Charles Bukowski

Charles Bukowski

1920–1994 · viveu 73 anos DE DE

Charles Bukowski foi um poeta e escritor alemão-americano, conhecido por sua obra crua, visceral e autobiográfica. Sua escrita, frequentemente associada à chamada "geração beat" e à contracultura, retrata a vida marginal, os vícios, a pobreza, o sexo e a alienação com uma linguagem direta e sem rodeios. Bukowski celebrou o submundo e os desajustados, tornando-se um ícone para muitos que se sentiam à margem da sociedade.

n. 1920-08-16, Andernach · m. 1994-03-09, San Pedro

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O Gênio da Multidão

Há suficiente violência, traição,
ódio
Absurdo no ser humano
comum
Para abastecer qualquer exército a qualquer
dia.
E Os Melhores Assassinos São Aqueles
Que Pregam Contra Ele.
E Os Que Melhor Odeiam São Aqueles
Que Pregam o AMOR
E OS MELHORES NA GUERRA
– POR FIM – SÃO AQUELES QUE
PREGAM
A PAZ
Aqueles Que Pregam DEUS
PRECISAM de Deus
Aqueles que Pregam A PAZ
Não Têm Paz.
AQUELES QUE PREGAM O AMOR
NÃO TÊM AMOR
CUIDADO COM OS PREGADORES
Cuidado com Os Conhecedores.
Cuidado
Com Aqueles
que SEMPRE
ESTÃO LENDO
LIVROS
Cuidado com Aqueles Que Detestam a
Pobreza Ou Estão Orgulhosos Dela
CUIDADO Com Aqueles Rápidos na Prece
Porque Eles Precisam de PRECES em Troca
CUIDADO Com Aqueles Rápidos em Censurar:
Eles Têm Medo Daquilo Que
Não Conhecem
Cuidado Com Aqueles Que Buscam Multidões
Constantes; Eles Não São Nada
Sozinhos
Cuidado Com
O Homem Comum
A Mulher Comum
CUIDADO Com o Amor Deles
O Amor Deles É Comum, Busca o
Comum
Mas Há Gênio No Modo Como Odeiam
Há Gênio Suficiente No Ódio
Deles Para Matá-Lo, Para Matar
Qualquer Um.
Por Não Desejarem a Solidão
Por Não Entenderem a Solidão
Tentarão Destruir
Tudo
Que Seja Diferente
Deles Mesmos
Por Serem Incapazes
De Criar Arte
Eles Não
Entenderão a Arte
Considerarão o Fracasso
Como Criadores
Somente Como Uma Falha
Do Mundo
Por Serem Incapazes De Amar Por Completo
ACREDITARÃO Que Seu Amor É
Incompleto
E ASSIM ELES ODIARÃO
VOCÊ
E o Ódio Deles Será Perfeito
Como Um Diamante Que Cintila
Como Uma Faca
Como Uma Montanha
COMO UM TIGRE
COMO Cicuta
A ARTE Que Lhes É
Mais Fina
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Biografia

Identificação e contexto básico

Heinrich Karl "Hank" Bukowski Jr. foi um poeta, contista e romancista alemão-americano. Nasceu em Andernach, na Alemanha, em 16 de agosto de 1920, e faleceu em San Pedro, Califórnia, Estados Unidos, em 9 de março de 1994. É uma figura proeminente da literatura marginal e da contracultura americana. Filho de pais alemães, mudou-se com a família para os Estados Unidos quando tinha três anos.

Infância e formação

Bukowski teve uma infância difícil marcada pela pobreza e por um relacionamento abusivo com o pai. Aos três anos, a família emigrou para os Estados Unidos, estabelecendo-se em Los Angeles. Sua adolescência foi rebelde e problemática. Frequentou a Los Angeles High School, mas abandonou os estudos precocemente. Aos 17 anos, saiu de casa. Sua formação foi autodidata, moldada por leituras intensas, pela experiência de vida nas ruas e pelos trabalhos precários que desempenhou ao longo de décadas.

Percurso literário

Bukowski começou a escrever poesia e contos ainda jovem, mas demorou décadas para ser reconhecido. Trabalhou em empregos manuais e braçais, como carteiro e em fábricas, em grande parte de sua vida adulta, muitas vezes lutando contra o alcoolismo. Publicou esporadicamente em pequenas revistas literárias underground nas décadas de 1940 e 1950. Sua carreira literária ganhou impulso a partir da década de 1960, quando se dedicou integralmente à escrita após receber uma herança que lhe permitiu deixar o emprego nos correios. Seu primeiro livro de poemas, "Flower, Fist, and Bestial Wail", foi publicado em 1960. A partir daí, produziu uma vasta obra em poesia, contos e romances.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras mais conhecidas de Bukowski incluem coleções de poemas como "Love Is a Dog from Hell" (1977), "Crimson Tears" (1978), e "The Most Beautiful Woman in Town" (1986), além de romances como "Factotum" (1975), "Women" (1978) e "Post Office" (1971). Seus temas centrais são a vida marginal, a pobreza, o alcoolismo, o sexo, a solidão, a alienação, a crítica social e a busca por sentido em um mundo caótico. Seu estilo é caracterizado por uma linguagem direta, coloquial, sem adornos, muitas vezes obscena e chocante, mas também capaz de uma profunda sensibilidade e honestidade. Ele utilizava o verso livre de forma contundente, com frases curtas e ritmo muitas vezes quebrado. Sua voz poética é confessional, crua e irónica, refletindo suas experiências de vida de forma implacável. Bukowski é considerado um renovador da poesia americana pela sua abordagem realista e pela sua capacidade de dar voz aos desvalidos.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Bukowski emergiu como uma voz dissonante em meio ao otimismo pós-guerra e ao surgimento da contracultura nos EUA. Sua obra, muitas vezes associada à Geração Beat, como Jack Kerouac e Allen Ginsberg, embora com um estilo mais sombrio e menos místico, capturou o desencanto e a rebeldia de uma parcela da sociedade que se sentia marginalizada. Ele escreveu em um período de profundas mudanças sociais e políticas nos Estados Unidos, como a Guerra do Vietnã e os movimentos pelos direitos civis, temas que, embora não diretamente abordados, permeiam o pano de fundo de sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida de Bukowski foi marcada pela luta contra o alcoolismo, por relacionamentos tumultuados e por uma série de empregos precários. Teve casamentos e relacionamentos significativos, incluindo com as poetisas Jane Cooney Baker e Linda King, e mais tarde com Linda Lee Beighle, que se tornou sua esposa e figura importante em sua vida. Sua obra é profundamente autobiográfica, sendo difícil separar o homem do escritor. Suas experiências com a pobreza e a boemia foram a matéria-prima de sua escrita. Suas crenças eram pragmáticas e cínicas, desconfiando de instituições e ideologias.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Bukowski obteve um reconhecimento tardio e muitas vezes controverso. Enquanto era idolatrado por muitos como um autêntico "escritor do povo" e um rebelde contra o sistema, era criticado por outros por seu estilo considerado vulgar ou amoral. Sua popularidade cresceu exponencialmente após sua morte, tornando-se um autor cultuado em todo o mundo, especialmente entre jovens e leitores que se identificam com sua honestidade brutal e sua visão de mundo sem filtros.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Bukowski foi influenciado por escritores como Ernest Hemingway, John Fante, D.H. Lawrence e por autores da Geração Beat. Seu legado é o de ter dado voz aos marginalizados, de ter mostrado que a literatura pode emergir de experiências de vida difíceis e de ter desafiado as convenções literárias estabelecidas. Inspirou inúmeros poetas e escritores que buscam uma linguagem autêntica e um retrato sem maquiagem da realidade. Sua obra continua a ser uma referência para a literatura underground e alternativa.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Bukowski é frequentemente analisada sob a ótica da literatura marginal, da crítica social e da representação da experiência humana em suas formas mais cruas. Os debates centram-se na sua genialidade como cronista da vida urbana e da alienação, e na sua capacidade de extrair poesia do feio e do sórdido.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Bukowski era conhecido por seu humor negro e seu cinismo. Ele tinha uma coleção de centenas de cartas de amor recebidas de fãs em todo o mundo. Passou um período em um hospital psiquiátrico em sua juventude, uma experiência que o marcou profundamente. Sua relação com os cachorros era notória. Era um observador atento da natureza humana, registrando suas observações em cadernos.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Charles Bukowski faleceu em 9 de março de 1994, em San Pedro, Califórnia, aos 73 anos, vítima de leucemia. Sua morte foi recebida com pesar por seus admiradores. Suas cinzas foram espalhadas em um de seus locais favoritos na Califórnia. Sua obra continua a ser publicada e a ser redescoberta por novas gerações, solidificando sua posição como um dos autores mais singulares e influentes da literatura americana.

Poemas

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Saboreio As Cinzas de Tua Morte

as florações espargem
água inesperada
pela manga da minha camisa,
água inesperada
fresca e pura
como neve –
enquanto espadas
afiadas como talos
penetram
em seu peito
e as doces e selvagens
pedras
caem sobre nós
e
nos encerram.

Foi quando desenvolvi um novo sistema para usar no hipódromo. Eu tinha arrumado três mil dólares em um mês e meio, indo às corridas apenas duas ou três vezes por semana. Comecei a sonhar. Vi uma casinha à beira-mar. Vi-me vestido com roupas caras, calmo, levantando de manhã, entrando em meu carro importado, dirigindo com suavidade na saída da garagem. Vi jantares prazerosos com belos filés, precedidos e sucedidos por deliciosos drinques gelados em copos coloridos. A bela gorjeta. O charuto. E mulheres a mancheias. É fácil se deixar levar por esse tipo de pensamento quando os homens lhe entregam notas graúdas no guichê das apostas. Quando numa corrida de 1.200 m, que leva, digamos, um minuto e nove segundos, você ganha o equivalente a um mês de salário.
Então ali estava eu, de pé no escritório do superintendente. Lá estava ele atrás de sua mesa. Eu tinha um charuto na boca e uísque no meu hálito. Sentia-me endinheirado. Eu parecia endinheirado.
– Sr. Winters – eu disse –, os Correios sempre me trataram bem. Mas há interesses externos que simplesmente exigem minha atenção. Se o senhor não puder me dar uma licença, serei obrigado a me demitir.
– Já não lhe dei uma licença no início do ano, Chinaski?
– Não, sr. Winters, o senhor rejeitou o meu pedido de licença. Desta vez isto não será possível. Ou a licença ou a demissão.
– Tudo bem, preencha o formulário e eu o assinarei. Mas só posso lhe dar noventa dias de dispensa.
– Aceito – eu disse, exalando uma longa coluna de fumaça azul de meu charuto caro.
– Cartas na rua
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Prece Debaixo de Mau Tempo

por Deus, não sei o que
fazer.
elas são tão legais de se ter por perto.
elas têm um jeito de tocar
as bolas
e olhar para o pau muito
seriamente
virando-o
puxando-o
examinando cada parte
enquanto seus longos cabelos caem
sobre a sua barriga.
não é apenas o foder e o chupar
que alcançam o interior do homem
e o amaciam, são os extras,
está tudo nos extras.
agora é noite e está chovendo
e não há ninguém
estão todas em outros lugares
examinando coisas
em novos quartos
com novos humores
mesmo que em velhos
quartos.
seja o que for, é noite e está chovendo,
uma chuva torrencial, maldita e
pesada...
muito pouco a fazer.
já li o jornal
paguei a conta do gás
a conta de luz
a conta do telefone.
continua chovendo.
elas amaciam um homem
e então o deixam a nadar
em seu próprio suco.
preciso de uma vagabunda no velho estilo
batendo à porta esta noite
fechando seu guarda-chuva verde,
gotas de chuva enluarada sobre
sua bolsa, dizendo, “merda, cara,
não consegue achar uma música melhor do que
essa no seu rádio?
e aumente o aquecimento...”
é sempre quando um homem está tomado
de amor e tudo
mais
que continua chovendo
alagadoura
encharcante
chuva
boa para as árvores e para a
grama e para o ar...
boa para coisas que
vivem sozinhas.
eu daria qualquer coisa
pela mão de uma fêmea em mim
esta noite.
elas amaciam um homem e
depois o deixam
escutando a chuva.
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Dr. Nazi

Bem, sou um homem com muitos problemas e suponho que em sua maioria sejam criados por mim mesmo. Estou falando de problemas com mulheres, jogo, hostilidade contra grupos de pessoas, e, quanto maior o grupo, maior a hostilidade. Dizem que sou negativo, sombrio e taciturno.
Sempre me lembro da mulher que me gritou assim:
– Você é tão negativo, porra! A vida pode ser bonita!
Suponho que possa e especialmente com menos gritaria. Mas quero falar de meu médico. Não vou a psiquiatras. Psiquiatras não valem nada e estão muito satisfeitos consigo mesmos. Mas um bom médico está sempre de saco cheio e/ou louco, e, portanto, muito mais interessante.
Fui ao consultório do dr. Kiepenheur porque era o mais perto. Minhas mãos estavam estourando com pequenas bolhas brancas... um sinal, imaginei, da minha ansiedade presente ou possivelmente câncer. Eu usava luvas grossas para que as pessoas não ficassem olhando. E minhas mãos ardiam dentro das luvas, enquanto eu fumava dois maços de cigarro por dia.
Entrei no consultório do doutor. Minha consulta era a primeira. Sendo o homem ansioso que eu era, estava trinta minutos adiantado, pensando no câncer. Caminhei pela sala de espera, olhando para o escritório. Ali estava uma enfermeira-recepcionista agachada no chão com o seu uniforme branco e justo, seu vestido subira quase até os quadris, coxas grossas e potentes apareciam através da meia-calça de náilon apertada. Esqueci completamente do câncer. Ela não me ouvira, e eu olhava suas pernas e coxas desveladas, apreciava aquela bunda deliciosa com meus olhos. Ela estava secando água do chão, a privada havia transbordado e ela dizia palavrões, de modo passional, e ela era rosa e marrom e cheia de vida e desvelada e eu a encarava.
Ela olhou para cima.
– Sim?
– Vá em frente – eu disse –, não deixe que eu a atrapalhe.
– É a privada – ela disse –, vive transbordando.
Ela continuou secando e eu continuei olhando por cima da revista Life. Finalmente ela se levantou. Caminhei até o sofá e me sentei. Ela revisou a agenda de consultas.
– Você é o sr. Chinaski?
– Sim.
– Por que não tira as luvas? Está quente aqui.
– Prefiro não tirá-las, se não se importa.
– O dr. Kiepenheuer logo estará aqui.
– Tudo bem. Posso esperar.
– Qual é o seu problema?
– Câncer.
– Câncer?
– Sim.
A enfermeira desapareceu, e eu li a Life e depois outro exemplar da Life e então uma Sports Illustrated e em seguida fiquei sentado, olhando as pinturas de paisagens marítimas e terrestres pregadas na parede. Logo uma música de saxofone surgiu de algum lugar. Então, subitamente, todas as luzes piscaram, então mais uma vez, e imaginei se haveria alguma maneira de estuprar a enfermeira e não ser preso, quando o médico entrou. Ignorei-o, e ele me ignorou, de modo que ficamos quites.
Ele me chamou para seu escritório. Estava sentado em um banquinho e me olhou. Tinha uma cara amarela e cabelos amarelados e seus olhos eram opacos. Ele estava morrendo. Devia ter uns 42 anos. Vi-o e lhe dei seis meses de vida.
– Por que as luvas? – ele perguntou.
– Sou um homem sensível, doutor.
– É?
– Sim.
– Então devo lhe informar que eu já fui nazista.
– Tudo bem.
– Não se importa de eu já ter sido nazista?
– Não, não me importo.
– Fui capturado. Eles me levaram pela França em um vagão de trem com as portas abertas, e as pessoas ficavam ao longo do caminho e atiravam bombas de fedor e pedras e todo tipo de lixo em nós... ossos de peixe, plantas mortas, excremento, tudo o que se possa imaginar.
Então o doutor me falou de sua esposa. Ela estava tentando lhe arrancar o couro. Uma tremenda cadela. Queria toda a grana dele. A casa. O jardim. A casa de verão. O jardineiro também, provavelmente, se já não o tinha. E o carro. E uma pensão. Além de uma grande quantia em dinheiro. Mulher horrível. Ele trabalhava tão duro. Cinquenta pacientes por dia a dez dólares por cabeça. Quase impossível sobreviver. E aquela mulher. Mulher. Sim, mulher. Ele decompôs a palavra para mim. Não lembro se ele disse mulher ou fêmea ou outra coisa, mas ele decompôs a palavra para mim em latim e a dividiu para me mostrar qual era a raiz... em latim: mulheres eram basicamente insanas.
Enquanto ele falava sobre a insanidade das mulheres, comecei a me sentir bem com o doutor. Minha cabeça sinalizava em concordância.
Subitamente ele me mandou para a balança, me pesou, então auscultou meu coração e meu peito. Tirou rudemente as minhas luvas, lavou minhas mãos com algum tipo de merda e abriu as bolhas com uma lâmina, ainda falando sobre o rancor e a vingança que todas as mulheres carregavam em seus corações. Era glandular. As mulheres eram comandadas por suas glândulas; os homens, por seus corações. Era por isso que apenas os homens sofriam.
Disse que eu deveria lavar as mãos regularmente e jogar as malditas luvas fora. Falou um pouco mais sobre as mulheres e sua esposa e então fui embora.
O problema seguinte foram vertigens que me causavam desmaios. Mas só me acontecia quando eu estava em pé em alguma fila. Comecei a ficar aterrorizado de ter que ficar em qualquer fila. Era insuportável.
Descobri que na América e provavelmente em todos os outros lugares, tudo se resumia a ficar na fila. Fazíamos isso em toda parte. Carteira de motorista: três ou quatro filas. Hipódromo: filas. Cinema: filas. Mercado: filas. Eu odiava filas. Senti que devia haver uma maneira de evitar as filas. Então a resposta me iluminou. Ter mais atendentes. Sim, essa era a solução. Dois atendentes para cada pessoa. Três atendentes. Deixem os atendentes fazerem fila.
Sabia que as filas estavam me matando. Não podia aceitá-las, mas todo mundo aceitava. Todo mundo era normal. A vida era bela para eles. Podiam ficar na fila sem sentir dor. Podiam ficar na fila para sempre. Eles até mesmo gostavam de ficar na fila. Conversavam e se mostravam os dentes e sorriam e flertavam uns com os outros. Não tinham mais nada para fazer. Não conseguiam pensar em mais nada para fazer. E eu tinha que olhar para suas orelhas e bocas e pescoços e pernas e bundas e narinas, tudo aquilo. Podia sentir raios de morte emanando de seus corpos, como vapores e, ouvindo suas conversas, eu sentia vontade de gritar:
– Jesus Cristo, alguém me ajude! Tenho que sofrer desta forma só para comprar um quilo de hambúrger e um pedaço de pão de centeio?
A tontura vinha, e eu espichava e afastava minhas pernas para evitar cair no chão, o supermercado girava e também as caras dos atendentes do supermercado com seus bigodes dourados e marrons, seus olhos alegres e espertos, todos chegarão a gerentes de supermercado um dia, com suas caras esfoliadas e contentes, comprando casas em Arcádia e trepando à noite com suas esposas loiras, pálidas e graciosas.
Marquei novamente uma consulta com o doutor. Recebi o primeiro horário. Cheguei meia hora mais cedo e a privada estava consertada. A enfermeira estava tirando o pó do escritório. Ela se curvou e se endireitou e se curvou um pouco e então se curvava para a direita e então se curvava para a esquerda e virou a bunda para mim e se curvou. O uniforme branco se contraía e subia, escalava, se erguia; aqui estava um joelho com covinhas, lá uma coxa, aqui um quadril, lá o corpo inteiro. Sentei e abri um exemplar da Life.
Ela parou de tirar o pó e pôs a cabeça para fora e me sorriu:
– Livrou-se das luvas, sr. Chinaski.
– Sim.
O doutor entrou, parecendo estar um pouco mais perto da morte, acenou com a cabeça, levantei e o segui para seu consultório.
Ele sentou em seu banco.
– Chinaski, como vai?
– Bem, doutor...
– Problema com as mulheres?
– Bem, é claro, mas...
Ele não me deixava terminar minhas frases. Tinha perdido mais cabelo. Seus dedos se contraíam. Parecia não ter mais fôlego. Mais magro. Era um homem desesperado.
Sua esposa o estava esfolando. Tinham ido ao tribunal. Ela lhe deu um tapa no tribunal. Ele gostou disso. Ajudou no caso. Eles viram quem era aquela cadela. De qualquer forma, não se saiu tão mal. Ela lhe deixara alguma coisa. É claro, sabe quanto custam os advogados. Desgraçados. Já reparou nos advogados? Quase sempre gordos. Especialmente ao redor do rosto.
– De qualquer forma, caralho, ela me ferrou. Mas tenho um pouco guardado. Quer saber quanto custa uma tesoura como essa? Olha bem. Latão com um parafuso. Dezoito e cinquenta. Meu Deus, e eles odiavam os nazistas. O que é um nazista comparado a isso?
– Não sei, doutor. Já disse que sou um homem confuso.
– Já tentou um psiquiatra?
– Não adianta. São idiotas, sem imaginação. Não preciso de psiquiatras. Ouvi dizer que eles acabam molestando sexualmente suas pacientes. Eu gostaria de ser um psiquiatra, se eu pudesse foder todas as mulheres. Fora isso, o trabalho deles é inútil.
Meu doutor se endireitou no seu banco. Ele amarelou e acinzentou um pouco mais. Um gigantesco espasmo percorreu seu corpo. Estava quase acabado. Um bom camarada, apesar de tudo.
– Bem, me livrei da minha esposa – ele disse. – Está acabado.
– Bom – eu disse –, me conte de quando você era nazista.
– Bem, não tínhamos muita escolha. Eles simplesmente nos faziam entrar. Eu era jovem. Quero dizer, porra, o que se pode fazer? Só se pode viver em um país por vez. Vai-se à guerra e, se não acaba morrendo, acaba em um vagão aberto com pessoas atirando merda em você...
Perguntei-lhe se ele trepava com sua enfermeira gostosa. Ele sorriu gentilmente. O sorriso era um sim. Então me disse que desde o divórcio, bem, vinha se encontrando com uma de suas pacientes e ele sabia que não era ético fazer isso com pacientes...
– Não, acho que está tudo bem, doutor.
– É uma mulher muito inteligente. Casei com ela.
– Tudo bem.
– Agora estou feliz... mas...
Então ele esticou suas mãos abertas, lado a lado, com as palmas para cima...
Contei-lhe sobre o meu medo de filas. Ele me deu uma receita de Librium.
Então fui atacado por uma furunculose na minha bunda. Estava em agonia. Amarraram-me com tiras de couro, esses sujeitos podem fazer o que quiserem com você, me deram uma anestesia local e me abriram o cu. Virei minha cabeça e olhei para o meu doutor e disse:
– Há alguma possibilidade de que eu mude de ideia?
Três rostos me olhavam de cima. O do médico e outros dois. Ele para cortar. Ela para as bandagens. Um terceiro metendo agulhas.
– Você não pode mudar de ideia – disse o doutor e esfregou suas mãos e arreganhou os dentes e começou...
A última vez que o vi foi por causa de algo relacionado à cera em meus ouvidos. Eu podia ver seus lábios se mexendo, tentei entender, mas não podia ouvir. Eu sabia, por seus olhos e por sua cara, que eram tempos difíceis para ele outra vez e assenti com a cabeça.
Fazia calor. Eu estava um pouco tonto e pensei, bem, sim, ele é um bom camarada, mas por que não me deixa falar sobre os meus problemas, isso não é justo, também tenho problemas e tenho que pagá-lo.
Por fim, meu doutor se deu conta de que eu não estava ouvindo nada. Pegou algo que parecia com um extintor de incêndio e meteu em meus ouvidos. Mais tarde me mostrou grandes pedaços de cera... era a cera, ele disse. E apontou para um balde. Parecia realmente com feijões requentados.
Levantei da mesa, paguei-o e me fui. Ainda não podia ouvir nada. Não me sentia particularmente mal nem bem e imaginei que doença eu lhe traria da próxima vez, o que ele faria a respeito disso, o que ele faria com respeito à sua filha de dezessete anos que estava apaixonada por outra mulher e que iria casar com ela e me ocorreu que todo mundo sofria continuamente, incluindo aqueles que fingiam não sofrer. Parecia-me que essa era uma boa descoberta. Olhei para o garoto que vendia jornal e pensei, hummmm, hummmm, e olhei para a próxima pessoa que passou e pensei hummmm, hummmm, hummmmmm, e no semáforo perto do hospital, um carro novo e preto dobrou a esquina e atropelou uma bela garota que vestia um minivestido azul, e ela era loira e tinha faixas azuis no cabelo e se sentou na rua, ao sol, e um filete escarlate correu de seu nariz.
– Ao sul de lugar nenhum
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Um Despachante de Nariz Vermelho

Quando conheci Randall Harris, ele estava com 42 anos e vivia com uma mulher de cabelo grisalho, uma tal de Margie Thompson. Margie estava com 45 e não era muito bonita. Naquela época, eu editava uma pequena revista chamada Mad Fly e tinha ido visitá-los numa tentativa de conseguir algum material de Randall.
Randall era conhecido por ser um solitário convicto, um bêbado, um homem bruto e amargo, mas seus poemas eram crus, crus e honestos, simples e selvagens. Estava escrevendo como ninguém mais fazia naquela época. Ele trabalhava como despachante em um depósito de autopeças.
Sentei de frente para Randall e Margie. Eram sete e quinze da noite e Harris já estava bêbado de cerveja. Pôs uma garrafa na minha frente. Eu tinha ouvido falar de Margie Thompson. Ela era uma comunista das antigas, uma salvadora do mundo, uma benfeitora. Alguém poderia se perguntar o que ela estava fazendo ao lado de Randall, que não se importava com nada e não fazia questão de escondê-lo.
– Gosto de fotografar merda – ele me disse –, essa é a minha arte.
Randall começou a escrever com 38 anos. Com 42, depois de três pequenos livros de contos (A morte é uma cadela mais suja que o meu país, Minha mãe trepou com um anjo e Os cavalos desenfreados da loucura), estava começando a receber o que se pode chamar de reconhecimento da crítica. Mas não ganhava grana com seus textos e disse:
– Não sou nada além de um despachante com uma depressão profunda.
Vivia em um velho casarão em Hollywood com Margie, e ele era estranho, de verdade.
– Apenas não gosto de gente – ele disse. – Sabe, Will Rogers disse uma vez: “Nunca encontrei um homem de quem não gostasse”. Comigo é o contrário, nunca encontrei um homem de quem gostasse.
Mas Randall tinha senso de humor, uma capacidade de rir da dor e de si mesmo. Não havia como não gostar dele. Era um homem feio com um cabeção e uma cara amassada... apenas o nariz parecia ter escapado do achatamento generalizado.
– Não tenho osso suficiente em meu nariz, é como se fosse de borracha – ele explicava. Seu nariz era longo e muito vermelho.
Eu já ouvira histórias sobre Randall. Dizia-se que era de quebrar janelas e jogar garrafas contra as paredes. Era um bêbado terrível. Também tinha períodos em que não atendia à porta nem ao telefone. Não tinha televisão, apenas um radinho e somente ouvia música sinfônica... algo estranho para um sujeito bruto como ele.
Randall também tinha períodos em que tirava a parte de baixo do telefone e enchia com papel higiênico ao redor da campainha para que não soasse. Ficava assim por meses. Alguém poderia se perguntar por que ele tinha um telefone, afinal. Sua educação era precária, mas ele evidentemente lia boa parte dos melhores escritores.
– Bem, seu merda – ele me disse –, imagino que você esteja se perguntando o que faço ao lado dela? – e apontou para Margie.
Não respondi.
– Ela é boa de cama – ele disse – e me dá as melhores fodas a oeste de Saint Louis.
Esse era o mesmo sujeito que tinha escrito quatro ou cinco excelentes poemas de amor para uma mulher chamada Annie. Era de se pensar como tudo isso funcionava.
Margie apenas ficava sentada ali, mostrando os dentes. Ela também escrevia poesia, mas não era muito boa. Frequentava dois workshops por semana, o que não ajudava muito.
– Então você quer alguns poemas? – ele me perguntou.
– Sim, gostaria de olhar alguns.
Harris foi até o armário, abriu a porta e pegou alguns papéis amassados e rasgados do fundo. Entregou-os para mim.
– Escrevi esses aí na noite passada.
Então ele foi até a cozinha e voltou com mais duas cervejas. Margie não bebia.
Comecei a ler os poemas. Eram todos poderosos. Ele datilografava com a mão muito pesada, e as palavras pareciam cinzeladas no papel. A força de sua escrita sempre me surpreendia. Parecia estar dizendo todas as coisas que deveríamos dizer, mas que nunca teríamos coragem de pronunciar.
– Vou levar esses poemas – eu disse.
– Ok – ele disse. – Beba.
Quando se visitava Harris, beber era uma obrigação. Ele fumava um cigarro atrás do outro. Usava calças marrons de algodão, folgadas, dois número acima do que seria o correto, e camisas velhas que estavam sempre em frangalhos. Tinha aproximadamente um metro e oitenta de altura e pesava uns cem quilos, em grande parte decorrentes da cerveja. Tinha os ombros caídos e nos espiava por trás das pálpebras semicerradas. Bebemos por cerca de duas horas e meia, o ar estava saturado pela fumaça. Subitamente Harris se levantou e disse:
– Dê o fora daqui, seu escroto, você me dá nojo!
– Calma, Harris, calma...
– Eu disse AGORA! Escroto!
Levantei e parti com os poemas.
Voltei àquele casarão dois meses mais tarde para entregar algumas cópias da Mad Fly para Harris. Tinha publicado todos os dez poemas dele. Margie me deixou entrar. Randall não estava lá.
– Ele está em Nova Orleans – disse Margie –, acho que ele está tirando uma folga. Jack Teller quer publicar seu próximo livro, mas ele quer conhecer Randall antes. Teller diz que não pode editar ninguém de quem não goste. Pagou a passagem área de ida e volta.
– Randall não é o que se poderia chamar de um sujeito cativante – eu disse.
– Veremos – disse Margie. – Teller é um bêbado e um ex-presidiário. Talvez formem uma bela dupla.
Teller publicava a revista Riftraff e tinha seu próprio prelo. Fazia um belo trabalho. A última edição de Riftraff tinha a cara feia de Harris na capa mamando em uma garrafa de cerveja e trazia alguns de seus poemas.
Riftraff era amplamente reconhecida como a revista literária número um da época. Harris estava começando a ganhar mais e mais destaque. Isso acabaria se tornando uma boa chance para ele, se não a estragasse com sua língua pérfida e seus modos de bêbado. Antes de partir, Margie me disse que estava grávida... de Harris. Como eu disse, ela tinha 45 anos.
– O que ele disse quando você lhe contou?
– Pareceu indiferente.
Parti.
O livro realmente foi publicado em uma edição de dois mil exemplares, muito bem impressos. A capa era feita de cortiça importada da Irlanda. As páginas eram multicoloridas e de um papel extremamente bom, impressas em um tipo exótico e entremeadas com alguns desenhos em nanquim que o próprio Harris havia feito. A edição foi aclamada, tanto pelo livro em si quanto pelo conteúdo. Mas Teller não podia pagar os royalties. Ele e sua esposa viviam com uma margem de lucro muito pequena. Em dez anos o livro passou a custar 75 dólares no mercado de livros raros. Enquanto isso Harris voltou para seu emprego de despachante no armazém de autopeças.
Quando fui visitá-lo novamente, quatro ou cinco meses depois, Margie se fora.
– Ela partiu há muito tempo – disse Harris. – Beba uma cerveja.
– O que aconteceu?
– Bem, depois que voltei de Nova Orleans, escrevi alguns contos. Enquanto eu estava no trabalho, ela revirou minhas gavetas. Leu algumas das minhas histórias e ficou alterada com o conteúdo delas.
– Sobre o que eram?
– Ah, sobre as minhas aventuras amorosas com algumas mulheres em Nova Orleans.
– As histórias eram verdadeiras? – perguntei.
– Como vai a Mad Fly? – perguntou.
A criança nasceu, uma menina, Naomi Louise Harris. Ela e a mãe viviam em Santa Mônica, e Harris dirigia até lá uma vez por semana para vê-las. Pagava pensão alimentícia e continuava bebendo sua cerveja. Depois disso, soube que ele mantinha uma coluna semanal no jornal de vanguarda Los Angeles Lifeline. Chamava suas colunas de Impressões de um Maníaco de Primeira Classe. Sua prosa era como sua poesia: indisciplinada, antissocial e preguiçosa.
Harris deixou crescer um cavanhaque e deixou seu cabelo mais comprido. Na próxima vez que o vi, estava vivendo com uma garota de 35 anos, uma ruiva bonita chamada Susan. Susan trabalhava em uma loja de material de desenho, pintava e tocava violão razoavelmente. Também bebia ocasionalmente uma cerveja com Randall, que era mais do que Margie fazia. O casarão parecia mais limpo. Quando Harris acabava uma garrafa, atirava-a numa sacola de papel, em vez de atirá-la no chão. Mas, ainda assim, era um bêbado terrível.
– Estou escrevendo um romance – ele me disse – e às vezes arranjo alguma leitura de poesia nas universidades da região. Também tenho uma leitura marcada em Michigan e outra no Novo México. As ofertas são bem boas. Não sinto vontade de ler, mas sou um bom leitor. Dou a eles um show e um pouco de boa poesia.
Harris também estava começando a pintar. Não pintava muito bem. Pintava como uma criança de cinco anos que tivesse enchido a cara de vodca, mas dava um jeito de vender um ou dois quadros por quarenta ou cinquenta dólares. Contou-me que estava pensando em abandonar seu emprego. Três semanas depois ele realmente largou o emprego para fazer a leitura em Michigan. Já tinha usado as férias a que tinha direto para fazer a viagem a Nova Orleans.
Lembrei de uma vez que em que ele me havia prometido:
– Jamais lerei diante daqueles sanguessugas, Chinaski. Vou pra cova sem nunca fazer uma leitura pública. É pura vaidade, é se vender.
Não o lembrei dessa afirmação.
Seu romance A morte na vida de todos os olhos sobre a face da Terra foi publicado por uma pequena porém prestigiada editora que pagava royalties regularmente. As críticas foram boas, incluindo uma na New York Review of Books. Mas ele ainda era um bêbado terrível e brigava constantemente com Susan por causa da bebida.
Finalmente, depois de um porre homérico, em que ele se enfureceu, amaldiçoou e gritou a noite toda, Susan o deixou. Vi Randall vários dias depois que ela partira. Harris estava estranhamente quieto, quase normal.
– Eu a amava, Chinaski – ele me disse. – Não vou conseguir superar essa, meu chapa.
– Você vai conseguir, Randall. Você vai ver. Vai conseguir. O ser humano é muito mais resistente do que você pensa.
– Merda – ele disse –, espero que você esteja certo. Estou com um buraco danado no peito. As mulheres já colocaram muitos homens bons embaixo da ponte. Elas não sentem isso da forma que nós sentimos.
– Elas sentem, sim. Ela só não conseguia mais suportar as suas bebedeiras.
– Porra, homem, escrevo a maioria dos meus textos quando estou bêbado.
– É esse o segredo?
– Merda, claro que é. Sóbrio, sou apenas um despachante, e não dos melhores...
Deixei-o lá agarrado em sua cerveja.
Voltei a visitá-lo três meses mais tarde. Harris ainda estava em seu casarão. Ele me apresentou Sandra, uma loira bonita de 27 anos. Seu pai era um juiz da Suprema Corte, e ela era uma estudante de graduação na Universidade do Sul da Califórnia. Além de ter um corpo bem-torneado, tinha certa sofisticação e classe, algo que faltara às outras mulheres de Randall. Estava bebendo uma garrafa de vinho italiano.
O cavanhaque de Randall tinha se transformado em uma barba e seu cabelo estava ainda mais comprido. Suas roupas eram novas e da última moda. Estava usando sapados de quarenta dólares, um relógio de pulso novo e seu rosto parecia mais magro, suas unhas, limpas... mas seu nariz ainda enrubescia à medida que ia bebendo o vinho.
– Randall e eu vamos nos mudar para West L.A. Este fim de semana – ela me disse. – Esse lugar é imundo.
– Escrevi muitas coisas boas aqui – ele disse.
– Randall, querido – ela disse –, não é o lugar que escreve, é você. Acho que podemos lhe arranjar um emprego de professor para lecionar três dias por semana.
– Não sei ensinar.
– Querido, você pode lhes ensinar tudo.
– Merda – ele disse.
– Estão pensando em fazer um filme baseado no livro de Randall. Vimos o roteiro. É um belo roteiro.
– Um filme? – perguntei.
– A probabilidade é baixa – disse Harris.
– Querido, estão trabalhando nele. Tenha um pouco de fé.
Bebi outro cálice de vinho com eles e então parti. Sandra era uma garota bonita.
Não recebi o endereço de Randall em West L.A. E não fiz nenhuma tentativa de localizá-lo. Cerca de um ano depois, li uma resenha do filme Flor no cu do inferno. Era baseado em seu romance. Era uma crítica favorável e Harris chegou mesmo a atuar em um pequeno papel.
Fui assistir. Tinham feito um bom trabalho em cima do livro. Harris parecia um pouco mais austero do que quando o havia visto pela última vez. Decidi encontrá-lo. Depois de um tempo dando uma de detetive, bati à porta de sua cabana em Malibu uma noite por volta das nove. Randall atendeu.
– Chinaski, seu cachorro velho – ele disse. – Entre.
Uma bela garota estava sentada no sofá. Parecia ter aproximadamente dezenove anos, simplesmente irradiava uma beleza natural.
– Essa é Karilla – ele disse.
Eles estavam bebendo uma garrafa de vinho francês, dos caros. Sentei com eles e bebi um cálice. Tomei vários cálices. Outra garrafa apareceu e conversamos calmamente. Harris não ficou bêbado e inoportuno e não pareceu fumar muito.
– Estou trabalhando numa peça para a Broadway – ele me disse. – Dizem que o teatro está morrendo, mas eu tenho algo para eles. Um dos principais produtores está interessado. Estou finalizando o último ato agora. É um gênero interessante. Sempre fui craque nos diálogos, você sabe.
– Sim – eu disse.
Fui embora lá pelas onze e meia naquela noite. A conversa tinha sido agradável... As têmporas de Harris começavam a exibir um respeitável tom grisalho, e ele não disse “merda” mais do que quatro ou cinco vezes.
A peça Atire em seu pai, atire em seu Deus, livre-se do desembaraço era um sucesso. Estava entre as peças recordistas em tempo de exibição na Broadway. Tinha de tudo: algo para os revolucionários, algo para os reacionários, algo para os que amavam comédia, para os que amavam drama, tinha até mesmo algo para os intelectuais e, ainda assim, fazia sentido. Randall Harris se mudou de Malibu para uma casa maior em Hollywood Hills. Agora é possível saber notícias dele pelos tabloides.
Após algumas dificuldades, encontrei a localização de sua casa em Hollywood Hills, uma mansão de três andares com vista para as luzes de Los Angeles e Hollywood.
Estacionei, saí do carro e caminhei pela passagem que levava até a porta da frente. Era perto das oito e meia da noite, a temperatura estava baixa, quase fazia frio; a lua estava cheia e o ar fresco e limpo.
Toquei a campainha. Pareceu-me uma longa espera. Finalmente a porta se abriu. Era o mordomo.
– Sim, senhor? – me perguntou.
– Vim para ver Randall Harris, da parte de Henry Chinaski – eu disse.
– Um momento, por favor, senhor.
Ele fechou a porta em silêncio e esperei. Mais uma vez, um longo intervalo. Então o mordomo voltou.
– Sinto muito, senhor, mas o sr. Harris não pode ser perturbado neste momento.
– Oh, tudo bem.
– Gostaria de deixar uma mensagem, senhor?
– Uma mensagem? Sim, dê-lhe os meus “parabéns”.
– “Parabéns”? Isso é tudo?
– Sim, isso é tudo.
– Boa noite, senhor.
– Boa noite.
Voltei para o meu carro, entrei. Dei a partida e comecei a longa viagem descendo as colinas. Tinha comigo aquela antiga cópia da Mad Fly que queria que ele autografasse. Era a cópia com dez poemas de Randall Harris. Ele provavelmente estava ocupado. Talvez, pensei, se eu mandasse pelo correio a revista com um envelope selado de resposta, ele assinasse.
Eram apenas nove da noite. Havia tempo para ir a um outro lugar.
– Ao sul de lugar nenhum
790

Liberdade

ela estava sentada na janela
do quarto 1010 no Chelsea
em Nova York,
o antigo quarto de Janis Joplin.
fazia 40 graus
e ela estava alterada
e tinha uma perna para fora
do peitoril,
e se inclinava para fora e dizia,
“Deus isso é ótimo!”
e então ela escorregou
e quase caiu lá embaixo,
agarrando-se no momento final.
foi por pouco.
voltou para dentro e se esticou
na cama.
já perdi um bocado de mulheres
de um bocado de modos diferentes
mas teria sido
a primeira vez
desse modo.
então ela rolou da cama
caindo de costas
e quando me aproximei
ela estava dormindo.
ela passara o dia todo querendo
ver a Estátua da Liberdade.
agora por um tempo ela não me incomodaria
com isso.
1 210

Solidão

Edna estava caminhando pela rua com sua sacola de compras quando passou pelo carro. Havia um cartaz na janela lateral:
PROCURA-SE MULHER
Ela parou. Havia um grande pedaço de papelão grudado na janela com alguma substância. A maior parte estava datilografada. De onde estava na calçada, Edna não conseguia ler o aviso. Podia apenas ver as letras graúdas:
PROCURA-SE MULHER
Era um carro novo e caro. Edna deu um passo sobre a grama para ler a parte datilografada:
Homem, 49 anos. Divorciado. Procura mulher para casamento. Deve ter entre 35 e 44 anos. Gosta de televisão e películas cinematográficas. Boa comida. Sou especialista em custos de produção, com estabilidade no emprego. Dinheiro no banco. Gosto de mulheres acima do peso.
Edna tinha 37 anos e estava acima do peso. Havia um número de telefone. Também havia três fotos do cavalheiro em busca de uma mulher. Ele parecia bem sério de terno e gravata. Também parecia estúpido e um pouco cruel. E feito de madeira, pensou Edna, feito de madeira.
Edna se afastou, sorrindo um pouco. Sentia também uma espécie de repulsa. Ao chegar ao seu apartamento, ela o tinha esquecido. Apenas algumas horas depois, sentada na banheira, voltou a pensar nele e, dessa vez, pensou em como ele devia estar realmente sozinho para fazer tal coisa:
PROCURA-SE MULHER
Imaginou-o chegando em casa, encontrando as contas de gás e telefone na caixa de correio, despindo-se, tomando um banho, a televisão ligada. Então leria o jornal da tarde. Depois iria para a cozinha preparar sua refeição. De pé, de cuecas, olhando para a frigideira. Pegando sua comida e caminhando para uma mesa, comendo. Bebendo seu café. Então mais televisão. E talvez uma solitária lata de cerveja antes de se deitar. Havia milhões de homens como ele por toda a América.
Edna saiu da banheira, enrolou-se na toalha, vestiu-se e saiu do apartamento. O carro ainda estava lá. Anotou o nome do homem, Joe Lighthill, e o número do telefone. Leu a parte datilografada novamente. “Películas cinematográficas.” Que termo estranho para se usar. Agora as pessoas dizem “filmes”. PROCURA-SE MULHER. O aviso era muito ousado. Estava diante de um sujeito original.
Quando Edna chegou em casa, tomou três xícaras de café antes de discar o número. O telefone chamou quatro vezes.
– Alô? – ele respondeu.
– Sr. Lighthill?
– Sim?
– Vi seu anúncio. Seu anúncio no carro.
– Ah, sim.
– Meu nome é Edna.
– Como vai, Edna?
– Ah, vou bem. Tem feito tanto calor. Esse tempo está demais.
– Sim, nada fácil.
– Bem, sr. Lighthill...
– Me chame apenas de Joe.
– Bem, Joe, rá rá rá, me sinto tão boba. Sabe por que estou telefonando?
– Você viu meu aviso?
– Quero dizer, rá rá rá, o que há de errado com você? Não consegue arranjar uma mulher?
– Acho que não, Edna. Me diga, onde elas estão?
– As mulheres?
– Sim.
– Ah, por toda parte, veja bem.
– Onde? Me diga. Onde?
– Bem, na igreja, veja bem. Há mulheres na igreja.
– Não gosto de igrejas.
– Ah.
– Escute, por que você não vem para cá, Edna?
– Quer dizer para sua casa?
– Sim. Moro em um lugar legal. Podemos tomar um drinque, conversar. Sem pressão.
– Está tarde.
– Não está tão tarde. Escute, você viu meu aviso. Deve estar interessada.
– Bem...
– Você está com medo, é só isso. Está apenas com medo.
– Não, não estou com medo.
– Então venha pra cá, Edna.
– Bem...
– Venha.
– Certo. Vejo você em quinze minutos.
O apartamento ficava no último andar de um condomínio moderno. Número 17. A piscina abaixo refletia as luzes. Edna bateu. A porta se abriu, e lá estava o sr. Lighthill: entradas frontais, nariz aquilino com pelos que saíam pelas narinas, a camisa aberta na altura do pescoço.
– Entre, Edna...
Entrou, e a porta se fechou atrás dela. Trazia seu vestido azul de seda. Estava sem meias, de sandálias, e fumando um cigarro.
– Sente-se, vou pegar uma bebida para você.
Era um lugar agradável. Tudo nas cores azul e verde e muito limpo. Ela ouviu o sr. Lighthill cantarolar surdamente, enquanto preparava as bebidas, hmmmmmmm, hmmmmmmm, hmmmmmmm... Ele parecia tranquilo e isso a ajudou a descontrair.
O sr. Lighthill – Joe – voltou com as bebidas. Alcançou a Edna a sua e então sentou-se em uma cadeira do outro lado da sala.
– Sim – ele disse –, tem feito muito calor, um calor infernal. Mas tenho ar-condicionado.
– Notei. É muito bom.
– Tome a sua bebida.
– Ah, claro.
Edna tomou um gole. Era uma boa bebida, um pouco forte, mas com um gosto agradável. Observou Joe inclinar a cabeça enquanto bebia. Ele parecia ter rugas profundas em torno do pescoço. E suas calças estavam muito folgadas. Pareciam ser de uma numeração muito maior. Davam a suas pernas uma aparência cômica.
– É um belo vestido, Edna.
– Gosta?
– Oh, sim. Você é bem fornida. O vestido fica muito bem em você, muito bem.
Edna não disse nada. E Joe também não. Apenas permaneceram sentados, olhando um para o outro e bebericando suas bebidas.
Por que ele não fala?, pensou Edna. É ele quem tem de falar. Havia nele algo que lembrava madeira, sim. Ela terminou seu drinque.
– Deixe-me preparar outra bebida para você – disse Joe.
– Não, realmente está na minha hora.
– Ora, vamos lá – ele disse –, deixe-me preparar outra bebida. Precisamos de algo para relaxar.
– Tudo bem, mas depois vou embora.
Joe foi até a cozinha com os copos. Ele não estava mais cantarolando. Voltou, alcançou a Edna um copo e sentou-se novamente em sua cadeira do outro lado da sala, em frente à cadeira dela. A bebida estava ainda mais forte.
– Sabe – ele disse –, me dou bem nesses testes sobre sexo das revistas.
Edna tomou um gole de sua bebida e não respondeu.
– Como você se sai nesses testes? – Joe perguntou.
– Nunca fiz nenhum.
– Deveria, sabe, assim você descobre quem e o que você é.
– Acha que esses testes funcionam? Já vi nos jornais. Nunca fiz nenhum, mas já vi – disse Edna.
– Claro que funcionam.
– Talvez eu não seja boa em sexo – disse Edna –, talvez seja por isso que estou sozinha.
Ela bebeu um longo gole de seu copo.
– Cada um de nós está, no final, sozinho – disse Joe.
– Como assim?
– Quero dizer, não importa quão bem a coisa esteja indo no sexo, no amor ou em ambos, chega um dia em que tudo acaba.
– Isso é triste – disse Edna.
– Claro que é. Então chega o dia em que tudo acaba. Ou há uma separação ou a coisa toda se resolve em uma trégua: duas pessoas vivendo juntas sem sentir nada. Acho que ficar sozinho é melhor.
– Você se divorciou da sua esposa, Joe?
– Não. Ela se divorciou de mim.
– O que deu errado?
– Orgias sexuais.
– Orgias sexuais?
– Veja bem, uma orgia sexual é o lugar mais solitário do mundo. Essas orgias... fiquei com uma sensação de desespero... aqueles caralhos entrando e saindo... me desculpe...
– Tudo bem.
– Aqueles caralhos entrando e saindo, pernas enlaçadas, dedos trabalhando, bocas, todo mundo se agarrando e suando e determinado a fazer a coisa toda... de alguma forma.
– Não sei muito sobre essas coisas, Joe – disse Edna.
– Acho que sem amor, sexo não é nada. As coisas só podem representar alguma coisa quando existe algum sentimento entre os participantes.
– Quer dizer que as pessoas têm que gostar umas das outras?
– Ajuda.
– Imagine que eles se cansem uns dos outros? Imagine que tenham que continuar juntos? Por economia? Filhos? Essas coisas?
– Orgias não os manterão juntos.
– E o que manteria?
– Bem, não sei. Talvez o suingue.
– O suingue?
– Você sabe, quando dois casais se conhecem muito bem e trocam parceiros. Os sentimentos têm, pelo menos, uma chance. Por exemplo, digamos que eu sempre tenha gostado da esposa de Mike. Gosto dela há meses. Já a observei caminhar pela sala. Gosto dos movimentos dela. Os movimentos me deixaram curioso. Imagino, você sabe, o que vem depois desses movimentos. Já a vi braba, já a vi bêbada, já a vi sóbria. E então, vem o suingue. Você está no quarto com ela, finalmente você a está conhecendo. Há uma chance de algo real. É claro, Mike está com a sua esposa no outro quarto. Você pensa: “Boa sorte, Mike, e espero que você seja tão bom amante quanto eu”.
– E isso dá certo?
– Bem, não sei... Suingues podem causar dificuldades... mais tarde. Tudo tem que ser combinado... muito bem combinado, antecipadamente. E então pode ter pessoas que não se conheçam bem o suficiente, não importa quanto tenham conversado.
– Você é um desses, Joe?
– Bem, esse negócio de suingue pode ser bom para alguns... talvez seja bom para muitos. Acho que não daria certo para mim. Sou muito puritano.
Joe terminou sua bebida. Edna bebeu o restante da sua e se levantou.
– Escute, Joe, tenho que ir...
Joe caminhou através da sala na direção dela. Ele parecia um elefante naquelas calças. Ela viu suas orelhas grandes. Então ele a agarrou e começou a beijá-la. Seu mau hálito vencia todas as bebidas. Ele tinha um cheiro muito azedo. Parte de sua boca não estava fazendo contato. Era forte, mas sua força não era pura, sua força claudicava. Ela afastou seu rosto para longe e mesmo assim ele a mantinha presa.
PROCURA-SE MULHER
– Joe, me solta! Você está indo muito rápido, Joe! Me solte!
– Para que você veio aqui, sua puta?
Ele tentou beijá-la novamente e conseguiu. Era horrível. Edna ergueu o joelho. Acertou-o em cheio. Ele se dobrou e caiu no tapete.
– Deus, deus... por que você fez isso? Você tentou me matar...
Ele rolava no chão.
Seu traseiro, ela pensou, ele tinha uma bunda tão feia.
Deixou-o rolando no tapete e desceu as escadas correndo. O ar estava limpo lá fora. Ela ouviu pessoas conversando, ouviu seus aparelhos de televisão. Não era uma caminhada muito longa até seu apartamento. Sentiu necessidade de outro banho, livrou-se do seu vestido de seda azul e se lavou. Então saiu da banheira, secou-se com a toalha e ajeitou os rolos em seus cabelos. Decidiu que nunca mais o veria.
– Ao sul de lugar nenhum
2 169

Junk

sentado num quarto escuro com 3 junkies,
mulheres.
sacos de papel cheios de lixo estão por toda
parte.
é uma e meia da tarde.
elas falam de manicômios,
hospitais.
esperam por uma dose.
nenhuma delas trabalha.
é a assistência e os vale-refeições e
plano de saúde.
os homens se tornam objetos
à espera de uma dose.
é uma e meia da tarde
e do lado de fora crescem pequenas plantas.
os filhos delas ainda estão na escola.
as mulheres fumam cigarros
e tragam indiferentes suas cervejas e
tequilas
pagas por mim.
me sento com elas.
espero pela minha dose:
sou uma poesia junkie.
eles empurraram Ezra pelas ruas
numa gaiola de madeira.
Blake estava certo da existência de Deus.
Villon era um embusteiro.
Lorca chupava paus.
T.S. Eliot estava preso a um caixa de banco.
grande parte dos poetas são cisnes,
garças-reais.
eu me sento com 3 junkies
à uma e meia da tarde.
a fumaça mija para cima.
eu espero.
a morte não é nada descomunal.
uma das mulheres diz que curte
minha camisa amarela.
acredito numa violência simples.
isto é
uma parte dela.
1 046

Para Jane

225 dias sob a relva
e você sabe mais do que eu.
há muito que eles secaram seu sangue,
você não é mais que um graveto seco numa lixeira.
é assim que as coisas funcionam?
neste quarto
as horas de amor
ainda fazem sombras.
quando você se foi
levou quase
tudo junto.
às noites me ajoelho
diante de tigres
que não deixarão que eu exista.
o que você foi
não voltará a se repetir.
os tigres me encontraram
e eu já não me importo.
1 111

Sandra

é a alta e magra
donzela do quarto
de brincos
coberta por um longo
vestido
está sempre alta
em sapatos de salto
espírito
boletas
trago
Sandra se inclina
em sua cadeira
inclina-se em direção a
Glendale
aguardo que sua cabeça
bata na maçaneta
do guarda-roupa
enquanto ela tenta
acender
um novo cigarro num
outro já quase
consumido
aos 32 ela gosta de
jovens limpos
imaculados
com rostos semelhantes ao fundo
de pires recém-comprados
depois de se vangloriar
a não mais poder
acabou me trazendo seus prêmios
para que eu desse uma olhada:
garotos nulos, loiros e silenciosos
que
a) sentam
b) levantam
c) falam
ao seu comando
às vezes ela traz um
às vezes dois
às vezes três
para que eu os
veja
Sandra fica muito bem em
vestidos longos
Sandra pode partir provavelmente
o coração de um homem
espero que ela encontre
um.

Comecei a receber cartas de uma garota de Nova York. Seu nome era Mindy. Ela havia encontrado alguns dos meus livros por acaso, mas o melhor a respeito de suas cartas era que ela raramente mencionava algo sobre escrita exceto para dizer que ela não era uma escritora. Escrevia sobre as mais variadas coisas e sobre homens e sobre sexo em particular. Mindy tinha 25, escrevia à mão, e sua caligrafia era estável, sensível, com uma pitada de humor. Eu respondia suas cartas e era sempre uma alegria encontrar uma das dela na minha caixa de correio. Muitas pessoas dizem as coisas bem melhor em cartas do que em conversas, e algumas pessoas conseguem escrever cartas criativas, artísticas, mas quando tentam um poema, um conto ou um romance, tornam-se pretensiosas.
Então Mindy mandou algumas fotografias. Caso se pudesse confiar em sua veracidade, ela era bem bonita. Escrevemo-nos por mais algumas semanas e então ela mencionou que em breve tiraria duas semanas de férias.
– Por que você não pega um avião até aqui? – sugeri.
– Tudo bem – ela respondeu.
Começamos a nos telefonar. Por fim ela me deu a data de chegada de seu voo no L.A. International.
– Estarei lá – disse a ela –, nada poderá me impedir.
Sentei-me no aeroporto e esperei. Nunca se pode ter certeza com esse negócio de fotos. Não há garantias. Sentia-me prestes a vomitar. Acendi um cigarro e me veio um engulho. Por que eu fazia essas coisas? Não a queria mais agora. E Mindy voava de Nova York para cá. Eu conhecia um número grande de mulheres. Por que esse negócio de mais e mais mulheres? O que eu estava tentando fazer? Casos novos são excitantes, mas também dão um trabalho dos diabos. O primeiro beijo, a primeira foda sempre são um pouco dramáticos. As pessoas eram interessantes no início. Então mais tarde, devagar mas inevitavelmente, todas as imperfeições e as demências começariam a se manifestar. Eu seria então cada vez menos interessante para elas; e elas se tornariam cada vez menos importantes para mim.
Eu era velho e feio. Talvez por isso fosse tão bom meter nessas jovens garotas. Eu era o King Kong e elas flexíveis e macias. Será que eu estava tentando enganar a morte? Ficando com essas jovens eu tinha esperanças de não envelhecer, não me sentir um caco? Eu só não queria envelhecer sem dignidade, simplesmente desistir, estar morto antes da morte chegar.
O avião de Mindy pousou e começou a taxiar. Senti que estava a perigo. As mulheres me conheciam de antemão, pois haviam lido meus livros. Eu já havia me exposto. Por outro lado, eu não sabia nada delas. Eu era o verdadeiro jogador. Eu podia ser morto, ter minhas bolas cortadas. Chinaski castrado. Poemas de amor de um eunuco.
Fiquei esperando por Mindy. Os passageiros saíram pelo portão.
Oh, tomara que não seja aquela.
Ou aquela.
Especialmente aquela outra.
Bem, aquela ali estaria bem! Veja que pernas, que rabo, e esses olhos...
Uma delas veio em minha direção. Torci para que fosse ela. Era a melhor de todo o grupo. Eu não podia ter tanta sorte. Ela se aproximou e sorriu:
– Eu sou a Mindy.
– Estou feliz que você seja a Mindy.
– Estou feliz que você seja o Chinaski.
– Você precisa pegar alguma bagagem?
– Sim, trouxe o suficiente para uma longa estada!
– Vamos esperar no bar.
Entramos e encontramos uma mesa. Mindy pediu uma vodca com tônica. Pedi uma vodca-7.[14] Ah, quase em perfeita harmonia. Acendi-lhe o cigarro. Ela tinha uma ótima aparência, quase virginal. Era difícil de acreditar. Era baixinha, loira e perfeita de corpo. Era mais natural do que sofisticada. Era fácil olhá-la nos olhos, de um azul-esverdeado. Usava dois brincos pequenos. E usava sapatos de salto. Havia dito a Mindy que saltos altos me excitavam.
– Bem – ela disse –, você está assustado?
– Agora nem tanto. Gosto de você.
– Você é bem melhor pessoalmente do que nas fotos – ela disse. – Não acho você nem um pouco feio.
– Obrigado.
– Oh, não quis dizer que você é bonito, não no sentido que as pessoas dão pro termo. Seu rosto parece comum. Mas seus olhos... eles são lindos. São selvagens, loucos, como os olhos de um animal surgindo de uma floresta em chamas. Deus, alguma coisa desse tipo. Não sou muito boa com as palavras.
– Acho que você é linda – eu disse. – E muito gentil. É bom estar perto de você. Estou feliz de estarmos juntos. Beba. Precisamos de mais bebida. Você é como suas cartas.
Tomamos a segunda rodada e fomos buscar sua bagagem. Orgulhava-me estar ao lado de Mindy. Ela caminhava com estilo. Muitas mulheres com belos corpos apenas se arrastavam, como se fossem criaturas sobrecarregadas de peso. Mindy deslizava.
Eu seguia pensando, isso é bom demais. Isso simplesmente não é possível.
– Mulheres
1 265

Estou Apaixonada

ela é jovem, ela disse,
mas olhe pra mim,
tenho belos tornozelos,
e olhe meus pulsos, tenho belos
pulsos
ó meu deus,
achei que isso estivesse funcionando,
e aí está ela de novo,
toda vez que ela telefona você enlouquece,
você tinha me dito que ela era passado
que tinha posto um ponto final,
escute, já vivi o suficiente para me tornar uma
boa mulher,
por que você precisa de uma má?
quer ser torturado, é isso?
você pensa que a vida é uma merda e por isso precisa que alguém o
trate que nem merda,
não é isso?
me diga, não é isso? quer ser tratado como um
pedaço de merda?
e meu filho, meu filho ia conhecer você.
eu disse ao meu filho
e desisti de todos os meus amantes.
fiquei de pé num café e gritei
ESTOU APAIXONADA,
e agora você me faz de idiota...
sinto muito, eu disse, sinto de verdade.
me abrace, ela disse, me abrace por favor?
nunca estive numa situação dessas, eu disse,
esse negócio de triângulo...
ela se levantou e acendeu um cigarro, tremia por
inteiro. caminhava de lá pra cá, selvagem e louca. seu corpo
era pequeno. seus braços magros, muito magros e quando
começou a gritar e a me bater e segurei seus
pulsos e então pude ver em seus olhos: ódio,
um ódio profundo e verdadeiro como os séculos. E eu errado e desgraçado e
enojado. todas as coisas que eu tinha aprendido estavam arruinadas.
nenhuma criatura viva era tão cretina quanto eu
e todos os meus poemas eram
falsos.
1 119

Citações

2

Livros

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Mário Quintana
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