeça,
já não precisas dizer nada.
A moça no pula-pula do salão
perdeu o umbigo.
Quem encontrar favor telefonar,
será gratificado.
Bem disse Nana Caymmi: Carnaval
me dá falta de ar.
E resta um bafo da onça na calçada
junto a um confete roxo e um pareô
sem corpo, nu e só, ô ô ô ô.
23/02/1969
II — CARNAVAL 1970
Quatrocentas mil pessoas fogem do Rio
duzentas mil pessoas correm para o Rio
inclusive travestis, que um vale por dois.
A festa assusta e atrai, a festa é festa
ou um raio caindo na cidade?
Que peste passou no ar e foi matando
formas simples de vida costumeira?
A cidade morreu nos escritórios,
nas indústrias, nas lojas. Bairros inteiros
petrificados em mutismo. Janelas
trancadas em protesto ou submissão.
A cidade explode nos clubes
cantansambando
sambatucando
vociferapulando.
Estoura no asfalto em flores furta-cores girandólias
entre florestas metálicas batendo palmas e vaiando
entre postes fantasiados e vinte mil policiais.
Explode meu Rio e sobe,
até a Lua vai a nave da rua
e sambaluando exala em quatro noitidias
queixumes recalcados o ano inteiro.
A decoração desta cidade
eram mares, montanhas e palmeiras
convivendo com gente.
Acharam pouco. Há muitos anos
acrescentam-se bonecos de plástico, sarrafos
em fila processional sobre as cabeças,
brincando no lugar dos que não brincam
ou mandando brincar, ordem turística.
E meu Rio bordado de palhaço
brincou na pauta, brincou fora da pauta.
Brincar é seu destino, ainda quando
há desrazões de ser feliz,
ou por isso mesmo, quem entende?
(Quem quiser que sofra em meu lugar.)
E repetiu os gestos, renovando-os
um após outro, como se este fosse
o carnaval primeiro sobre a Terra
ou o último carnaval, adeus adeus.
E foram todos
ao primo baile
do Municipal
e os ouropéis
das fantasias
monumentais
ninguém sonhara
tão divinais
e as escolas
de samba autêntico
(menos ou mais)
nunca estiveram,
caros ouvintes,
tão geniais.
Meu Deus, acode,
este samba é demais.
Na tribuna computadores críticos
analistas, objetivos: “Não foi bem assim.
A bateria deixou a desejar.
Aquele prêmio? Plágio de plágio
de 58 (veja nos arquivos).
Faltou isso & aquilo, faltou garra,
faltou carnaval ao carnaval”.
Ah, deixa falar, deixa pra lá.
Deixa o cavo coveiro resmungar
que há longo tempo o grande Pan morreu.
No bafo da festa da onça
na vibração da pluma do cacique
no rebolado de Dodô Crioulo
no treme-treme de bloco frevo rancho
na bandeira branca da paz e mais amor,
todo carnaval
é o bom é o bom é o bom.
E ficou barato o pagode, meu compadre?
Oh, quase nada: todos os enfeites
não chegam a um milhão e meio de cruzeiros
novos: contas radiantes de colar
no colo da cidade à beira-mar.
E quem fez os coretos do subúrbio?
Foi o subúrbio mesmo, na pobreza
sem paetê, que finge de brincar
na distância, no ermo e profundeza
de buracos de estrada por tapar.
Mas deixa pra lá, deixa falar
a voz da Penha, de Madureira e Jacarepaguá.
O carnaval é sempre o mesmo e sempre novo
com turista ou sem turista
com dinheiro ou sem dinheirocom máscara proibida e sonho censurado
máquina de alegria montada desmontada,
sempre o mesmo, sempre novo
no infantasiado coração do povo.
12/02/1970
Cruzeiro Vai, Cruzeiro Vem
Meu pobre cruzeiro velho:
não viveste nem trint’anos
e acabas mais acabado
que os fósseis aurinacianos.
Surgiste das cinzas ralas
do desossado mil-réis
e te saudaram em coro
monetários menestréis.
Assim crivado de estrelas
(de dívidas, nós, crivados)
luzias, dando esperança
a bolsos acabrunhados.
Atiraste um zero fora
como inútil ornamento
e o cifrão passaste à esquerda:
notável melhoramento.
Em teu afã reformista,
torceste o pescoço ao “conto
de réis” — e mais não fizeste
que aqui mereça raconto,
salvo trazeres ao colo
um menininho, o centavo,
que mesmo em grupo de oitenta
era o óvulo de um avo,
e durou menos que a rosa
do tal poeta francês,
enquanto te esmilinguias
cada vez mais cada vez.
O que o mil-réis adquiria
(aliás, coisa mofina)
fugiu de ti como o peixe
foge à caça submarina.
Em vão gastaste a reserva
de nossos atos de fé.
Em vão usaste o retrato
do bravo Tamandaré.
Até que afinal sumiste
de tão completo sumiço
que ouvindo falar teu nome
eu me pergunto: Que é isso?
Hoje te dá um decreto-
-lei piedosa sepultura
e de teu fantasma brota
uma diversa criatura.
Diversa mesmo? De novo
há o “novo”, no casco antigo:
valor de mil cruzas fluidos
florindo no seu jazigo.
Mas o simples adjetivo
que bem me faz e a meu povo!
Psicológico, é claro,
mais claro que clara de ovo.
O pequenino centavo
revive, tão camarada.
Ao vê-lo de roupa nova
sente-se a graça do nada.
Quanta coisa agora eu compro
pelo artifício da moeda!
Fico rico de repente,
mais ágil depois da queda.
Já não me cose o alfaiate
um saco em vez de algibeira:
cabe tudo, e sobra espaço
numa dobra de carteira.
Do que era mil resta um?
Pois onde há um penso mil.
E nesse ziriguidum,
do ceitil que sei? Sei til.
(Enquanto voa, sutil,
o Oiseau Bleu de Tyltyl.)
17/11/1965
....quase uma quadrilha à moda portuguesa. A quadrilha daquela assembleia que nenhuma História quer ver entrar, de tanto entrarem e saírem dos bancos levam a população a crer que estamos a saque
.....sobre o que não se conhecia e, ébrio por conhecer vem porque o admira. Ele é muito reconhecido em Portugal e muito lido por uma vasta comunidade académica
Poeta completo.
Admiro muito este poeta e contista. Sua poesia mais contundente para mim e, Os ombros suportam o Mundo e a Rosa do Povo.
Adoro, fico extasiada quando leio os seus poemas
adoro seus poemas pois alem de nao ser tao dificil compreensao fica lindo e direto o que eu sinto
faser mais estrofes
amei você é d+ te amo nunca se encontra um brasileiro igual a você S2
adoruu toda a historia dele!!!!!!
Adorei muito Legaaallllllll................
Um Genio apaixonante sabe oq é amar a vida e as pessoas e a nutureza!!!!!
Bonita a historia dele adorei
Achei magnifica essa biografia parabéns ao autor
amo as poesia de Drummond,e genial,,,e fica a dica e so pros'''que sabe apresia tudo o que foi escrito por esse grande altor...assm ;;Reane batista da silva....
tem gente q só qer saber quando nasceu e quando morreu esses são os famosos enguinorantes eu nn curto muito poemas mais o desse cara é d+++ kkk '_'
Carlos Drummond de andrade um homem que transformava o cotidiano da vida em poesia jamais me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho......
gostei super legalllll !!!!!!!!!!
me imprecionou,mas sou supeito por ser fã
Amei sua historia......D+
Amei,Amei,Amei...d+!!!!
Adorei a história quero saber mais um
adorei a historia desse cara e demas
amo o poema José.
adorei a história dele muito interessante amei!!!!!!!!!