Charles Bukowski

Charles Bukowski

1920–1994 · viveu 73 anos DE DE

Charles Bukowski foi um poeta e escritor alemão-americano, conhecido por sua obra crua, visceral e autobiográfica. Sua escrita, frequentemente associada à chamada "geração beat" e à contracultura, retrata a vida marginal, os vícios, a pobreza, o sexo e a alienação com uma linguagem direta e sem rodeios. Bukowski celebrou o submundo e os desajustados, tornando-se um ícone para muitos que se sentiam à margem da sociedade.

n. 1920-08-16, Andernach · m. 1994-03-09, San Pedro

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O Gênio da Multidão

Há suficiente violência, traição,
ódio
Absurdo no ser humano
comum
Para abastecer qualquer exército a qualquer
dia.
E Os Melhores Assassinos São Aqueles
Que Pregam Contra Ele.
E Os Que Melhor Odeiam São Aqueles
Que Pregam o AMOR
E OS MELHORES NA GUERRA
– POR FIM – SÃO AQUELES QUE
PREGAM
A PAZ
Aqueles Que Pregam DEUS
PRECISAM de Deus
Aqueles que Pregam A PAZ
Não Têm Paz.
AQUELES QUE PREGAM O AMOR
NÃO TÊM AMOR
CUIDADO COM OS PREGADORES
Cuidado com Os Conhecedores.
Cuidado
Com Aqueles
que SEMPRE
ESTÃO LENDO
LIVROS
Cuidado com Aqueles Que Detestam a
Pobreza Ou Estão Orgulhosos Dela
CUIDADO Com Aqueles Rápidos na Prece
Porque Eles Precisam de PRECES em Troca
CUIDADO Com Aqueles Rápidos em Censurar:
Eles Têm Medo Daquilo Que
Não Conhecem
Cuidado Com Aqueles Que Buscam Multidões
Constantes; Eles Não São Nada
Sozinhos
Cuidado Com
O Homem Comum
A Mulher Comum
CUIDADO Com o Amor Deles
O Amor Deles É Comum, Busca o
Comum
Mas Há Gênio No Modo Como Odeiam
Há Gênio Suficiente No Ódio
Deles Para Matá-Lo, Para Matar
Qualquer Um.
Por Não Desejarem a Solidão
Por Não Entenderem a Solidão
Tentarão Destruir
Tudo
Que Seja Diferente
Deles Mesmos
Por Serem Incapazes
De Criar Arte
Eles Não
Entenderão a Arte
Considerarão o Fracasso
Como Criadores
Somente Como Uma Falha
Do Mundo
Por Serem Incapazes De Amar Por Completo
ACREDITARÃO Que Seu Amor É
Incompleto
E ASSIM ELES ODIARÃO
VOCÊ
E o Ódio Deles Será Perfeito
Como Um Diamante Que Cintila
Como Uma Faca
Como Uma Montanha
COMO UM TIGRE
COMO Cicuta
A ARTE Que Lhes É
Mais Fina
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Biografia

Identificação e contexto básico

Heinrich Karl "Hank" Bukowski Jr. foi um poeta, contista e romancista alemão-americano. Nasceu em Andernach, na Alemanha, em 16 de agosto de 1920, e faleceu em San Pedro, Califórnia, Estados Unidos, em 9 de março de 1994. É uma figura proeminente da literatura marginal e da contracultura americana. Filho de pais alemães, mudou-se com a família para os Estados Unidos quando tinha três anos.

Infância e formação

Bukowski teve uma infância difícil marcada pela pobreza e por um relacionamento abusivo com o pai. Aos três anos, a família emigrou para os Estados Unidos, estabelecendo-se em Los Angeles. Sua adolescência foi rebelde e problemática. Frequentou a Los Angeles High School, mas abandonou os estudos precocemente. Aos 17 anos, saiu de casa. Sua formação foi autodidata, moldada por leituras intensas, pela experiência de vida nas ruas e pelos trabalhos precários que desempenhou ao longo de décadas.

Percurso literário

Bukowski começou a escrever poesia e contos ainda jovem, mas demorou décadas para ser reconhecido. Trabalhou em empregos manuais e braçais, como carteiro e em fábricas, em grande parte de sua vida adulta, muitas vezes lutando contra o alcoolismo. Publicou esporadicamente em pequenas revistas literárias underground nas décadas de 1940 e 1950. Sua carreira literária ganhou impulso a partir da década de 1960, quando se dedicou integralmente à escrita após receber uma herança que lhe permitiu deixar o emprego nos correios. Seu primeiro livro de poemas, "Flower, Fist, and Bestial Wail", foi publicado em 1960. A partir daí, produziu uma vasta obra em poesia, contos e romances.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras mais conhecidas de Bukowski incluem coleções de poemas como "Love Is a Dog from Hell" (1977), "Crimson Tears" (1978), e "The Most Beautiful Woman in Town" (1986), além de romances como "Factotum" (1975), "Women" (1978) e "Post Office" (1971). Seus temas centrais são a vida marginal, a pobreza, o alcoolismo, o sexo, a solidão, a alienação, a crítica social e a busca por sentido em um mundo caótico. Seu estilo é caracterizado por uma linguagem direta, coloquial, sem adornos, muitas vezes obscena e chocante, mas também capaz de uma profunda sensibilidade e honestidade. Ele utilizava o verso livre de forma contundente, com frases curtas e ritmo muitas vezes quebrado. Sua voz poética é confessional, crua e irónica, refletindo suas experiências de vida de forma implacável. Bukowski é considerado um renovador da poesia americana pela sua abordagem realista e pela sua capacidade de dar voz aos desvalidos.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Bukowski emergiu como uma voz dissonante em meio ao otimismo pós-guerra e ao surgimento da contracultura nos EUA. Sua obra, muitas vezes associada à Geração Beat, como Jack Kerouac e Allen Ginsberg, embora com um estilo mais sombrio e menos místico, capturou o desencanto e a rebeldia de uma parcela da sociedade que se sentia marginalizada. Ele escreveu em um período de profundas mudanças sociais e políticas nos Estados Unidos, como a Guerra do Vietnã e os movimentos pelos direitos civis, temas que, embora não diretamente abordados, permeiam o pano de fundo de sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida de Bukowski foi marcada pela luta contra o alcoolismo, por relacionamentos tumultuados e por uma série de empregos precários. Teve casamentos e relacionamentos significativos, incluindo com as poetisas Jane Cooney Baker e Linda King, e mais tarde com Linda Lee Beighle, que se tornou sua esposa e figura importante em sua vida. Sua obra é profundamente autobiográfica, sendo difícil separar o homem do escritor. Suas experiências com a pobreza e a boemia foram a matéria-prima de sua escrita. Suas crenças eram pragmáticas e cínicas, desconfiando de instituições e ideologias.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Bukowski obteve um reconhecimento tardio e muitas vezes controverso. Enquanto era idolatrado por muitos como um autêntico "escritor do povo" e um rebelde contra o sistema, era criticado por outros por seu estilo considerado vulgar ou amoral. Sua popularidade cresceu exponencialmente após sua morte, tornando-se um autor cultuado em todo o mundo, especialmente entre jovens e leitores que se identificam com sua honestidade brutal e sua visão de mundo sem filtros.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Bukowski foi influenciado por escritores como Ernest Hemingway, John Fante, D.H. Lawrence e por autores da Geração Beat. Seu legado é o de ter dado voz aos marginalizados, de ter mostrado que a literatura pode emergir de experiências de vida difíceis e de ter desafiado as convenções literárias estabelecidas. Inspirou inúmeros poetas e escritores que buscam uma linguagem autêntica e um retrato sem maquiagem da realidade. Sua obra continua a ser uma referência para a literatura underground e alternativa.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Bukowski é frequentemente analisada sob a ótica da literatura marginal, da crítica social e da representação da experiência humana em suas formas mais cruas. Os debates centram-se na sua genialidade como cronista da vida urbana e da alienação, e na sua capacidade de extrair poesia do feio e do sórdido.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Bukowski era conhecido por seu humor negro e seu cinismo. Ele tinha uma coleção de centenas de cartas de amor recebidas de fãs em todo o mundo. Passou um período em um hospital psiquiátrico em sua juventude, uma experiência que o marcou profundamente. Sua relação com os cachorros era notória. Era um observador atento da natureza humana, registrando suas observações em cadernos.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Charles Bukowski faleceu em 9 de março de 1994, em San Pedro, Califórnia, aos 73 anos, vítima de leucemia. Sua morte foi recebida com pesar por seus admiradores. Suas cinzas foram espalhadas em um de seus locais favoritos na Califórnia. Sua obra continua a ser publicada e a ser redescoberta por novas gerações, solidificando sua posição como um dos autores mais singulares e influentes da literatura americana.

Poemas

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Isto

nonsense autocongratulatório enquanto os
famosos se reúnem para aplaudir sua aparente
grandeza
você
se pergunta onde estão
os verdadeiramente grandes
que
caverna descomunal
os esconde
enquanto
aqueles mortalmente desprovidos
de talento
se curvam para a
ovação
enquanto
os otários são
tapeados
outra vez
você
se pergunta onde
estão os verdadeiramente grandes
se é que eles
existem.
este
nonsense autocongratulatório
tem durado
décadas
e
com raras exceções
séculos.
isto
é tão medonho
é tão absolutamente desprovido de piedade
isto
transforma a coragem em
esperança
poeirenta e algemada
isto
faz as pequenas coisas
como
abrir uma cortina
ou
calçar os sapatos
ou
caminhar pela rua
mais difícil
quase
abominável
enquanto
os famosos se reúnem para
aplaudir sua aparente
grandeza
enquanto
os otários são
tapeados
outra vez
humanidade
sua filha da puta
louca.

E aí, de repente, o filme rolava de novo. Como a maioria das notícias, esta veio pelo telefone, via Jon.
– É – ele me disse –, recomeçamos a produção amanhã.
– Eu não entendo. Achava que o filme estava morto.
– A Firepower vendeu alguns bens. Uma filmoteca e alguns hotéis que eles tinham na Europa. Em cima disso ainda conseguiram arrancar um grande empréstimo de um grupo italiano. Dizem que o dinheiro desse grupo italiano é meio sujo, mas... é dinheiro. De qualquer modo, eu gostaria que você e Sarah viessem pra filmagem amanhã.
– Não sei...
– É amanhã à noite...
– Tudo bem, legal... Quando e onde?
Sarah e eu nos sentávamos num reservado. Era sexta à noite e havia no ar uma boa sensação. Estávamos ali sentados quando Rick Talbot entrou e sentou-se conosco. Ali estava ele em nossa barraca. Queria apenas um café. Eu o vira muitas vezes na TV, criticando filmes com seu opositor, Kirby Hudson. Eram muito bons no que faziam, e muitas vezes se emocionavam com a coisa. Faziam avaliações interessantes, e embora outros houvessem tentado copiar o formato, eles eram muito superiores aos concorrentes.
Rick Talbot parecia muito mais jovem do que na TV. Também parecia mais retraído, quase tímido.
– Vemos você sempre – disse Sarah.
– Obrigado...
– Escuta – perguntei –, que é que te aborrece mais em Kirby Hudson?
– O dedo dele... Quando ele aponta aquele dedo.
Entrou Francine Bowers. Resvalou para dentro do reservado. Nós a cumprimentamos. Ela conhecia Rick Talbot. Trazia uma pequena prancheta de anotações.
– Escuta, Hank, quero saber mais um pouco sobre Jane. Índia, certo?
– Meio índia, meio irlandesa.
– Por que bebia?
– Era um lugar onde se esconder, e também uma forma de suicídio.
– Você algum dia levou ela a algum lugar, além de um bar?
– Levei ela a um jogo de beisebol, uma vez. Ao Wrigley Field, no tempo em que os Angels de L.A. jogavam na Liga da Costa do Pacífico.
– Que aconteceu?
– Nós dois ficamos muito bêbados. Ela ficou fula comigo e saiu correndo do parque. Eu dirigi horas procurando por ela. Quando voltei ao quarto, ela estava desmaiada na cama.
– Como é que ela falava? Aos berros?
– Ficava calada durante horas. Então, de repente, enlouquecia e se punha a gritar, xingar e atirar coisas. A princípio eu não reagia. Depois ela me dava nos nervos. Eu andava de um lado para outro, de um lado para outro, berrando e devolvendo os xingamentos. Isso continuava por talvez uns vinte minutos, depois a gente se aquietava, bebia mais um pouco e recomeçava. Vivíamos sendo despejados. Fomos expulsos de tantos lugares que não consigo me lembrar de todos. Uma vez, procurando uma nova casa, batemos numa porta. A porta se abriu, e lá estava a senhoria que acabara de expulsar a gente. Ela nos viu, ficou pálida, gritou e bateu a porta...
– Jane morreu? – perguntou Rick Talbot.
– Há muito tempo. Estão todos mortos. Todos com quem eu bebia.
– Que é que mantém você de pé?
– Gosto de bater à máquina. Me emociona.
– E eu mantenho ele numa dieta de vitaminas e baixa caloria, sem carne vermelha – disse-lhe Sarah.
– Ainda bebe? – perguntou Rick.
– Sobretudo quando escrevo, ou quando aparecem visitas. Não me sinto bem com as pessoas, e depois de beber bastante elas parecem desaparecer.
– Me fale mais sobre Jane – pediu Francine.
– Bem, ela dormia com um terço debaixo do travesseiro...
– Ia à igreja?
– Em horas estranhas ia ao que chamava de “missa alka-seltzer”. Acho que começava às oito e meia da manhã e durava cerca de uma hora. Ela detestava a missa das dez horas, que muitas vezes durava duas horas.
– Ela ia à confissão?
– Nunca perguntei...
– Pode me dizer alguma coisa sobre ela que explique o seu caráter?
– Só que, apesar de todas as coisas aparentemente terríveis que fazia, os xingamentos, a loucura, o amor à garrafa, sempre fazia tudo com uma certa classe. Me agradaria pensar que aprendi algumas coisinhas sobre classe com ela...
– Quero te agradecer por essas coisas, acho que podem ajudar.
– Esteja à vontade.
Francine e sua prancheta se foram.
– Acho que nunca me diverti tanto num set – disse Rick Talbot.
– Que quer dizer, Rick? – perguntou Sarah.
– É uma sensação no ar. Às vezes, em filmes de baixo orçamento, a gente sente essa sensação, essa sensação de carnaval. Mas sinto mais aqui do que nunca...
Falava sério. Os olhos brilhavam, ele sorria com verdadeira alegria.
Pedi outra rodada de bebidas.
– Pra mim, só café – ele disse.
Chegou a nova rodada e Rick disse:
– Vejam! Lá está Sesteenov!
– Quem? – eu perguntei.
– O cara que fez aquele filme maravilhoso sobre cemitérios de bichinhos de estimação. Ei, Sesteenov!
Sesteenov aproximou-se.
– Por favor, sente-se – pedi.
Ele escorregou para dentro do reservado.
– Quer beber alguma coisa? – perguntei.
– Oh, não...
– Vejam – disse Rick Talbot –, lá está Illiantovitch!
Eu conhecia Illiantovitch. Ele fizera uns filmes darks malucos, tendo como tema principal a violência da vida vencida pela coragem das pessoas. Mas fazia isso bem, rugindo de dentro da escuridão.
Era um homem muito alto, de pescoço torto e olhos alucinados. Os olhos alucinados não se desgrudavam da gente, olhando a gente. Era meio embaraçoso.
Nós nos afastamos para deixá-lo entrar. O reservado estava cheio.
– Gostaria de um drinque? – perguntei.
– Uma vodca dupla – ele disse.
Gostei disso, acenei para o garçom.
– Vodca dupla – ele disse ao garçom, fixando-o com seus olhos alucinados. O garçom correu a cumprir seu dever.
– É uma noite sensacional – disse Rick.
Eu adorava a falta de sofisticação dele. Era preciso coragem, quando se estava por cima, para dizer que gostava do que fazia, que se divertia com o que fazia.
Illiantovitch recebeu sua vodca dupla, emborcou-a de vez.
Rick Talbot fazia perguntas a todo mundo, incluindo Sarah. Não havia nenhuma sensação de competição ou inveja no reservado. A sensação era de total bem-estar.
Aí entrou Jon Pinchot. Aproximou-se do reservado, fez uma ligeira curvatura, sorrindo:
– Vamos rodar daqui a pouco, espero. Venho chamar todos...
– Obrigado, Jon...
Ele se afastou.
– É um bom diretor – disse Rick Talbot –, mas eu gostaria de saber por que você escolheu ele.
– Foi ele que me escolheu...
– É mesmo?
– É... e eu posso te contar uma história que explicará por que é um bom diretor, e por que eu gosto dele. Mas fica aqui entre nós...
– Manda – disse Rick.
– Aqui entre nós?
– É claro...
Curvei-me para a frente no reservado e contei a história de Jon com a motosserra e o dedo mindinho.
– Isso aconteceu mesmo? – perguntou Rick.
– Aconteceu. Aqui entre nós.
– Claro...
(Eu sabia: nada é aqui entre nós, uma vez que a gente conta.)
Enquanto isso, Illiantovitch matara duas vodcas duplas e sentava-se contemplando uma terceira. Continuava me fitando. Depois puxou a carteira, retirou um sebento cartão de apresentação e me entregou. O cartão tinha os quatro cantos gastos e estava mole e preto de sujeira. Desistira de ser um cartão de apresentação. Illiantovitch parecia um gênio emporcalhado. Eu o admirei por isso. Era um sujeito sem pretensão. Ele agarrou a vodca dupla e virou-a garganta abaixo.
Depois me olhou, densamente. Mas os olhos negros me eram demais. Tive de desviar os meus. Chamei o garçom para reabastecer. Depois tornei a olhar para Illiantovitch.
– Você é o melhor – eu disse. – Depois de você, não tem mais nada.
– Não, não é assim – ele disse. – VOCÊ é o melhor! Eu te dou meu cartão! No cartão está a hora da PROJEÇÃO DE MEU NOVO FILME! VOCÊ DEVE IR VER!
– Claro, baby – eu disse, e tirei minha carteira e guardei cuidadosamente o cartão.
– Está uma noite daquelas – disse Rick Talbot.
Falaram-se mais algumas bobagens, e apareceu Jon Pinchot.
– Estamos quase prontos pra rodar. Vocês podem vir agora, pra eu arranjar lugares pra vocês?
Todos nos levantamos para segui-lo, exceto Illiantovitch. Ele afundou no reservado.
– Foda-se! Vou tomar mais vodcas duplas! Vão vocês!
Aquele bastardo roubara-me uma ou duas páginas. Acenou para o garçom, puxou um cigarro, meteu-o entre os lábios, acendeu o isqueiro e queimou um pedaço do nariz.
Bastardo.
Nós avançamos noite adentro.
– Hollywood
1 338

O Touro

eu não sabia
que os mexicanos
faziam isto:
o touro
havia sido bravo
e agora
eles o arrastavam
morto
ao redor da arena
pela
cauda,
um bravo touro
morto
mas não um touro qualquer,
esse foi um touro
especial
e para mim
uma lição especial
que aprendi...
e embora Brahms
tenha roubado sua Primeira da 9a
de Beethoven,
e embora
o touro
estivesse morto,
sua cabeça e seus cornos e
seus intestinos mortos,
ele foi melhor que
Brahms,
tão bom quanto
Beethoven,
e
enquanto íamos embora
seu som e O
sentido dele
continuavam a subir rastejando por meus braços
e embora as pessoas me empurrassem e
pisassem nos meus pés
o touro fazia arder em mim
um candeeiro de
luz;
arrastado por sua cauda
ele nada tinha a ver com qualquer coisa
tendo agora escapado de tudo aquilo,
baixando pelo longo túnel, rodeado por
cotovelos e pés e olhos, eu rezei por Tijuana
e pelo touro morto
e pelo homem
e por mim,
as águas azuis beijando-se
gozando o prazer do âmago da dor,
e eu cerrei meus punhos
bem fundo em meus
bolsos, agarrei a escuridão
e segui em frente.
1 324

junto a uma vitrine

junto a uma vitrine
cachorros e anjos não estão
muito distantes.
eu vou muito a esse lugarzinho
para comer
por volta das 2:30 da tarde
porque todas as pessoas que comem
lá são completamente sãs,
contentes por estarem simplesmente vivas e
comendo sua comida
junto a uma vitrine
que dá boas-vindas ao sol
mas não deixa os carros e
as calçadas entrarem.
atravessando a rua há um bar
chinês de striptease
aberto já às 2:30 da
tarde
está pintado de
um pobre e pálido
azul.
dão-nos quantos cafés
de graça pudermos tomar
e todos nos sentamos e bebemos em silêncio
o café preto e forte.
é bom poder ficar em algum lugar
em público às 2:30 da tarde
sem que lhe arranquem a carne
de seus ossos.
ninguém nos incomoda.
não incomodamos ninguém.
anjos e cachorros não estão
muito distantes
às 2:30 da tarde.
tenho minha mesa favorita
junto da janela
e depois de haver terminado
eu empilho os pratos, tigelas,
a xícara, Os talheres etc.
direitinho
em uma pilha bem arrumada -
minha oferenda à
garçonete idosa -
comida e tempo
íntegros,
e o sol desgraçado
lá fora
fazendo seu serviço
para cima e
para baixo.
 
1 081

Encurralado

bem, eles diziam que tudo terminaria
assim: velho. o talento perdido. tateando às cegas em busca
da palavra
ouvindo os passos
na escuridão, volto-me
para olhar atrás de mim...
ainda não, velho cão...
logo em breve.
agora
eles se sentam falando sobre
mim: “sim, acontece, ele já
era... é
triste...”
“ele nunca teve muito, não é
mesmo?”
“bem, não, mas agora...”
agora
eles celebram minha derrocada
em tavernas que há muito já não
frequento.
agora
bebo sozinho
junto a essa máquina que mal
funciona
enquanto as sombras assumem
formas
combato retirando-me
lentamente
agora
minha antiga promessa
definha
definha
agora
acendendo novos cigarros
servindo mais
bebidas
tem sido um belo
combate
ainda
é.
1 334

Lava-Rápido

saí, o camarada disse, “ei!”, caminhando na minha
direção, apertamos as mãos, ele me passou 2 cupons
vermelhos para lavar o carro de graça, “nos encontramos depois”,
eu lhe disse, segui em frente até área de
espera com a esposa, sentamos num banco do lado de fora.
um negro manco de uma perna apareceu, disse,
“ei, cara, como vai a parada?”
respondi, “beleza, mermão, e com tu?”
“na paz”, ele disse, então se afastou para
secar uma van.
“essas pessoas o conhecem?”, perguntou minha esposa.
“não”.
“então por que elas vêm falar com você?”
“gostam de mim, as pessoas sempre gostaram de mim,
é minha sina.”
então nosso carro ficou pronto, o camarada acenou com
a flanela pra mim, levantamos, fomos até o
carro, dei-lhe um dólar, entramos,
dei a partida, o gerente se
aproximou, um cara grande de óculos escuros, um cara enorme,
abriu um sorriso largo, “bom ver você,
cara!”
sorri de volta, “obrigado, gentileza sua,
cara!”
misturei-me ao tráfego, “eles te conhecem”,
disse minha esposa.
“claro”, eu disse, “já estive ali.”
1 093

Metamorfose

uma namorada chegou
me construiu uma cama
esfregou e encerou o chão da cozinha
esfregou as paredes
aspirou o pó
limpou a patente
a banheira
esfregou o chão do banheiro
e cortou minhas unhas e
meus cabelos.
então
naquele mesmo dia
o encanador veio e consertou a torneira da cozinha
e a patente
e o homem do gás consertou o aquecedor
e o homem do telefone, o telefone.
agora me sento aqui em meio a tanta perfeição.
tudo está tranquilo.
rompi com as minhas 3 namoradas.
me sinto melhor quando tudo está
bagunçado.
vai levar alguns meses até que as coisas voltem ao
normal:
não consigo encontrar sequer uma barata para viver em comunhão.
perdi meu ritmo.
não consigo dormir.
não consigo comer.
roubaram-me
minha sujeira.
1 156

Prece Debaixo de Mau Tempo

por Deus, não sei o que
fazer.
elas são tão legais de se ter por perto.
elas têm um jeito de tocar
as bolas
e olhar para o pau muito
seriamente
virando-o
puxando-o
examinando cada parte
enquanto seus longos cabelos caem
sobre a sua barriga.
não é apenas o foder e o chupar
que alcançam o interior do homem
e o amaciam, são os extras,
está tudo nos extras.
agora é noite e está chovendo
e não há ninguém
estão todas em outros lugares
examinando coisas
em novos quartos
com novos humores
mesmo que em velhos
quartos.
seja o que for, é noite e está chovendo,
uma chuva torrencial, maldita e
pesada...
muito pouco a fazer.
já li o jornal
paguei a conta do gás
a conta de luz
a conta do telefone.
continua chovendo.
elas amaciam um homem
e então o deixam a nadar
em seu próprio suco.
preciso de uma vagabunda no velho estilo
batendo à porta esta noite
fechando seu guarda-chuva verde,
gotas de chuva enluarada sobre
sua bolsa, dizendo, “merda, cara,
não consegue achar uma música melhor do que
essa no seu rádio?
e aumente o aquecimento...”
é sempre quando um homem está tomado
de amor e tudo
mais
que continua chovendo
alagadoura
encharcante
chuva
boa para as árvores e para a
grama e para o ar...
boa para coisas que
vivem sozinhas.
eu daria qualquer coisa
pela mão de uma fêmea em mim
esta noite.
elas amaciam um homem e
depois o deixam
escutando a chuva.
1 090

Um Homem

George estava deitado em seu trailer, estirado de costas, vendo televisão em um pequeno aparelho portátil. Os pratos da janta não estavam lavados, a louça do café da manhã não estava lavada, ele precisava se barbear, e as cinzas de seu cigarro de palha caíam na camiseta de dormir que ele estava usando. Algumas das cinzas ainda estavam queimando. Às vezes as cinzas não caíam na camiseta que vestia, mas sim na própria pele, então ele praguejava enquanto as empurrava para longe com pequenos tapas.
Bateram à porta do trailer. Lentamente ele se levantou e foi atender. Era Constance. Trazia consigo uma garrafa de uísque em uma sacola.
– George, deixei aquele cretino, não dava mais para aguentar aquele filho da puta.
– Sente-se.
George abriu a garrafa, pegou dois copos, encheu cada um com um terço de uísque e dois terços de água. Sentou-se na cama com Constance. Ela pegou um cigarro de sua bolsa e o acendeu. Estava bêbada, e suas mãos tremiam.
– Levei o dinheiro dele também. Peguei a porra do dinheiro e fugi enquanto ele estava no trabalho. Você não sabe como sofri nas mãos daquele filho da puta.
– Deixe-me fumar um pouco – disse George.
Ela alcançou o cigarro para ele e, como inclinou o corpo ao se aproximar, George enlaçou-a com um braço, puxou-a e deu-lhe um beijo.
– Seu filho da puta – ela disse. – Senti a sua falta.
– Senti falta dessas suas pernas gostosas, Connie. Realmente senti falta dessas pernas.
– Ainda gosta delas?
– Fico de pau duro só de olhar.
– Eu nunca teria dado certo com um sujeito que estudou em universidade – disse Connie. – São muito moles, são como biscoitinho molhado no leite. E ele mantinha a casa limpa. George, era como ter uma empregada. Ele fazia tudo. O lugar era impecável. Dava para comer um cozido de carne feito na privada. Ele era antisséptico, é isso o que ele era.
– Beba mais. Vai se sentir melhor.
– E ele não conseguia fazer amor.
– Quer dizer que ele não conseguia ter uma ereção?
– Oh não. Ele conseguia ter uma ereção. Tinha o tempo todo. Mas não sabia fazer uma mulher feliz, sabe. Não sabia o que fazer. Com todo aquele dinheiro, todo aquele estudo, ele era um inútil.
– Eu queria ter estudado em uma universidade.
– Você não precisa. Você já tem tudo de que precisa, George.
– Sou apenas um peão. Com empreguinhos de merda.
– Eu disse que você tem tudo o que precisa, George. Você sabe como fazer uma mulher feliz.
– É?
– Sim. E sabe do que mais? A mãe dele vinha nos visitar! A mãe! Duas ou três vezes por semana. E ficava sentada lá me olhando, fingindo que gostava de mim, mas passava o tempo todo me tratando como se eu fosse uma puta, como se eu fosse uma grande puta, uma puta malvada que estava roubando o filhinho dela! O precioso Walter! Que confusão!
– Beba, Connie.
George tinha terminado. Esperou que Connie esvaziasse seu copo, então pegou ambos e os encheu novamente.
– Ele dizia que me amava. E eu dizia: “Olha a minha buceta, Walter!”. E ele não olhava pra minha buceta. Ele dizia: “Não quero olhar pra essa coisa”. Essa coisa! Assim ele a chamava! Você não tem medo da minha buceta, não é mesmo, George?
– Ela nunca me mordeu.
– Mas você já mordeu ela, já mordiscou, não é, George?
– Acho que sim.
– E lambeu e chupou?
– Suponho que sim.
– Você sabe muito bem, George, o que fez.
– Quanto dinheiro você pegou?
– Seiscentos dólares.
– Não gosto de pessoas que roubam dos outros, Connie.
– É por isso que você não passa de um lavador de pratos. Você é honesto. Mas ele era tão idiota, George. E ele tinha dinheiro, e eu mereci a grana... ele e a mãe dele e o amor dele, seu amor maternal, suas pias pequenas e limpas e privadas e sacos de lixo e carros novos e as pastilhas contra mau hálito e as loções pós-barba e as pequenas ereções e a preciosa fazeção de amor. Tudo para ele, você entende, tudo para ele! Você sabe o que uma mulher quer, George...
– Obrigado pelo uísque, Connie. Me dá outro cigarro.
George encheu os copos mais uma vez.
– Senti falta das suas pernas, Connie. Realmente senti falta dessas pernas. Gosto do jeito que você usa esses saltos altos. Me deixa louco. Essas mulheres modernas não sabem o que estão perdendo. O salto alto modela a panturrilha, a coxa, a bunda; põe ritmo na caminhada. Realmente me excita!
– Você fala como um poeta, George. Às vezes você fala assim. Você é um tremendo lavador de pratos.
– Sabe o que eu realmente gostaria de fazer?
– O quê?
– Gostaria de chicotear suas pernas com o meu cinto, as pernas, a bunda, as coxas. Gostaria de fazer você tremer e chorar e então, quando estivesse tremendo e chorando, eu ia te arrebentar com amor puro.
– Não quero isso, George. Você nunca falou assim antes. Sempre foi correto comigo.
– Levanta um pouco o vestido.
– O quê?
– Levanta um pouco o vestido, quero ver mais as suas pernas.
– Gosta delas, não é, George?
– Deixa a luz bater nelas!
Constance levantou o vestido.
– Jesus Cristo nosso Senhor – disse George.
– Gosta das minhas pernas?
– Amo suas pernas!
Então George se espichou através da cama e deu uma bofetada na cara de Constance. O cigarro caiu de sua boca.
– Por que você fez isso?
– Você trepou com o Walter! Trepou com o Walter!
– E daí?
– Levanta mais esse vestido!
– Não!
– Faz o que eu estou mandando!
George deu outro tapa ainda mais forte. Constance levantou a saia um pouco mais.
– Um pouco abaixo da calcinha! – gritou George. – Não quero ver a calcinha!
– Cristo, George, o que você tem?
– Você trepou com Walter!
– George, eu juro, você está louco. Quero ir embora. Deixe-me sair daqui, George!
– Não se mexa ou mato você!
– Você me mataria?
– Juro que sim!
George levantou e se serviu de outro copo cheio de uísque puro, bebeu e sentou-se ao lado de Constance. Ele pegou seu cigarro e o segurou contra o pulso dela. Ela gritou. Segurou o cigarro ali, firmemente, então o afastou.
– Sou um homem, gata, dá pra entender isso?
– Sei que você é homem, George.
– Aqui, olha para os meus músculos!
George levantou-se e flexionou os dois braços.
– Lindo, né, gata? Olha para esses músculos! Sente isso! Sente isso!
Constance apalpou e sentiu um de seus braços e depois o outro.
– Sim, você tem um corpo lindo, George.
– Sou um homem. Sou um lavador de pratos, mas sou um homem, um homem de verdade.
– Eu sei, George.
– Não sou como aquele merdinha que você deixou.
– Eu sei disso.
– E também sei cantar. Você precisa ouvir a minha voz.
Constance ficou ali sentada. George começou a cantar. Cantou “Old Man River”. Depois “Nobody Knows the Trouble I’ve Seen”. Cantou “Saint Louis Blues” e “God Bless America”, parando várias vezes e rindo. Então se sentou ao lado de Constance e disse:
– Connie, você tem pernas lindas.
Pediu outro cigarro. Fumou, bebeu mais dois copos, então colocou sua cabeça no colo dela, em cima das coxas, contra as meias, e disse:
– Connie, acho que não sou bom, acho que sou louco, sinto muito por ter batido em você, me desculpe por tê-la queimado com aquele cigarro.
Constance permaneceu sentada. Passou seus dedos pelos cabelos de George, afagando-o e reconfortando-o. Logo ele estava dormindo. Ela esperou um pouco mais. Então levantou sua cabeça e a recostou em um travesseiro, levantou suas pernas e as endireitou na cama. Ela levantou-se, caminhou até a garrafa de uísque, serviu uma boa dose em seu copo, acrescentou um toque de água e bebeu tudo de uma vez. Caminhou até a porta do trailer, abriu-a, saiu e a fechou às suas costas. Caminhou pelo jardim, abriu o portão da cerca, caminhou pela viela sob o luar da uma da madrugada. O céu estava limpo e sem nuvens. O mesmo céu cheio de estrelas estava lá. Chegou ao bulevar e caminhou para leste, chegou até a entrada do Blue Mirror. Entrou, olhou ao redor e lá estava Walter sentado na ponta do balcão do bar, sozinho e bêbado. Caminhou até ele e sentou-se ao seu lado.
– Sentiu a minha falta, amor? – ela perguntou. Walter ergueu os olhos e a reconheceu. Não respondeu. Ele olhou para o balconista, e o balconista olhou para eles. Todos se conheciam.
– Ao sul de lugar nenhum
1 330

Os Lixeiros

aí vêm eles
esses caras
caminhão cinza
rádio ligado
estão com pressa
é muito excitante:
camisa aberta
as barrigas pendendo
recolhem as latas de lixo
esvaziam-nas na compactadora
e então o mecanismo sobe
barulhento demais...
eles precisam preencher formulários de requerimento
para conseguir esses trabalhos
precisam pagar as prestações da casa e
dirigem carros do ano
embebedam-se sábado à noite
agora sob o sol de Los Angeles
correm pra lá e pra cá atrás de latas de lixo
todo o lixo vai pra algum lugar
e eles gritam uns para os outros
então estão todos no caminhão
seguindo para oeste em direção ao mar
nenhum deles sabe
que estou vivo
REX DISPOSAL CO.
1 122

O Maior Fracassado do Mundo

ele costumava vender jornais ali em frente:
“Escolha os vencedores! Fique rico apostando um centavo!”
e lá pela terceira ou quarta corrida
você poderia vê-lo deslizando em seu carrinho estropiado
equipado com rodinhas de patins.
impulsionava-se com as mãos;
suas pernas não passavam de dois cotos
e os aros das rodinhas estavam gastos.
dava para ver a parte interna das rodinhas e elas oscilavam
algo terrível
disparando e reluzindo
faíscas supremas!
movia-se mais rápido do que qualquer um, o cigarro pendendo dos lábios,
dava para ouvir sua aproximação
“oh, Deus, mas que diabos é isso?”, perguntavam os mais novos.
ele era o maior fracassado do mundo
mas jamais desistia
deslizando até o guichê das apostas de 2 dólares, gritando:
“É O CAVALO NÚMERO 4, SEUS OTÁRIOS! COMO CONSEGUIRÃO
VENCER O CAVALO
4?”
no placar o 4 estava pagando
60 para 1.
nunca ouvi que ele tivesse escolhido um vencedor.
diziam que ele dormia no meio do mato. acho que foi por ali que
ele morreu. não tem mais
aparecido.
havia uma puta gorda e loira
que vivia tocando nele para dar sorte, e ela
ria.
ninguém jamais teve sorte. a puta também se
foi.
acho que nada nunca funciona para nós. somos otários, claro –
patrocinando aquilo tudo e ainda pagando um ágio de 15 por cento,
mas como diremos a um sonhador
que há um ágio de 15 por cento no
sonho? ele apenas vai rir e dizer,
isso é tudo?
eu perdi essas
faíscas.
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Mário Quintana
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