Charles Bukowski

Charles Bukowski

1920–1994 · viveu 73 anos DE DE

Charles Bukowski foi um poeta e escritor alemão-americano, conhecido por sua obra crua, visceral e autobiográfica. Sua escrita, frequentemente associada à chamada "geração beat" e à contracultura, retrata a vida marginal, os vícios, a pobreza, o sexo e a alienação com uma linguagem direta e sem rodeios. Bukowski celebrou o submundo e os desajustados, tornando-se um ícone para muitos que se sentiam à margem da sociedade.

n. 1920-08-16, Andernach · m. 1994-03-09, San Pedro

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Como Ser Um Grande Escritor

você tem que trepar com um grande número de mulheres
belas mulheres
e escrever uns poucos e decentes poemas de amor.

e não se preocupe com a idade
e/ou com os talentos frescos e recém-chegados.

apenas beba mais cerveja
mais e mais cerveja

e vá às corridas pelo menos uma vez por
semana

e vença
se possível.

aprender a vencer é difícil –
qualquer frouxo pode ser um bom perdedor.

e não se esqueça do Brahms
e do Bach e também da sua
cerveja.

não exagere no exercício.

durma até o meio-dia.

evite cartões de crédito
ou pagar qualquer conta
no prazo.

lembre-se que nenhum rabo no mundo
vale mais do que 50 pratas.
(em 1977).

e se você tem a capacidade de amar
ame primeiro a si mesmo
mas esteja sempre alerta para a possibilidade de uma
derrota total
mesmo que a razão para essa derrota
pareça certa ou errada –

um gosto precoce da morte não é necessariamente
uma coisa má.

fique longe de igrejas e bares e museus,
e como a aranha seja
paciente –
o tempo é a cruz de todos,
mais o
exílio
a derrota
a traição

todo este esgoto.

fique com a cerveja.

a cerveja é o sangue contínuo.

uma amante contínua.

arranje uma grande máquina de escrever
e assim como os passos que sobem e descem
do lado de fora de sua janela

bata na máquina
bata forte

faça disso um combate de pesos pesados

faça como o touro no momento do primeiro ataque
e lembre dos velhos cães
que brigavam tão bem:
Hemingway, Céline, Dostoiévski, Hamsun.

se você pensa que eles não ficaram loucos
em quartos apertados
assim como este em que agora você está

sem mulheres
sem comida
sem esperança

então você não está pronto.

beba mais cerveja.
há tempo.
e se não há
está tudo certo
também.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Heinrich Karl "Hank" Bukowski Jr. foi um poeta, contista e romancista alemão-americano. Nasceu em Andernach, na Alemanha, em 16 de agosto de 1920, e faleceu em San Pedro, Califórnia, Estados Unidos, em 9 de março de 1994. É uma figura proeminente da literatura marginal e da contracultura americana. Filho de pais alemães, mudou-se com a família para os Estados Unidos quando tinha três anos.

Infância e formação

Bukowski teve uma infância difícil marcada pela pobreza e por um relacionamento abusivo com o pai. Aos três anos, a família emigrou para os Estados Unidos, estabelecendo-se em Los Angeles. Sua adolescência foi rebelde e problemática. Frequentou a Los Angeles High School, mas abandonou os estudos precocemente. Aos 17 anos, saiu de casa. Sua formação foi autodidata, moldada por leituras intensas, pela experiência de vida nas ruas e pelos trabalhos precários que desempenhou ao longo de décadas.

Percurso literário

Bukowski começou a escrever poesia e contos ainda jovem, mas demorou décadas para ser reconhecido. Trabalhou em empregos manuais e braçais, como carteiro e em fábricas, em grande parte de sua vida adulta, muitas vezes lutando contra o alcoolismo. Publicou esporadicamente em pequenas revistas literárias underground nas décadas de 1940 e 1950. Sua carreira literária ganhou impulso a partir da década de 1960, quando se dedicou integralmente à escrita após receber uma herança que lhe permitiu deixar o emprego nos correios. Seu primeiro livro de poemas, "Flower, Fist, and Bestial Wail", foi publicado em 1960. A partir daí, produziu uma vasta obra em poesia, contos e romances.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras mais conhecidas de Bukowski incluem coleções de poemas como "Love Is a Dog from Hell" (1977), "Crimson Tears" (1978), e "The Most Beautiful Woman in Town" (1986), além de romances como "Factotum" (1975), "Women" (1978) e "Post Office" (1971). Seus temas centrais são a vida marginal, a pobreza, o alcoolismo, o sexo, a solidão, a alienação, a crítica social e a busca por sentido em um mundo caótico. Seu estilo é caracterizado por uma linguagem direta, coloquial, sem adornos, muitas vezes obscena e chocante, mas também capaz de uma profunda sensibilidade e honestidade. Ele utilizava o verso livre de forma contundente, com frases curtas e ritmo muitas vezes quebrado. Sua voz poética é confessional, crua e irónica, refletindo suas experiências de vida de forma implacável. Bukowski é considerado um renovador da poesia americana pela sua abordagem realista e pela sua capacidade de dar voz aos desvalidos.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Bukowski emergiu como uma voz dissonante em meio ao otimismo pós-guerra e ao surgimento da contracultura nos EUA. Sua obra, muitas vezes associada à Geração Beat, como Jack Kerouac e Allen Ginsberg, embora com um estilo mais sombrio e menos místico, capturou o desencanto e a rebeldia de uma parcela da sociedade que se sentia marginalizada. Ele escreveu em um período de profundas mudanças sociais e políticas nos Estados Unidos, como a Guerra do Vietnã e os movimentos pelos direitos civis, temas que, embora não diretamente abordados, permeiam o pano de fundo de sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida de Bukowski foi marcada pela luta contra o alcoolismo, por relacionamentos tumultuados e por uma série de empregos precários. Teve casamentos e relacionamentos significativos, incluindo com as poetisas Jane Cooney Baker e Linda King, e mais tarde com Linda Lee Beighle, que se tornou sua esposa e figura importante em sua vida. Sua obra é profundamente autobiográfica, sendo difícil separar o homem do escritor. Suas experiências com a pobreza e a boemia foram a matéria-prima de sua escrita. Suas crenças eram pragmáticas e cínicas, desconfiando de instituições e ideologias.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Bukowski obteve um reconhecimento tardio e muitas vezes controverso. Enquanto era idolatrado por muitos como um autêntico "escritor do povo" e um rebelde contra o sistema, era criticado por outros por seu estilo considerado vulgar ou amoral. Sua popularidade cresceu exponencialmente após sua morte, tornando-se um autor cultuado em todo o mundo, especialmente entre jovens e leitores que se identificam com sua honestidade brutal e sua visão de mundo sem filtros.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Bukowski foi influenciado por escritores como Ernest Hemingway, John Fante, D.H. Lawrence e por autores da Geração Beat. Seu legado é o de ter dado voz aos marginalizados, de ter mostrado que a literatura pode emergir de experiências de vida difíceis e de ter desafiado as convenções literárias estabelecidas. Inspirou inúmeros poetas e escritores que buscam uma linguagem autêntica e um retrato sem maquiagem da realidade. Sua obra continua a ser uma referência para a literatura underground e alternativa.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Bukowski é frequentemente analisada sob a ótica da literatura marginal, da crítica social e da representação da experiência humana em suas formas mais cruas. Os debates centram-se na sua genialidade como cronista da vida urbana e da alienação, e na sua capacidade de extrair poesia do feio e do sórdido.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Bukowski era conhecido por seu humor negro e seu cinismo. Ele tinha uma coleção de centenas de cartas de amor recebidas de fãs em todo o mundo. Passou um período em um hospital psiquiátrico em sua juventude, uma experiência que o marcou profundamente. Sua relação com os cachorros era notória. Era um observador atento da natureza humana, registrando suas observações em cadernos.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Charles Bukowski faleceu em 9 de março de 1994, em San Pedro, Califórnia, aos 73 anos, vítima de leucemia. Sua morte foi recebida com pesar por seus admiradores. Suas cinzas foram espalhadas em um de seus locais favoritos na Califórnia. Sua obra continua a ser publicada e a ser redescoberta por novas gerações, solidificando sua posição como um dos autores mais singulares e influentes da literatura americana.

Poemas

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Os Lixeiros

aí vêm eles
esses caras
caminhão cinza
rádio ligado
estão com pressa
é muito excitante:
camisa aberta
as barrigas pendendo
recolhem as latas de lixo
esvaziam-nas na compactadora
e então o mecanismo sobe
barulhento demais...
eles precisam preencher formulários de requerimento
para conseguir esses trabalhos
precisam pagar as prestações da casa e
dirigem carros do ano
embebedam-se sábado à noite
agora sob o sol de Los Angeles
correm pra lá e pra cá atrás de latas de lixo
todo o lixo vai pra algum lugar
e eles gritam uns para os outros
então estão todos no caminhão
seguindo para oeste em direção ao mar
nenhum deles sabe
que estou vivo
REX DISPOSAL CO.
1 111

Câncer

encontrei seu quarto no alto de uma
escada.
ela estava sozinha.
“olá, Henry”, ela disse, e depois,
“você sabe, eu odeio esse quarto, ele não
tem janelas.”
eu estava com uma ressaca daquelas.
o cheiro era insuportável,
sentia-me prestes a
vomitar.
“eles me operaram dois dias atrás”,
ela disse. “me senti melhor no dia
seguinte, mas agora está tudo igual a antes, talvez até
pior.”
“sinto muito, mãe.”
“sabe, você estava certo, seu pai
é um homem terrível.”
pobre mulher. um marido brutal e
um filho alcoólatra.
“me desculpe, mãe, eu volto
logo...”
o cheiro havia me impregnado,
meu estômago pulava.
saí do quarto
e desci metade do lance de escadas,
me sentei ali
agarrado ao corrimão,
respirando o ar
puro.
a pobre mulher.
segui respirando e
mantendo o controle para não
vomitar.
me levantei e voltei a subir os
degraus em direção ao quarto.
“ele tinha me mandado para um
hospício, você
sabia?”
“sim. eu informei a eles
que tinham pegado a pessoa
errada.”
“você parece doente, Henry, está tudo bem
contigo?”
“não estou num bom dia, mãe. Volto
para ver você
amanhã.”
“tudo bem, Henry...”
fiquei de pé, fechei a porta, em seguida
desci a escada.
ganhei a rua, cheguei a um
roseiral.
soltei tudo sobre o
roseiral.
pobre e desgraçada mulher...
no dia seguinte cheguei com
flores.
subi a escada até a
porta.
havia uma guirlanda na
porta.
tentei abrir a porta mesmo assim.
estava trancada.
desci os degraus
cruzei as roseiras e seu jardim
e cheguei à rua
onde havia estacionado meu
carro.
duas garotinhas
entre 6 e 7 anos
voltavam da escola para casa.
“desculpem-me, senhoritas, mas vocês
gostariam de ganhar umas flores?”
elas pararam e me
encararam.
“tome”, estiquei o buquê à mais alta
das garotas. “agora, vocês
dividam, por favor, dê para sua amiguinha
a metade delas.”
“obrigada”, disse a mais
alta, “elas são
lindas.”
“sim, são mesmo”, disse a
outra, “muito
obrigada.”
elas se afastaram descendo a rua
e eu entrei no meu carro,
dei a partida, e
dirigi de volta para o meu
canto.
1 245

O Pior E o Melhor

nos hospitais e nas cadeias
está o pior
nos hospícios
está o pior
nas coberturas
está o pior
nos albergues vagabundos
está o pior
nas leituras de poesia
nos concertos de rock
nos shows beneficentes para os inválidos
está o pior
nos funerais
nos casamentos
está o pior
nas paradas
nos rinques de patinação
nas orgias sexuais
está o pior
à meia-noite
às 3 da manhã
às 5h45 da tarde
está o pior
pelotões de fuzilamento
rasgando o céu
isto é o melhor
pensar na Índia
olhando para as carrocinhas de pipoca
assistindo ao touro pegar o matador
isto é o melhor
lâmpadas encaixotadas
um velho cão se coçando
amendoins em um saquinho
isto é o melhor
jogar inseticida nas baratas
um par de meias limpas
coragem natural vencendo o talento natural
isto é o melhor
de frente para pelotões de fuzilamento
lançar pedaços de pão às gaivotas
fatiar tomates
isto é o melhor
tapetes com marcas de cigarro
fendas nas calçadas
garçonetes que mantêm a sanidade
isto é o melhor
minhas mãos mortas
meu coração morto
silêncio
adágio de pedras
o mundo em chamas
isto é o melhor
para mim.

O carteiro favorito de Stone era Matthew Battles. Battles nunca aparecia com um amassadinho na camisa. De fato, tudo o que ele usava era novo, parecia novo. Os sapatos, as camisas, as calças, o quepe. Seus sapatos brilhavam de verdade e nenhuma de suas roupas parecia ter sido lavada mais do que uma vez. Assim que uma camisa ou um par de calças apresentavam algum sinal de uso, ele os jogava fora.
Quando Matthew passava, o Stone frequentemente nos dizia:
– Olhem bem, isso sim é um carteiro!
E o Stone dizia aquilo a sério. Seus olhos quase faiscavam de amor.
E Matthew ficava lá em pé em frente à sua caixa, limpo e ereto, penteado e com um rosto descansado, os sapatos brilhando de um jeito vitorioso, jogando suas cartas com alegria.
– Você é um autêntico carteiro, Matthew!
– Obrigado, sr. Jonstone!
Certa vez, às cinco da manhã, entrei e fiquei esperando bem atrás do Stone. Ele parecia um pouco curvo debaixo de sua camisa vermelha.
Moto estava ao meu lado. Ele me disse:
– Flagraram o Matthew ontem.
– Flagraram ele?
– É, ele andava abrindo as correspondências. Tirava o dinheiro das cartas para o Templo Nekalayla. Depois de quinze anos de serviço.
– Como descobriram?
– Graças a umas senhoras. As velhas mandavam donativos em dinheiro para o Nekalayla e não estavam recebendo nem um cartão de agradecimento. Nekalayla avisou os Correios e os Correios ficaram de olho em Matthew. Pegaram ele tirando o dinheiro das cartas no banheiro.
– Não brinca?
– Sério. Foi pego em plena luz do dia.
Encostei-me na parede.
Nekalayla tinha construído um enorme templo, pintando-o de um verde horrendo, acho que aquele verde lhe lembrava a cor de dinheiro, e tinha um escritório com uma equipe de trinta ou quarenta pessoas que não faziam nada além de abrir envelopes, retirar os cheques e o dinheiro, registrar o montante, o nome do remetente, a data e assim por diante. Outros se ocupavam enviando livros e panfletos escritos por Nekalayla, sua foto estava na parede, uma foto enorme dele com roupas religiosas e barba, havia também um quadro muito grande de N., voltado para o escritório, como se vigiasse a todos.
Nekalayla declarava que certa vez, em suas andanças pelo deserto, encontrou Jesus Cristo e que Ele tinha lhe contado tudo. Sentaram juntos numa pedra, e J.C. foi desembuchando tudo. Agora ele transmitia os segredos para os que pudessem pagar por eles. Também celebrava uma cerimônia todo domingo. Seus ajudantes, que eram também seus seguidores, viviam tocando sinos e campainhas.
Imagine Matthew Battles tentando sacanear Nekalayla, o mesmo cara que tinha se encontrado com Jesus Cristo num deserto!
– Alguém já comentou algo com o Stone? – perguntei.
– Você está brincando?
Ficamos sentados por mais ou menos uma hora. Um estagiário foi designado para substituir o Matthew. Os outros foram escalados pra outros serviços. Fiquei sentado sozinho atrás do Stone. Então levantei e fui até sua mesa.
– Sr. Jonstone?
– Sim, Chinaski?
– Onde está Matthew hoje? Doente?
O Stone baixou a cabeça. Olhou o jornal que tinha nas mãos e fingiu continuar a sua leitura. Voltei para o meu lugar e me sentei.
Às sete da manhã, o Stone se virou:
– Não há nada pra você hoje, Chinaski!
Levantei e fui em direção à porta. Parei bem ali.
– Bom dia, sr. Jonstone. Tenha um bom dia.
Ele não respondeu. Desci até a loja de bebidas e comprei uma garrafinha de Grandad para o café da manhã.
As vozes das pessoas eram as mesmas, não importa onde você entregasse a correspondência, você escutava sempre as mesmas coisas.
– Você está atrasado, não está?
– Onde está o carteiro de sempre?
– Olá, Tio Sam!
– Carteiro! Carteiro! Essa carta não é daqui!
As ruas estavam cheias de pessoas insanas e estúpidas. A maioria delas morava em belas casas e não parecia trabalhar, e você se perguntava como elas faziam para sobreviver. Havia um cara que nunca deixava você colocar a correspondência em sua caixa. Ficava parado na calçada, esperando você aparecer a duas ou três quadras de distância e lá ficava, a mão estendida.
Perguntei a alguns dos outros que já tinham feito aquela rota:
– O que há de errado com aquele cara que fica lá parado com a mão estendida?
– Que cara que fica parado com a mão estendida? – perguntaram.
Todos eles também tinham a mesma voz.
Um dia, quando eu fazia essa rota, o homem-que-estende-a-mão estava a meia quadra, rua acima. Conversava com um vizinho, olhou para trás em minha direção a mais de uma quadra de distância e achou que daria tempo de voltar e me alcançar. Quando se virou de costas para mim, comecei a correr. Nem acredito que eu possa ter entregado as cartas tão depressa, todo avanço e movimento, sem fazer uma pausa, eu ia batê-lo. Já estava com meia carta em sua caixa quando ele se voltou e me viu.
– OH, NÃO, NÃO, NÃO! – gritou. – NÃO A COLOQUE NA CAIXA!
Desceu a rua correndo em minha direção. Tudo o que eu vi foi o movimento indistinto de seus pés. Ele deve ter corrido cem metros em 9,2 segundos.
Pus a carta em sua mão. Olhei-o abrir a carta, andar em direção à varanda, abrir a porta e entrar em casa. Alguém um dia terá de me dizer o que significava tudo aquilo.
Outra vez eu estava numa nova rota. O Stone sempre me colocava em rotas difíceis, mas de vez em quando, dadas as circunstâncias das coisas, ele era obrigado a me deslocar para uma menos perigosa. Com a rota 511 eu ia me dando muito bem e lá estava eu pensando novamente na hora do almoço, o almoço que nunca chegava.
Era um bairro residencial de classe média. Sem apartamentos. Somente casas e mais casas com seus jardins bem cuidados. Mas era uma nova rota e eu ia me perguntando onde estaria a armadilha. Até o tempo estava agradável.
Por Deus, pensei, desta vez vou conseguir! Almoço e volto ainda em tempo! A vida, finalmente, era suportável!
As pessoas por aqui não tinham nem cachorro. Ninguém parado do lado de fora esperando a sua carta. Eu não ouvia uma voz humana por horas. Talvez eu tivesse atingido a minha maturidade como carteiro, o que quer que isto significasse. Eu seguia em frente, eficiente, quase dedicado.
Lembrei-me de um dos carteiros mais velhos, apontando o peito e dizendo:
– Chinaski, um dia esse negócio vai pegar você, vai pegar bem aqui!
– Ataque cardíaco?
– Dedicação ao serviço. Espere e verá. Você sentirá orgulho com o trabalho.
– Bobagem!
Mas o homem tinha sido sincero.
Pensava nele enquanto caminhava.
Agora eu levava uma carta registrada com recibo a ser assinado.
Avancei e toquei a campainha. Alguém abriu o postigo da porta. Não pude ver o rosto.
– Carta registrada!
– Para trás! – exclamou uma voz de mulher. Para trás para que eu possa ver o seu rosto!
Bem, aí estava, pensei, mais uma louca.
– Escute, minha senhora, a senhora não precisa ver o meu rosto. Vou enfiar este canhoto na sua caixa de correio e a senhora pode apanhar a sua carta lá no posto. Leve um documento de identidade.
Deixei o canhoto em sua caixa e fui me afastando.
A porta se abriu e ela veio correndo. Usava uma dessas combinações transparentes e estava sem sutiã. Apenas uma calcinha azul-marinho. Seu cabelo estava despenteado e armado como se tentasse fugir da cabeça. Parecia haver algum tipo de creme em seu rosto, principalmente debaixo dos olhos. O seu corpo era branco, como se o sol jamais tivesse tocado sua pele e seu rosto tinha um aspecto pouco saudável. Sua boca estava escancarada. Usava um risco de batom e era bem torneada de cima a baixo...
Percebi tudo isso quando ela correu em minha direção. Já estava deslizando a carta registrada de volta ao malote.
Ela gritou:
– Me dê a carta!
Eu disse:
– Espere, a senhora terá...
Ela agarrou a carta, correu até a porta, abriu-a e correu para dentro.
Droga! Você não podia voltar sem a carta registrada ou ao menos a assinatura! Era preciso registrar, assinar, dar baixa nessas coisas.
– Ei!
Fui atrás dela e meti o pé na porta bem a tempo.
– EI! SUA DESGRAÇADA!
– Vá embora! Vá embora! Você é um bandido!
– Olhe, senhora! Tente entender! A senhora precisa assinar a carta. Não pode ficar com ela assim! A senhora está roubando os Correios dos Estados Unidos!
– Vá embora, seu bandido!
Joguei todo o meu peso contra a porta e entrei sala adentro. A escuridão era total. Todas as persianas estavam baixadas. Todas as persianas da casa estavam baixadas.
– O SENHOR NÃO TEM O DIREITO DE ENTRAR NA MINHA CASA! SAIA!
– E a senhora não tem o direito de roubar os Correios! Ou devolve a carta ou terá de assiná-la. Depois disso eu saio.
– Está bem! Está bem! Eu assinarei!
Mostrei onde assinar e lhe entreguei uma caneta. Olhei para os seus peitos e para o resto do corpo e pensei, que pena que ela seja louca, que pena, que pena.
Ela me devolveu a caneta e a sua assinatura – era simplesmente um rabisco. Abriu a carta e começou a ler, enquanto me virava para sair.
Então se posicionou em frente à porta, os braços em cruz. A carta estava no chão.
– Bandido! Bandido! Bandido! Você veio aqui para me estuprar!
– Escute, senhora, deixe eu passar!
– A MALDADE ESTÁ ESTAMPADA NA SUA CARA!
– E a senhora acha que eu não sei? Agora me deixe sair!
Com uma das mãos tentei empurrá-la para o lado. Ela cravou as unhas em meu rosto, de jeito. Deixei cair o malote, o meu quepe escorregou, e, enquanto eu pegava um lenço para estancar o sangue, ela avançou e atacou a outra face.
– SUA VADIA! QUE DIABOS HÁ DE ERRADO COM VOCÊ?
– Viu? Viu só? Você é um bandido!
Ela estava de pé bem junto de mim. Agarrei-a pela bunda e lhe beijei a boca. Aqueles peitos roçavam em mim, ela toda estava junto a mim. Afastou a cabeça para trás, distanciando-se:
– Estuprador! Estuprador! Maldito estuprador!
Me inclinei e levei minha boca a um dos peitos, depois beijei o outro.
– Estupro! Estupro! Estou sendo estuprada!
Ela estava certa. Puxei suas calcinhas, abri o zíper, coloquei meu pau para dentro. Então fui conduzindo-a em direção ao sofá. Caímos sobre ele.
Ela ergueu as pernas bem alto.
– ESTUPRO! – gritou.
Meti até gozar, fechei o zíper, apanhei a mala do correio e me afastei enquanto ela olhava absorta e em silêncio para o teto...
Perdi o almoço, mas nem assim consegui cumprir a tabela.
– Você está quinze minutos atrasado – disse o Stone.
Eu não disse nada.
O Stone olhou pra mim.
– Por Deus, o que houve com o seu rosto? – perguntou.
– O que houve com o seu? – perguntei.
– O que você quer dizer?
– Esquece.
– Cartas na rua
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Nenhum Caminho Para o Paraíso

Eu estava sentado em um bar na avenida Western. Era perto da meia-noite e estava metido em uma das minhas habituais confusões. Quero dizer, você sabe, nada dá certo: as mulheres, os trabalhos, a falta de trabalhos, o tempo, os cães. Por fim, você simplesmente senta em uma espécie de estado de transe e espera como se estivesse no banco da parada de ônibus aguardando a morte.
Bem, estava sentado lá e então chega essa mulher com cabelo preto e longo, bom corpo, olhos castanhos e tristes. Não me virei para olhá-la. Ignorei-a, mesmo ela tendo sentado no banco ao lado do meu, quando havia uma dúzia de outros lugares vagos. Na verdade, éramos os únicos no bar, exceto pelo balconista. Ela pediu um vinho seco. Depois me perguntou o que eu estava bebendo.
– Scotch com água.
– Dê-lhe um scotch com água – ela disse ao balconista.
Bem, isso era incomum.
Abriu a bolsa, removeu uma pequena gaiola de arame e tirou algumas pessoas pequenas e as colocou no balcão. Tinham todos aproximadamente dez centímetros de altura e estavam vivos e bem vestidos. Havia quatro deles, dois homens e duas mulheres.
– Fazem desses agora – ela disse. – São muito caros. Custaram quase dois mil dólares cada um quando comprei. Agora já estão chegando aos 2.400 dólares. Não sei como são feitos, mas provavelmente é coisa fora da lei.
As pessoas em miniatura estavam caminhando por cima do balcão. Repentinamente um dos pequenos homens deu um tapa na cara de uma das pequenas mulheres.
– Sua vagabunda – ele disse –, já chega!
– Não, George, você não pode – ela gritou –, eu te amo! Vou me matar! Tenho que ter você!
– Não me importo! – disse o pequeno sujeito e puxou um cigarrinho e o acendeu. – Tenho o direito de viver.
– Se você não a quer – disse o outro sujeitinho –, fico com ela, eu a amo.
– Mas não quero você, Marty. Estou apaixonada pelo George.
– Mas ele é um idiota, Anna, um idiota completo!
– Eu sei, mas o amo de qualquer forma.
O idiotinha caminhou pelo balcão e beijou a outra mulherzinha.
– Estou com um triângulo amoroso em andamento – disse a mulher que havia me pagado uma bebida. – Esses são Marty e George e Anna e Ruthie. George vai se dar mal, muito mal. Marty é meio quadrado.
– Não é triste ver tudo isso? Errr, qual o seu nome?
– Dawn.[13] É um nome terrível. Mas é o que as mães fazem com suas crianças às vezes.
– O meu é Hank. Mas não é triste...
– Não, não é triste observar isso tudo. Não tive muita sorte com os meus próprios amores, péssima sorte, aliás...
– Passa o mesmo com todos nós.
– Parece que sim. De qualquer forma, comprei essas pessoinhas e agora fico olhando pra elas. E é como ter e não ter esses problemas. Mas fico muito excitada quando começam a fazer amor. É aí que fica difícil.
– São excitantes?
– Muito, muito excitantes. Meu Deus, me deixam louca!
– Por que você não os obriga a fazer sexo? Quero dizer agora. Ficaremos olhando juntos.
– Não se pode forçá-los. Têm de fazer por conta própria.
– Com que frequência acontece?
– Oh, eles são bem bons. Quatro ou cinco vezes por semana.
Estavam caminhando pelo balcão.
– Escute – disse Marty –, me dê uma chance. Apenas uma chance, Anna.
– Não – disse Anna. – Meu coração pertence ao George. Não pode ser de nenhuma outra maneira.
George estava beijando Ruthie, apalpando seus peitos. Ruthie estava ficando excitada.
– Ruthie está ficando excitada – eu disse a Dawn.
– Está, está mesmo.
Eu também estava ficando. Agarrei Dawn e a beijei.
– Escute – ela disse. – Não gosto que eles façam sexo em público. Vou levá-los para casa e colocá-los para transar.
– Mas aí não poderei olhar.
– Bem, terá que vir comigo.
– Tudo bem – respondi. – Vamos lá.
Acabei minha bebida e saímos juntos. Ela carregava as criaturas em uma pequena gaiola de arame. Entramos no carro dela e colocamos o pessoal entre nós, no banco da frente. Olhei para Dawn. Era realmente jovem e bonita. Parecia ser boa também por dentro. Como podia ter fracassado com os homens? Há tantas maneiras de as coisas saírem erradas. Os quatro pequenos custaram-na oito mil. Tudo isso para se afastar de relacionamentos e na verdade não se afastar de relacionamentos.
A casa era perto dos morros, um lugar com uma aparência agradável. Descemos do carro e caminhamos até a porta. Segurei a gaiola com os pequenos enquanto ela abria a porta.
– Ouvi Randy Newman semana passada no The Troubador. – Ele não é ótimo? – perguntou.
– Sim, é ótimo.
Entramos na sala, e Dawn tirou os pequenos da gaiola e os colocou em uma mesinha. Então caminhou até a cozinha, abriu o refrigerador e pegou uma garrafa de vinho. Trouxe dois copos.
– Perdão – ela disse. – Mas você parece um pouco louco. O que você faz?
– Sou escritor.
– E irá escrever sobre isso?
– Ninguém jamais acreditará, mas vou.
– Olha – disse Dawn. – George tirou as calcinhas de Ruthie. Ele está enfiando os dedos nela. Gelo?
– Sim, está fazendo isso. Não, sem gelo. Puro está ótimo.
– Não sei o que acontece – disse Dawn –, mas fico realmente excitada quando os observo. Talvez seja porque são tão pequenos. Realmente me excita.
– Entendo o que quer dizer.
– Olhe, o George está chupando ela.
– É mesmo.
– Olhe pra eles!
– Deus do céu!
Agarrei Dawn. Ficamos ali em pé nos beijando. Enquanto isso, seus olhos iam dos meus para eles e novamente para os meus.
O pequeno Marty e a pequena Anna também estavam olhando.
– Olhe – disse Marty –, eles vão trepar. Nós bem que podíamos trepar também. Até os grandes vão transar. Olhe pra eles!
– Você ouviu isso? – perguntei a Dawn. – Eles disseram que nós vamos trepar. É verdade?
– Espero que sim – disse Dawn.
Levei-a para o sofá e levantei o vestido acima da cintura. Beijei seu pescoço.
– Eu te amo – eu disse.
– Mesmo? Ama?
– Sim, de alguma forma, sim...
– Tudo bem – disse a pequena Anna ao pequeno Marty. – Também podemos trepar, mesmo que eu não ame você.
Eles se abraçaram no meio da mesinha. Eu já tinha tirado as calcinhas de Dawn. Ela gemia. Ruthie gemia. Marty se aproximava de Anna. Estava acontecendo por toda parte. Tive a ideia de que todas as pessoas no mundo estavam trepando. Então esqueci do resto do mundo. De alguma forma fomos para o quarto. Então penetrei Dawn para a longa e lenta cavalgada.
Quando ela saiu do banheiro, eu estava lendo uma história muito idiota na Playboy.
– Foi tão bom – ela disse.
– O prazer foi meu – respondi.
Ela voltou para a cama. Pus a revista de lado.
– Acha que daremos certo juntos? – perguntou.
– O que quer dizer?
– Acha que vamos conseguir ficar juntos por algum tempo?
– Não sei. Coisas acontecem. O começo é sempre mais fácil.
Então ouvimos um grito vindo da sala.
– Ai, ai – ela disse.
Saltou da cama e correu para a sala. Segui logo atrás. Quando cheguei lá, ela estava segurando George nas mãos.
– Oh, meu Deus!
– O que aconteceu?
– Foi a Anna!
– O que tem a Anna?
– Cortou fora as bolas dele! George é um eunuco!
– Uau!
– Pegue papel higiênico, rápido! Ele pode sangrar até morrer!
– Esse filho da puta – disse Anna da mesinha –, se não posso ter o George, ninguém mais terá.
– Agora vocês duas são minhas! – disse Marty.
– Não, agora você tem que escolher uma de nós – disse Anna.
– Então, com qual vai ficar? – perguntou Ruthie.
– Amo as duas – disse Marty.
– Parou de sangrar – disse Dawn. – Ele está frio.
Ela embrulhou George em um lenço e o colocou sobre a borda da lareira.
– Quero dizer – seguiu Dawn – que se você acha que não daremos certo, não vou insistir.
– Acho que amo você, Dawn.
– Olhe – ela disse. – Marty está abraçando Ruthie!
– Vão trepar?
– Não sei. Parecem excitados.
Dawn pegou Anna e a colocou na gaiola de arame.
– Deixe-me sair daqui! Vou matar os dois! Deixe-me sair daqui!
George gemeu de dentro do lenço sobre a borda. Marty já tirara as calcinhas de Ruthie. Puxei Dawn para perto de mim. Era bonita e jovem e boa por dentro. Eu podia estar apaixonado novamente. Era possível, nos beijamos. Mergulhei fundo em seus olhos. Então emergi e comecei a correr. Eu sabia onde estava. Uma barata e uma águia faziam amor. O tempo era um idiota com um banjo na mão. Continuei correndo. Seu cabelo longo caía sobre meu rosto.
– Vou matar todo mundo! – gritava a pequena Anna. Agitava-se na gaiola de arame às três horas da manhã.
– Ao sul de lugar nenhum
1 246

Maja Thurup

Houve ampla cobertura da imprensa e da televisão, e a senhora estava para escrever um livro sobre tudo isso. O nome da senhora era Hester Adams, duas vezes divorciada, dois filhos. Tinha 35 anos, e alguém poderia imaginar que essa seria sua última jogada. As rugas estavam aparecendo, os peitos estavam caindo já há algum tempo, os tornozelos e as panturrilhas estavam engrossando, já havia sinais de uma barriga. A América aprendeu que a beleza reside apenas na juventude, especialmente para a mulher. Mas Hester Adams tinha a sombria beleza da frustração e da perda vindoura; era algo que rastejava por cima dela, a perda vindoura, e dava-lhe alguma coisa sexualmente atrativa, como uma mulher desesperada para quem o tempo está passando enquanto ela continua sentada em um bar cheio de homens. Hester tinha olhado ao redor, visto poucos sinais de ajuda vindos dos homens americanos e entrou em um avião para a América do Sul. Entrou na selva com sua câmera, sua máquina de escrever portátil, seus tornozelos que estão engrossando, sua pele branca e arranjou para si um canibal, um canibal negro: Maja Thurup. Maja Thurup tinha uma cara com um bom aspecto. Seu rosto parecia estar marcado por mil ressacas e mil tragédias. E era verdade: passara por mil ressacas, mas todas as tragédias tinham a mesma origem: Maja Thurup tinha o pau maior do que a média, muito maior do que a média. Nenhuma garota na aldeia o aceitava. Tinha provocado a morte de duas garotas com seu instrumento. Uma tinha sido penetrada pela frente e a outra por trás. Não fazia diferença.
Maja era um homem solitário que bebia e pensava em sua solidão até que Hester Adams chegou com um guia e sua pele branca e uma câmera. Depois das apresentações formais e algumas bebidas perto do fogo, Hester tinha entrado na cabana de Maja e aguentado tudo o que Maja Thurup podia meter e ainda pediu por mais. Era um milagre para ambos, e os dois se casaram em uma cerimônia tribal de três dias, durante a qual homens capturados de tribos inimigas eram assados e comidos em meio a danças, encantamentos e embriaguez. Foi depois da cerimônia, depois que as ressacas passaram que os problemas começaram. O pajé, notando que Hester não partilhara da carne assada do homem da tribo inimiga (decorada com abacaxi, azeitona e nozes), anunciou para todos que não se tratava de uma deusa branca, mas uma das filhas de um deus mau chamado Ritikan. (Séculos atrás, Ritikan tinha sido expulso do céu tribal por se recusar a comer qualquer coisa além de vegetais, frutas e nozes.) O anúncio causou dissensão na tribo, e dois amigos de Maja Thurup foram imediatamente assassinados por terem sugerido que a habilidade de Hester de lidar com todo o tamanho do pau de Maja era em si um milagre e o fato de que ela não ingeria outras formas de carne humana poderia ser perdoado, pelo menos temporariamente. Hester e Maja fugiram para a América, para North Hollywood para ser mais preciso, onde Hester deu início aos procedimentos para tornar Maja Thurup um cidadão americano. Sendo uma antiga professora de colégio, Hester começou a instruir Maja no uso de roupas e da língua inglesa, a beber cervejas e vinhos da Califórnia, a assistir a televisão e a se alimentar de comidas compradas no Safety Market mais próximo. Maja não apenas via televisão, mas também aparecia nela com Hester, e eles declararam seu amor publicamente. Então voltaram para seu apartamento em North Hollywood e fizeram amor. Depois Maja sentou no meio do tapete com seus livros de gramática inglesa, bebendo cerveja e vinho e cantando cantos nativos e tocando bongô. Hester trabalhava em seu livro sobre Maja e Hester. Uma grande editora estava esperando. Tudo que Hester precisava fazer era escrever.
Certa manhã, eu estava na cama lá pelas oito horas. No dia anterior eu perdera quarenta dólares em Santa Anita, minhas economias na conta do California Federal estavam se tornando perigosamente baixas e eu não tinha escrito uma história decente em um mês. O telefone tocou. Levantei, pigarreei, tossi e atendi ao telefone.
– Chinaski?
– Sim?
– Aqui é Dan Hudson.
Dan dirigia a revista Flare de Chicago. Ele pagava bem. Era o editor e o diretor.
– Olá, Dan, nossa.
– Olha, tenho algo para você.
– Claro, Dan. O que é?
– Quero que você entreviste uma puta que casou com um canibal. Torne o sexo GRANDE. Misture amor com horror, sabe?
– Sei. Tenho feito isso minha vida toda.
– Pago quinhentos dólares se conseguir entregar antes do prazo final, que é 27 de março.
– Dan, por quinhentos dólares consigo fazer do Burt Reynolds uma lésbica.
Dan me passou o endereço e um número de telefone. Levantei, joguei água na cara, tomei dois Alka-Seltezers, abri uma garrafa de cerveja e telefonei para Hester Adams. Contei-lhe que queria dar publicidade a sua relação com Maja Thurup como uma das maiores histórias de amor do século XX. Para os leitores da revista Flare. Afirmei-lhe que isso ajudaria Maja a obter sua cidadania americana. Ela concordou com a entrevista, e marcamos para a primeira hora da tarde.
Era um apartamento no terceiro andar de um prédio sem elevador. Ela abriu a porta. Maja estava sentado no chão, com seu bongô, bebendo uma garrafa de um vinho do Porto direto do gargalo. Estava descalço, vestia calças jeans apertadas e uma camiseta branca com listras pretas, zebrada. Hester estava vestindo uma roupa idêntica. Trouxe-me uma garrafa de cerveja, peguei um cigarro do maço na mesa de café e comecei a entrevista.
– Quando você viu Maja pela primeira vez?
Hester me deu uma data. Também disse a hora com exatidão e o lugar.
– Quando você começou a perceber os primeiros sentimentos de amor por Maja? Quais foram exatamente as circunstâncias que desencadearam a relação?
– Bem – disse Hester –, foi quando...
– Ela me ama quando eu meto o troço nela – disse Maja do tapete.
– Ele aprendeu inglês muito rapidamente, não é mesmo?
– Sim, ele é brilhante.
Maja pegou a garrafa e tomou um bom gole.
– Meto o troço nela, ela dizer “Oh meu deus oh meu deus oh meu deus!” Rá, rá, rá, rá!
– Maja tem um corpo fantástico – ela disse.
– Ela engole também – disse Maja –, ela engole bem. Garganta profunda, rá, rá, rá!
– Amei Maja desde o começo – disse Hester. – Foram seus olhos, seu rosto... tão trágico. E o jeito que ele caminhava. Ele caminha, bem, ele caminha meio que como um tigre.
– Porra – disse Maja –, trepamos e esporreamos, porra, foda, porra. Estou ficando cansado.
Maja bebeu mais um pouco. Ele me olhou.
– Você fode ela. Eu cansei. Ela grande túnel faminto.
– Maja tem um senso de humor muito peculiar – disse Hester. – Isso foi outra coisa que me fez amá-lo ainda mais.
– A única coisa que você gosta em mim – disse Maja – é o meu caralho poste telefônico.
– Maja está bebendo desde a manhã – disse Hester –, você terá de perdoá-lo.
– Talvez seja mais adequado que eu volte quando ele estiver melhor.
– Acho que sim.
Hester marcou um novo horário comigo, duas da tarde do dia seguinte.
Tudo corria bem. Eu precisava de fotografias. Conhecia um fotógrafo totalmente arruinado, um tal de Sam Jacoby que era bom e cobraria barato. Levei-o até lá comigo. Era uma tarde ensolarada com apenas uma fina camada de poluição no ar. Subimos e toquei a campainha. Não houve resposta. Toquei a campainha mais uma vez. Maja abriu a porta.
– Hester não está – ele disse. – Foi à loja de conveniências.
– Tínhamos hora marcada para as duas da tarde em ponto. Gostaria de entrar e esperar.
Entramos e sentamos.
– Mim tocar tambor para você – disse Maja.
Ele tocou o tambor e cantou alguns cantos da floresta. Ele era muito bom. Estava bebendo outra garrafa de vinho do Porto. Ainda estava vestindo sua camiseta listrada ao estilo zebra e seus jeans.
– Foder, foder, foder – ele disse. – É só o que ela quer. Ela me deixa louco.
– Sente falta da floresta, Maja?
– Você não caga contra a corrente, paizinho.
– Mas ela ama você, Maja.
– Rá, rá, rá!
Maja fez outro solo no tambor. Mesmo bêbado ele era bom.
Quando Maja acabou, Sam me perguntou:
– Você acha que ela pode ter uma cerveja na geladeira?
– Pode ser.
– Minha cabeça não está boa. Preciso de uma cerveja.
– Vai lá. Traga duas. Depois compro mais para ela. Eu devia ter trazido algumas.
Sam levantou-se e foi até a cozinha. Ouvi a porta da geladeira se abrindo.
– Estou escrevendo um artigo sobre você e Hester – disse para Maja.
– Mulher buracão. Nunca enche. Como um vulcão.
Ouvi Sam vomitando na cozinha. Ele bebia muito. Sabia que estava de ressaca. Mas ainda assim era um dos melhores fotógrafos em atividade. Então tudo ficou quieto. Sam voltou caminhando. Sentou-se. Não trouxe a cerveja.
– Eu tocar tambor mais uma vez – disse Maja.
Ele tocou novamente. Ainda estava tocando bem. Embora não tão bem como da outra vez. O vinho estava pegando.
– Vamos sair daqui – Sam me disse.
– Tenho que esperar por Hester – respondi.
– Cara, vamos embora – disse Sam.
– Vocês querem um pouco de vinho? – Maja ofereceu.
Levantei e fui até a cozinha buscar uma cerveja. Sam me seguiu. Fui em direção à geladeira.
– Por favor, não abra essa porta! – ele disse.
Sam caminhou até a pia e vomitou mais uma vez. Olhei para a porta da geladeira. Não a abri. Quando Sam acabou, eu disse:
– Tudo bem. Vamos embora.
Caminhamos até a sala da frente, onde Maja ainda estava sentado tocando seu bongô.
– Eu tocar tambor mais uma vez – ele disse.
– Não, obrigado, Maja.
Saímos e descemos a escada e ganhamos a rua. Entramos no meu carro. Dei a partida e arranquei. Não sabia o que dizer. Sam não disse nada. Estávamos no bairro comercial. Dirigi até um posto de gasolina e disse ao frentista para encher o tanque com gasolina comum. Sam saiu do carro e foi até um telefone público para ligar para a polícia. Vi Sam sair da cabine telefônica. Paguei pela gasolina. Não consegui minha entrevista. Fiquei sem os meus quinhentos dólares. Esperei enquanto Sam voltava para o carro.
– Ao sul de lugar nenhum
1 533

Um Casal Adorável

eu tinha que dar uma cagada
mas em vez disso fui
até essa loja para
fazer uma chave.
a mulher usava um vestido
de algodão e cheirava
a rato almiscarado.
“Ralph”, ela urrou
e, seu marido,
um porco velho numa
camisa florida
calçando um sapato 39
apareceu e ela disse,
“esse homem quer
uma chave”.
ele começou a afiá-la
como se realmente não quisesse
fazer aquilo.
havia sombras
furtivas e urina
no ar.
segui ao longo do
balcão de vidro,
apontei e chamei a
mulher,
“ei, eu quero este
aqui”.
ela me alcançou o
objeto: um canivete
num estojo de um púrpura
claro.
US$ 6,50 mais as taxas.
a chave custou
praticamente
nada.
peguei o troco e
saí em direção
à rua.
algumas vezes você precisa
de gente desse tipo.

Depois de três anos fui “efetivado”. Isso significava receber pelos dias de feriado (os estagiários não recebiam) e uma jornada semanal de quarenta horas com dois dias de folga. O Stone também foi obrigado a me designar como substituto para cinco rotas diferentes no máximo. Isso era tudo o que me cabia: cinco rotas diferentes. Com o tempo, aprenderia onde estavam as caixas de correio, além dos atalhos e armadilhas de cada rota. Cada dia seria mais fácil. Poderia começar a cultivar aquele ar de tranquilidade.
De algum modo, porém, não me sentia muito feliz. Eu não era do tipo que procura deliberadamente por sofrimento, o trabalho ainda tinha lá sua variedade, mas aquele velho glamour dos dias de estagiário fazia falta – aquele não-ter-a-mais-vaga-ideia do que poderia acontecer depois.
Alguns dos funcionários de carreira se aproximaram para me cumprimentar.
– Parabéns – diziam.
– É isso aí – eu disse.
Parabéns pelo quê? Eu não tinha feito nada. Agora era um membro do clube. Era um dos caras. Eu poderia estar ali pelos próximos anos, chegar, inclusive, a pleitear minha própria rota. Comprar presentes de Natal para a família. E quando eu ligasse dizendo estar doente, diriam para um dos pobres estagiários, “Onde está o carteiro de sempre? Ele nunca se atrasa.”
Então lá estava eu. Depois disso foi emitido um boletim dizendo que nenhum quepe ou equipamento deveria ser posto sobre a caixa do carteiro. A maioria dos rapazes colocava seus quepes ali. Aquilo não fazia mal nenhum e economizava uma viagem até o vestiário. Agora, depois de três anos pondo meu quepe ali em cima, recebia uma ordem para não fazê-lo.
Bem, eu continuava chegando de ressaca e não podia me ocupar de coisas tão banais quanto o lugar onde pôr o quepe. De modo que meu quepe continuou onde sempre esteve, mesmo no dia posterior à expedição da ordem.
O Stone veio correndo com uma advertência. Dizia que era contra as regras e o regulamento manter qualquer tipo de objeto sobre a caixa. Pus a advertência no bolso e segui distribuindo as cartas. O Stone se sentou, girando em sua cadeira, sem deixar de me observar. Todos os outros carteiros tinham posto os quepes em seus armários. A exceção era eu – e um certo Marty. E o Stone tinha se aproximado do Marty e dito:
– Muito bem, Marty, você leu a ordem. Seu quepe não deveria estar sobre a caixa.
– Oh, sinto muito, senhor. É o hábito, sabe. Sinto muito. – Marty tirou seu quepe de cima da caixa e subiu as escadas para guardá-lo no armário.
Na manhã seguinte, esqueci outra vez da regra. O Stone apareceu com sua advertência.
O texto dizia que era contra as regras e o regulamento manter qualquer tipo de objeto sobre a caixa.
Pus a advertência no bolso e segui distribuindo as cartas.
Na manhã seguinte, assim que entrei, pude ver que o Stone estava à minha espreita. Não fazia nenhuma questão de esconder que me vigiava. Esperava para ver o que eu faria com meu quepe. Deixei-o esperar por um momento. Então retirei o quepe da cabeça e o coloquei sobre a caixa.
O Stone veio correndo com sua advertência.
Não a li. Joguei-a na cesta de lixo, deixei meu quepe ali e segui distribuindo as cartas.
Dava para ouvir o Stone à sua máquina. O próprio som das teclas era raivoso.
Me perguntava como ele teria aprendido a datilografar.
Ele retornou. Estendeu-me uma segunda advertência.
Olhei para ele.
– Não preciso ler esse negócio. Sei o que está escrito. Diz que eu não li a primeira advertência.
Joguei a segunda advertência no lixo.
O Stone voltou correndo para sua máquina.
Apresentou-me uma terceira advertência.
– Veja só – eu disse –, sei o que está escrito nessas folhas. Na primeira dizia que não era para eu pôr meu quepe sobre a caixa. Na segunda, que eu não havia lido a primeira. A terceira é por não ter lido nem a primeira, nem a segunda.
Olhei-o, e depois deixei a advertência cair no lixo, sem lê-la.
– Agora posso jogá-las fora tão rápido quanto você é capaz de datilografá-las. Isso pode seguir por horas e horas, e logo um de nós estará fazendo papel de ridículo. Você decide.
O Stone retornou para sua cadeira e se sentou. Não datilografou mais nada. Ficou apenas olhando para mim.
Não apareci no dia seguinte. Dormi até a hora do almoço. Sequer telefonei para avisar. Então fui até o Escritório Central. Disse-lhes a que vinha. Colocaram-me em frente a uma mesa com uma mulher velha e magra. Seus cabelos eram grisalhos e seu pescoço muito fino, um pescoço que subitamente se inclinava na metade de sua extensão. Isso fazia com que a cabeça se projetasse para frente e que ela me olhasse por sobre os óculos.
– Sim.
– Quero pedir demissão.
– Demissão?
– Sim, demissão.
– E o senhor é um carteiro efetivo?
– Sim – eu disse.
– Tsc, tsc, tsc, tsc, tsc, tsc, tsc – seguiu, produzindo este som com seus lábios secos.
Passou-me os papéis necessários e eu fiquei ali a preenchê-los.
– Há quanto tempo trabalha nos Correios?
– Três anos e meio.
– Tsc, tsc, tsc, tsc, tsc, tsc, tsc, tsc – ela seguiu –, tsc, tsc, tsc, tsc.
E isso foi tudo. Voltei para casa e para Betty e nós tiramos o selo da garrafa.
Mal eu sabia que em dois anos eu estaria de volta como escrevente e que lá eu ficaria, encolhido sobre meu assento, por quase doze anos.
– Cartas na rua
1 101

Parque de Diversões

dirijo à noite até a praia
no inverno
e me sento e olho para o píer queimado, onde estava o parque de diversões
me pergunto por que o deixam ali
na água.
quero que desapareça,
implodido,
varrido,
apagado;
aquele píer não deveria estar mais ali
com loucos vivendo lá dentro
as entranhas queimadas do parque de diversões...
é terrível, digo, liquidem essa coisa desgraçada,
tirem isso da minha frente,
essa lápide em pleno mar.
os loucos podem arranjar outros buracos
para se enfiar.
eu costumava caminhar por aquele píer quando tinha 8
anos de idade.
1 158

Um Rádio Corajoso

no segundo andar da Coronado Street
eu costumava encher a cara
e jogar o rádio pela janela
sem que ele parasse de tocar e, claro,
a vidraça se partia
e o rádio acabava alojado sobre as telhas
ainda ligado
e eu dizia para minha mulher,
“Ah, que rádio maravilhoso!”
na manha seguinte eu tirava a janela
do esquadro
e levava-a rua abaixo
até o vidraceiro
que fazia a troca necessária.
seguia jogando o rádio pela janela
cada vez que ficava bêbado
e lá ficava ele sobre o telhado
ainda tocando –
um rádio mágico
um rádio corajoso,
e a cada manhã eu levava a janela
outra vez ao vidraceiro.
não lembro bem como tudo isso terminou
embora me lembre de que
finalmente nos mudamos.
havia uma mulher no andar de baixo que trabalhava no
jardim vestindo um traje de banho
e seu marido reclamava que não podia dormir à noite
por minha causa
por isso nos mudamos
e no lugar seguinte
ou me esqueci de jogar o rádio pela janela
ou apenas perdi a vontade de
jogá-lo.
lembro sim de sentir falta da mulher que trabalhava no
jardim em trajes de banho,
ela realmente mandava ver com aquela pazinha
e ela erguia o rabo bem alto no ar
e eu costumava sentar à janela
para acompanhar o sol brilhar naquelas carnes
enquanto a música tocava.
1 081

Um Livrinho Grátis de 25 Páginas

matando por uma cerveja morrendo
pela vida e por causa da vida
numa tarde ventosa em Hollywood
escutando música sinfônica no meu radinho vermelho
sobre o chão.
um amigo disse,
“tudo o que você precisa fazer é ir lá fora e se deitar
na calçada
alguém aparece e o recolhe
alguém tomará conta de você”.
olhei pela janela para a calçada
vejo uma coisinha maravilhosa caminhando na calçada
ela não se deitaria ali,
somente em lugares especiais para pessoas especiais com $$$$ especiais
e
maneiras especiais
enquanto eu estou matando por uma cerveja numa tarde ventosa em
Hollywood,
nada como uma bela jovem que rebola e passa por você na
calçada
rebolando e passando em frente à sua janela faminta
está vestida nos melhores trajes
não dá bola para o que você diz
para sua aparência e o que você faz
contanto que você não se ponha em seu
caminho, e deve ser porque ela não caga ou
não tem sangue
ela deve ser uma nuvem, amigo, o modo como passa flutuando pela gente.
estou enjoado demais para me deitar
as calçadas me assustam
a maldita cidade inteira me assusta,
o que me tornarei
o que já me tornei
me assusta.
ah, a bravata se foi
a grande corrida através do centro se foi
numa tarde ventosa em Hollywood
meu rádio estala e cospe sua música suja
cortando um chão cheio de garrafas de cerveja vazias.
agora escuto uma sirene
ela se aproxima
a música para
o homem no rádio diz,
“vamos mandar um livrinho de 25 páginas grátis para você:
ENFRENTANDO OS CUSTOS DA UNIVERSIDADE”.
a sirene fenece dentro das montanhas de caixa de papelão
e eu olho outra vez através da janela enquanto o pulso cerrado de
uma nuvem carregada se impõe...
o vento balança as plantas lá fora
espero pelo entardecer espero pela noite espero sentado numa cadeira
junto à janela...
o cozinheiro apanha e joga na água
o caranguejo ainda vivo
vermelho-rosa e salgado e de peito sólido e
o jogo
continua
venham me pegar.
1 200

Prato Feito

levei minha amiga à sua última leitura de poesia,
ela disse.
sim, sim? perguntei.
ela é jovem e bonita, ela disse.
e? perguntei.
ela achou um
lixo.
então ela esticou as pernas no sofá
e tirou as
botas.
minhas pernas não são lá essas coisas,
ela disse.
tudo bem, pensei, minha poesia não é lá
essas coisas; suas pernas não são lá essas
coisas.
misturemos as duas.
1 124

Citações

2

Livros

11

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Mário Quintana
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