Inconfidência Mineira
Tem dois escravos Padre Toledo:
José Mina, que toca trompa,
Antônio Angola, rabecão.
O padre mete-se no rocambole
da insurreição.
A Real Justiça levanta o braço
da repressão.
Engaiola o padre na fortaleza
de São Julião.
Confisca os músicos, confisca a trompa
e o rabecão.
Música-gente, crioula música
duas vezes
na escravidão.
O Peso de Uma Casa
La maison de mon père était vaste et commode
merecia de mim um soneto ou uma ode.
Eu não soube entendê-la e não soube trová-la.
Só resta, exígua estampa, o frescor de uma sala.
Aquela egrégia escada, aquela austera mesa
sumiram para sempre em lances de incerteza.
Caem móveis em pó, e ondulantes cortinas
deixaram de esvoaçar no silêncio de Minas.
Ouço o tlintlim de um copo, o espocar de uma rolha,
sonidos hoje iguais ao virar de uma folha.
Cada tábua estalando em insônia sussurra
a longa tradição da família casmurra.
E os passos dos antigos, a grita das crianças
migram do longe-longe em parábolas mansas.
Perco-me a visitar a clausura dos quartos
e neles eis entrevejo, no escorrer de lagartos,
formas acidentais de uma angústia infantil
a estruturar-se logo em castelo febril.
Sou eu só a portar o peso dessa casa,
que afinal não é mais que sepultura rasa.
Dois Sonhos
O gato dorme a tarde inteira no jardim.
Sonha (?) tigres enviesados a chamá-lo
para a fraternidade no jardim.
Gato sonhando, talvez sonho de homem?
Continua dormindo, enquanto ignoro
a natureza e o limite do seu sonho
e por minha vez
também me sonho (inveja) gato no jardim.
Arte Em Exposição
CASAMENTO DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS COM A POBREZA (Sasseta)
O amor te escolheu
por seres a mais casta
entre virgens ideais.
A união é do ar
e da água e do pão
em migalhas.
AUTORRETRATO (Soutine)
Sou eu ou não sou eu?
Sou eu ou sou você?
Sou eu ou sou ninguém,
e ninguém me retrata?
MÚSICOS CEGOS (Velázquez)
Violino e guitarra são videntes,
olham pelos olhos dos cantantes.
RETRATO DE MADAME HÉBUTERNE (Modigliani)
Plantada na torre do pescoço,
a cabeça, na altura,
mal percebe nossas inquietações de planície.
O GRITO (Munch)
A natureza grita, apavorante.
Doem os ouvidos, dói o quadro.
LEDA (Da Vinci)
Já gozaste demais, diz Leda ao cisne.
Que venha logo Jove cataclismo.
GENTIL HOMEM BÊBADO (Carrà)
De Baudelaire o conselho:
É preciso estar sempre bêbado.
Além do imaginário e do real
é preciso estar sempre sóbrio
para pintar a bebedeira.
ODALISCA VERMELHA (Matisse)
A indolência da odalisca em rosa rubra
respira paz de lânguido fervor.
A sensualidade se dilui:
pura cor.
A CADEIRA (Van Gogh)
Ninguém está sentado,
mas adivinha-se o homem angustiado.
A CIGANA ADORMECIDA (Henri Rousseau)
Para te acordar
do sono profundo
disfarço-me: leão
que ao te roçar
esquece a missão.
A PONTE DE MANTES (Corot)
Assim quisera eu ser:
ponte árvore canoa água serena
ignorante de tudo mais bem longe.
A ANUNCIAÇÃO (Fra Angelico)
O anjo desprende-se da arquitetura
para dar a notícia
precisamente conforme a traça
de sublime arquiteto.
ALMOÇO SOBRE A RELVA (Manet)
Conversamos placidamente
junto da nudez
que pela primeira vez
não nos alucina.
VÊNUS E O ORGANISTA (Ticiano)
O som envolve a nudez
e chega ao cachorrinho.
O músico esquece a partitura.
As pulseiras de Vênus não escutam.
TIRADENTES (Portinari)
Fez-se a burocrática justiça.
O trono dorme invencível vingado.
Postas de carne do sonhador
referem o caminho das minas.
CAFÉ NOTURNO (Van Gogh)
Alucinação de mesas
que se comportam como fantasmas
reunidos
solitários
glaciais.
TRANSVERBERAÇÃO DE SANTA TERESA (Bernini)
Visão celestial, doce delírio.
Da cabeça aos pés nus
êxtase (orgasmo?) relampeia.
RETRATO DO CASAL ARNOLFINI (Jan van Eyck)
A imagem reproduz-se até o sem-fim.
O casal sem filhos
gera continuamente nos espelhos
a imagem de perpétuo casamento.
SALOMÉ (Giorgione)
Que instinto maternal, que suavidade
embala esta cabeça decepada?
VÊNUS ADORMECIDA (Giorgione)
Acalenta no sono
o púbis acordado.
JARDIM DO MANICÔMIO (Van Gogh)
O jardim onde passeia a ausência de razão
é todo ele ordem natural.
A terra acolhe o desvario
que assimila a verdura e a leveza do ar.
VOLTAIRE (Houdon)
O mundo não merece gargalhada. Basta-lhe
sorriso de descrença e zombaria.
SAPATOS (Van Gogh)
Cansaram-se de caminhar
ou o caminho se cansou?
AUTORRETRATO COM COPO DE VINHO (Chagall)
Seja celebrada a alegria nas alturas
por cima dócil das mulheres.
A cavalo melhor se chega ao céu.
QUADRO I (Mondrian)
Universo passado a limpo.
Linhas tortas ou sensuais desaparecem.
A cor, fruto de álgebra, perdura.
CARNAVAL DE ARLEQUIM (Miró)
Descobri que a vida é bailarina
e que nenhum ponto inerte
anula o viravoltear das coisas.
FUZILAMENTO NA MONCLOA (Goya)
Balé de tiros gritos corpos derrubados.
A lanterna tranquila
acena para a esperança da Ressurreição.
AS TRÊS GRAÇAS (Rubens)
Curvilíneos volumes se consultam
e concluem:
Beleza é redundância.
PIETÀ (Miguel Ângelo)
Dor é incomunicável.
O mármore comunica-se,
acusa-nos a todos.
A DUQUESA DE ALBA (Goya)
Ser o cachorrinho da Duquesa
é de certo modo
ser uma partícula da Duquesa.
GIOCONDA (Da Vinci)
O ardiloso sorriso
alonga-se em silêncio
para contemporâneos e pósteros,
ansiosos, em vão, por decifrá-lo.
Não há decifração. Há o sorriso.
RETRATO DE ERASMO DE ROTTERDAM
(Quentin Metsys)
Santidade de escrever,
insanidade de escrever
equivalem-se. O sábio
equilibra-se no caos.
Desligamento
Ó minh’alma, dá o salto mortal e desaparece na bruma, sem pesar!
Sem pesar de ter existido e não ter saboreado o inexistível.
Quem sabe um dia o alcançarás, alma conclusa?
Ó minh’alma, irmã deserta, consola-te de me teres habitado,
se não fui eu que te habitei, hóspede maligno,
com irritação, com desamor, com desejo de ferir-te:
que farei sem ti, agora que te despedes
e não prometes lembrar este corpo destituído?
Ó minha, ó de ninguém, ó alma liberta,
a parceria terminou, estamos quites!
Noite de Outubro
Lua no apogeu.
Gama do Tucano brilha exageradamente.
O Zodíaco pesa-me sobre a cabeça,
rastro de pecado, crime que não perpetrei.
Que fiz para cercar-me de tantas, tamanhas constelações
atentas ao nascimento e à morte deste corpo,
como se ele fosse o Arquiduque do Mundo
e não esta lenta vírgula rastejante
no chão noturno da existência?
Indagação
Na morta biosfera,
o fantasma do pássaro
inquiriu
ao fantasma da árvore
(que não lhe respondeu):
— A Primavera já era
ou ainda não nasceu?
Bordão
Em torno de um bordão organiza-se o espírito.
O bordão, seu poder e sua circunstância.
Nada ocorre de belo, nada ocorre de mal
fora da sonoridade do bordão.
Repetir é viver e criar ressonâncias
constringidas pelo muro de um jardim
que não chega a florir e esparze cicatrizes
de begônias violáceas em hora de sentir.
De sentir ou voltar à pauta do bordão,
e asas presas no sótão ou no campo filmado?
Que se escuta afinal ou não se escuta mais
no pingar repetido, no vácuo prefixado de sempiterno bordão?
Aparição Amorosa
Doce fantasma, por que me visitas
como em outros tempos nossos corpos se visitavam?
Tua transparência roça-me a pele, convida
a refazermos carícias impraticáveis: ninguém nunca
um beijo recebeu de rosto consumido.
Mas insistes, doçura. Ouço-te a voz,
mesma voz, mesmo timbre,
mesmas leves sílabas,
e aquele mesmo longo arquejo
em que te esvaías de prazer,
e nosso final descanso de camurça.
Então, convicto,
ouço teu nome, única parte de ti que não se dissolve
e continua existindo, puro som.
Aperto... o quê? A massa de ar em que te converteste
e beijo, beijo intensamente o nada.
Amado ser destruído, por que voltas
e és tão real assim tão ilusório?
Já nem distingo mais se és sombra
ou sombra sempre foste, e nossa história
invenção de livro soletrado
sob pestanas sonolentas.
Terei um dia conhecido
teu vero corpo como hoje o sei
de enlaçar o vapor como se enlaça
uma ideia platônica no espaço?
O desejo perdura em ti que já não és,
querida ausente, a perseguir-me, suave?
Nunca pensei que os mortos
o mesmo ardor tivessem de outros dias
e no-lo transmitissem com chupadas
de fogo aceso e gelo matizados.
Tua visita ardente me consola.
Tua visita ardente me desola.
Tua visita, apenas uma esmola.
Ultratelex a Francisco
Francisco, bom dia no seu dia!
O dia de sua morte… Quem falou?
Imagino um afresco de Giotto:
Aves riscam os quatro ventos do céu,
formam cruzes de plumas. Entre elas,
sobe o poeta a conversar com os anjos.
Ninguém repara em suas mãos transparentes
o signo de cinco cravos sangrentos.
Cruzes e cravos que amor transmuda
em alegria superior a sofrimento.
Não é morte. É dia pleno.
Oi, Francisco, perito em alegrias especiais!
A maior: não possuir nada de nada.
Nem mesmo o burel castanho: é para rasgar e distribuir.
Nem mesmo o corpo: reservado
aos estigmas da divina predileção.
Francisco operário madrugador na construção de igrejas
(não de edifícios de renda, longe disso):
tantas coisas para lhe contar, daqui de baixo.
Mas você não cansou, em sete séculos e meio,
de ouvir a eterna queixa, o monocórdio estribilho
de nossa falta de humildade cortesia ternura nudez?
Veja por exemplo os bichos. (Só a eles me refiro
porque não falam por si.) Arvoro-me em secretário
do mico-estrela, da tartaruga, da baleia,
de todos, todos. Dos mais espetaculares aos mínimos,
tão míseros.
De irmãos você os chamava. Repare: aterrorizados,
fogem de nós, com muita razão e longos medos.
De um e outro, isolados,
gostamos. Coisa nossa, brinquedo. É gosto sem gostar,
feito de posse-domínio.
Veja as infinitas coleções
de animais que padecem em todos os chãos e águas da Terra
e não podem dizer que padecem, e por isso padecem duas vezes,
sem o suporte da santidade.
Pior, Francisco: o padecimento deles
é de responsabilidade nossa — humana? desumana.
Pois nós os torturamos e matamos
por hábito de torturar e de matar
e de tornar a fazê-lo, esporte
com halalis, campeonatos, medalhas, manchetes,
ouro pingando sangue.
Repiso estas coisas meio encabulado.
Tão velhas!
Tão novas sempre, secamente.
Técnicas letais varejam o fundo do mar
e o velho tiro, a velha lâmina
estão sempre caçando o irmão-bicho.
Lembrar que terrível penúria de amor
lavra nos corações convertidos em box
de supermercado de crueldades?
E penúria logo de amor,
essa matéria-prima, essa veste inconsútil de sua vida, Francisco?
Calo-me, santinho nosso,
mas antes faço-lhe um apelo:
providencie urgente sua volta ao mundo
no mesmo lugar, em lugar qualquer,
principalmente onde se comercia a santa esperança dos homens,
para ver se dá jeito,
jeito simples, franciscano, jeito descalço
de consertar tudo isso. Os bichos,
por este secretário, lhe agradecem.
....quase uma quadrilha à moda portuguesa. A quadrilha daquela assembleia que nenhuma História quer ver entrar, de tanto entrarem e saírem dos bancos levam a população a crer que estamos a saque
.....sobre o que não se conhecia e, ébrio por conhecer vem porque o admira. Ele é muito reconhecido em Portugal e muito lido por uma vasta comunidade académica
Poeta completo.
Admiro muito este poeta e contista. Sua poesia mais contundente para mim e, Os ombros suportam o Mundo e a Rosa do Povo.
Adoro, fico extasiada quando leio os seus poemas
adoro seus poemas pois alem de nao ser tao dificil compreensao fica lindo e direto o que eu sinto
faser mais estrofes
amei você é d+ te amo nunca se encontra um brasileiro igual a você S2
adoruu toda a historia dele!!!!!!
Adorei muito Legaaallllllll................
Um Genio apaixonante sabe oq é amar a vida e as pessoas e a nutureza!!!!!
Bonita a historia dele adorei
Achei magnifica essa biografia parabéns ao autor
amo as poesia de Drummond,e genial,,,e fica a dica e so pros'''que sabe apresia tudo o que foi escrito por esse grande altor...assm ;;Reane batista da silva....
tem gente q só qer saber quando nasceu e quando morreu esses são os famosos enguinorantes eu nn curto muito poemas mais o desse cara é d+++ kkk '_'
Carlos Drummond de andrade um homem que transformava o cotidiano da vida em poesia jamais me esquecerei que no meio do caminho tinha uma pedra tinha uma pedra no meio do caminho......
gostei super legalllll !!!!!!!!!!
me imprecionou,mas sou supeito por ser fã
Amei sua historia......D+
Amei,Amei,Amei...d+!!!!
Adorei a história quero saber mais um
adorei a historia desse cara e demas
amo o poema José.
adorei a história dele muito interessante amei!!!!!!!!!