Nº 6
vou ficar com o cavalo 6
numa tarde chuvosa
um copo de café de papel
na mão
tudo prestes a começar,
o vento fazendo rodopiar
pequenas cambaxirras do
grande telhado superior,
os jóqueis partindo
para uma corrida intermediária
silenciosos
e a garoa fazendo
todas as coisas
de uma só vez
quase iguais,
os cavalos em paz uns
com os outros
antes da guerra bêbada
e eu debaixo da tribuna principal
sensível aos
cigarros
conformado com o café,
então os cavalos passam
levando seus pequenos homens
consigo –
é fúnebre e gracioso
e agradável
como o desabrochar
das flores.
De alguma maneira o dinheiro se esvaiu depois disso e logo eu abandonei as corridas e fiquei sentado em meu apartamento, esperando que a licença de noventa dias acabasse. Meus nervos estavam em frangalhos graças à bebida e à ação. Não é nenhuma novidade que as mulheres dão em cima dos homens. Quando você pensa que terá um tempinho para respirar, basta erguer os olhos e outra já está por ali. Alguns dias depois de retornar ao trabalho, a outra já estava por ali. Fay. Fay era grisalha e sempre se vestia de preto. Dizia que era um protesto contra a guerra. Mas se Fay queria protestar contra a guerra, por mim tudo bem. Era uma espécie de escritora e frequentava algumas oficinas literárias. Tinha ideias sobre como Salvar o Mundo. Se ela pudesse salvá-lo para mim, isto também estaria bem. Estivera vivendo dos cheques da pensão alimentícia de um antigo marido – tinham tido três filhos –, e a mãe também lhe mandava algum dinheiro de vez em quando. Fay nunca tivera mais do que um ou dois empregos na vida.
Enquanto isso, Janko tinha uma nova história de merda. Ele me mandava pra casa a cada manhã com a cabeça doendo. Naquela época eu vinha recebendo inúmeras multas de trânsito. Parecia que a cada vez que eu olhava pelo retrovisor lá estavam as sirenes vermelhas. Um carro-patrulha ou uma moto.
Certa noite cheguei em casa tarde. Estava realmente acabado. Sacar a chave e levá-la até a fechadura estava no limite das minhas forças. Segui até o quarto e lá estava Fay na cama, lendo The New Yorker e comendo chocolates. Ela sequer disse olá.
Fui até a cozinha e procurei alguma coisa para comer. Não havia nada na geladeira. Resolvi me servir um copo d’água. Fui até a pia. Estava entulhada de porcaria. Fay gostava de guardar potes vazios e suas tampas. Os pratos sujos enchiam metade da pia e, flutuando sobre a água, junto com alguns pratos de papel, estavam os potes e as tampas.
Retornei ao quarto no exato momento em que Fay punha na boca um pedaço de chocolate.
– Veja bem, Fay – eu disse –, sei que você quer salvar o mundo. Mas será que você não pode começar pela cozinha?
– Cozinhas não são importantes – ela disse.
Era difícil bater numa mulher grisalha, de modo que eu simplesmente segui para o banheiro e deixei que a água enchesse a banheira. Um banho escaldante talvez pudesse esfriar os nervos. Quando a banheira se encheu tive medo de entrar nela. Meu corpo estropiado havia, àquela altura, endurecido de tal maneira que eu temia me afogar ali dentro.
Fui até a sala e depois de um esforço consegui tirar as calças, as cuecas, os sapatos, as meias. Retornei ao quarto e galguei a cama até junto a Fay. Não conseguia me ajeitar. Cada vez que eu me movia, o custo era alto.
O único momento em que você está sozinho, Chinaski, pensei, é quando você dirige para o trabalho ou volta dele.
Finalmente consegui encontrar uma posição sobre minha barriga. Meu corpo todo doía. Logo eu estaria de volta no trabalho. Se eu conseguisse dar um jeito de dormir, isso me ajudaria. Com alguma frequência, podia ouvir o som de uma página sendo virada, de um chocolate sendo comido. Havia sido uma de suas noites de oficina. Se ela pudesse ao menos apagar as luzes.
– Como estava a oficina? – perguntei, deitado de bruços.
– Estou preocupada com Robby.
– Oh – perguntei –, o que está acontecendo?
Robby era um cara perto dos quarenta que tinha vivido com a mãe desde que nascera. Tudo o que ele escrevia, segundo tinham me informado, eram histórias muito engraçadas sobre a Igreja Católica. Robby realmente tirava sarro dos católicos. As revistas apenas não estavam prontas para Robby, embora tivesse sido publicado uma vez num jornal canadense. Certa vez, numa das minhas noites de folga, eu tinha visto Robby. Levei Fay até esta mansão onde eles se encontravam para ler suas coisas.
– Oh! Este é o Robby! – Fay dissera. – Ele escreve essas histórias divertidíssimas sobre a Igreja Católica!
Ela havia me apontado o cara. Robby estava de costas para a gente. Sua bunda era larga e grande e molenga; ficava pendurada dentro das calças. Será que eles não veem isso?, pensei.
– Você não quer entrar? – Fay tinha perguntado.
– Talvez na próxima semana...
Fay pôs outro chocolate na boca.
– Robby está preocupado. Perdeu seu emprego de entregador. Diz que não consegue escrever sem estar empregado. Precisa do sentimento de segurança. Diz que não será capaz de escrever nada enquanto não encontrar outro trabalho.
– Caralho – eu disse –, já sei onde podemos arranjar um emprego.
– Onde? Como?
– Estão contratando gente lá nos Correios, a torto e a direito. O salário não é mau.
– OS CORREIOS! ROBBY É SENSÍVEL DEMAIS PARA TRABALHAR NOS CORREIOS!
– Desculpe – eu disse –, achei que valia a pena tentar. Boa noite.
Fay não me respondeu. Estava furiosa.
– Cartas na rua
Minha Tiete
fiz uma leitura no último sábado no
bosque para além de Santa Cruz
e estava a 3/4 do final
quando escutei um grito longo e desesperado
e uma jovem bastante
atraente veio correndo em minha direção
vestido longo & fogo divino nos olhos
e invadiu o palco
e gritou: “EU QUERO VOCÊ!
EU QUERO VOCÊ! ME LEVE! ME
LEVE!”
eu disse a ela: “olhe, fique longe
de mim”.
mas ela continuava agarrada às minhas
roupas e se esfregando em
mim.
“onde você estava”, eu lhe perguntei, “quando eu
vivia com apenas uma barra de doce por dia e
mandava meus contos para a
Atlantic Monthly?”
ela agarrou minhas bolas e quase
as arrancou. seus beijos
tinham gosto de sopa de merda.
2 mulheres subiram no palco
e
a carregaram para dentro do
bosque.
eu ainda podia ouvir seus gritos
quando comecei o poema seguinte.
talvez, pensei, eu devesse
tê-la possuído naquele palco na frente
de todos aqueles olhos.
mas alguém nunca pode ter certeza
se isso é boa poesia ou
ácido de má qualidade.
Fiquei dois dias sem ver Lydia, embora tenha dado um jeito de telefonar para ela umas sete ou oito vezes nesse período. Então o fim de semana chegou. Seu ex-marido, Gerald, costumava ficar com as crianças nos fins de semana.
Peguei o carro e fui até onde ela morava naquele sábado, às onze da manhã, e bati na porta. Ela estava com um jeans apertado, botas, blusa laranja. Seus olhos castanhos pareciam mais escuros do que nunca e, à luz do sol, ela abriu a porta, fazendo com que eu notasse um tom natural em seus cabelos escuros. Aquilo foi surpreendente. Me deixou beijá-la; então fechou a porta atrás de nós e fomos até o meu carro. A gente tinha decidido ir à praia – não para tomar banho –, pois era pleno inverno, mas só para fazer alguma coisa.
Seguimos. Era bom ter Lydia no carro comigo.
– Que festa aquela – ela disse. – Você chama aquilo de festa de colação? Aquilo era uma festa da copulação, isso sim. Uma festa da copulação!
Eu dirigia com uma das mãos, enquanto a outra descansava na parte interna da coxa de Lydia. Não conseguia evitar. Ela não parecia se importar. Eu ia dirigindo, e a mão escorregou por entre suas pernas. Ela continuou a conversar. De repente, ela disse:
– Tire a mão. Aí é a minha buceta!
– Desculpe – eu disse.
Nenhum de nós disse nada até chegarmos ao estacionamento em Venice Beach.
– Você quer um sanduíche e uma coca, algo assim? – perguntei.
– Beleza – ela disse.
Entramos num mercadinho judeu pra comprar as coisas e as levamos para um montinho gramado que dava para o mar. Tínhamos sanduíches, picles, batatas fritas e refrigerantes. A praia estava quase deserta e a comida estava com um gosto bom. Lydia não dizia nada. Fiquei espantado com a rapidez com que ela comia. Estraçalhava o sanduíche com selvageria, tomava grandes goles de coca, comia metade de um picles com uma só mordida e pegava enormes punhados de batata frita. Eu, ao contrário, como muito devagar.
Paixão, pensei, ela exalava paixão.
– Que tal esse sanduíche? – perguntei.
– Uma beleza. Eu estava com fome.
– Eles fazem sanduíches legais. Quer mais alguma coisa?
– Sim, queria um doce.
– De que tipo?
– Ah, qualquer um. Um que fosse gostoso.
Dei uma mordida no meu sanduíche, tomei um gole de Coca, larguei tudo e fui até o mercadinho. Comprei dois doces, assim ela poderia escolher. Na volta, vi que um negro alto se dirigia ate o montinho. Era um dia frio, mas o cara estava sem camisa e tinha um corpo bem musculoso. Parecia ter vinte e poucos anos. Andava devagar e ereto. Tinha um pescoço longo, magro, e um brinco de ouro pendurado na orelha esquerda. Passou na frente de Lydia, pela areia, entre ela e o mar. Subi no montinho e sentei ao lado de Lydia.
– Você viu aquele cara? – ela perguntou.
– Sim.
– Jesus, e eu estou com você, vinte anos mais velho do que eu. Podia pegar alguém como ele... O que há de errado comigo, afinal?
– Olhe. Trouxe dois doces. Pegue um.
Pegou um, rasgou o invólucro, deu uma mordida e ficou olhando o rapaz negro que se afastava ao longo da praia.
– Cansei da praia – ela disse –, vamos voltar para minha casa.
Ficamos uma semana sem nos ver. Então, certa tarde, lá estava eu na casa de Lydia, os dois na cama, nos beijando. Lydia se afastou.
– Você não entende nada de mulher, não é mesmo?
– Do que você está falando?
– Quero dizer, ao ler seus poemas e seus contos dá pra ver que você não entende nada de mulher.
– Me fale mais.
– Bem, é que para eu me interessar por um homem ele tem que chupar minha buceta. Você já chupou uma buceta?
– Não.
– Você tem mais de cinquenta anos e nunca chupou uma buceta?
– Não.
– Tarde demais.
– Por quê?
– Não dá pra ensinar truque novo pra cachorro velho.
– Claro que dá.
– Não, é tarde demais pra você.
– Sempre demorei pra arrancar na largada.
Lydia se levantou e foi até a sala. Voltou com um lápis e um pedaço de papel.
– Agora, veja bem, vou mostrar uma coisa pra você. – Começou a desenhar no papel. – Bem, isso é uma buceta, e aqui fica um negócio de que você provavelmente nunca ouviu falar: o clitóris. Aqui é o lugar onde estão as sensações. O clitóris se esconde, consegue ver, ele sai pra fora de vez em quando, é cor-de-rosa e muito sensível. Às vezes ele se esconde de você e é preciso achá-lo. Basta tocar nele com a ponta da língua...
– Ok – eu disse –, entendi tudo.
– Acho que você não vai conseguir. Já disse, não dá pra ensinar truque novo pra um cachorro velho.
– Vamos tirar a roupa e nos deitar.
A gente se despiu e se esticou na cama. Comecei a beijar Lydia. Desci dos lábios para o pescoço, e daí para os peitos. Depois, deslizei até o umbigo. Desci mais.
– Você não conseguirá – ela disse. – Sai sangue e urina daí; pense nisso, sangue e urina...
Fui lá embaixo e comecei a lamber. Ela fizera um desenho acurado para mim. Tudo estava onde devia estar. Ouvi sua respiração ficar pesada; depois gemidos. Aquilo me excitou. Fiquei de pau duro. O clitóris se revelou, mas não era exatamente rosado, era de um rosa-púrpura. Aticei o clitóris. Brotaram uns sucos que se misturaram com os pentelhos. Lydia gemia sem parar. Então escutei a porta da frente abrir e fechar. Ouvi passos. Ergui os olhos. Um negrinho de uns cinco anos estava ali parado, ao lado da cama.
– Mas que diabos você quer aqui? – perguntei.
– Tem alguma garrafa vazia? – perguntou.
– Não, não tenho nenhuma garrafa vazia – respondi.
Ele saiu do quarto para a sala, saiu pela porta da frente e se foi.
– Deus – disse Lydia –, achei que a porta da frente estava trancada. Era o garotinho da Bonnie.
Lydia se levantou e trancou a porta da frente. Voltou e se estendeu na cama. Eram umas quatro horas da tarde de sábado.
Voltei a mergulhar ali.
– Mulheres
Saboreio As Cinzas de Tua Morte
as florações espargem
água inesperada
pela manga da minha camisa,
água inesperada
fresca e pura
como neve –
enquanto espadas
afiadas como talos
penetram
em seu peito
e as doces e selvagens
pedras
caem sobre nós
e
nos encerram.
Foi quando desenvolvi um novo sistema para usar no hipódromo. Eu tinha arrumado três mil dólares em um mês e meio, indo às corridas apenas duas ou três vezes por semana. Comecei a sonhar. Vi uma casinha à beira-mar. Vi-me vestido com roupas caras, calmo, levantando de manhã, entrando em meu carro importado, dirigindo com suavidade na saída da garagem. Vi jantares prazerosos com belos filés, precedidos e sucedidos por deliciosos drinques gelados em copos coloridos. A bela gorjeta. O charuto. E mulheres a mancheias. É fácil se deixar levar por esse tipo de pensamento quando os homens lhe entregam notas graúdas no guichê das apostas. Quando numa corrida de 1.200 m, que leva, digamos, um minuto e nove segundos, você ganha o equivalente a um mês de salário.
Então ali estava eu, de pé no escritório do superintendente. Lá estava ele atrás de sua mesa. Eu tinha um charuto na boca e uísque no meu hálito. Sentia-me endinheirado. Eu parecia endinheirado.
– Sr. Winters – eu disse –, os Correios sempre me trataram bem. Mas há interesses externos que simplesmente exigem minha atenção. Se o senhor não puder me dar uma licença, serei obrigado a me demitir.
– Já não lhe dei uma licença no início do ano, Chinaski?
– Não, sr. Winters, o senhor rejeitou o meu pedido de licença. Desta vez isto não será possível. Ou a licença ou a demissão.
– Tudo bem, preencha o formulário e eu o assinarei. Mas só posso lhe dar noventa dias de dispensa.
– Aceito – eu disse, exalando uma longa coluna de fumaça azul de meu charuto caro.
– Cartas na rua
Parque de Diversões
dirijo à noite até a praia
no inverno
e me sento e olho para o píer queimado, onde estava o parque de diversões
me pergunto por que o deixam ali
na água.
quero que desapareça,
implodido,
varrido,
apagado;
aquele píer não deveria estar mais ali
com loucos vivendo lá dentro
as entranhas queimadas do parque de diversões...
é terrível, digo, liquidem essa coisa desgraçada,
tirem isso da minha frente,
essa lápide em pleno mar.
os loucos podem arranjar outros buracos
para se enfiar.
eu costumava caminhar por aquele píer quando tinha 8
anos de idade.
O Maior Fracassado do Mundo
ele costumava vender jornais ali em frente:
“Escolha os vencedores! Fique rico apostando um centavo!”
e lá pela terceira ou quarta corrida
você poderia vê-lo deslizando em seu carrinho estropiado
equipado com rodinhas de patins.
impulsionava-se com as mãos;
suas pernas não passavam de dois cotos
e os aros das rodinhas estavam gastos.
dava para ver a parte interna das rodinhas e elas oscilavam
algo terrível
disparando e reluzindo
faíscas supremas!
movia-se mais rápido do que qualquer um, o cigarro pendendo dos lábios,
dava para ouvir sua aproximação
“oh, Deus, mas que diabos é isso?”, perguntavam os mais novos.
ele era o maior fracassado do mundo
mas jamais desistia
deslizando até o guichê das apostas de 2 dólares, gritando:
“É O CAVALO NÚMERO 4, SEUS OTÁRIOS! COMO CONSEGUIRÃO
VENCER O CAVALO
4?”
no placar o 4 estava pagando
60 para 1.
nunca ouvi que ele tivesse escolhido um vencedor.
diziam que ele dormia no meio do mato. acho que foi por ali que
ele morreu. não tem mais
aparecido.
havia uma puta gorda e loira
que vivia tocando nele para dar sorte, e ela
ria.
ninguém jamais teve sorte. a puta também se
foi.
acho que nada nunca funciona para nós. somos otários, claro –
patrocinando aquilo tudo e ainda pagando um ágio de 15 por cento,
mas como diremos a um sonhador
que há um ágio de 15 por cento no
sonho? ele apenas vai rir e dizer,
isso é tudo?
eu perdi essas
faíscas.
Sozinho Com Todo Mundo
a carne cobre os ossos
e eles colocam uma mente
ali dentro e
algumas vezes uma alma,
e as mulheres quebram
vasos contra as paredes
e os homens bebem
demais
e ninguém encontra o
par ideal
mas seguem na
procura
rastejando para dentro e para fora
dos leitos.
a carne cobre
os ossos e a
carne busca
muito mais do que mera
carne.
de fato, não há qualquer
chance:
estamos todos presos
a um destino
singular.
ninguém nunca encontra
o par ideal.
as lixeiras da cidade se completam
os ferros-velhos se completam
os hospícios se completam
as sepulturas se completam
nada mais
se completa.
Eu tinha cinquenta anos e há quatro não ia para cama com mulher nenhuma. Não tinha amigas. Olhava-as passarem pelas ruas ou em qualquer lugar que as visse, mas as olhava sem desejo e com uma sensação de futilidade. Eu me masturbava regularmente, mas a ideia de ter uma relação com uma mulher – mesmo em termos não-sexuais – estava além da minha imaginação. Eu tinha uma filha ilegítima de seis anos. Vivia com a mãe e eu pagava pensão alimentícia. Antes disso, aos 35, eu tinha me casado. O casamento durou dois anos e meio. Minha mulher pediu o divórcio. Só estive apaixonado uma vez. Ela morreu de alcoolismo agudo. Tinha 48 quando eu tinha 38. Minha mulher era doze anos mais jovem que eu. A esta altura deve estar morta também, embora eu não tenha certeza. Escrevia-me uma longa carta todo Natal, nos primeiros seis anos depois do divórcio. Nunca as respondi...
Não tenho bem certeza de quando vi Lydia Vance pela primeira vez. Foi cerca de seis anos atrás, eu tinha acabado de largar um emprego de doze anos como funcionário dos Correios tentando viver como escritor. Eu estava apavorado e bebia mais do que nunca. Tentava escrever meu primeiro romance. Bebia meio litro de uísque e uma dúzia de cervejas, todas as noites, enquanto escrevia. Fumava charutos baratos e datilografava e bebia e escutava música clássica no rádio até de madrugada. Fixei como objetivo uma média de dez páginas por noite, mas nunca sabia antes da manhã seguinte quantas páginas tinha escrito. Levantava de manhã, vomitava, então ia até a sala e dava uma olhada no sofá para ver quantas páginas havia ali. Excediam sempre as minhas dez. Às vezes eram 17, 18, 23, 25 páginas. Claro, o trabalho de cada noite precisava ser revisado, e o que não prestava, jogado fora. Foram necessárias 21 noites para escrever meu primeiro romance.
Os proprietários do condomínio onde eu morava então viviam nos fundos e achavam que eu era louco. Todas as manhãs, ao acordar, havia um enorme saco de papel pardo na minha porta. O conteúdo variava, mas, na maior parte das vezes, eram tomates, rabanetes, laranjas, cebolinhas, latas de sopa, cebolas roxas. Em certas noites eu bebia cerveja com eles até as quatro ou cinco da manhã. O velho apagava, e a velha e eu ficávamos de mãos dadas, e eu a beijava de vez em quando. Sempre dava um dos caprichados na hora da despedida. Era terrivelmente enrugada, mas o que ela podia fazer? Era católica e ficava uma gracinha quando botava seu chapéu cor-de-rosa e saía para ir à igreja domingo de manhã.
Acho que conheci Lydia Vance na minha primeira leitura de poesia. Foi numa livraria da Avenida Kenmore, chamada The Drawbridge. Mais uma vez eu estava apavorado. Mantive um ar superior, mas estava apavorado. Quando entrei, só tinha lugar de pé. Peter, que dirigia a livraria e vivia com uma garota negra, tinha uma pilha de dinheiro à sua frente.
– Porra – ele me disse –, se eu conseguisse juntar sempre esse pessoal todo, teria dinheiro suficiente pra fazer outra viagem à Índia!
Entrei e eles começaram a aplaudir. No que dizia respeito a leituras de poesia, eu estava prestes a perder o cabaço.
Li por trinta minutos, então pedi um intervalo. Ainda estava sóbrio e podia sentir os olhos me encarando da escuridão. Algumas pessoas chegaram e falaram comigo. Então, durante uma brecha, Lydia Vance se aproximou. Eu estava sentado numa mesa, bebendo cerveja. Ela apoiou as duas mãos na beirada da mesa, debruçou-se, e me encarou. Tinha cabelos longos e castanhos, muito longos, um nariz proeminente, e um olho que não combinava muito bem com o outro. Mas emanava vitalidade – era impossível não notá-la. Podia sentir as vibrações circulando entre a gente. Algumas das vibrações eram confusas, não eram boas, mas também estavam lá. Ela me olhou, e eu respondi seu olhar. Lydia Vance estava com uma jaqueta de camurça, ao estilo cowgirl, com uma franja ao redor do pescoço. Tinha uns peitos legais. Eu lhe disse:
– Gostaria de arrancar essa franja da sua jaqueta, a gente podia começar por aí!
Lydia se afastou. Que fracasso. Nunca soube o que dizer às mulheres. Mas seu rabo era maravilhoso. Fiquei olhando aquele rabo enquanto ela se afastava. A parte traseira do jeans o envolvia, e eu fiquei olhando aquilo tudo enquanto ela se afastava.
Acabei a segunda parte do recital e esqueci de Lydia, assim como eu esquecia das mulheres com quem cruzava nas calçadas. Peguei meu dinheiro, autografei alguns guardanapos, alguns pedaços de papel, depois saí, guiando de volta para casa.
– Mulheres
A Noite Mais Estranha Que de Fato Você Já Viu
eu tinha esse quarto da frente na DeLongpre
e costumava me sentar por horas
durante o dia
olhando pela janela
da frente.
havia um número incontável de garotas que
passavam
rebolando;
aquilo salvava minhas tardes,
acrescentava algo à cerveja e aos
cigarros.
certo dia eu vi alguma coisa
a mais.
escutei primeiro o som.
“vamos lá, empurrem!”, ele disse.
era uma enorme tábua
com 1 metro de largura por
20 de comprimento;
com rodinhas atarraxadas às extremidades
e ao meio.
ele puxava pela frente
usando duas longas cordas presas à tábua
e ela ia atrás
controlando a direção e também empurrando.
todos os seus bens estavam atados àquela
tábua:
potes, panelas, colchas e tudo o mais
amarrado à tábua
bem preso;
e as rodinhas rangiam.
ele era branco, um colono, um
sulista –
magro, curvo, as calças a ponto
de cair e revelar
seu rabo –
o rosto rosado pelo sol e o
vinho barato,
e ela negra
caminhando aprumada
empurrando;
ela era simplesmente maravilhosa
de turbante
grandes brincos verdes
um vestido amarelo
que ia
do pescoço ao
tornozelo.
seu rosto estava gloriosamente
indiferente.
“não se preocupe!” ele gritou, voltando-se para
ela, “alguém vai
nos alugar um quarto!”
ela não respondeu.
então eles desapareceram
embora eu ainda ouvisse
as rodinhas.
eles iriam conseguir,
pensei.
tenho certeza que
sim.
Tudo começou com um equívoco.
Era época de Natal e soube através do bêbado que vivia colina acima, que fazia esse esquema todo Natal, que eles contratavam quase qualquer um, e então eu pintei lá e quando me dei conta eu já estava com essa mochila de couro nas costas, dando voltas por aí a meu bel-prazer. Que trabalho, pensei. Uma moleza! Eles lhe designavam apenas uma ou duas quadras e, se você conseguisse percorrê-las a tempo, o carregador regular designava mais uma quadra, ou talvez você pudesse retornar e o supervisor lhe indicava uma nova área, mas dava para fazer as coisas à sua maneira, ou seja, levar o tempo que fosse preciso para colocar os cartões de natal nas caixas postais.
Creio que foi no meu segundo dia como temporário que essa mulher enorme apareceu e passou a me acompanhar enquanto eu entregava as cartas. Quero dizer com esse enorme é que seu rabo era enorme e suas tetas eram enormes e que ela era enorme em todos os lugares certos. Ela parecia um pouco louca, mas segui olhando para seu corpo mesmo assim, sem me importar.
Ela falava e falava e falava. Então deixou escapar. Seu marido era um oficial servindo numa ilha distante e ela se sentia sozinha, sabe, e vivia naquela casinha dos fundos, por conta própria.
– Que casinha? – perguntei.
Escreveu o endereço num pedaço de papel.
– Também sou sozinho – eu disse –, mais tarde apareço por lá pra gente conversar.
Eu era comprometido, mas a minha parceira estava fora boa parte do tempo, em algum lugar, o que me fazia alguém sozinho de fato. Estava sozinho e pronto para ter aquele enorme rabo junto a mim.
– Está bem – ela disse –, vejo você de noite.
Ela era muito legal, era uma boa trepada, mas como todas as trepadas, depois da terceira ou quarta noite, comecei a perder o interesse e não voltei mais.
Mas eu não conseguia deixar de pensar, deus, tudo o que esses carteiros têm pra fazer é entregar suas cartas e trepar. Esse é o trabalho certo pra mim, oh, sim sim sim.
Então fiz o exame, passei, depois o teste físico, passei, e lá estava eu – um carteiro substituto. No começo foi moleza. Mandaram-me para a Estação West Avon e era como no Natal, exceto que eu não trepava com ninguém. Todo dia eu esperava dormir com alguém, mas não conseguia. Mas o supervisor era camarada e eu me arrastava pelas redondezas, uma quadra aqui outra ali. Não usava sequer um uniforme, apenas um boné. Usava minhas roupas de sempre. Do jeito que eu e minha parceira Betty bebíamos, mal sobrava dinheiro para roupas.
Então fui transferido para a Estação Oakford.
O supervisor era um tipo pescoçudo chamado Jonstone. Estavam precisando de ajuda por ali e entendi por quê. Jonstone gostava de vestir camisas vermelho-escuras – significando perigo e sangue. Havia sete substitutos – Tom Moto, Nick Pelligrini, Herman Stratford, Rosey Anderson, Bobby Hansen, Harold Wiley e eu, Henry Chinaski. O horário de chegada era às cinco da manhã e eu era o único bêbado por ali. Sempre bebia até depois da meia-noite, e lá ficávamos nós sentados, às cinco da manhã, esperando pelo turno, esperando que algum dos carteiros regulares ligasse dizendo estar doente. Isto normalmente ocorria em dias de chuva ou numa onda de calor ou nos dias depois de feriados, quando as cartas se acumulavam e o peso dobrava.
Havia quarenta ou cinquenta rotas diferentes, talvez mais, cada situação era diferente, não havia nunca como se familiarizar com elas, você precisava apanhar as cartas que lhe cabiam e estar pronto antes das oito para os despachos por caminhão, e Jonstone não aceitava desculpas. Os substitutos faziam entregas em qualquer canto, seguiam sem almoço e morriam pelas ruas. Jonstone nos mandava fazer as entregas já com trinta minutos de atraso – girando em sua cadeira em sua camisa vermelha:
– Chinaski, pegue a rota 539!
Começávamos meia hora atrasados, mas ainda assim tínhamos que fazer as entregas a tempo e voltar no horário. E uma ou duas vezes por semana, já combalidos, exaustos e fodidos, tínhamos que fazer as coletas noturnas, e o horário do cronograma era impossível de ser cumprido – o caminhão jamais seria tão rápido. Era preciso pular quatro ou cinco caixas na primeira corrida e na próxima volta elas já estavam entupidas de cartas e você fedia, corria com o suor invadindo os sacos. E eu, que só queria uma foda, acabei fodido. Com a cortesia de Jonstone.
Os próprios substitutos tornaram Jonstone possível ao obedecer suas ordens impossíveis. Não conseguia entender como um homem cuja crueldade era tão patente tinha permissão para ocupar sua posição. Os carteiros regulares não davam a mínima, o cara do sindicato era um inútil, então preenchi um relatório de trinta páginas num dos meus dias de folga, enviei uma cópia pelo correio para Jonstone e a outra levei pessoalmente ao Escritório Federal. O atendente me pediu para esperar. E assim esperei e esperei e esperei. Esperei por uma hora e meia, então fui conduzido à presença de um homenzinho de cabelos cinzentos, com olhos que pareciam cinza de cigarro. Não chegou nem a pedir que eu sentasse. Começou a gritar comigo mal eu passei pela porta.
– O senhor é um desses filhos da puta metidos a esperto, não é?
– Pediria que o senhor não me xingasse, senhor!
– Sim, um desses filhos da puta sabichões, com seu vocabulariozinho de filho da puta, que não perde uma chance de mostrar o quanto sabe!
Ele me estendeu os papéis. E gritou:
– O SR. JONSTONE É UM ÓTIMO HOMEM!
– Não seja tolo. O sujeito é obviamente um sádico – eu disse.
– Há quanto tempo o senhor está nos Correios?
– Três semanas.
– O SR. JONSTONE ESTÁ NOS CORREIOS HÁ TRINTA ANOS!
– Sim, e o que isso tem a ver com o assunto?
– Já disse, O SR. JONSTONE É UM ÓTIMO HOMEM!
Creio que o pobre sujeito tinha vontade mesmo de me matar. Ele e Jonstone deviam ter dormido juntos.
– Tudo bem – eu disse –, Jonstone é um ótimo homem. Esqueça essa porra toda.
Então me afastei e tirei o dia seguinte de folga. Sem remuneração, claro.
– Cartas na rua
O Chuveiro
gostamos de um banho depois da função
(gosto da água mais quente do que ela)
e seu rosto está sempre suave e pacífico
e ela me lavará primeiro
espalhará sabonete sobre minhas bolas
erguerá as bolas
as esfregará
depois lavará meu pau:
“ei, essa coisa ainda está dura!”
então pegará nos pelos lá embaixo –
na barriga, nas costas, no pescoço, nas pernas,
eu sorrio, sorrio, sorrio,
e então eu a lavarei...
primeiro a buceta
ficarei atrás dela, meu pau entre sua bunda
ensaboarei com gentileza seus pentelhos,
lavarei tudo ali com movimentos sutis,
uma demora talvez mais longa que o necessário,
então a parte de trás das suas coxas, seu rabo,
as costas, o pescoço, para depois virá-la, beijá-la,
ensaboar os seios, tomando-os e depois a barriga, o pescoço,
a parte da frente das pernas, os tornozelos, os pés,
e então a buceta, mais uma vez, para a boa sorte...
mais um beijo, e ela sairá primeiro,
enxugando-se, algumas vezes cantando enquanto eu permaneço lá dentro
abrindo ainda mais a torneira quente
sentindo a bonança do milagre do amor
para só depois sair...
isto ocorre normalmente no meio da tarde e tudo está tranquilo,
e ao nos vestirmos falamos sobre o que ainda há
para ser feito
mas por estarmos juntos quase tudo está resolvido,
de fato, tudo está resolvido,
e pelo tempo em que essas coisas estiverem resolvidas
na história da mulher e
do homem, será diferente para cada um
melhor e pior para cada um –
para mim, é esplêndido o suficiente para lembrar
superando os exércitos que marcham
os cavalos que cruzam as ruas lá fora
superando as memórias da dor e da derrota e da infelicidade:
Linda, você trouxe isso pra mim,
quando me for tirá-lo
faça-o bem devagar e de mansinho
faça-o como se eu estivesse morrendo entre sonhos e não de
olhos abertos, amém.
Dee Dee tinha uma casa em Hollywood Hills. Dividia o lugar com uma amiga, também uma executiva, chamada Bianca. Bianca morava no andar de cima, Dee Dee, no de baixo. Toquei a campainha. Eram oito e meia quando ela abriu a porta. Dee Dee tinha uns quarenta anos, cabelo preto, batido, era judia, descolada, estranha. Estava voltada para Nova York, conhecia todos os nomes: os bons editores, os melhores poetas, os cartunistas mais talentosos, os grandes revolucionários, qualquer um, todo mundo. Fumava maconha sem parar e agia como se estivesse no início dos anos 1960 e em plena vigência do Paz e Amor, quando ela fora razoavelmente famosa e muito mais bonita.
Uma longa série de complicados casos amorosos liquidou-a. Agora, lá estava eu à sua porta. Seu corpo ainda dava para o gasto. Ela era pequena, mas tinha um aspecto saudável e muitas garotas gostariam de ter o seu físico.
Entrei atrás dela.
– Então a Lydia se mandou? – perguntou Dee Dee.
– Acho que ela foi para Utah. O baile do Quatro de Julho em Muleshead está chegando. Ela nunca perde.
Sentei junto à mesa da cozinha enquanto Dee Dee abria uma garrafa de vinho tinto.
– Está com saudades dela?
– Claro que sim. Tenho vontade de chorar. Estou com um nó aqui dentro. Acho que não vou me recuperar.
– Vai sim. Vamos dar um jeito de superar Lydia. Tudo passa.
– Então você sabe como estou me sentindo?
– Já aconteceu com todos nós algumas vezes.
– A cadela nunca ligou a mínima para mim.
– Bobagem. Ela ainda liga sim.
Decidi que era melhor estar ali, no casarão de Dee Dee em Hollywood Hills, do que sozinho em meu apartamento ruminando.
– Deve ser porque eu não sou bom para as mulheres – eu disse.
– Você é bom o bastante com as mulheres – disse Dee Dee. – Além de ser um puta escritor.
– Preferia me dar bem com as mulheres.
Dee Dee estava acendendo um cigarro. Esperei-a terminar, me inclinei sobre a mesa e lhe dei um beijo.
– Você me faz sentir bem. Lydia estava sempre na ofensiva.
– Isso não significa o que você acha que significa.
– Mas pode se tornar bastante desagradável.
– Certamente, um inferno.
– Você já encontrou um namorado?
– Ainda não.
– Gosto desse lugar. Mas como consegue manter tudo tão limpo e arrumado?
– Temos uma empregada.
– Ah, é?
– Você vai gostar dela. Ela é uma negra bem grande e trabalha a toda velocidade assim que eu saio, para acabar logo o serviço. Então vai para a minha cama e fica vendo tevê e comendo biscoito. Todas as noites encontro farelo de biscoito na cama. Vou pedir pra ela preparar um café da manhã pra você, antes de eu sair amanhã de manhã.
– Beleza.
– Não, espere. Amanhã é domingo. Não trabalho aos domingos. Vamos comer fora. Conheço um lugar. Você vai gostar.
– Beleza.
– Sabe, acho que sempre fui apaixonada por você.
– O que?
– Há anos. Sabe, quando eu costumava visitar você, primeiro com Bernie, depois com Jack, eu já o desejava. Mas você nunca me notou. Estava sempre mamando numa lata de cerveja, ou então obcecado por alguma coisa.
– Demência – eu acho –, demência total. Chamam de demência do serviço postal. Desculpe eu não ter notado você.
– Pode começar a se recuperar agora.
Dee Dee serviu mais uma taça de vinho. Coisa fina. Eu gostava dela. Era bom ter um lugar para onde ir quando tudo mais dava errado. Me lembrei de antigamente, quando as coisas ficavam feias e eu não tinha para onde ir. Talvez isso até tenha sido bom para mim. Naquela época. Mas agora não queria saber do que tinha sido bom ou mau. Importava o momento, o que estava sentindo e o que fazer para parar de me sentir mal quando as coisas dessem errado. Como voltar a me sentir bem.
– Não quero jogar com seus sentimentos, Dee Dee – eu disse. – Nem sempre sou bom para as mulheres.
– Já disse que te amo.
– Não faça isso. Não me ame.
– Está bem – ela disse –, não vou te amar. Vai ser um quase amor. Que tal?
– É uma proposta muito melhor que a anterior.
Acabamos nosso vinho e fomos para cama...
– Mulheres
Dow Jones: Em Queda
como podemos resistir?
como podemos falar de rosas
ou de Verlaine?
este é um bando faminto
que gosta de trabalhar e contar
e conhece as leis especiais,
que gosta de sentar nos parques
pensando em nada que preste.
é ali que a porca torce o rabo
sobre os montes rochosos
onde os rostos enlouquecem como violetas calcinadas pelo sol
onde falham as vassouras e as cordas e as tochas,
sombras em apuros...
onde as paredes caem em massa.
amanhã os banqueiros ditarão o tempo
de fechar os portões contra nossa inundação
e prevaricarão com as águas;
martelando, martelando o tempo,
lembre-se já
as flores estão abertas ao vento
e isso não faz nenhuma diferença afinal
exceto como um estremecimento na nuca
quando já de volta à nossa terra aberta
mortos outra vez
caminhamos entre os mortos.
A Leitura de Poesia
ao meio-dia em ponto
numa pequena faculdade próxima à praia
sóbrio
o suor me escorrendo pelos braços
uma gota de suor sobre a mesa
esmagada por um de meus dedos
maldito dinheiro maldito dinheiro
meu deus eles devem achar que eu adoro isso aqui tanto quanto os outros
mas é apenas pra pagar o pão e a cerveja e o aluguel
maldito dinheiro
estou nervoso enojado sinto-me mal
pobres diabos estou caindo estou caindo
uma mulher se levanta
sai da sala
bate a porta
um poema sujo
alguém tinha me dito para não ler poemas sujos
por aqui
é tarde demais.
meus olhos não conseguem ver alguns versos
leio mesmo
assim
desesperado tremendo
enojado
eles não conseguem ouvir minha voz
e eu digo,
desisto, não dá mais, já
era.
e mais tarde no meu quarto
lá estão a cerveja e o uísque
o sangue de um covarde.
isto então
será meu destino:
arrastar-me atrás de uns trocados em auditórios pequenos e escuros
lendo poemas de que há muito já me
cansei.
e então me acostumei a pensar
que os homens que dirigem nossos ônibus
ou limpam nossas privadas
ou matam outros homens aí pelos becos não passam de uns
otários.