Meu Primeiro Poema de Computador
será que já tomei o caminho para a morte certa?
será esta máquina meu algoz
quando nem o trago nem as mulheres nem a pobreza
conseguiram me dar cabo?
estará Whitman rindo de mim na sua cova?
será que Creeley se importa?
estará isto aqui devidamente espaçado?
estou eu?
uivará o Ginsberg?
me acalme!
me dê sorte!
me faça bem!
me faça seguir em frente!
sou virgem outra vez.
um virgem de 70 anos.
não me foda, máquina
foda.
quem se importa?
fale comigo, máquina!
podemos tomar um trago juntos.
podemos nos divertir.
pense em todas as pessoas que irão me odiar neste
computador.
vamos somá-las aos outros
e seguir sempre em
frente.
então isto é o começo
e não o
fim.
Sorte
certa vez
fomos jovens
diante desta
máquina...
bebendo
fumando
escrevendo
foi o mais
esplêndido e
miraculoso
dos tempos
ainda
é
acontece que agora
em vez de
nos movermos na direção
do tempo
ele
se move na nossa
direção
faz com que cada palavra
perfure
o
papel
clara
veloz
dura
alimentando um
espaço que se
fecha.
22.000 Dólares Em 3 Meses
a noite chegou como um ser que se arrasta
corrimão acima, sibilando sua língua
de fogo, e me lembro dos
missionários com a lama até os joelhos
batendo em retirada através do belo rio azul
e as balas da metralhadora erguendo pequenas
fontes e Jones bêbado junto à margem
dizendo fodam-se esses selvagens
onde arrumaram armas de fogo?
e eu retorno pra ver Maria
e ela diz, você acha que eles vão atacar,
acha que eles vão atravessar o rio?
medo de morrer? lhe pergunto, e ela diz
quem não tem?
e eu fui até o armário de remédios
e me servi uma taça cheia, e disse
ganhamos 22.000 dólares em 3 meses construindo estradas
pro Jones e é preciso morrer um pouco
para fazer tudo mais depressa... Você acha que os comunistas
começaram com isso? ela perguntou, você acha que são os comunistas?
e eu disse, dá pra parar de ser uma vaca neurótica.
essas republiquetas crescem porque estão
enchendo os bolsos com dinheiro dos dois lados... e ela
me olhou com aquela linda estupidez das colegiais
e se afastou, escurecia mas eu a deixei partir,
precisamos saber quando é hora de deixar uma mulher ir a fim de mantê-la,
e se você não quer ficar com ela deixa-a ir de qualquer maneira,
assim que é sempre um processo de deixar partir, de um modo ou de outro,
então me sentei e terminei o drinque e preparei outro
e pensei, quem poderia imaginar que um curso de engenharia na Old Miss
poderia trazê-lo para onde as lâmpadas balançam devagar
no verde de certa noite distante?
e Jones apareceu com o braço ao redor de sua cintura azul
e ela também andara bebendo, e eu me aproximei e disse,
marido e mulher? e isso a deixou puta porque se uma mulher não pode
pegá-lo pelo cangote e fazê-lo de gato e sapato, está acabada,
e eu me servi mais uma dose caprichada, e
disse, vocês 2 podem não perceber
mas não vamos sair vivos daqui.
bebemos o resto da noite.
você poderia ouvir, se ficasse bem parado,
a água descendo através das árvores de deus,
e as estradas que havíamos construído
dava pra ouvir os animais a cruzá-las
e os selvagens, tolos bárbaros com alguma cruz bárbara para enterrar.
e finalmente o último olhar no espelho
enquanto os amantes embriagados se abraçam
e se afastam e erguem um pedaço de palha
do teto da cabana
então acendem o isqueiro, e eu
vejo as chamas se alastrarem, como ratos esfaimados
sobre as frágeis estruturas marrons, vagarosamente mas de modo
real, e logo irreal, algo que parecia uma ópera,
e então caminhei em direção ao som da metralha,
o mesmo rio, e a lua voltada para mim
e no caminho eu vi uma cobra, das pequenas,
mais parecendo uma cascavel, mas não poderia ser uma cascavel,
e se assustou ao me ver, e eu a agarrei atrás do pescoço
antes que pudesse se enrolar e então a segurei
seu pequeno corpo se enroscando ao redor do meu pulso
como um dedo amoroso e todas as árvores abriram seus olhos
e eu levei minha boca à sua
e o amor era iluminação e lembrança,
comunistas mortos, fascistas mortos, democratas mortos, deuses mortos e
ao retornar ao que restara da cabana de Jones
lá estava seu braço morto e carbonizado ao redor de sua cintura azul e morta.
Para Jane
225 dias sob a relva
e você sabe mais do que eu.
há muito que eles secaram seu sangue,
você não é mais que um graveto seco numa lixeira.
é assim que as coisas funcionam?
neste quarto
as horas de amor
ainda fazem sombras.
quando você se foi
levou quase
tudo junto.
às noites me ajoelho
diante de tigres
que não deixarão que eu exista.
o que você foi
não voltará a se repetir.
os tigres me encontraram
e eu já não me importo.
Um Cavalo de Olhos Azul-Esverdeados
o que você vê é aquilo que vê:
os hospícios raramente
estão visíveis.
que continuemos caminhando por aí
e nos coçando e acendendo
cigarros
é mais miraculoso
do que os banhos das beldades
do que as rosas e as mariposas.
sentar-se em um pequeno quarto
e beber uma latinha de cerveja
e fechar um cigarro
ouvindo Brahms
em um radinho vermelho
é como ter voltado
de uma dúzia de batalhas
com vida
ouvir o som
da geladeira
enquanto as beldades banhadas apodrecem
e as laranjas e maçãs
rolam para longe.
Um ou dois dias depois recebi um poema de Lydia pelo correio. Era um poema longo e começava com:
Saia, velho ogro
Saia de seu buraco escuro, velho ogro
Saia para a luz do sol conosco e
Deixe que a gente ponha margaridas nos seus cabelos...
O poema seguia dizendo como seria bom dançar pelos campos na companhia de ninfas que me trariam alegria e sabedoria verdadeira. Coloquei a carta numa das gavetas da cômoda.
Fui acordado na manhã seguinte por uma batida na janela da porta da frente. Eram dez e meia.
– Suma – eu disse
– É Lydia.
– Tudo bem. Espere um minuto.
Vesti uma camiseta e um par de calças e abri a porta. Então corri até o banheiro e vomitei. Tentei escovar meus dentes, mas lá veio uma nova golfada – a doçura da pasta de dente revoltou meu estômago. Retornei para a sala.
– Você está passando mal – disse Lydia. – Quer que eu vá embora?
– Oh, não, já estou bem. Sempre acordo assim.
Lydia estava bonita. A luz entrava através das cortinas e se refletia nela. Trazia uma laranja numa das mãos e ficava jogando-a para cima. A laranja brilhava sob o sol da manhã.
– Não posso ficar. Mas queria perguntar uma coisa.
– Claro.
– Sou escultora. Queria esculpir sua cabeça.
– Tudo bem.
– Você vai ter que ir lá em casa. Não tenho um estúdio. Vamos ter que fazer por lá. Você não vai ficar nervoso, não é mesmo?
– Não.
Anotei seu endereço e as instruções para chegar até lá.
– Tente chegar às onze da manhã. As crianças chegam da escola no meio da tarde e isso atrapalha bastante.
– Estarei lá às onze – eu lhe disse.
Sentei de frente para Lydia na mesa da cozinha. Entre nós havia um grande bloco de argila. Começou a fazer perguntas.
– Seus pais ainda estão vivos?
– Não.
– Você gosta de L.A.?
– É minha cidade favorita.
– Por que você escreve sobre as mulheres do modo como faz?
– Como assim?
– Você sabe.
– Não sei, não.
– Bem, acho que é uma desgraça que um homem que escreve tão bem quanto você não saiba nada sobre as mulheres.
Não respondi.
– Merda! O que a Lisa fez com...? – Ela começou a vasculhar a sala. – Ah, essas garotinhas que consomem com as ferramentas de suas mães!
Lydia encontrou outro objeto. Começou a trabalhar o bloco de argila com uma ferramenta de madeira com um arame curvo na ponta. Ela balançava a ferramenta na minha direção por sobre o bloco. Eu a observava. Seus olhos me encaravam. Eram grandes, castanho-escuros. Mesmo seu olho ruim, aquele que não combinava muito bem com o outro, tinha um aspecto legal. Devolvi seu olhar. Lydia trabalhava. O tempo passou. Eu estava num transe. Então ela disse:
– Que tal uma parada? Toma uma cerveja?
– Beleza. Claro.
Quando ela se levantou para ir até a geladeira eu a segui. Tirou a garrafa e fechou a porta. Ao se voltar, agarrei-a pela cintura e a puxei em minha direção. Colei minha boca e meu corpo nela. Segurava a garrafa numa das mãos com o braço estendido. Beijei-a. Beijei-a de novo. Lydia me afastou.
– Está bem – ela disse –, já chega. Temos muito trabalho pela frente.
– Mulheres
Nº 6
vou ficar com o cavalo 6
numa tarde chuvosa
um copo de café de papel
na mão
tudo prestes a começar,
o vento fazendo rodopiar
pequenas cambaxirras do
grande telhado superior,
os jóqueis partindo
para uma corrida intermediária
silenciosos
e a garoa fazendo
todas as coisas
de uma só vez
quase iguais,
os cavalos em paz uns
com os outros
antes da guerra bêbada
e eu debaixo da tribuna principal
sensível aos
cigarros
conformado com o café,
então os cavalos passam
levando seus pequenos homens
consigo –
é fúnebre e gracioso
e agradável
como o desabrochar
das flores.
De alguma maneira o dinheiro se esvaiu depois disso e logo eu abandonei as corridas e fiquei sentado em meu apartamento, esperando que a licença de noventa dias acabasse. Meus nervos estavam em frangalhos graças à bebida e à ação. Não é nenhuma novidade que as mulheres dão em cima dos homens. Quando você pensa que terá um tempinho para respirar, basta erguer os olhos e outra já está por ali. Alguns dias depois de retornar ao trabalho, a outra já estava por ali. Fay. Fay era grisalha e sempre se vestia de preto. Dizia que era um protesto contra a guerra. Mas se Fay queria protestar contra a guerra, por mim tudo bem. Era uma espécie de escritora e frequentava algumas oficinas literárias. Tinha ideias sobre como Salvar o Mundo. Se ela pudesse salvá-lo para mim, isto também estaria bem. Estivera vivendo dos cheques da pensão alimentícia de um antigo marido – tinham tido três filhos –, e a mãe também lhe mandava algum dinheiro de vez em quando. Fay nunca tivera mais do que um ou dois empregos na vida.
Enquanto isso, Janko tinha uma nova história de merda. Ele me mandava pra casa a cada manhã com a cabeça doendo. Naquela época eu vinha recebendo inúmeras multas de trânsito. Parecia que a cada vez que eu olhava pelo retrovisor lá estavam as sirenes vermelhas. Um carro-patrulha ou uma moto.
Certa noite cheguei em casa tarde. Estava realmente acabado. Sacar a chave e levá-la até a fechadura estava no limite das minhas forças. Segui até o quarto e lá estava Fay na cama, lendo The New Yorker e comendo chocolates. Ela sequer disse olá.
Fui até a cozinha e procurei alguma coisa para comer. Não havia nada na geladeira. Resolvi me servir um copo d’água. Fui até a pia. Estava entulhada de porcaria. Fay gostava de guardar potes vazios e suas tampas. Os pratos sujos enchiam metade da pia e, flutuando sobre a água, junto com alguns pratos de papel, estavam os potes e as tampas.
Retornei ao quarto no exato momento em que Fay punha na boca um pedaço de chocolate.
– Veja bem, Fay – eu disse –, sei que você quer salvar o mundo. Mas será que você não pode começar pela cozinha?
– Cozinhas não são importantes – ela disse.
Era difícil bater numa mulher grisalha, de modo que eu simplesmente segui para o banheiro e deixei que a água enchesse a banheira. Um banho escaldante talvez pudesse esfriar os nervos. Quando a banheira se encheu tive medo de entrar nela. Meu corpo estropiado havia, àquela altura, endurecido de tal maneira que eu temia me afogar ali dentro.
Fui até a sala e depois de um esforço consegui tirar as calças, as cuecas, os sapatos, as meias. Retornei ao quarto e galguei a cama até junto a Fay. Não conseguia me ajeitar. Cada vez que eu me movia, o custo era alto.
O único momento em que você está sozinho, Chinaski, pensei, é quando você dirige para o trabalho ou volta dele.
Finalmente consegui encontrar uma posição sobre minha barriga. Meu corpo todo doía. Logo eu estaria de volta no trabalho. Se eu conseguisse dar um jeito de dormir, isso me ajudaria. Com alguma frequência, podia ouvir o som de uma página sendo virada, de um chocolate sendo comido. Havia sido uma de suas noites de oficina. Se ela pudesse ao menos apagar as luzes.
– Como estava a oficina? – perguntei, deitado de bruços.
– Estou preocupada com Robby.
– Oh – perguntei –, o que está acontecendo?
Robby era um cara perto dos quarenta que tinha vivido com a mãe desde que nascera. Tudo o que ele escrevia, segundo tinham me informado, eram histórias muito engraçadas sobre a Igreja Católica. Robby realmente tirava sarro dos católicos. As revistas apenas não estavam prontas para Robby, embora tivesse sido publicado uma vez num jornal canadense. Certa vez, numa das minhas noites de folga, eu tinha visto Robby. Levei Fay até esta mansão onde eles se encontravam para ler suas coisas.
– Oh! Este é o Robby! – Fay dissera. – Ele escreve essas histórias divertidíssimas sobre a Igreja Católica!
Ela havia me apontado o cara. Robby estava de costas para a gente. Sua bunda era larga e grande e molenga; ficava pendurada dentro das calças. Será que eles não veem isso?, pensei.
– Você não quer entrar? – Fay tinha perguntado.
– Talvez na próxima semana...
Fay pôs outro chocolate na boca.
– Robby está preocupado. Perdeu seu emprego de entregador. Diz que não consegue escrever sem estar empregado. Precisa do sentimento de segurança. Diz que não será capaz de escrever nada enquanto não encontrar outro trabalho.
– Caralho – eu disse –, já sei onde podemos arranjar um emprego.
– Onde? Como?
– Estão contratando gente lá nos Correios, a torto e a direito. O salário não é mau.
– OS CORREIOS! ROBBY É SENSÍVEL DEMAIS PARA TRABALHAR NOS CORREIOS!
– Desculpe – eu disse –, achei que valia a pena tentar. Boa noite.
Fay não me respondeu. Estava furiosa.
– Cartas na rua
Maja Thurup
Houve ampla cobertura da imprensa e da televisão, e a senhora estava para escrever um livro sobre tudo isso. O nome da senhora era Hester Adams, duas vezes divorciada, dois filhos. Tinha 35 anos, e alguém poderia imaginar que essa seria sua última jogada. As rugas estavam aparecendo, os peitos estavam caindo já há algum tempo, os tornozelos e as panturrilhas estavam engrossando, já havia sinais de uma barriga. A América aprendeu que a beleza reside apenas na juventude, especialmente para a mulher. Mas Hester Adams tinha a sombria beleza da frustração e da perda vindoura; era algo que rastejava por cima dela, a perda vindoura, e dava-lhe alguma coisa sexualmente atrativa, como uma mulher desesperada para quem o tempo está passando enquanto ela continua sentada em um bar cheio de homens. Hester tinha olhado ao redor, visto poucos sinais de ajuda vindos dos homens americanos e entrou em um avião para a América do Sul. Entrou na selva com sua câmera, sua máquina de escrever portátil, seus tornozelos que estão engrossando, sua pele branca e arranjou para si um canibal, um canibal negro: Maja Thurup. Maja Thurup tinha uma cara com um bom aspecto. Seu rosto parecia estar marcado por mil ressacas e mil tragédias. E era verdade: passara por mil ressacas, mas todas as tragédias tinham a mesma origem: Maja Thurup tinha o pau maior do que a média, muito maior do que a média. Nenhuma garota na aldeia o aceitava. Tinha provocado a morte de duas garotas com seu instrumento. Uma tinha sido penetrada pela frente e a outra por trás. Não fazia diferença.
Maja era um homem solitário que bebia e pensava em sua solidão até que Hester Adams chegou com um guia e sua pele branca e uma câmera. Depois das apresentações formais e algumas bebidas perto do fogo, Hester tinha entrado na cabana de Maja e aguentado tudo o que Maja Thurup podia meter e ainda pediu por mais. Era um milagre para ambos, e os dois se casaram em uma cerimônia tribal de três dias, durante a qual homens capturados de tribos inimigas eram assados e comidos em meio a danças, encantamentos e embriaguez. Foi depois da cerimônia, depois que as ressacas passaram que os problemas começaram. O pajé, notando que Hester não partilhara da carne assada do homem da tribo inimiga (decorada com abacaxi, azeitona e nozes), anunciou para todos que não se tratava de uma deusa branca, mas uma das filhas de um deus mau chamado Ritikan. (Séculos atrás, Ritikan tinha sido expulso do céu tribal por se recusar a comer qualquer coisa além de vegetais, frutas e nozes.) O anúncio causou dissensão na tribo, e dois amigos de Maja Thurup foram imediatamente assassinados por terem sugerido que a habilidade de Hester de lidar com todo o tamanho do pau de Maja era em si um milagre e o fato de que ela não ingeria outras formas de carne humana poderia ser perdoado, pelo menos temporariamente. Hester e Maja fugiram para a América, para North Hollywood para ser mais preciso, onde Hester deu início aos procedimentos para tornar Maja Thurup um cidadão americano. Sendo uma antiga professora de colégio, Hester começou a instruir Maja no uso de roupas e da língua inglesa, a beber cervejas e vinhos da Califórnia, a assistir a televisão e a se alimentar de comidas compradas no Safety Market mais próximo. Maja não apenas via televisão, mas também aparecia nela com Hester, e eles declararam seu amor publicamente. Então voltaram para seu apartamento em North Hollywood e fizeram amor. Depois Maja sentou no meio do tapete com seus livros de gramática inglesa, bebendo cerveja e vinho e cantando cantos nativos e tocando bongô. Hester trabalhava em seu livro sobre Maja e Hester. Uma grande editora estava esperando. Tudo que Hester precisava fazer era escrever.
Certa manhã, eu estava na cama lá pelas oito horas. No dia anterior eu perdera quarenta dólares em Santa Anita, minhas economias na conta do California Federal estavam se tornando perigosamente baixas e eu não tinha escrito uma história decente em um mês. O telefone tocou. Levantei, pigarreei, tossi e atendi ao telefone.
– Chinaski?
– Sim?
– Aqui é Dan Hudson.
Dan dirigia a revista Flare de Chicago. Ele pagava bem. Era o editor e o diretor.
– Olá, Dan, nossa.
– Olha, tenho algo para você.
– Claro, Dan. O que é?
– Quero que você entreviste uma puta que casou com um canibal. Torne o sexo GRANDE. Misture amor com horror, sabe?
– Sei. Tenho feito isso minha vida toda.
– Pago quinhentos dólares se conseguir entregar antes do prazo final, que é 27 de março.
– Dan, por quinhentos dólares consigo fazer do Burt Reynolds uma lésbica.
Dan me passou o endereço e um número de telefone. Levantei, joguei água na cara, tomei dois Alka-Seltezers, abri uma garrafa de cerveja e telefonei para Hester Adams. Contei-lhe que queria dar publicidade a sua relação com Maja Thurup como uma das maiores histórias de amor do século XX. Para os leitores da revista Flare. Afirmei-lhe que isso ajudaria Maja a obter sua cidadania americana. Ela concordou com a entrevista, e marcamos para a primeira hora da tarde.
Era um apartamento no terceiro andar de um prédio sem elevador. Ela abriu a porta. Maja estava sentado no chão, com seu bongô, bebendo uma garrafa de um vinho do Porto direto do gargalo. Estava descalço, vestia calças jeans apertadas e uma camiseta branca com listras pretas, zebrada. Hester estava vestindo uma roupa idêntica. Trouxe-me uma garrafa de cerveja, peguei um cigarro do maço na mesa de café e comecei a entrevista.
– Quando você viu Maja pela primeira vez?
Hester me deu uma data. Também disse a hora com exatidão e o lugar.
– Quando você começou a perceber os primeiros sentimentos de amor por Maja? Quais foram exatamente as circunstâncias que desencadearam a relação?
– Bem – disse Hester –, foi quando...
– Ela me ama quando eu meto o troço nela – disse Maja do tapete.
– Ele aprendeu inglês muito rapidamente, não é mesmo?
– Sim, ele é brilhante.
Maja pegou a garrafa e tomou um bom gole.
– Meto o troço nela, ela dizer “Oh meu deus oh meu deus oh meu deus!” Rá, rá, rá, rá!
– Maja tem um corpo fantástico – ela disse.
– Ela engole também – disse Maja –, ela engole bem. Garganta profunda, rá, rá, rá!
– Amei Maja desde o começo – disse Hester. – Foram seus olhos, seu rosto... tão trágico. E o jeito que ele caminhava. Ele caminha, bem, ele caminha meio que como um tigre.
– Porra – disse Maja –, trepamos e esporreamos, porra, foda, porra. Estou ficando cansado.
Maja bebeu mais um pouco. Ele me olhou.
– Você fode ela. Eu cansei. Ela grande túnel faminto.
– Maja tem um senso de humor muito peculiar – disse Hester. – Isso foi outra coisa que me fez amá-lo ainda mais.
– A única coisa que você gosta em mim – disse Maja – é o meu caralho poste telefônico.
– Maja está bebendo desde a manhã – disse Hester –, você terá de perdoá-lo.
– Talvez seja mais adequado que eu volte quando ele estiver melhor.
– Acho que sim.
Hester marcou um novo horário comigo, duas da tarde do dia seguinte.
Tudo corria bem. Eu precisava de fotografias. Conhecia um fotógrafo totalmente arruinado, um tal de Sam Jacoby que era bom e cobraria barato. Levei-o até lá comigo. Era uma tarde ensolarada com apenas uma fina camada de poluição no ar. Subimos e toquei a campainha. Não houve resposta. Toquei a campainha mais uma vez. Maja abriu a porta.
– Hester não está – ele disse. – Foi à loja de conveniências.
– Tínhamos hora marcada para as duas da tarde em ponto. Gostaria de entrar e esperar.
Entramos e sentamos.
– Mim tocar tambor para você – disse Maja.
Ele tocou o tambor e cantou alguns cantos da floresta. Ele era muito bom. Estava bebendo outra garrafa de vinho do Porto. Ainda estava vestindo sua camiseta listrada ao estilo zebra e seus jeans.
– Foder, foder, foder – ele disse. – É só o que ela quer. Ela me deixa louco.
– Sente falta da floresta, Maja?
– Você não caga contra a corrente, paizinho.
– Mas ela ama você, Maja.
– Rá, rá, rá!
Maja fez outro solo no tambor. Mesmo bêbado ele era bom.
Quando Maja acabou, Sam me perguntou:
– Você acha que ela pode ter uma cerveja na geladeira?
– Pode ser.
– Minha cabeça não está boa. Preciso de uma cerveja.
– Vai lá. Traga duas. Depois compro mais para ela. Eu devia ter trazido algumas.
Sam levantou-se e foi até a cozinha. Ouvi a porta da geladeira se abrindo.
– Estou escrevendo um artigo sobre você e Hester – disse para Maja.
– Mulher buracão. Nunca enche. Como um vulcão.
Ouvi Sam vomitando na cozinha. Ele bebia muito. Sabia que estava de ressaca. Mas ainda assim era um dos melhores fotógrafos em atividade. Então tudo ficou quieto. Sam voltou caminhando. Sentou-se. Não trouxe a cerveja.
– Eu tocar tambor mais uma vez – disse Maja.
Ele tocou novamente. Ainda estava tocando bem. Embora não tão bem como da outra vez. O vinho estava pegando.
– Vamos sair daqui – Sam me disse.
– Tenho que esperar por Hester – respondi.
– Cara, vamos embora – disse Sam.
– Vocês querem um pouco de vinho? – Maja ofereceu.
Levantei e fui até a cozinha buscar uma cerveja. Sam me seguiu. Fui em direção à geladeira.
– Por favor, não abra essa porta! – ele disse.
Sam caminhou até a pia e vomitou mais uma vez. Olhei para a porta da geladeira. Não a abri. Quando Sam acabou, eu disse:
– Tudo bem. Vamos embora.
Caminhamos até a sala da frente, onde Maja ainda estava sentado tocando seu bongô.
– Eu tocar tambor mais uma vez – ele disse.
– Não, obrigado, Maja.
Saímos e descemos a escada e ganhamos a rua. Entramos no meu carro. Dei a partida e arranquei. Não sabia o que dizer. Sam não disse nada. Estávamos no bairro comercial. Dirigi até um posto de gasolina e disse ao frentista para encher o tanque com gasolina comum. Sam saiu do carro e foi até um telefone público para ligar para a polícia. Vi Sam sair da cabine telefônica. Paguei pela gasolina. Não consegui minha entrevista. Fiquei sem os meus quinhentos dólares. Esperei enquanto Sam voltava para o carro.
– Ao sul de lugar nenhum
Os Lixeiros
aí vêm eles
esses caras
caminhão cinza
rádio ligado
estão com pressa
é muito excitante:
camisa aberta
as barrigas pendendo
recolhem as latas de lixo
esvaziam-nas na compactadora
e então o mecanismo sobe
barulhento demais...
eles precisam preencher formulários de requerimento
para conseguir esses trabalhos
precisam pagar as prestações da casa e
dirigem carros do ano
embebedam-se sábado à noite
agora sob o sol de Los Angeles
correm pra lá e pra cá atrás de latas de lixo
todo o lixo vai pra algum lugar
e eles gritam uns para os outros
então estão todos no caminhão
seguindo para oeste em direção ao mar
nenhum deles sabe
que estou vivo
REX DISPOSAL CO.
A Vida Feliz Dos Cansados
nitidamente em sintonia com
a canção de um prisioneiro
fico de pé na cozinha
a meio caminho da loucura
sonhando com a Espanha de
Hemingway.
é um mormaço, como dizem,
mal consigo respirar,
já dei uma cagada e
li as páginas de esporte,
abri a geladeira
olhei para um pedaço púrpuro de
carne,
deixei-o por
ali.
o lugar para se achar o centro
está na margem
que golpeando o céu
é como um encanamento
vibrando.
coisas terríveis se arrastam
pelas paredes; flores cancerígenas crescem
na varanda; meu gato branco teve
um olho arrancado
e há apenas 7 dias
de corrida para o fim da
temporada de verão.
a dançarina nunca chegou do
Club Normandy
e Jimmy não trouxe a
puta,
mas há um cartão postal do
Arkansas
e um folheto do Food King:
10 pacotes de férias no Havaí,
e tudo o que eu preciso fazer é
preencher o formulário.
mas eu não quero ir pro
Havaí.
quero a puta com olhos de pelicano
umbigo de latão
e
coração de marfim.
tirei da geladeira o pedaço de carne
púrpura
larguei-o na
frigideira.
então o telefone tocou.
dobrei-me sobre um dos joelhos e rolei para debaixo
da mesa. fiquei ali até que
o telefone parasse de
tocar.
então me levantei e
liguei o
rádio.
não por acaso Hemingway enchia
a cara, a Espanha que se foda,
não poderia mesmo
suportá-la.
é puro
mormaço.
O Soldado, Sua Mulher e o Vagabundo
eu vivia como um vagabundo em São Francisco mas certa vez consegui
ir a um concerto sinfônico junto com pessoas
bem-vestidas
e a música era boa mas algo relacionado à
audiência não era
e algo relacionado à orquestra
e ao maestro não
era,
embora o prédio fosse ótimo e a
acústica perfeita
eu preferia escutar música sozinho
no meu rádio
e depois disso eu voltei para o meu quarto e
liguei o rádio mas
veio então uma pancada na parede:
“DESLIGA ESSE MALDITO NEGÓCIO!”
havia um soldado no quarto ao lado
vivendo com sua mulher
e logo ele seria mandado para o front para me proteger
de Hitler e então
eu desliguei o rádio e ouvi sua
mulher dizer, “você não devia ter feito isso”.
e o soldado disse, “POR QUE ESSE OTÁRIO NÃO VAI SE FODER?!”
o que me pareceu ser uma ótima coisa para
fazer com sua mulher.
claro,
isso nunca aconteceu.
de qualquer modo, jamais voltei a pôr meus pés num concerto
e naquela noite escutei o rádio bem
baixinho, meu ouvido colado ao
alto-falante.
a guerra tem seu preço e a paz nunca dura e
milhões de homens na flor da idade iriam morrer por aí
e enquanto eu escutava música clássica
ouvi os dois fazendo amor, desesperados e
lastimosos, através de Shostakovich, Brahms,
Mozart, através do crescendo e do clímax
e através da parede
dividida de nossas escuridões.