A Noite Em Que Eles Pegaram o Branquelo
sonho de pássaro e papéis de parede descolando
sintomas de um sono sombrio
e às 4 da manhã o Branquelo saiu do seu quarto
(o consolo para o pobre está nos números
como papoulas no verão)
e ele começou a gritar socorro! socorro! socorro!
(um velho com um cabelo tão branco quanto uma presa de marfim)
e ele vomitava sangue
socorro socorro socorro
e eu o ajudei a se esticar no chão do hall
e bati na porta da senhoria
(ela é francesa como o melhor dos vinhos mas dura como
um bife americano) e
gritei seu nome, Marcella! Marcella!
(o leiteiro logo chegaria com suas garrafas
de um branco puro como gélidos lírios)
Marcella! Marcella! socorro socorro socorro,
e ela gritou através da porta:
seu polaco de merda, encheu a cara de novo? Então
o olho de Prometeu à porta
e ela
calculando o rio vermelho em seu cérebro retangular
(oh, não passo de um polaco bêbado
um cara de segunda classe um escritor de cartas para jornais)
e ela falou ao telefone como uma senhora que ordenasse pão e ovos,
e eu me agarrei à parede
sonhando com poemas ruins e com minha própria morte
e então os homens vieram... um com um charuto, o outro com a barba por fazer,
e eles o puseram de pé e desceram a escada
sua cabeça de marfim em chamas (Branquelo, meu parceiro de trago...
todas as canções, as agitadas canções ciganas, falam de
guerra, lutas, das boas putas,
de pardieiros flutuando em vinho,
flutuando num falar frenético,
charutos baratos e raiva)
e a sirene o levou de vez, exceto pela parte vermelha
e eu comecei a vomitar e a besta francesa gritou
você vai ter que limpar essa sujeira, toda ela, você e o Branquelo!
e os navios a vapor partiram e os homens ricos em seus iates
beijam garotas jovens o suficiente para serem suas filhas,
e o leiteiro chegou e ficou apenas olhando
e as luzes de néon piscavam vendendo alguma coisa
pneus ou óleo ou roupas íntimas
e ela bateu a porta e eu estava mais uma vez sozinho
envergonhado
era a guerra, a guerra eterna, a guerra que não se acaba nunca,
e eu gritei colado às paredes descascadas,
a fraqueza de nossos ossos, nossos cérebros fracos e embriagados,
e a manhã começou a rastejar pelo hall...
soavam as descargas, havia bacon, havia café,
havia ressacas, e eu também
entrei e fechei minha porta e me sentei e esperei pelo nascer do sol.
A Leitura de Poesia
ao meio-dia em ponto
numa pequena faculdade próxima à praia
sóbrio
o suor me escorrendo pelos braços
uma gota de suor sobre a mesa
esmagada por um de meus dedos
maldito dinheiro maldito dinheiro
meu deus eles devem achar que eu adoro isso aqui tanto quanto os outros
mas é apenas pra pagar o pão e a cerveja e o aluguel
maldito dinheiro
estou nervoso enojado sinto-me mal
pobres diabos estou caindo estou caindo
uma mulher se levanta
sai da sala
bate a porta
um poema sujo
alguém tinha me dito para não ler poemas sujos
por aqui
é tarde demais.
meus olhos não conseguem ver alguns versos
leio mesmo
assim
desesperado tremendo
enojado
eles não conseguem ouvir minha voz
e eu digo,
desisto, não dá mais, já
era.
e mais tarde no meu quarto
lá estão a cerveja e o uísque
o sangue de um covarde.
isto então
será meu destino:
arrastar-me atrás de uns trocados em auditórios pequenos e escuros
lendo poemas de que há muito já me
cansei.
e então me acostumei a pensar
que os homens que dirigem nossos ônibus
ou limpam nossas privadas
ou matam outros homens aí pelos becos não passam de uns
otários.
Prato Feito
levei minha amiga à sua última leitura de poesia,
ela disse.
sim, sim? perguntei.
ela é jovem e bonita, ela disse.
e? perguntei.
ela achou um
lixo.
então ela esticou as pernas no sofá
e tirou as
botas.
minhas pernas não são lá essas coisas,
ela disse.
tudo bem, pensei, minha poesia não é lá
essas coisas; suas pernas não são lá essas
coisas.
misturemos as duas.
Um Livrinho Grátis de 25 Páginas
matando por uma cerveja morrendo
pela vida e por causa da vida
numa tarde ventosa em Hollywood
escutando música sinfônica no meu radinho vermelho
sobre o chão.
um amigo disse,
“tudo o que você precisa fazer é ir lá fora e se deitar
na calçada
alguém aparece e o recolhe
alguém tomará conta de você”.
olhei pela janela para a calçada
vejo uma coisinha maravilhosa caminhando na calçada
ela não se deitaria ali,
somente em lugares especiais para pessoas especiais com $$$$ especiais
e
maneiras especiais
enquanto eu estou matando por uma cerveja numa tarde ventosa em
Hollywood,
nada como uma bela jovem que rebola e passa por você na
calçada
rebolando e passando em frente à sua janela faminta
está vestida nos melhores trajes
não dá bola para o que você diz
para sua aparência e o que você faz
contanto que você não se ponha em seu
caminho, e deve ser porque ela não caga ou
não tem sangue
ela deve ser uma nuvem, amigo, o modo como passa flutuando pela gente.
estou enjoado demais para me deitar
as calçadas me assustam
a maldita cidade inteira me assusta,
o que me tornarei
o que já me tornei
me assusta.
ah, a bravata se foi
a grande corrida através do centro se foi
numa tarde ventosa em Hollywood
meu rádio estala e cospe sua música suja
cortando um chão cheio de garrafas de cerveja vazias.
agora escuto uma sirene
ela se aproxima
a música para
o homem no rádio diz,
“vamos mandar um livrinho de 25 páginas grátis para você:
ENFRENTANDO OS CUSTOS DA UNIVERSIDADE”.
a sirene fenece dentro das montanhas de caixa de papelão
e eu olho outra vez através da janela enquanto o pulso cerrado de
uma nuvem carregada se impõe...
o vento balança as plantas lá fora
espero pelo entardecer espero pela noite espero sentado numa cadeira
junto à janela...
o cozinheiro apanha e joga na água
o caranguejo ainda vivo
vermelho-rosa e salgado e de peito sólido e
o jogo
continua
venham me pegar.
O Pior E o Melhor
nos hospitais e nas cadeias
está o pior
nos hospícios
está o pior
nas coberturas
está o pior
nos albergues vagabundos
está o pior
nas leituras de poesia
nos concertos de rock
nos shows beneficentes para os inválidos
está o pior
nos funerais
nos casamentos
está o pior
nas paradas
nos rinques de patinação
nas orgias sexuais
está o pior
à meia-noite
às 3 da manhã
às 5h45 da tarde
está o pior
pelotões de fuzilamento
rasgando o céu
isto é o melhor
pensar na Índia
olhando para as carrocinhas de pipoca
assistindo ao touro pegar o matador
isto é o melhor
lâmpadas encaixotadas
um velho cão se coçando
amendoins em um saquinho
isto é o melhor
jogar inseticida nas baratas
um par de meias limpas
coragem natural vencendo o talento natural
isto é o melhor
de frente para pelotões de fuzilamento
lançar pedaços de pão às gaivotas
fatiar tomates
isto é o melhor
tapetes com marcas de cigarro
fendas nas calçadas
garçonetes que mantêm a sanidade
isto é o melhor
minhas mãos mortas
meu coração morto
silêncio
adágio de pedras
o mundo em chamas
isto é o melhor
para mim.
O carteiro favorito de Stone era Matthew Battles. Battles nunca aparecia com um amassadinho na camisa. De fato, tudo o que ele usava era novo, parecia novo. Os sapatos, as camisas, as calças, o quepe. Seus sapatos brilhavam de verdade e nenhuma de suas roupas parecia ter sido lavada mais do que uma vez. Assim que uma camisa ou um par de calças apresentavam algum sinal de uso, ele os jogava fora.
Quando Matthew passava, o Stone frequentemente nos dizia:
– Olhem bem, isso sim é um carteiro!
E o Stone dizia aquilo a sério. Seus olhos quase faiscavam de amor.
E Matthew ficava lá em pé em frente à sua caixa, limpo e ereto, penteado e com um rosto descansado, os sapatos brilhando de um jeito vitorioso, jogando suas cartas com alegria.
– Você é um autêntico carteiro, Matthew!
– Obrigado, sr. Jonstone!
Certa vez, às cinco da manhã, entrei e fiquei esperando bem atrás do Stone. Ele parecia um pouco curvo debaixo de sua camisa vermelha.
Moto estava ao meu lado. Ele me disse:
– Flagraram o Matthew ontem.
– Flagraram ele?
– É, ele andava abrindo as correspondências. Tirava o dinheiro das cartas para o Templo Nekalayla. Depois de quinze anos de serviço.
– Como descobriram?
– Graças a umas senhoras. As velhas mandavam donativos em dinheiro para o Nekalayla e não estavam recebendo nem um cartão de agradecimento. Nekalayla avisou os Correios e os Correios ficaram de olho em Matthew. Pegaram ele tirando o dinheiro das cartas no banheiro.
– Não brinca?
– Sério. Foi pego em plena luz do dia.
Encostei-me na parede.
Nekalayla tinha construído um enorme templo, pintando-o de um verde horrendo, acho que aquele verde lhe lembrava a cor de dinheiro, e tinha um escritório com uma equipe de trinta ou quarenta pessoas que não faziam nada além de abrir envelopes, retirar os cheques e o dinheiro, registrar o montante, o nome do remetente, a data e assim por diante. Outros se ocupavam enviando livros e panfletos escritos por Nekalayla, sua foto estava na parede, uma foto enorme dele com roupas religiosas e barba, havia também um quadro muito grande de N., voltado para o escritório, como se vigiasse a todos.
Nekalayla declarava que certa vez, em suas andanças pelo deserto, encontrou Jesus Cristo e que Ele tinha lhe contado tudo. Sentaram juntos numa pedra, e J.C. foi desembuchando tudo. Agora ele transmitia os segredos para os que pudessem pagar por eles. Também celebrava uma cerimônia todo domingo. Seus ajudantes, que eram também seus seguidores, viviam tocando sinos e campainhas.
Imagine Matthew Battles tentando sacanear Nekalayla, o mesmo cara que tinha se encontrado com Jesus Cristo num deserto!
– Alguém já comentou algo com o Stone? – perguntei.
– Você está brincando?
Ficamos sentados por mais ou menos uma hora. Um estagiário foi designado para substituir o Matthew. Os outros foram escalados pra outros serviços. Fiquei sentado sozinho atrás do Stone. Então levantei e fui até sua mesa.
– Sr. Jonstone?
– Sim, Chinaski?
– Onde está Matthew hoje? Doente?
O Stone baixou a cabeça. Olhou o jornal que tinha nas mãos e fingiu continuar a sua leitura. Voltei para o meu lugar e me sentei.
Às sete da manhã, o Stone se virou:
– Não há nada pra você hoje, Chinaski!
Levantei e fui em direção à porta. Parei bem ali.
– Bom dia, sr. Jonstone. Tenha um bom dia.
Ele não respondeu. Desci até a loja de bebidas e comprei uma garrafinha de Grandad para o café da manhã.
As vozes das pessoas eram as mesmas, não importa onde você entregasse a correspondência, você escutava sempre as mesmas coisas.
– Você está atrasado, não está?
– Onde está o carteiro de sempre?
– Olá, Tio Sam!
– Carteiro! Carteiro! Essa carta não é daqui!
As ruas estavam cheias de pessoas insanas e estúpidas. A maioria delas morava em belas casas e não parecia trabalhar, e você se perguntava como elas faziam para sobreviver. Havia um cara que nunca deixava você colocar a correspondência em sua caixa. Ficava parado na calçada, esperando você aparecer a duas ou três quadras de distância e lá ficava, a mão estendida.
Perguntei a alguns dos outros que já tinham feito aquela rota:
– O que há de errado com aquele cara que fica lá parado com a mão estendida?
– Que cara que fica parado com a mão estendida? – perguntaram.
Todos eles também tinham a mesma voz.
Um dia, quando eu fazia essa rota, o homem-que-estende-a-mão estava a meia quadra, rua acima. Conversava com um vizinho, olhou para trás em minha direção a mais de uma quadra de distância e achou que daria tempo de voltar e me alcançar. Quando se virou de costas para mim, comecei a correr. Nem acredito que eu possa ter entregado as cartas tão depressa, todo avanço e movimento, sem fazer uma pausa, eu ia batê-lo. Já estava com meia carta em sua caixa quando ele se voltou e me viu.
– OH, NÃO, NÃO, NÃO! – gritou. – NÃO A COLOQUE NA CAIXA!
Desceu a rua correndo em minha direção. Tudo o que eu vi foi o movimento indistinto de seus pés. Ele deve ter corrido cem metros em 9,2 segundos.
Pus a carta em sua mão. Olhei-o abrir a carta, andar em direção à varanda, abrir a porta e entrar em casa. Alguém um dia terá de me dizer o que significava tudo aquilo.
Outra vez eu estava numa nova rota. O Stone sempre me colocava em rotas difíceis, mas de vez em quando, dadas as circunstâncias das coisas, ele era obrigado a me deslocar para uma menos perigosa. Com a rota 511 eu ia me dando muito bem e lá estava eu pensando novamente na hora do almoço, o almoço que nunca chegava.
Era um bairro residencial de classe média. Sem apartamentos. Somente casas e mais casas com seus jardins bem cuidados. Mas era uma nova rota e eu ia me perguntando onde estaria a armadilha. Até o tempo estava agradável.
Por Deus, pensei, desta vez vou conseguir! Almoço e volto ainda em tempo! A vida, finalmente, era suportável!
As pessoas por aqui não tinham nem cachorro. Ninguém parado do lado de fora esperando a sua carta. Eu não ouvia uma voz humana por horas. Talvez eu tivesse atingido a minha maturidade como carteiro, o que quer que isto significasse. Eu seguia em frente, eficiente, quase dedicado.
Lembrei-me de um dos carteiros mais velhos, apontando o peito e dizendo:
– Chinaski, um dia esse negócio vai pegar você, vai pegar bem aqui!
– Ataque cardíaco?
– Dedicação ao serviço. Espere e verá. Você sentirá orgulho com o trabalho.
– Bobagem!
Mas o homem tinha sido sincero.
Pensava nele enquanto caminhava.
Agora eu levava uma carta registrada com recibo a ser assinado.
Avancei e toquei a campainha. Alguém abriu o postigo da porta. Não pude ver o rosto.
– Carta registrada!
– Para trás! – exclamou uma voz de mulher. Para trás para que eu possa ver o seu rosto!
Bem, aí estava, pensei, mais uma louca.
– Escute, minha senhora, a senhora não precisa ver o meu rosto. Vou enfiar este canhoto na sua caixa de correio e a senhora pode apanhar a sua carta lá no posto. Leve um documento de identidade.
Deixei o canhoto em sua caixa e fui me afastando.
A porta se abriu e ela veio correndo. Usava uma dessas combinações transparentes e estava sem sutiã. Apenas uma calcinha azul-marinho. Seu cabelo estava despenteado e armado como se tentasse fugir da cabeça. Parecia haver algum tipo de creme em seu rosto, principalmente debaixo dos olhos. O seu corpo era branco, como se o sol jamais tivesse tocado sua pele e seu rosto tinha um aspecto pouco saudável. Sua boca estava escancarada. Usava um risco de batom e era bem torneada de cima a baixo...
Percebi tudo isso quando ela correu em minha direção. Já estava deslizando a carta registrada de volta ao malote.
Ela gritou:
– Me dê a carta!
Eu disse:
– Espere, a senhora terá...
Ela agarrou a carta, correu até a porta, abriu-a e correu para dentro.
Droga! Você não podia voltar sem a carta registrada ou ao menos a assinatura! Era preciso registrar, assinar, dar baixa nessas coisas.
– Ei!
Fui atrás dela e meti o pé na porta bem a tempo.
– EI! SUA DESGRAÇADA!
– Vá embora! Vá embora! Você é um bandido!
– Olhe, senhora! Tente entender! A senhora precisa assinar a carta. Não pode ficar com ela assim! A senhora está roubando os Correios dos Estados Unidos!
– Vá embora, seu bandido!
Joguei todo o meu peso contra a porta e entrei sala adentro. A escuridão era total. Todas as persianas estavam baixadas. Todas as persianas da casa estavam baixadas.
– O SENHOR NÃO TEM O DIREITO DE ENTRAR NA MINHA CASA! SAIA!
– E a senhora não tem o direito de roubar os Correios! Ou devolve a carta ou terá de assiná-la. Depois disso eu saio.
– Está bem! Está bem! Eu assinarei!
Mostrei onde assinar e lhe entreguei uma caneta. Olhei para os seus peitos e para o resto do corpo e pensei, que pena que ela seja louca, que pena, que pena.
Ela me devolveu a caneta e a sua assinatura – era simplesmente um rabisco. Abriu a carta e começou a ler, enquanto me virava para sair.
Então se posicionou em frente à porta, os braços em cruz. A carta estava no chão.
– Bandido! Bandido! Bandido! Você veio aqui para me estuprar!
– Escute, senhora, deixe eu passar!
– A MALDADE ESTÁ ESTAMPADA NA SUA CARA!
– E a senhora acha que eu não sei? Agora me deixe sair!
Com uma das mãos tentei empurrá-la para o lado. Ela cravou as unhas em meu rosto, de jeito. Deixei cair o malote, o meu quepe escorregou, e, enquanto eu pegava um lenço para estancar o sangue, ela avançou e atacou a outra face.
– SUA VADIA! QUE DIABOS HÁ DE ERRADO COM VOCÊ?
– Viu? Viu só? Você é um bandido!
Ela estava de pé bem junto de mim. Agarrei-a pela bunda e lhe beijei a boca. Aqueles peitos roçavam em mim, ela toda estava junto a mim. Afastou a cabeça para trás, distanciando-se:
– Estuprador! Estuprador! Maldito estuprador!
Me inclinei e levei minha boca a um dos peitos, depois beijei o outro.
– Estupro! Estupro! Estou sendo estuprada!
Ela estava certa. Puxei suas calcinhas, abri o zíper, coloquei meu pau para dentro. Então fui conduzindo-a em direção ao sofá. Caímos sobre ele.
Ela ergueu as pernas bem alto.
– ESTUPRO! – gritou.
Meti até gozar, fechei o zíper, apanhei a mala do correio e me afastei enquanto ela olhava absorta e em silêncio para o teto...
Perdi o almoço, mas nem assim consegui cumprir a tabela.
– Você está quinze minutos atrasado – disse o Stone.
Eu não disse nada.
O Stone olhou pra mim.
– Por Deus, o que houve com o seu rosto? – perguntou.
– O que houve com o seu? – perguntei.
– O que você quer dizer?
– Esquece.
– Cartas na rua
Você e a Sua Cerveja e o Quão Maravilhoso você é
Jack entrou e encontrou o maço de cigarros junto à lareira. Ann estava no sofá lendo um exemplar da Cosmopolitan. Jack acendeu um cigarro e sentou-se. Faltavam dez minutos para a meia-noite.
– Charley disse para você não fumar – disse Ann, levantando os olhos da revista.
– Mereço um cigarro. Esta noite foi dura.
– Ganhou?
– Não foi unânime, mas ganhei. Benson era um cara duro, muita coragem. Charley disse que Parvinelli é o próximo. Ganhando do Parvinelli, ganhamos o campeonato.
Jack se levantou, foi até a cozinha, voltou com uma garrafa de cerveja.
– Charley me disse pra manter você longe da cerveja – disse Ann enquanto baixava a revista.
– Charley disse isso, Charley disse aquilo... Estou cansado disso. Ganhei a luta. Ganhei dezesseis seguidas, tenho direito a um cigarro e a uma cerveja.
– Tem de manter a forma.
– Não importa. Surro qualquer um deles.
– Você é tão bom... Quando você se embebeda, tenho que ficar ouvindo “como você é bom”. É de dar nos nervos.
– Eu sou bom. Dezesseis seguidas, quinze nocautes. Quem é melhor?
Ann não respondeu. Jack levou sua garrafa de cerveja e seu cigarro para o banheiro.
– Você nem me deu um beijo ao chegar. A primeira coisa que você fez foi pegar a sua garrafa de cerveja. Tão bom, certo. Um bom bebedor de cerveja.
Jack não respondeu. Cinco minutos mais tarde, apareceu em pé na porta do banheiro, com as calças e os calções pelos tornozelos.
– Pelo amor de Deus, Ann, não dá pra deixar nem um rolo de papel higiênico aqui?
– Desculpa.
Foi até o armário e levou um rolo para ele. Jack terminou o serviço e saiu. Então terminou sua cerveja e pegou outra.
– Aqui está você, vivendo com o melhor peso médio do mundo e tudo que faz é reclamar. Um monte de garotas gostaria de estar aqui comigo, e tudo que você faz é ficar sentada e reclamar.
– Sei que você é bom, Jack, talvez até seja o melhor, mas você não faz ideia de como é entediante ficar sentada e ouvir você dizer mais e mais uma vez o quão maravilhoso você é.
– Oh, então você está entediada, é isso?
– Sim, porra, você e a sua cerveja e o quão maravilhoso você é.
– Diga o nome de um peso médio que seja melhor. Você nem mesmo vai às minhas lutas.
– Existem outras coisas além de lutar, Jack.
– Como o quê? Passar o dia com essa bunda no sofá lendo Cosmopolitan?
– Gosto de exercitar a mente.
– E deveria. Tem muito ainda pra progredir nesse terreno.
– Estou dizendo que existem outras coisas além de lutar.
– Como o que, por exemplo?
– Bem, arte, música, pintura, coisas desse tipo.
– E você sabe fazer alguma delas?
– Não, mas aprecio.
– Merda, prefiro ser o melhor no que estou fazendo.
– Bom, melhor, o único... Deus, você não consegue apreciar as pessoas pelo que elas são?
– Pelo que elas são? O que a maioria delas é? Lesmas, sanguessugas, dândis, dedos-duros, cafetões, empregados...
– Você está sempre rebaixando os outros. Nenhum dos seus amigos é bom o suficiente. Você é o fodão!
– Isso mesmo, boneca.
Jack foi até a cozinha e voltou com outra cerveja.
– Você e a sua maldita cerveja!
– É um direito meu. Eles vendem. Eu compro.
– Charley disse...
– Quero que Charley se foda!
– Você é o melhor!
– Isso mesmo. Pelo menos Pattie sabia disso. Ela admitia e se orgulhava. Sabia o que isso custava. Tudo que você faz é reclamar.
– Bem, por que você não volta pra ela? O que está fazendo aqui comigo?
– Era bem nisso que estava pensando.
– Bem, não somos casados, posso ir embora a qualquer hora.
– Isso é o que está nos fodendo. Merda, chego aqui morto de cansado depois de uma luta dura de dez assaltos, e você nem mesmo fica feliz por eu ter vencido. Tudo que você faz é reclamar de mim.
– Escute, Jack, existe mais na vida além de lutar. Quando o conheci, admirei-o pelo que você era.
– Eu era um lutador. Não existe nenhuma outra coisa além de lutar. Isso é o que sou: um lutador. Essa é a minha vida e sou bom nisso. O melhor. Noto que você sempre simpatiza com os lutadores de segunda classe... como Toby Jorgenson.
– Toby é muito engraçado. Tem um senso de humor, um senso de humor de verdade. Gosto do Toby.
– Sua marca são nove vitórias, apenas cinco por nocaute e uma derrota. Dou uma surra nele mesmo podre de bêbado.
– E Deus sabe que você fica podre de bêbado frequentemente. Como você acha que me sinto nas festas quando você está caindo de bêbado, rolando no chão, quando não está se gabando pela sala, dizendo pra todo mundo “SOU O MELHOR, O MELHOR, O MELHOR DE TODOS!”? Não acha que isso faz com que eu me sinta um cu?
– Talvez você seja um cu mesmo. Se gosta tanto do Toby, por que não vai ficar com ele?
– Ah, só disse que gostava dele, achei ele engraçado, isso não quer dizer que quero ir para a cama com ele.
– Bem, você vai pra cama comigo e diz que sou entediante. Não sei o que diabos você quer.
Ann não respondeu. Jack se levantou, caminhou até o sofá, ergueu a cabeça de Ann e beijou-a, retornou ao seu lugar e se sentou.
– Escute, deixe-me contar sobre essa luta com o Benson. Até você teria ficado orgulhosa de mim. Ele me derruba no primeiro assalto, uma direita perigosa. Levanto e o seguro o resto do assalto. Caio outra vez no segundo assalto e quase não consigo me levantar quando a contagem já estava em oito. Seguro ele outra vez. Uso alguns dos assaltos seguintes para recuperar minhas pernas. Ganho o sexto, o sétimo e o oitavo assaltos, derrubo ele uma vez no nono e duas vezes no décimo. Não acho que era luta para decidir nos pontos. Mas os juízes acharam que era. Venci, mas não foi unânime. Bem, são 45 mil, entende, garota? Quarenta e cinco mil. Sou ótimo. Não dá pra negar. Sou muito bom. Dá pra negar?
Ann não respondeu.
– Vamos, diz que eu sou o melhor.
– Está bem, você é o melhor.
– Bem, começamos a nos entender.
Jack caminhou até ela e a beijou novamente.
– Sinto que sou tão bom. Boxe é uma obra de arte, realmente é. É preciso ter coragem para ser um grande artista e é preciso ter coragem pra ser um bom lutador.
– Tudo bem, Jack.
– Tudo bem, Jack? É tudo que você tem a dizer? Pattie costumava ficar feliz quando eu ganhava. Ficávamos ambos felizes a noite inteira. Você não pode compartilhar algo de bom que eu fiz? Porra, você está apaixonada por mim ou está apaixonada pelos perdedores, aqueles merdas? Acho que você seria mais feliz se eu chegasse aqui como perdedor.
– Quero que você vença, Jack, é só que você põe muita ênfase no que faz...
– Porra, é o meu sustento, minha vida. Me orgulho de ser o melhor. É como voar, é como sair voando pelo céu espancando o sol.
– O que você vai fazer quando não puder mais lutar?
– Porra, vamos ter bastante dinheiro para fazer o que quisermos.
– Menos nos dar bem, talvez.
– Talvez eu possa aprender a ler Cosmopolitan, melhorar minha mente.
– Bem, há espaço para melhorias.
– Vai se foder!
– Quê?
– Vai se foder!
– Bem, é algo que você não faz já há algum tempo.
– Alguns caras gostam de foder mulheres que não param de reclamar, eu não gosto.
– Imagino que Pattie não reclamava?
– Todas reclamam, mas você é a campeã.
– Bem, por que não volta para Pattie?
– Você está aqui agora. Só posso hospedar uma puta de cada vez.
– Puta?
– Puta.
Ann se levantou e foi até o armário, pegou sua mala e começou a guardar suas roupas ali. Jack foi até a cozinha e pegou outra garrafa de cerveja. Ann estava chorando, tomada de fúria. Jack sentou com a cerveja e tomou um bom gole. Precisava de um uísque, precisava de uma garrafa de uísque. E de um bom charuto.
– Posso vir pegar o resto das minhas coisas quando você não estiver por aqui.
– Não se preocupe. Mando pra você.
Ela parou junto à porta.
– Bem, imagino que seja o fim – ela disse.
– Creio que sim – respondeu Jack.
Ela fechou a porta e se foi. Procedimento padrão. Jack terminou sua cerveja e foi até o telefone. Discou o número de Pattie. Ela atendeu.
– Pattie?
– Oi, Jack, como tem passado?
– Ganhei uma grande essa noite. Não foi unânime. Tudo que tenho que fazer é passar por cima do Parvinelli e levo o campeonato.
– Vai acabar com a raça deles, Jack. Sei que você consegue.
– O que vai fazer essa noite, Pattie?
– É uma da manhã, Jack. Andou bebendo?
– Um pouco. Estou comemorando.
– E Ann?
– Brigamos. Só ando com uma mulher por vez, você sabe disso, Pattie.
– Jack...
– Quê?
– Estou com um cara.
– Um cara?
– Toby Jorgenson. Ele está no banheiro...
– Oh, sinto muito.
– Também sinto muito, Jack. Eu amava você... talvez ainda ame.
– Merda, vocês mulheres gostam mesmo de jogar essa palavra por aí...
– Sinto muito, Jack.
– Tudo bem.
Ele desligou. Então foi até o armário pegar seu casaco. Vestiu, terminou a cerveja, desceu o elevador e foi até o carro. Dirigiu pela Normandie a cem quilômetros por hora, parou na loja de bebidas na Hollywood Boulevard. Saiu do carro e entrou na loja. Comprou um pacote de cerveja de seis garrafas Michelob, uma caixa de Alka-Seltzer. Então, no caixa, pediu ao funcionário por uma garrafa de Jack Daniels. Enquanto o funcionário estava somando as compras, um bêbado entrou com dois pacotes de seis cervejas Coors.
– Ei, cara! – ele disse a Jack. – Você não é Jack Backenweld, o lutador?
– Sou – respondeu Jack.
– Cara, vi a sua luta essa noite, Jack, você tem colhões. Você é realmente bom!
– Obrigado, cara – respondeu ao bêbado e então pegou sua sacola de compras e caminhou para o carro. Sentou lá, abriu a tampa do Daniels e tomou um bom trago. Então voltou, dirigiu em alta velocidade no sentido oeste, de volta pela Hollywood, dobrou a esquerda na Normandie e notou uma garota nova e bem feita de corpo cambaleando pela rua. Parou o carro, pegou a garrafa de uísque e mostrou a ela.
– Quer uma carona?
Jack ficou surpreso quando ela entrou.
– Vou ajudar você a beber isso, senhor, mas nada além disso.
– Claro que não – disse Jack.
Desceu a Normandie a sessenta quilômetros por hora, um respeitado cidadão, o terceiro melhor peso médio no ranking mundial. Por um momento sentiu vontade de contar para ela com quem estava andando, mas mudou de ideia e estendeu a mão para apalpar um dos joelhos dela.
– Você tem um cigarro, senhor? – ela perguntou.
Ele ofereceu rapidamente um cigarro com a mão, acionou o isqueiro do painel, que saltou para fora, e então acendeu o fogo para ela.
– Ao sul de lugar nenhum
Um Dia de Trabalho
Joe Mayer era escritor freelance. Estava de ressaca e o telefone acordou-o às nove horas da manhã. Ele levantou-se e atendeu.
– Alô?
– Oi, Joe. Como vai indo?
– Oh, lindo.
– Lindo, é?
– É.
– Vicki e eu acabamos de nos mudar pra nossa nova casa. Ainda não temos telefone. Mas posso lhe dar o endereço. Tem uma caneta à mão?
– Só um minuto.
Joe tomou o endereço.
– Não gostei daquele conto seu em Anjo Quente.
– Tudo bem – disse Joe.
– Não quero dizer que não gostei, quero dizer que não gostei em comparação com a maioria das outras coisas suas. A propósito, sabe onde anda Buddy Edwards? Griff Martin, que editava Histórias Quentes, está procurando ele. Achei que talvez você soubesse.
– Não sei onde ele está.
– Acho que talvez esteja no México.
– Pode ser.
– Bem, escuta, passo aí pra ver você em breve.
– Claro.
Joe desligou. Pôs dois ovos numa panela d’água, pôs a água do café para ferver e tomou um alka-seltzer. E voltou para a cama.
O telefone tornou a tocar. Ele se levantou e atendeu.
– Joe?
– Sim?
– Aqui é Eddie Greer.
– Ah, sim.
– Queremos que você faça um recital beneficente...
– Que é?
– Pro I.R.A.
– Escuta, Eddie, eu não me ligo em política nem religião, nem seja lá no que for. Realmente não sei o que está acontecendo por lá. Não tenho TV, não leio jornais... nada disso. Não sei quem está certo ou errado, se é que isso existe.
– A Inglaterra está errada, cara.
– Não posso fazer recital pro I.R.A., Eddie.
– Tudo bem então...
Os ovos estavam prontos. Ele se sentou, descascou-os, pôs pão na torradeira e diluiu o Sanka com água quente. Comeu os ovos e a torrada e tomou dois cafés. Depois voltou para a cama.
Já ia dormir quando o telefone tornou a tocar. Levantou-se e atendeu.
– Sr. Mayer?
– Sim?
– Eu me chamo Mike Haven, sou amigo de Stuart Irving. Nós publicamos juntos em Mula de Pedra, quando Mula de Pedra era editada em Salt Lake City.
– Sim?
– Eu cheguei de Montana e fico aqui uma semana. Estou no Hotel Sheraton na cidade. Gostaria de fazer uma visita e conversar com você.
– Hoje é um mau dia, Mike.
– Bem, talvez eu possa passar depois, esta semana.
– É, por que não liga depois?
– Sabe, Joe, eu escrevo como você, poesia e prosa. Quero levar alguns trabalhos meus e ler pra você. Você vai ficar surpreso. Meu material é realmente forte.
– Ah, é?
– Você vai ver.
Depois foi o carteiro. Uma carta. Joe leu-a:
Caro sr. Mayer:
Peguei seu endereço com Sylvia, a quem o senhor escrevia, para Paris, há muitos anos. Sylvia ainda está viva em San Francisco e ainda escreve seus poemas doidos, proféticos e angelicais. Estou morando em Los Angeles agora e adoraria ir visitar o senhor! Por favor, diga-me quando estaria bem para o senhor.
amor, Diana.
Ele despiu o roupão e vestiu-se. O telefone tornou a tocar. Ele foi até lá, olhou-o e não atendeu. Saiu, entrou no carro e dirigiu-se a Santa Anita. Dirigia devagar. Ligou o rádio e sintonizou uma música sinfônica. Não estava muito nublado. Desceu o Sunset, pegou o atalho favorito, subiu o morro em direção a Chinatown, passando pelo Anexo, pelo Little Joe, Chinatown, e pegou o trecho tranquilo ao lado dos pátios da ferrovia, olhando os vagões marrons lá embaixo. Se soubesse pintar, gostaria de pegar aquilo. Talvez os pintasse mesmo assim. Subiu a Broadway e pegou Huntington Drive para ir ao hipódromo. Comprou um sanduíche de carne em conserva e um café, abriu o programa das corridas e sentou-se. Parecia uma boa cartada.
Pegou Rosalina no primeiro a 10,80 dólares, Wife’s Objection no segundo a 9,20 e cravou-os na dupla diária por 48,40. Teve um ganho de 25 dólares em Rosalina e de cinco em Wife’s Objection, e assim faturou 73,20. Perdeu em Sweetott, ficou em segundo com Harbor Point, segundo com Pitch Out, segundo com Brannan, todas apostas na cabeça, e estava com um lucro de 48,20 quando teve um ganho de 20 dólares em Southern Cream, que o levou de volta a 73,20.
Não estava ruim no hipódromo. Só encontrou três conhecidos. Operários de fábrica. Negros. Dos velhos tempos.
A oitava corrida foi o problema. Cougar, que estava pagando 128, corria contra Unconscious, pagando 123. Joe não considerou os outros na corrida. Não conseguia decidir-se. Cougar estava 3 a 5, e Unconscious, 7 a 2. Estando com um ganho de 73,20, ele achou que podia se dar ao luxo de apostar no 3 a 5. Apostou 30 dólares. Cougar partiu mole, como se corresse numa vala. Quando chegou na metade da primeira volta, estava dezessete corpos atrás do cavalo da frente. Joe sabia que pegara um perdedor. No fim, seu 3 a 5 ficou cinco corpos atrás e a corrida acabou.
Ele pôs 10 e 10 em Barbizon Jr. e Lost at Sea no nono, perdeu e saiu com 23,20. Era mais fácil colher tomates. Entrou em seu velho carro e voltou devagar...
Quando entrava na banheira, a campainha da porta tocou. Ele se enxugou e enfiou a camisa e as calças. Era Max Billinghouse. Max tinha vinte e poucos anos, não tinha dentes, era ruivo. Trabalhava como faxineiro e sempre usava blue jeans e uma camiseta branca suja. Sentou-se numa cadeira e cruzou as pernas.
– Bem, Mayer, que é que há?
– Que quer dizer?
– Quero dizer: está sobrevivendo com sua literatura?
– No momento.
– Tem alguma novidade?
– Não desde que você esteve aqui na semana passada.
– Como foi seu recital de poesia?
– Foi tudo bem.
– A turma que vai a recital de poesia é bem falsa.
– A maioria das turmas é.
– Tem algum doce? – perguntou Max.
– Doce?
– É, eu tenho mania de doces. Tenho mania de doces.
– Não tenho nenhum doce.
Max levantou-se e foi até a cozinha. Voltou com um tomate e duas fatias de pão. Sentou-se.
– Nossa, você não tem nada pra comer por aqui.
– Vou ter de ir ao supermercado.
– Sabe – disse Max –, se eu tivesse de ler diante de uma multidão, na verdade insultava eles, ia ferir os sentimentos deles.
– Podia.
– Mas eu não sei escrever. Acho que vou andar por aí com um gravador. Às vezes converso comigo mesmo quando estou trabalhando. Depois posso escrever o que digo e fazer um conto.
Max era homem de hora e meia. Servia para uma hora e meia. Jamais ouvia, só falava. Após uma hora e meia, levantou-se.
– Bem, tenho de ir andando.
– Tudo bem, Max.
Max saiu. Sempre falava das mesmas coisas. Que insultara pessoas num ônibus. Que uma vez se encontrara com Charles Manson. Que um homem estava mais bem servido com uma prostituta que com uma mulher honesta. Tinha sexo na cabeça. Não precisava de roupas novas, de carro novo. Era um solitário. Não precisava das pessoas.
Joe foi à cozinha, pegou uma lata de atum e fez três sanduíches. Pegou a garrafa de uísque que vinha poupando e serviu uma boa dose com água. Ligou o rádio na estação de clássicos. “Danúbio Azul”. Desligou-o. Acabaram os sanduíches. A campainha tocou. Joe foi até a porta e abriu-a. Era Hymie. Hymie tinha um emprego mole em algum lugar de algum governo municipal perto de Los Angeles. Era poeta.
– Escuta – ele disse –, aquele livro que estava pensando, Antologia de poetas de Los Angeles, vamos esquecer.
– Tudo bem.
Hymie sentou-se.
– Precisamos de um novo título. Acho que eu tenho. Perdão aos fomentadores da guerra. Pense nisso.
– Acho que gosto – disse Joe.
– E podemos dizer: “Este livro é para Franco, Lee Harvey Oswald e Adolf Hitler”. Ora, eu sou judeu, logo isso exige alguma coragem. Que acha?
– Parece bom.
Hymie levantou-se e fez sua imitação de um judeu gordo típico dos velhos tempos, um judeu muito gordo. Deu uma cuspida e sentou-se. Era muito engraçado. Era o homem mais engraçado que Hymie conhecia. Servia por uma hora. Após uma hora, levantou-se e foi embora. Sempre falava das mesmas coisas. Que a maioria dos poetas era ruim. Que era trágico, tão trágico que tinha graça. Que se ia fazer?
Joe tomou outro bom uísque com água e foi para a máquina de escrever. Bateu duas linhas, e o telefone tocou. Era Dunning no hospital. Dunning bebia muita cerveja. Cumprira seus vinte anos no exército. O pai de Dunning tinha sido editor de uma revistinha famosa. Morrera em junho. A esposa de Dunning era ambiciosa. Pressionara-o para ser médico, muito. Ele conseguira ser quiropaxista. E trabalhava como enfermeiro tentando economizar oito ou dez mil dólares para uma máquina de raios x.
– Que tal eu aparecer pra tomar umas cervejas com você? – perguntou Dunning.
– Escuta, podemos adiar isso? – perguntou Joe.
– Que é que há? Está escrevendo?
– Mal comecei.
– Tudo bem, eu espero.
– Obrigado, Dunning.
Joe sentou-se à máquina de escrever. Não estava mal. Chegou ao meio da página, quando ouviu passos. Depois uma batida. Abriu a porta.
Eram dois rapazinhos. Um de barba negra, o outro barbeado.
O rapaz de barba disse:
– Vi você em seu último recital.
– Entre – disse Joe.
Entraram. Tinham seis garrafas de cerveja importada, casco verde.
– Vou pegar um abridor – disse Joe.
Ficaram ali sentados mamando a cerveja.
– Foi um bom recital – disse o rapaz de barba.
– Quem foi sua maior influência? – perguntou o sem barba.
– Jeffers. Poemas mais longos. Tamar. Garanhão Ruão. Por aí.
– Alguma coisa nova em literatura que lhe interesse?
– Não.
– Dizem que você está saindo da marginalidade, que faz parte do establishment . Que acha disso?
– Nada.
Houve outras perguntas do mesmo tipo. Os rapazes não aguentavam mais do que uma cerveja por cabeça. Joe cuidou das outras quatro. Eles partiram em 45 minutos.
Mas o sem barba disse, quando saíam:
– A gente volta.
Joe tornou a sentar-se à máquina de escrever com uma nova bebida. Não conseguia bater. Levantou-se e foi ao telefone.
Discou. E esperou. Ela estava em casa. Respondeu.
– Escuta – disse Joe –, me deixa sair daqui. Me deixa ir aí dar uma foda.
– Quer dizer que pretende passar a noite?
– É.
– De novo?
– É, de novo.
– Tudo bem.
Joe foi até o canto da varanda e desceu a rampa da garagem. Ela morava três ou quatro casas abaixo. Ele bateu. Lu deixou-o entrar.
Luzes apagadas. Ela estava só de calcinha e levou-o para a cama.
– Deus – ele gemeu.
– Que foi?
– Bem, é tudo inexplicável de certa forma, ou quase inexplicável.
– E só tirar a roupa e vir pra cama.
Joe fez isso. Deitou-se. A princípio não sabia se ia funcionar de novo. Tantas noites seguidas. Mas o corpo dela estava ali e era jovem. E os lábios abertos e concretos. Joe flutuava. Era bom estar no escuro. Ele malhou-a bem. Chegou a baixar lá embaixo e meter a língua na xoxota. Depois, quando montou, após quatro ou cinco estocadas, ouviu uma voz...
– Mayer... estou procurando um certo Joe Mayer... – Ouviu a voz do senhorio. O senhorio estava bêbado.
– Bem, se ele não está nesse apartamento de frente, verifique aquele de trás. Ele está num ou noutro.
Joe deu quatro ou cinco estocadas até começarem as batidas na porta. Ele escorregou para fora e, nu, foi à porta. Abriu uma janela lateral.
– Sim?
– Ei, Joe! Oi, que anda fazendo, Joe?
– Nada.
– Bem, que tal uma cervejinha, Joe?
– Não – disse Joe.
Bateu a janela lateral e voltou para a cama.
– Quem era? – ela perguntou.
– Não sei. Não reconheci o rosto.
– Me beija, Joe. Não fique aí deitado.
Ele beijou-a, enquanto a lua do sul da Califórnia atravessava as cortinas do sul da Califórnia. Era Joe Mayer. Escritor freelance.
Conseguiu.
– Numa fria
A Tragédia das Folhas
despertei para a secura e as samambaias estavam mortas;
as plantas nos vasos amarelas como milho;
minha mulher se fora
e as garrafas vazias como cadáveres exangues
rodeavam-me com suas inutilidades;
o sol continuava bom, contudo,
e o bilhete da minha senhoria se rompia num agradável e
condescendente amarelo; do que se precisava agora
era de um bom comediante, ao estilo clássico, um bobo da corte
com piadas capazes de vencer a dor absurda; a dor é absurda
pelo simples fato de existir, nada mais;
barbeio-me com cuidado com uma velha lâmina
o homem que uma vez tinha sido jovem e
que se dizia ter gênio; mas
esta é a tragédia das folhas,
das samambaias mortas, das plantas mortas;
e segui até um hall escuro
onde a senhoria esperava
execrável e resoluta,
mandando-me para o inferno,
gesticulando seus braços gordos e suarentos
e gritando
gritando e exigindo o aluguel
porque o mundo havia nos
decepcionado.
Saboreio As Cinzas de Tua Morte
as florações espargem
água inesperada
pela manga da minha camisa,
água inesperada
fresca e pura
como neve –
enquanto espadas
afiadas como talos
penetram
em seu peito
e as doces e selvagens
pedras
caem sobre nós
e
nos encerram.
Foi quando desenvolvi um novo sistema para usar no hipódromo. Eu tinha arrumado três mil dólares em um mês e meio, indo às corridas apenas duas ou três vezes por semana. Comecei a sonhar. Vi uma casinha à beira-mar. Vi-me vestido com roupas caras, calmo, levantando de manhã, entrando em meu carro importado, dirigindo com suavidade na saída da garagem. Vi jantares prazerosos com belos filés, precedidos e sucedidos por deliciosos drinques gelados em copos coloridos. A bela gorjeta. O charuto. E mulheres a mancheias. É fácil se deixar levar por esse tipo de pensamento quando os homens lhe entregam notas graúdas no guichê das apostas. Quando numa corrida de 1.200 m, que leva, digamos, um minuto e nove segundos, você ganha o equivalente a um mês de salário.
Então ali estava eu, de pé no escritório do superintendente. Lá estava ele atrás de sua mesa. Eu tinha um charuto na boca e uísque no meu hálito. Sentia-me endinheirado. Eu parecia endinheirado.
– Sr. Winters – eu disse –, os Correios sempre me trataram bem. Mas há interesses externos que simplesmente exigem minha atenção. Se o senhor não puder me dar uma licença, serei obrigado a me demitir.
– Já não lhe dei uma licença no início do ano, Chinaski?
– Não, sr. Winters, o senhor rejeitou o meu pedido de licença. Desta vez isto não será possível. Ou a licença ou a demissão.
– Tudo bem, preencha o formulário e eu o assinarei. Mas só posso lhe dar noventa dias de dispensa.
– Aceito – eu disse, exalando uma longa coluna de fumaça azul de meu charuto caro.
– Cartas na rua
Um Casal Adorável
eu tinha que dar uma cagada
mas em vez disso fui
até essa loja para
fazer uma chave.
a mulher usava um vestido
de algodão e cheirava
a rato almiscarado.
“Ralph”, ela urrou
e, seu marido,
um porco velho numa
camisa florida
calçando um sapato 39
apareceu e ela disse,
“esse homem quer
uma chave”.
ele começou a afiá-la
como se realmente não quisesse
fazer aquilo.
havia sombras
furtivas e urina
no ar.
segui ao longo do
balcão de vidro,
apontei e chamei a
mulher,
“ei, eu quero este
aqui”.
ela me alcançou o
objeto: um canivete
num estojo de um púrpura
claro.
US$ 6,50 mais as taxas.
a chave custou
praticamente
nada.
peguei o troco e
saí em direção
à rua.
algumas vezes você precisa
de gente desse tipo.
Depois de três anos fui “efetivado”. Isso significava receber pelos dias de feriado (os estagiários não recebiam) e uma jornada semanal de quarenta horas com dois dias de folga. O Stone também foi obrigado a me designar como substituto para cinco rotas diferentes no máximo. Isso era tudo o que me cabia: cinco rotas diferentes. Com o tempo, aprenderia onde estavam as caixas de correio, além dos atalhos e armadilhas de cada rota. Cada dia seria mais fácil. Poderia começar a cultivar aquele ar de tranquilidade.
De algum modo, porém, não me sentia muito feliz. Eu não era do tipo que procura deliberadamente por sofrimento, o trabalho ainda tinha lá sua variedade, mas aquele velho glamour dos dias de estagiário fazia falta – aquele não-ter-a-mais-vaga-ideia do que poderia acontecer depois.
Alguns dos funcionários de carreira se aproximaram para me cumprimentar.
– Parabéns – diziam.
– É isso aí – eu disse.
Parabéns pelo quê? Eu não tinha feito nada. Agora era um membro do clube. Era um dos caras. Eu poderia estar ali pelos próximos anos, chegar, inclusive, a pleitear minha própria rota. Comprar presentes de Natal para a família. E quando eu ligasse dizendo estar doente, diriam para um dos pobres estagiários, “Onde está o carteiro de sempre? Ele nunca se atrasa.”
Então lá estava eu. Depois disso foi emitido um boletim dizendo que nenhum quepe ou equipamento deveria ser posto sobre a caixa do carteiro. A maioria dos rapazes colocava seus quepes ali. Aquilo não fazia mal nenhum e economizava uma viagem até o vestiário. Agora, depois de três anos pondo meu quepe ali em cima, recebia uma ordem para não fazê-lo.
Bem, eu continuava chegando de ressaca e não podia me ocupar de coisas tão banais quanto o lugar onde pôr o quepe. De modo que meu quepe continuou onde sempre esteve, mesmo no dia posterior à expedição da ordem.
O Stone veio correndo com uma advertência. Dizia que era contra as regras e o regulamento manter qualquer tipo de objeto sobre a caixa. Pus a advertência no bolso e segui distribuindo as cartas. O Stone se sentou, girando em sua cadeira, sem deixar de me observar. Todos os outros carteiros tinham posto os quepes em seus armários. A exceção era eu – e um certo Marty. E o Stone tinha se aproximado do Marty e dito:
– Muito bem, Marty, você leu a ordem. Seu quepe não deveria estar sobre a caixa.
– Oh, sinto muito, senhor. É o hábito, sabe. Sinto muito. – Marty tirou seu quepe de cima da caixa e subiu as escadas para guardá-lo no armário.
Na manhã seguinte, esqueci outra vez da regra. O Stone apareceu com sua advertência.
O texto dizia que era contra as regras e o regulamento manter qualquer tipo de objeto sobre a caixa.
Pus a advertência no bolso e segui distribuindo as cartas.
Na manhã seguinte, assim que entrei, pude ver que o Stone estava à minha espreita. Não fazia nenhuma questão de esconder que me vigiava. Esperava para ver o que eu faria com meu quepe. Deixei-o esperar por um momento. Então retirei o quepe da cabeça e o coloquei sobre a caixa.
O Stone veio correndo com sua advertência.
Não a li. Joguei-a na cesta de lixo, deixei meu quepe ali e segui distribuindo as cartas.
Dava para ouvir o Stone à sua máquina. O próprio som das teclas era raivoso.
Me perguntava como ele teria aprendido a datilografar.
Ele retornou. Estendeu-me uma segunda advertência.
Olhei para ele.
– Não preciso ler esse negócio. Sei o que está escrito. Diz que eu não li a primeira advertência.
Joguei a segunda advertência no lixo.
O Stone voltou correndo para sua máquina.
Apresentou-me uma terceira advertência.
– Veja só – eu disse –, sei o que está escrito nessas folhas. Na primeira dizia que não era para eu pôr meu quepe sobre a caixa. Na segunda, que eu não havia lido a primeira. A terceira é por não ter lido nem a primeira, nem a segunda.
Olhei-o, e depois deixei a advertência cair no lixo, sem lê-la.
– Agora posso jogá-las fora tão rápido quanto você é capaz de datilografá-las. Isso pode seguir por horas e horas, e logo um de nós estará fazendo papel de ridículo. Você decide.
O Stone retornou para sua cadeira e se sentou. Não datilografou mais nada. Ficou apenas olhando para mim.
Não apareci no dia seguinte. Dormi até a hora do almoço. Sequer telefonei para avisar. Então fui até o Escritório Central. Disse-lhes a que vinha. Colocaram-me em frente a uma mesa com uma mulher velha e magra. Seus cabelos eram grisalhos e seu pescoço muito fino, um pescoço que subitamente se inclinava na metade de sua extensão. Isso fazia com que a cabeça se projetasse para frente e que ela me olhasse por sobre os óculos.
– Sim.
– Quero pedir demissão.
– Demissão?
– Sim, demissão.
– E o senhor é um carteiro efetivo?
– Sim – eu disse.
– Tsc, tsc, tsc, tsc, tsc, tsc, tsc – seguiu, produzindo este som com seus lábios secos.
Passou-me os papéis necessários e eu fiquei ali a preenchê-los.
– Há quanto tempo trabalha nos Correios?
– Três anos e meio.
– Tsc, tsc, tsc, tsc, tsc, tsc, tsc, tsc – ela seguiu –, tsc, tsc, tsc, tsc.
E isso foi tudo. Voltei para casa e para Betty e nós tiramos o selo da garrafa.
Mal eu sabia que em dois anos eu estaria de volta como escrevente e que lá eu ficaria, encolhido sobre meu assento, por quase doze anos.
– Cartas na rua