Charles Bukowski

Charles Bukowski

1920–1994 · viveu 73 anos DE DE

Charles Bukowski foi um poeta e escritor alemão-americano, conhecido por sua obra crua, visceral e autobiográfica. Sua escrita, frequentemente associada à chamada "geração beat" e à contracultura, retrata a vida marginal, os vícios, a pobreza, o sexo e a alienação com uma linguagem direta e sem rodeios. Bukowski celebrou o submundo e os desajustados, tornando-se um ícone para muitos que se sentiam à margem da sociedade.

n. 1920-08-16, Andernach · m. 1994-03-09, San Pedro

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Como Ser Um Grande Escritor

você tem que trepar com um grande número de mulheres
belas mulheres
e escrever uns poucos e decentes poemas de amor.

e não se preocupe com a idade
e/ou com os talentos frescos e recém-chegados.

apenas beba mais cerveja
mais e mais cerveja

e vá às corridas pelo menos uma vez por
semana

e vença
se possível.

aprender a vencer é difícil –
qualquer frouxo pode ser um bom perdedor.

e não se esqueça do Brahms
e do Bach e também da sua
cerveja.

não exagere no exercício.

durma até o meio-dia.

evite cartões de crédito
ou pagar qualquer conta
no prazo.

lembre-se que nenhum rabo no mundo
vale mais do que 50 pratas.
(em 1977).

e se você tem a capacidade de amar
ame primeiro a si mesmo
mas esteja sempre alerta para a possibilidade de uma
derrota total
mesmo que a razão para essa derrota
pareça certa ou errada –

um gosto precoce da morte não é necessariamente
uma coisa má.

fique longe de igrejas e bares e museus,
e como a aranha seja
paciente –
o tempo é a cruz de todos,
mais o
exílio
a derrota
a traição

todo este esgoto.

fique com a cerveja.

a cerveja é o sangue contínuo.

uma amante contínua.

arranje uma grande máquina de escrever
e assim como os passos que sobem e descem
do lado de fora de sua janela

bata na máquina
bata forte

faça disso um combate de pesos pesados

faça como o touro no momento do primeiro ataque
e lembre dos velhos cães
que brigavam tão bem:
Hemingway, Céline, Dostoiévski, Hamsun.

se você pensa que eles não ficaram loucos
em quartos apertados
assim como este em que agora você está

sem mulheres
sem comida
sem esperança

então você não está pronto.

beba mais cerveja.
há tempo.
e se não há
está tudo certo
também.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Heinrich Karl "Hank" Bukowski Jr. foi um poeta, contista e romancista alemão-americano. Nasceu em Andernach, na Alemanha, em 16 de agosto de 1920, e faleceu em San Pedro, Califórnia, Estados Unidos, em 9 de março de 1994. É uma figura proeminente da literatura marginal e da contracultura americana. Filho de pais alemães, mudou-se com a família para os Estados Unidos quando tinha três anos.

Infância e formação

Bukowski teve uma infância difícil marcada pela pobreza e por um relacionamento abusivo com o pai. Aos três anos, a família emigrou para os Estados Unidos, estabelecendo-se em Los Angeles. Sua adolescência foi rebelde e problemática. Frequentou a Los Angeles High School, mas abandonou os estudos precocemente. Aos 17 anos, saiu de casa. Sua formação foi autodidata, moldada por leituras intensas, pela experiência de vida nas ruas e pelos trabalhos precários que desempenhou ao longo de décadas.

Percurso literário

Bukowski começou a escrever poesia e contos ainda jovem, mas demorou décadas para ser reconhecido. Trabalhou em empregos manuais e braçais, como carteiro e em fábricas, em grande parte de sua vida adulta, muitas vezes lutando contra o alcoolismo. Publicou esporadicamente em pequenas revistas literárias underground nas décadas de 1940 e 1950. Sua carreira literária ganhou impulso a partir da década de 1960, quando se dedicou integralmente à escrita após receber uma herança que lhe permitiu deixar o emprego nos correios. Seu primeiro livro de poemas, "Flower, Fist, and Bestial Wail", foi publicado em 1960. A partir daí, produziu uma vasta obra em poesia, contos e romances.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras mais conhecidas de Bukowski incluem coleções de poemas como "Love Is a Dog from Hell" (1977), "Crimson Tears" (1978), e "The Most Beautiful Woman in Town" (1986), além de romances como "Factotum" (1975), "Women" (1978) e "Post Office" (1971). Seus temas centrais são a vida marginal, a pobreza, o alcoolismo, o sexo, a solidão, a alienação, a crítica social e a busca por sentido em um mundo caótico. Seu estilo é caracterizado por uma linguagem direta, coloquial, sem adornos, muitas vezes obscena e chocante, mas também capaz de uma profunda sensibilidade e honestidade. Ele utilizava o verso livre de forma contundente, com frases curtas e ritmo muitas vezes quebrado. Sua voz poética é confessional, crua e irónica, refletindo suas experiências de vida de forma implacável. Bukowski é considerado um renovador da poesia americana pela sua abordagem realista e pela sua capacidade de dar voz aos desvalidos.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Bukowski emergiu como uma voz dissonante em meio ao otimismo pós-guerra e ao surgimento da contracultura nos EUA. Sua obra, muitas vezes associada à Geração Beat, como Jack Kerouac e Allen Ginsberg, embora com um estilo mais sombrio e menos místico, capturou o desencanto e a rebeldia de uma parcela da sociedade que se sentia marginalizada. Ele escreveu em um período de profundas mudanças sociais e políticas nos Estados Unidos, como a Guerra do Vietnã e os movimentos pelos direitos civis, temas que, embora não diretamente abordados, permeiam o pano de fundo de sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida de Bukowski foi marcada pela luta contra o alcoolismo, por relacionamentos tumultuados e por uma série de empregos precários. Teve casamentos e relacionamentos significativos, incluindo com as poetisas Jane Cooney Baker e Linda King, e mais tarde com Linda Lee Beighle, que se tornou sua esposa e figura importante em sua vida. Sua obra é profundamente autobiográfica, sendo difícil separar o homem do escritor. Suas experiências com a pobreza e a boemia foram a matéria-prima de sua escrita. Suas crenças eram pragmáticas e cínicas, desconfiando de instituições e ideologias.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Bukowski obteve um reconhecimento tardio e muitas vezes controverso. Enquanto era idolatrado por muitos como um autêntico "escritor do povo" e um rebelde contra o sistema, era criticado por outros por seu estilo considerado vulgar ou amoral. Sua popularidade cresceu exponencialmente após sua morte, tornando-se um autor cultuado em todo o mundo, especialmente entre jovens e leitores que se identificam com sua honestidade brutal e sua visão de mundo sem filtros.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Bukowski foi influenciado por escritores como Ernest Hemingway, John Fante, D.H. Lawrence e por autores da Geração Beat. Seu legado é o de ter dado voz aos marginalizados, de ter mostrado que a literatura pode emergir de experiências de vida difíceis e de ter desafiado as convenções literárias estabelecidas. Inspirou inúmeros poetas e escritores que buscam uma linguagem autêntica e um retrato sem maquiagem da realidade. Sua obra continua a ser uma referência para a literatura underground e alternativa.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Bukowski é frequentemente analisada sob a ótica da literatura marginal, da crítica social e da representação da experiência humana em suas formas mais cruas. Os debates centram-se na sua genialidade como cronista da vida urbana e da alienação, e na sua capacidade de extrair poesia do feio e do sórdido.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Bukowski era conhecido por seu humor negro e seu cinismo. Ele tinha uma coleção de centenas de cartas de amor recebidas de fãs em todo o mundo. Passou um período em um hospital psiquiátrico em sua juventude, uma experiência que o marcou profundamente. Sua relação com os cachorros era notória. Era um observador atento da natureza humana, registrando suas observações em cadernos.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Charles Bukowski faleceu em 9 de março de 1994, em San Pedro, Califórnia, aos 73 anos, vítima de leucemia. Sua morte foi recebida com pesar por seus admiradores. Suas cinzas foram espalhadas em um de seus locais favoritos na Califórnia. Sua obra continua a ser publicada e a ser redescoberta por novas gerações, solidificando sua posição como um dos autores mais singulares e influentes da literatura americana.

Poemas

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Ajudando o Velho

hoje eu estava na fila do banco
quando um cara velho à minha frente
deixou seus óculos caírem (por sorte, dentro do
estojo)
e ao se abaixar para pegá-los
pude ver como aquilo era difícil para
ele
e eu disse, “espere, deixa que eu
pego...”
mas assim que apanhei
ele deixou cair sua bengala
uma bengala linda, negra e
encerada
e eu lhe devolvi os óculos
e então fui apanhar a bengala
amparando o velho
enquanto lhe devolvia sua bengala.
ele não dizia nada,
apenas sorriu pra mim.
então se virou para
frente
fiquei atrás dele esperando
minha vez.

A casa onde eu morava nessa época tinha algumas qualidades. Uma das mais bacanas era o quarto, pintado de um azul muito escuro. Esse azul muito escuro oferecia um abrigo para muitas ressacas, algumas delas suficientemente brutais para matar um homem, sobretudo numa época em que eu engolia as pílulas que as pessoas me davam sem me preocupar em perguntar o que eram. Algumas noites eu sabia que, se adormecesse, morreria. Ficava dando voltas sozinho a noite toda, do quarto ao banheiro e do banheiro à cozinha, passando pela sala da frente. Abria e fechava a geladeira, repetidas vezes. Abria e fechava as torneiras. Ia ao banheiro e abria e fechava as torneiras. Dava descargas na privada. Puxava as orelhas. Inspirava e expirava. Depois, quando o sol saía, eu sabia que estava salvo. Aí dormia com as paredes azuis azuis azuis, curando-me.
Outra característica da casa eram as batidas à porta, de mulheres desagradáveis, às três ou quatro horas da manhã. Certamente não eram damas de grande encanto, mas tendo uma mente meio idiota eu achava que de algum modo elas me traziam aventura. A verdade mesmo é que a maioria delas não tinha outro lugar para ir. E gostavam do fato de que havia bebida e de que eu não fazia muita força pra ir pra cama com elas.
Evidentemente, depois que conheci Sarah, essa parte do meu estilo de vida mudou bastante.
Aquele bairro, nos arredores da Carlton Way, perto da Avenida Western, também mudava. Antes era quase todo de classe média branca, mas os problemas políticos na América Central e em outras partes do mundo haviam trazido um outro tipo de indivíduo para a área. Os homens eram geralmente baixos, escuros ou morenos claros, geralmente jovens. Havia esposas, filhos, irmãos, primos, amigos. Começaram a inundar os apartamentos e pátios. Viviam muitos num mesmo apartamento, e eu era um dos poucos brancos que restavam no complexo em torno do pátio.
As crianças corriam de um lado para outro, subiam e desciam a ajardinada alamedazinha do pátio. Pareciam todas entre os dois e os sete anos. Não tinham bicicletas nem brinquedos. Raramente se viam as esposas. Ficavam dentro de casa, escondidas. Muitos dos homens também permaneciam trancados. Não era bom deixar o senhorio saber quantas pessoas moravam numa única unidade. Os únicos homens que se viam eram os inquilinos legais. Pelo menos eles pagavam os aluguéis. Como sobreviviam, não se sabia. Os homens eram pequenos, magros, calados, sérios. A maioria sentava-se de camiseta nos degraus das varandas, um pouco caídos para a frente, uma vez ou outra fumando cigarros. Sentavam-se nos degraus das varandas durante horas, imóveis. Às vezes compravam carros muito velhos em sucatas e os dirigiam devagar pelo bairro. Não tinham seguro para o carro nem carteira de motorista, e rodavam com placas vencidas. A maioria dos carros tinha freios ruins. Os homens quase nunca paravam no sinal da esquina, e muitas vezes não respeitavam o sinal vermelho, mas havia poucos acidentes. Alguma coisa cuidava deles.
Após um tempo, os carros quebravam mas meus novos vizinhos não os abandonavam na rua. Faziam-nos subir as alamedas e os estacionavam diante de suas portas. Primeiro trabalhavam no motor. Tiravam o capô, e o motor enferrujava-se na chuva. Depois punham o carro sobre cepos e tiravam as rodas. Levavam-nas para dentro de casa e as mantinham lá, para que não as roubassem durante a noite.
Quando eu vivia lá, havia duas filas de carros no pátio, assentados em cepos. Os homens sentavam-se imóveis em suas varandas, de camiseta. Às vezes eu balançava a cabeça ou acenava para eles. Jamais retribuíam. Aparentemente, não compreendiam nem liam os avisos de despejo que arrancavam, mas eu os via examinando os jornais de L.A. Eram estoicos e resistentes porque, comparadas com o lugar de onde vinham, as coisas agora eram fáceis.
Bem, deixa pra lá. Meu consultor de impostos sugerira que eu comprasse uma casa, e assim, para mim, não se tratava na verdade de uma “fuga branca” diante dos invasores. Embora, quem sabe? Eu notara que, toda vez que me mudara em Los Angeles, no correr dos anos, toda mudança fora sempre para o Norte ou o Oeste.
Finalmente, após algumas semanas de busca da casa, encontramos a certa. Após a entrada, as prestações mensais chegavam a 789,81 dólares. Tinha uma enorme sebe na frente, na rua, e o pátio também ficava na frente, de modo que a casa ficava recuada no terreno. Parecia um lugar danado de bom pra gente se esconder. Tinha até uma escada, um andar de cima com um quarto, banheiro e o que iria se tornar minha sala de trabalho. E haviam deixado lá uma mesa velha, uma coisa enorme, feia e velha. Agora, décadas depois, eu era um escritor que tinha uma mesa. Sim, senti o temor, o temor de me tornar igual a eles. Pior, eu tinha uma encomenda para escrever um argumento. Estaria condenado e amaldiçoado, estaria para ser sugado até o fim? Não achava que seria assim. Mas será que alguém acha, algum dia?
Sarah e eu transferimos nossos poucos bens para lá.
O grande momento chegou. Pus a máquina de escrever em cima da mesa, encaixei uma folha de papel e bati nas teclas. A máquina ainda funcionava. E havia bastante espaço para um cinzeiro, o rádio e a garrafa. Não deixem ninguém convencê-los de outra coisa. A vida começa aos 65.
– Hollywood
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A Agonia dos Magricelos Orgulhosos

vejo velhos vivendo de pensões nos
supermercados eles são magricelos e
orgulhosos e estão morrendo
passam fome ali de pé e nada
dizem. muito tempo atrás, entre outras mentiras,
lhes ensinaram que o silêncio era uma forma de
bravura. agora, tendo trabalhado uma vida inteira,
foram emboscados pela inflação. olham ao redor
roubam uma uva
mastigam-na. por fim fazem uma
comprinha, para o dia.
outra mentira que lhes ensinaram:
não roubarás.
é melhor morrer de fome que roubar
(uma uva não os salvará)
e em quartos minúsculos
enquanto leem os anúncios no jornal
morrerão de fome
morrerão silenciosos
expulsos das pensões
por jovens loiros e cabeludos
que os farão deslizar para dentro
e se afastarão do meio-fio, esses
jovens
pensando em Vegas e buceta e
vitória.
é a ordem das coisas: cada um
prova o gostinho do mel
e depois a faca.

Vin Marbad vinha altamente recomendado por Michael Huntington, meu fotógrafo oficial. Michael me fotografava constantemente, mas até então não houvera muitos pedidos desses trabalhos.
Marbad era consultor de impostos. Chegou uma noite com sua maleta, um homenzinho moreno. Eu já bebia tranquilamente há algumas horas, sentado com Sarah vendo um filme em minha velha TV preto e branco.
Ele bateu com rápida dignidade e eu o deixei entrar, apresentei-o a Sarah e servi-lhe vinho.
– Obrigado – ele disse, tomando um gole. – Você sabe que, aqui na América, se você não gasta dinheiro, eles tomam.
– Ééé? Que quer que eu faça?
– Dê uma entrada numa casa.
– Hum?
– Os pagamentos das hipotecas são dedutíveis do imposto de renda.
– Ééé, que mais?
– Compre um carro. É dedutível.
– Todo?
– Não, só um pouco. Deixa que eu cuido disso. O que a gente precisa é criar pra você algumas proteções contra os impostos. Veja aqui...
Vin Marbad abriu sua maleta e retirou muitas folhas de papel. Levantou-se e aproximou-se de mim com elas.
– Bens imóveis. Aqui, olhe, eu comprei um pouco de terra no Oregon. Isto é um cancelamento de imposto. Ainda tem alguns hectares à venda. Você pode entrar agora. Esperamos uma valorização de 25% cada ano. Em outras palavras, dentro de quatro anos seu dinheiro dobra...
– Não, não, por favor volte a sentar.
– Que é que há?
– Não quero comprar nada que eu não possa ver, não quero comprar nada que não possa alcançar e tocar.
– Está dizendo que não confia em mim?
– Eu acabo de conhecer você.
– Eu tenho recomendações em todo o mundo!
– Eu sempre confio em meu instinto.
Vin Marbad girou de volta ao sofá onde deixara seu casaco; enfiou-o e lançou-se para a porta com sua maleta, abriu-a, saiu e fechou-a.
– Você ofendeu ele – disse Sarah. – Ele só queria te mostrar algumas maneiras de economizar dinheiro.
– Eu tenho duas regras. Uma delas é: jamais confie num cara que fuma cachimbo. A outra: jamais confie num cara de sapato lustroso.
– Ele não fumava cachimbo.
– Bem, parece um fumador de cachimbo.
– Você ofendeu ele.
– Não se preocupe, ele vai voltar...
A porta escancarou-se, e lá estava Vin Marbad. Cruzou a sala apressado até seu lugar original no sofá, tornou a tirar o casaco, pôs a maleta a seus pés. Olhou-me.
– Michael me disse que você joga nos cavalinhos.
– Bem, ééé...
– Meu primeiro emprego, quando cheguei aqui, da Índia, foi no Hollywood Park. Era faxineiro lá. Sabe as vassouras que eles usam para varrer os bilhetes usados?
– Sei.
– Já notou como são largas?
– Já.
– Bem, isso foi ideia minha. As vassouras eram do tamanho normal. Eu desenhei a nova. Fui ao setor de Operações com ela, e eles aproveitaram. Fui promovido pra Operações e venho subindo desde então.
Servi-lhe outra bebida. Ele tomou um gole.
– Escuta, você bebe quando escreve?
– Sim, um bocado.
– Isso é parte da sua inspiração. Vou fazer com que seja deduzido.
– Pode fazer isso?
– Claro. Sabe, fui eu que comecei a tornar dedutível a gasolina usada no automóvel. Foi ideia minha.
– Filho da puta – eu disse.
– Muito interessante – disse Sarah.
– Dou um jeito de você não pagar imposto nenhum e de modo legal.
– Parece ótimo.
– Michael Huntington não paga impostos. Pergunte pra ele.
– Acredito em você. Abaixo os impostos.
– Tudo bem, mas você tem de fazer o que eu digo. Primeiro, dê entrada numa casa, depois num carro. Dê a largada. Arranje um carro bom. Um novo BMW.
– Tudo bem.
– Em que máquina datilografa? Uma manual?
– É.
– Arranje uma elétrica. É dedutível.
– Eu não sei se consigo escrever numa elétrica.
– Você se acostuma em poucos dias.
– Quer dizer, não sei se consigo criar numa elétrica.
– Quer dizer que tem medo de mudar?
– É, ele tem – disse Sarah. – Veja os escritores do século passado, eles usavam penas de aves. Naquele tempo, ele teria se apegado a essas penas, teria lutado contra qualquer mudança.
– Penso muito em minha maldita alma.
– Você muda suas marcas de bebida, não muda? – perguntou Vin.
– Ééé...
– Tudo bem, então...
Vin ergueu sua taça, esvaziou-a.
Eu servi mais vinho a todos.
– O que a gente precisa é fazer de você uma Corporação, pra conseguir todas as vantagens dos impostos.
– Isso soa terrível.
– Eu disse a você, se não quer pagar imposto tem de fazer como eu digo.
– Eu só quero bater à máquina, não quero andar por aí carregando um fardo enorme.
– Você só tem de nomear um Conselho de Diretores, um Secretário, um Tesoureiro, e por aí além... É fácil.
– Soa horrível. Escuta, tudo isso soa como um monte de merda. Talvez eu me dê melhor simplesmente pagando os impostos. Não quero ninguém me enchendo o saco. Não quero o cara do imposto de renda batendo em minha porta à meia-noite. Pago até mais pra garantir que me deixem em paz.
– Isso é idiotice – disse Vin. – Ninguém deve jamais pagar impostos.
– Por que não dá uma chance a Vin? Ele só está querendo te ajudar – disse Sarah.
– Veja, eu mando pra você pelo correio os documentos da Corporação. É só ler e assinar. Vai ver que não tem nada a temer.
– Essa coisa toda, sabe, atrapalha. Estou trabalhando num argumento e preciso ter as ideias claras.
– Um argumento, hum? Sobre o que é?
– Um bêbado.
– Ah, você, hum?
– Bem, tem outros.
– Consegui fazer ele beber vinho agora – disse Sarah. – Estava quase morto quando conheci ele. Uísque, cerveja, vodca, gim, ale...
– Já sou consultor de Darby Evans há alguns anos. Você sabe, ele é argumentista.
– Eu não vou ao cinema.
– Ele escreveu O Coelho que Saltou no Céu; Waffles com Lulu; Terror no Zoo. Está fácil na casa dos seis dígitos. E é uma Corporação.
Não respondi.
– Não tem pago um vintém de imposto. E é tudo legal...
– Dê uma chance a Vin – disse Sarah.
Ergui minha taça.
– Tudo bem. Merda. A isso!
– Bom garoto – disse Vin.
Esvaziei meu copo e encontrei outra garrafa. Tirei a rolha e servi a todos.
Deixei minha mente ir na coisa; você é um operador esperto. É astuto. Por que pagar bombas que despedaçam crianças indefesas? Dirija um BMW. Tenha uma vista do porto. Vote nos republicanos.
Então me ocorreu outra ideia.
Não estará você se tornando o que sempre odiou?
E veio a resposta:
Merda, você não tem dinheiro de verdade mesmo. Por que não brincar com essa coisa de farra?
Continuamos bebendo, comemorando alguma coisa.
– Hollywood
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Um Homem

George estava deitado em seu trailer, estirado de costas, vendo televisão em um pequeno aparelho portátil. Os pratos da janta não estavam lavados, a louça do café da manhã não estava lavada, ele precisava se barbear, e as cinzas de seu cigarro de palha caíam na camiseta de dormir que ele estava usando. Algumas das cinzas ainda estavam queimando. Às vezes as cinzas não caíam na camiseta que vestia, mas sim na própria pele, então ele praguejava enquanto as empurrava para longe com pequenos tapas.
Bateram à porta do trailer. Lentamente ele se levantou e foi atender. Era Constance. Trazia consigo uma garrafa de uísque em uma sacola.
– George, deixei aquele cretino, não dava mais para aguentar aquele filho da puta.
– Sente-se.
George abriu a garrafa, pegou dois copos, encheu cada um com um terço de uísque e dois terços de água. Sentou-se na cama com Constance. Ela pegou um cigarro de sua bolsa e o acendeu. Estava bêbada, e suas mãos tremiam.
– Levei o dinheiro dele também. Peguei a porra do dinheiro e fugi enquanto ele estava no trabalho. Você não sabe como sofri nas mãos daquele filho da puta.
– Deixe-me fumar um pouco – disse George.
Ela alcançou o cigarro para ele e, como inclinou o corpo ao se aproximar, George enlaçou-a com um braço, puxou-a e deu-lhe um beijo.
– Seu filho da puta – ela disse. – Senti a sua falta.
– Senti falta dessas suas pernas gostosas, Connie. Realmente senti falta dessas pernas.
– Ainda gosta delas?
– Fico de pau duro só de olhar.
– Eu nunca teria dado certo com um sujeito que estudou em universidade – disse Connie. – São muito moles, são como biscoitinho molhado no leite. E ele mantinha a casa limpa. George, era como ter uma empregada. Ele fazia tudo. O lugar era impecável. Dava para comer um cozido de carne feito na privada. Ele era antisséptico, é isso o que ele era.
– Beba mais. Vai se sentir melhor.
– E ele não conseguia fazer amor.
– Quer dizer que ele não conseguia ter uma ereção?
– Oh não. Ele conseguia ter uma ereção. Tinha o tempo todo. Mas não sabia fazer uma mulher feliz, sabe. Não sabia o que fazer. Com todo aquele dinheiro, todo aquele estudo, ele era um inútil.
– Eu queria ter estudado em uma universidade.
– Você não precisa. Você já tem tudo de que precisa, George.
– Sou apenas um peão. Com empreguinhos de merda.
– Eu disse que você tem tudo o que precisa, George. Você sabe como fazer uma mulher feliz.
– É?
– Sim. E sabe do que mais? A mãe dele vinha nos visitar! A mãe! Duas ou três vezes por semana. E ficava sentada lá me olhando, fingindo que gostava de mim, mas passava o tempo todo me tratando como se eu fosse uma puta, como se eu fosse uma grande puta, uma puta malvada que estava roubando o filhinho dela! O precioso Walter! Que confusão!
– Beba, Connie.
George tinha terminado. Esperou que Connie esvaziasse seu copo, então pegou ambos e os encheu novamente.
– Ele dizia que me amava. E eu dizia: “Olha a minha buceta, Walter!”. E ele não olhava pra minha buceta. Ele dizia: “Não quero olhar pra essa coisa”. Essa coisa! Assim ele a chamava! Você não tem medo da minha buceta, não é mesmo, George?
– Ela nunca me mordeu.
– Mas você já mordeu ela, já mordiscou, não é, George?
– Acho que sim.
– E lambeu e chupou?
– Suponho que sim.
– Você sabe muito bem, George, o que fez.
– Quanto dinheiro você pegou?
– Seiscentos dólares.
– Não gosto de pessoas que roubam dos outros, Connie.
– É por isso que você não passa de um lavador de pratos. Você é honesto. Mas ele era tão idiota, George. E ele tinha dinheiro, e eu mereci a grana... ele e a mãe dele e o amor dele, seu amor maternal, suas pias pequenas e limpas e privadas e sacos de lixo e carros novos e as pastilhas contra mau hálito e as loções pós-barba e as pequenas ereções e a preciosa fazeção de amor. Tudo para ele, você entende, tudo para ele! Você sabe o que uma mulher quer, George...
– Obrigado pelo uísque, Connie. Me dá outro cigarro.
George encheu os copos mais uma vez.
– Senti falta das suas pernas, Connie. Realmente senti falta dessas pernas. Gosto do jeito que você usa esses saltos altos. Me deixa louco. Essas mulheres modernas não sabem o que estão perdendo. O salto alto modela a panturrilha, a coxa, a bunda; põe ritmo na caminhada. Realmente me excita!
– Você fala como um poeta, George. Às vezes você fala assim. Você é um tremendo lavador de pratos.
– Sabe o que eu realmente gostaria de fazer?
– O quê?
– Gostaria de chicotear suas pernas com o meu cinto, as pernas, a bunda, as coxas. Gostaria de fazer você tremer e chorar e então, quando estivesse tremendo e chorando, eu ia te arrebentar com amor puro.
– Não quero isso, George. Você nunca falou assim antes. Sempre foi correto comigo.
– Levanta um pouco o vestido.
– O quê?
– Levanta um pouco o vestido, quero ver mais as suas pernas.
– Gosta delas, não é, George?
– Deixa a luz bater nelas!
Constance levantou o vestido.
– Jesus Cristo nosso Senhor – disse George.
– Gosta das minhas pernas?
– Amo suas pernas!
Então George se espichou através da cama e deu uma bofetada na cara de Constance. O cigarro caiu de sua boca.
– Por que você fez isso?
– Você trepou com o Walter! Trepou com o Walter!
– E daí?
– Levanta mais esse vestido!
– Não!
– Faz o que eu estou mandando!
George deu outro tapa ainda mais forte. Constance levantou a saia um pouco mais.
– Um pouco abaixo da calcinha! – gritou George. – Não quero ver a calcinha!
– Cristo, George, o que você tem?
– Você trepou com Walter!
– George, eu juro, você está louco. Quero ir embora. Deixe-me sair daqui, George!
– Não se mexa ou mato você!
– Você me mataria?
– Juro que sim!
George levantou e se serviu de outro copo cheio de uísque puro, bebeu e sentou-se ao lado de Constance. Ele pegou seu cigarro e o segurou contra o pulso dela. Ela gritou. Segurou o cigarro ali, firmemente, então o afastou.
– Sou um homem, gata, dá pra entender isso?
– Sei que você é homem, George.
– Aqui, olha para os meus músculos!
George levantou-se e flexionou os dois braços.
– Lindo, né, gata? Olha para esses músculos! Sente isso! Sente isso!
Constance apalpou e sentiu um de seus braços e depois o outro.
– Sim, você tem um corpo lindo, George.
– Sou um homem. Sou um lavador de pratos, mas sou um homem, um homem de verdade.
– Eu sei, George.
– Não sou como aquele merdinha que você deixou.
– Eu sei disso.
– E também sei cantar. Você precisa ouvir a minha voz.
Constance ficou ali sentada. George começou a cantar. Cantou “Old Man River”. Depois “Nobody Knows the Trouble I’ve Seen”. Cantou “Saint Louis Blues” e “God Bless America”, parando várias vezes e rindo. Então se sentou ao lado de Constance e disse:
– Connie, você tem pernas lindas.
Pediu outro cigarro. Fumou, bebeu mais dois copos, então colocou sua cabeça no colo dela, em cima das coxas, contra as meias, e disse:
– Connie, acho que não sou bom, acho que sou louco, sinto muito por ter batido em você, me desculpe por tê-la queimado com aquele cigarro.
Constance permaneceu sentada. Passou seus dedos pelos cabelos de George, afagando-o e reconfortando-o. Logo ele estava dormindo. Ela esperou um pouco mais. Então levantou sua cabeça e a recostou em um travesseiro, levantou suas pernas e as endireitou na cama. Ela levantou-se, caminhou até a garrafa de uísque, serviu uma boa dose em seu copo, acrescentou um toque de água e bebeu tudo de uma vez. Caminhou até a porta do trailer, abriu-a, saiu e a fechou às suas costas. Caminhou pelo jardim, abriu o portão da cerca, caminhou pela viela sob o luar da uma da madrugada. O céu estava limpo e sem nuvens. O mesmo céu cheio de estrelas estava lá. Chegou ao bulevar e caminhou para leste, chegou até a entrada do Blue Mirror. Entrou, olhou ao redor e lá estava Walter sentado na ponta do balcão do bar, sozinho e bêbado. Caminhou até ele e sentou-se ao seu lado.
– Sentiu a minha falta, amor? – ela perguntou. Walter ergueu os olhos e a reconheceu. Não respondeu. Ele olhou para o balconista, e o balconista olhou para eles. Todos se conheciam.
– Ao sul de lugar nenhum
1 317

Para Jane: Com Todo Amor Que Tive, Que Não Foi Suficiente: –

recolho a saia,
recolho as luminosas contas negras
do colar,
esta coisa que uma vez se moveu
em torno da carne,
e chamo Deus de mentiroso,
digo que qualquer coisa que
como esta
tenha se movido
ou conhecido
meu nome
jamais poderia morrer
na verdade comum da morte,
e eu recolho
seu vestido
amado,
esvaziado do amor que dela emanava,
e falo
com todos os deuses,
deuses judeus, deuses cristãos,
pedacinhos de coisas brilhantes
ídolos, pílulas, pão,
compreensões, riscos,
renúncias conscientes,
ratos na complacência de dois que foram às raias da loucura
sem qualquer chance,
consciência de colibri, sorte de colibri
apoio-me nisso,
apoio-me em tudo isso
e sei:
seu vestido sobre meus braços:
mas
ninguém irá
devolvê-la para mim.
1 045

O Dia Em Que Mandei Meu Pé-De-Meia Pro Espaço

e, eu disse, você pode pegar seus tios e tias ricos
e avós e pais
e todo o petróleo fétido deles
e seus sete lagos
e todos os seus perus
e búfalos
e o estado inteiro do Texas,
quer dizer, seus espantalhos
e suas caminhadas de sábado à noite no calçadão,
e sua biblioteca de 50 centavos
e seus vereadores corruptos
e seus artistas aveadados –
pode pegar tudo isso
e seu jornal semanal
e seus famosos tornados,
e suas nojentas enchentes
e todos os seus gatos miantes
e sua assinatura da Time,
e enfiar no rabo, baby,
bem no meio do rabo.
posso voltar a manusear uma picareta e um machado (acho)
e posso arranjar
25 pratas por uma luta de 4 assaltos (talvez);
claro, estou com 38
mas um pouco de tintura pode esconder os fios
grisalhos do meu cabelo;
e ainda posso escrever um poema (às vezes),
não se esqueça disso, e mesmo que
não rendam nada,
é melhor do que esperar por mortes e petróleo,
e dar tiros em perus selvagens,
e esperar que o mundo
comece a girar.
tudo bem, vagabundo, ela disse,
dê o fora.
o quê? eu disse
dê o fora. você teve seu
último acesso de fúria.
cansei dos seus acessos de fúria:
você sempre atua como um
personagem de uma peça de O’Neill.
mas eu sou diferente, baby,
não consigo
evitar.
você é diferente, essa é boa!
Nossa, quanta diferença!
não bata
a porta
quando sair.
mas, baby, eu amo o seu
dinheiro!
você nunca me disse
que me ama!
o que você quer afinal
um mentiroso ou um
amante?
de você não quero nada! se manda, vagabundo,
se manda!
... mas baby!
volta lá pro seu O’Neill!
fui até a porta,
fechei-a com cuidado e me afastei,
pensando: tudo o que elas querem
é um índio de madeira
que diga sim e não
e fique parado junto ao fogo e
não faça muito barulho;
mas acontece que você já não é mais
uma criança, rapaz;
da próxima vez jogue visando
o pé-de-
meia.

Passei o Natal com Betty. Ela assou um peru e nós bebemos. Betty sempre gostou de grandes árvores de Natal. Essa devia ter uns dois metros de altura por um de largura, coberta com luzes, lâmpadas elétricas, lantejoulas e outras porcarias. Bebemos várias doses de uísque, fizemos amor, comemos nosso peru, bebemos mais um pouco. O prego da base estava frouxo e a base não era grande o suficiente para dar suporte à árvore. Eu ficava tentando ajeitá-lo. Betty se esticou na cama e apagou. Eu bebia no chão, de cuecas. Então também me estiquei. Fechei os olhos. Alguma coisa me despertou. Abri os olhos. Bem a tempo de ver a enorme árvore coberta de luzes quentes se inclinar devagar em minha direção, a estrela pontuda descendo como uma adaga. Não consegui entender muito bem o que estava acontecendo. Parecia o fim do mundo. Não conseguia me mexer. Os galhos da árvore me impediam. Eu estava debaixo dela. As lâmpadas incandesciam.
– Oh, OH, JESUS CRISTO, TENHA PIEDADE! SENHOR, ME AJUDE! JESUS! JESUS! SOCORRO!
As lâmpadas me queimavam. Rolei para a esquerda, mas não consegui me libertar, depois rolei para a direita.
– AI!
Finalmente consegui escapar rolando de baixo da árvore. Betty estava de pé, parada.
– O que aconteceu? O que é isso?
– NÃO ESTÁ VENDO? ESSA MALDITA ÁRVORE TENTOU ME MATAR!
– O quê?
– SIM, OLHA PRA MIM!
Meu corpo estava coberto de marcas vermelhas.
– Oh, pobrezinho!
Segui até a parede e desliguei a árvore da tomada. As luzes se apagaram. A coisa estava morta.
– Oh, minha pobre arvorezinha!
– Pobre arvorezinha?
– É, me deu tanta pena!
– Amanhã de manhã eu boto ela de pé de novo. Não confio nela agora. Vou deixar que descanse durante a noite.
Ela não gostou da ideia. Senti que teria de enfrentar um bate-boca, então coloquei o negócio de pé, apoiado numa cadeira, e acendi as luzes outra vez. Se a coisa tivesse queimado seus peitos ou seu rabo, ela teria jogado o negócio pela janela. Aquilo me pareceu uma extrema gentileza da minha parte.
Alguns dias depois do Natal apareci na casa de Betti para vê-la. Ela estava sentada em seu quarto, bêbada, às 8h45 da manhã. Seu aspecto não era nada bom, o que também se poderia dizer de mim naquela ocasião. Era como se cada um dos pensionistas tivesse dado a ela um pouco de bebida. Havia de tudo: vinho, vodca, uísque, scotch. Das marcas mais baratas. As garrafas enchiam o quarto.
– Esses cretinos! Será que eles não conhecem ninguém melhor? Se você beber todo esse negócio é morte na certa!
Betty apenas me olhou. Pude perceber tudo naquele olhar.
Ela tinha um filho e uma filha que nunca vinham visitá-la, sequer lhe escreviam. Era uma faxineira num hotel barato. Quando a conheci, suas roupas eram caras, tornozelos bem torneados em sapatos de luxo. Era toda rija, quase bela. Olhos selvagens. Sorridente. Vinda de um marido rico, recém-divorciada, ele que logo morreria num acidente de carro, bêbado, queimado vivo em Connecticut.
– Você jamais irá domá-la – me diziam.
Ali estava ela. Mas eu tinha recebido alguma ajuda.
– Escute – eu disse –, tenho que levar uma parte desse negócio. Quero dizer, de vez em quando eu lhe entrego uma garrafa. Não vou bebê-las.
– Deixe as garrafas – disse Betty. Não me olhava. Seu quarto ficava no último andar e ela se sentava junto à janela, acompanhando o tráfego da manhã.
Me aproximei.
– Veja, estou acabado. Tenho que ir embora. Mas pelo amor de Deus, pegue leve com esse negócio!
– Claro – ela disse.
Inclinei-me e lhe dei um beijo de despedida.
Retornei cerca de uma semana e meia depois. Não houve qualquer resposta para as minhas batidas.
– Betty! Betty! Você está bem?
Girei a maçaneta. A porta estava aberta. A cama estava virada. Havia uma enorme mancha de sangue no lençol.
– Ah, caralho! – eu disse. Olhei em volta. Todas as garrafas tinham sumido.
Então olhei mais uma vez ao meu redor. Ali estava a francesa de meia-idade que era dona do lugar. Ficou junto à porta.
– Ela está no Hospital Geral do Condado. Estava muito doente. Chamei a ambulância na noite passada.
– Ela bebeu todo aquele negócio?
– Teve alguma ajuda.
Desci correndo as escadas e entrei no meu carro. Logo cheguei lá. Conhecia bem o lugar. Informaram-me o número do quarto.
Havia três ou quatro camas num quarto apertado. Uma mulher estava sentada sobre a sua no sentido cruzado, mastigando uma maçã e rindo com duas visitantes do sexo feminino. Puxei a cortina divisória que circundava a cama de Betty, sentei-me no banquinho e me inclinei sobre ela.
– Betty! Betty!
Toquei seu braço.
– Betty!
Seus olhos se abriram. Eram novamente belos. De um azul sereno e brilhante.
– Tinha certeza de que era você – ela disse.
Em seguida voltou a fechar os olhos. Seus lábios estavam ressecados. Restos de saliva amarelada haviam se acumulado no canto esquerdo de sua boca. Peguei um lenço e removi os resíduos. Limpei seu rosto, suas mãos, sua garganta. Peguei outro lenço e espremi um pouco de água em sua língua. Depois um pouco mais. Molhei seus lábios. Ajeitei seus cabelos. Podia ouvir as mulheres rindo através da cortina que nos separava.
– Betty, Betty, Betty. Por favor, quero que você beba um pouco de água, apenas um golinho, não precisa ser muito, só um gole.
Ela não respondeu. Tentei aquilo por uns dez minutos. Nada.
Mais restos de saliva se formaram em sua boca. Removi-os.
Então me levantei e fechei a cortina. Fiquei olhando para as três mulheres.
Me afastei e falei com a enfermeira encarregada.
– Escute, por que ninguém faz nada em relação à mulher do 45-c? Betty Williams.
– A gente faz o que pode, senhor.
– Mas não há ninguém ali.
– Fazemos nossas rondas regulares.
– Mas onde estão os médicos? Não vi nenhum médico.
– O doutor já a examinou, senhor.
– Como é que vocês a abandonam lá daquele jeito?
– A gente faz o que pode, senhor.
– SENHOR! SENHOR! SENHOR! ESQUEÇA ESSA PORRA DE “SENHOR”! Aposto que se fosse o presidente ou o governador ou o prefeito ou um filho da puta qualquer cheio da grana, então haveria um montão de médicos ao redor do quarto fazendo alguma coisa! Por que vocês simplesmente não deixam o pessoal morrer? Que pecado há em ser pobre?
– Já lhe disse, meu senhor, estamos fazendo TUDO ao nosso alcance.
– Voltarei em duas horas.
– O senhor é o marido?
– Eu vivia com ela em concubinato.
– Pode nos deixar seu nome e um número de telefone?
Passei-lhe as informações e saí apressado.
O funeral estava marcado para as dez e meia e já fazia calor. Eu vestia um terno preto barato, comprado e ajustado às pressas. Era o meu primeiro terno novo em anos. Conseguira localizar o filho. Seguimos em seu Mercedes-Benz novinho. Tinha conseguido localizá-lo com a ajuda de uma tira de papel com o endereço de seu sogro. Duas chamadas de longa distância e cheguei até ele. Quando finalmente conseguiu se deslocar até aqui, sua mãe já estava morta. Morreu enquanto eu fazia as ligações. O rapaz, Larry, jamais tinha se enquadrado nas normas da sociedade. Tinha o hábito de roubar os carros dos amigos, mas entre os amigos e o tribunal dava um jeito de resolver as coisas. Então o exército o apanhou, e, de alguma maneira, entrou para um programa de treinamento, o que fez com que, assim que saísse, arranjasse um emprego muito bem pago. Foi quando deixou de ver a mãe, quando conseguiu esse bom emprego.
– Onde está sua irmã? – perguntei.
– Não sei.
– É um carro bacana. Não dá nem pra ouvir o motor.
Larry sorriu. Gostou do comentário.
Havia apenas três pessoas acompanhando o funeral: o filho, o amante e a irmã retardada da dona do hotel. Seu nome era Marcia. Marcia nunca dizia nada. Ficava apenas sentada, com um sorriso vazio nos lábios. Sua pele era branca como esmalte. Tinha um cabelo armado, de um amarelo mortiço, e um chapéu que não assentava. Marcia havia sido mandada pela dona do hotel para representá-la. A dona não podia perder seu negócio de vista.
Claro, eu estava com uma ressaca dos diabos. Paramos para tomar um café.
Àquela altura, então, já tinham ocorrido alguns problemas com o funeral. Larry tivera uma discussão com o padre católico. O padre não queria realizar o serviço. Finalmente foi decidido que ele faria o serviço pela metade. Bem, metade era melhor do que nada.
Tivemos problemas até com as flores. Eu havia comprado uma coroa de rosas, rosas misturadas, que foram arranjadas de modo a compor uma coroa. A floricultura passou a tarde inteira em cima do arranjo. A dona da floricultura tinha conhecido Betty. Haviam tomado umas e outras na época em que Betty e eu, alguns anos antes, morávamos numa casa com cachorro. Seu nome era Delsie. Sempre desejara chegar ao que estava debaixo das calcinhas de Delsie, mas nunca tinha conseguido.
Delsie tinha me telefonado.
– Hank, qual é o problema com esses cretinos?
– Que cretinos?
– Esses caras da funerária.
– Qual é o problema?
– Bem, eu mandei um rapaz na caminhonete para entregar a coroa e eles não deixaram ele entrar. Disseram que estavam fechados. Você sabe, é uma distância enorme.
– E aí, Delsie?
– Bem, por fim os caras deixaram ele pôr as flores para dentro, mas não pôde colocá-las no refrigerador. Então o rapaz teve que deixar elas ali mesmo. Que diabos há com essas pessoas?
– Não sei. Que diabos há com todo mundo?
– Não conseguirei ir ao funeral. Você está bem, Hank?
– Por que você não vem me consolar?
– Teria que levar o Paul.
Paul era seu marido.
– Esqueça.
Então assim estávamos, a caminho de nosso meio-funeral.
Larry ergueu os olhos do café.
– Vou escrever para você mais tarde para a gente ver o negócio da lápide. Agora estou pelado.
– Tudo bem – eu disse.
Larry pagou os cafés, então nós saímos e embarcamos no Mercedes-Benz.
– Espere um minuto – eu disse.
– O que foi? – perguntou Larry.
– Acho que esquecemos alguma coisa.
Retornei ao café.
– Marcia.
Ela seguia sentada à mesa.
– Estamos indo, Marcia.
Ela se levantou e me seguiu até a rua.
– Cartas na rua
1 266

Dow Jones: Em Queda

como podemos resistir?
como podemos falar de rosas
ou de Verlaine?
este é um bando faminto
que gosta de trabalhar e contar
e conhece as leis especiais,
que gosta de sentar nos parques
pensando em nada que preste.
é ali que a porca torce o rabo
sobre os montes rochosos
onde os rostos enlouquecem como violetas calcinadas pelo sol
onde falham as vassouras e as cordas e as tochas,
sombras em apuros...
onde as paredes caem em massa.
amanhã os banqueiros ditarão o tempo
de fechar os portões contra nossa inundação
e prevaricarão com as águas;
martelando, martelando o tempo,
lembre-se já
as flores estão abertas ao vento
e isso não faz nenhuma diferença afinal
exceto como um estremecimento na nuca
quando já de volta à nossa terra aberta
mortos outra vez
caminhamos entre os mortos.
633

O Mais Forte dos Estranhos

você não os verá seguidamente
pois onde quer que esteja a multidão
eles não
estarão lá.
esses tipos bizarros, não
muitos
mas deles
vêm
os poucos
pintores decentes
as poucas
sinfonias decentes
os poucos
livros decentes
e outras
obras.
e dos
melhores entre
esses estranhos
talvez
nada.
eles são
suas próprias
pinturas
seus próprios
livros
suas próprias
músicas
suas próprias
obras.
às vezes eu penso
eu os
vejo – digamos
um certo
velho
sentado num
certo banco
de uma certa
maneira
ou
há um certo movimento
das mãos
de um empacotador ou
empacotadora
quando guardam
as compras do
supermercado.
às vezes chega
a ser alguém com quem
você esteve morando
por algum
tempo –
você perceberá
um
rápido e fugaz
lampejo
nunca antes
percebido
neles.
algumas vezes
você só notará
suas
existências
subitamente
em
vívidas
lembranças
alguns meses
alguns anos
depois que eles tiverem
partido.
me lembro
de um
deles –
tinha cerca de
20 anos
bêbado às
10 da manhã
mirando fixo
um espelho
rachado em
Nova Orleans
o rosto sonhador
contra as
paredes do
mundo
onde
eu fui
parar?
1 117

Garota de Minissaia Lendo a Bíblia Junto À Minha Janela

Domingo. estou comendo um
pomelo. a missa terminou na Igreja Ortodoxa
Russa a
oeste.
ela é morena
de descendência oriental,
grandes olhos castanhos erguem-se da Bíblia
e voltam a baixar. uma Bíblia pequena, vermelha
e negra, e enquanto ela lê
suas pernas seguem em movimento, não param,
ela executa uma dança lenta e ritmada
lendo a Bíblia...
brincos dourados e compridos;
2 braceletes de ouro em cada braço,
e está num traje minúsculo, suponho,
a roupa adere a seu corpo,
a mais leve das camadas é esta roupa,
ela rebola pra lá e pra cá,
pernas longas e jovens esquentando ao sol...
não há como escapar dela
nem se deseja isso...
meu rádio toca música sinfônica
que ela não pode ouvir
mas seus movimentos coincidem exatamente
com os ritmos da
sinfonia...
ela é morena, ela é morena
ela está lendo sobre Deus.
eu sou Deus.
1 150

John Dillinger E Le Chasseur Maudit

é uma pena, e simplesmente foge ao estilo, mas não dou a mínima:
as garotas me lembram cabelos no ralo, garotas me lembram intestinos
e bexigas e movimentos excretórios; é uma pena também que
bolas de sorvete, bebês, válvulas de motor, plagióstomos, palmeiras,
passos no hall... tudo me excita com a calma fria
da lápide do túmulo; em nenhum lugar, talvez, há refúgio exceto
em ouvir falar que houve outros homens desesperados:
Dillinger, Rimbaud, Villon, Babyface Nelson, Sêneca, Van Gogh,
ou mulheres desesperadas: lutadoras de vale-tudo, enfermeiras, garçonetes, putas
poetisas... contudo,
suponho que o retirar dos cubos de gelo é importante
ou um rato farejando uma garrafa de cerveja vazia –
dois vazios profundos se encarando,
ou o mar à noite entupido de navios imundos
que penetram a teia relutante de seu cérebro com suas luzes,
com suas luzes salgadas
que te tocam e te abandonam
pelo amor mais sólido de alguma Índia;
ou dirigir por grandes distâncias sem razão
dopado através de janelas abertas que
rasgam e desfraldam sua camiseta como um pássaro temeroso,
e sempre as sinaleiras, sempre o vermelho,
fogo noturno e derrota, derrota...
escorpiões, pedaços, fardéis,
ex-empregos, ex-mulheres, ex-rostos, ex-vidas,
Beethoven em sua cova tão surdo quanto uma beterraba;
carrinhos de mão vermelhos, sim, talvez,
ou uma carta do Inferno assinada pelo diabo
ou dois bons garotos espancando outro pra valer
em algum estádio barato cheio de ululante fumaça,
mas basicamente, não dou a mínima, sentado aqui
com uma boca cheia de dentes apodrecidos
sentado aqui lendo Herrick e Spenser e
Marvell e Hopkins e Brönte (Emily, hoje);
e escutando Midday Witch de Dvorak
ou Le Chasseur Maudit,
não dou a mínima de fato, e é uma pena:
tenho recebido cartas de um jovem poeta
(bem jovem, ao que parece) me dizendo que um dia
certamente serei reconhecido como
um dos maiores poetas do mundo. Poeta!
uma malversação: hoje caminhei pelo sol e pelas ruas
da cidade: vendo nada, aprendendo nada, sendo
nada, e ao voltar ao meu quarto
passei por uma velha senhora que me sorriu um riso tenebroso;
ela já estava morta, e em todos os lugares eu me lembrava de fios:
fios de telefone, fios elétricos rostos elétricos
presos como peixinhos dourados em um copo e sorrindo,
e os pássaros se foram, nenhum dos pássaros quer fios
ou o sorriso dos fios
e eu fecho minha porta (enfim)
mas através da janela tudo segue igual:
uma buzina soou, alguém riu, um puxão de descarga,
e então o mais estranho
pensei em todos os cavalos com seus números
que haviam passado em meio à gritaria,
passado como Sócrates, como Lorca,
como Chatterton...
prefiro imaginar que nossas mortes não terão muita importância
exceto por uma questão de preparativo, um problema,
como jogar o lixo fora,
e embora eu tenha guardado as cartas do jovem poeta,
não acredito nelas
mas de vez em quando
como às palmeiras doentes
e ao sol que se põe,
eu as vejo.
1 051

Garras do Paraíso

borboleta de madeira
sorriso de bicarbonato de sódio
mosca de serragem
amo minha pança
e o homem da loja de bebidas
me chama,
“sr. Schlitz.”
os caixas no hipódromo
gritam,
“O POETA SABE A VERDADE!”
quando desconto meus bilhetes.
as senhoras
dentro e fora da cama
dizem que me amam
e eu sigo por aí com pés
molhados e brancos.
albatrozes com olhos embriagados
as cuecas sujas do Popeye
percevejos de Paris,
já limpei as barricadas
dominei o
automóvel
a ressaca
as lágrimas
mas eu conheço
a condenação final
como qualquer garoto de escola que vê
o gato ser esmagado
pelo tráfego.
meu crânio tem uma fenda de
quatro centímetros bem no
topo.
a maioria dos meus dentes está
na frente. sinto
tonturas em supermercados
cuspo sangue quando bebo
uísque
e me entristeço
até a
aflição
quando penso em todas as
boas mulheres que conheci
que se
dissolveram
desapareceram
por trivialidades:
viagens a Pasadena,
piqueniques de criança,
tampas de pasta de dente
ralo abaixo.
não há nada a fazer
senão beber
jogar nos cavalos
apostar no poema
enquanto as jovens
se tornam mulheres
e as metralhadoras
apontam para mim
encolhidas
atrás de paredes mais finas
que pálpebras.
não há defesa
exceto em todos os erros
cometidos.
nesse meio-tempo
tomo banhos de chuveiro
atendo ao telefone
ponho ovos pra ferver
estudo o movimento e a perda
e me sinto tão bem
quanto o próximo instante
caminhando ao sol.

Fay estava indo bem com a gravidez. Para uma mulher madura, ela estava bem. Esperávamos em casa. Finalmente chegou a hora.
– Não vai levar muito tempo – ela disse. – Não quero chegar lá muito cedo.
Saí e dei uma verificada no carro. Retornei.
– Ooooh, oh – ela disse. – Não, espere.
Talvez ela pudesse salvar o mundo. Orgulhava-me sua calma. Perdoei-a a louça suja, a The New Yorker e a oficina de escritores. A velha era apenas mais uma criatura sozinha num mundo que não estava nem aí pra ela.
– É melhor irmos agora – eu disse.
– Não – disse Fay –, não quero fazer você esperar muito tempo. Sei que você não anda se sentindo bem.
– Fodam-se meus problemas. Vamos fazer isso duma vez.
– Não, por favor, Hank.
Ela simplesmente ficou ali sentada.
– Em que posso ajudar você? – perguntei.
– Nada.
Ficou onde estava por mais dez minutos. Fui até a cozinha atrás de um copo d’água. Quando voltei, ela disse:
– Você está pronto pra dirigir?
– Claro.
– Sabe onde fica o hospital?
– Claro.
Ajudei-a a entrar no carro. Havia percorrido duas vezes o trajeto na semana passada, como treinamento. Mas quando cheguei lá não fazia a mais vaga ideia de onde estacionar. Fay apontou para uma pista.
– Vá por ali. Estacione ali. Entramos por esse caminho.
– Sim, senhora – eu disse...
Ela estava num leito, num quarto dos fundos que dava para a rua. Seu rosto se contraía.
– Segure minha mão – ela disse.
Foi o que fiz.
– Está mesmo acontecendo? – perguntei.
– Sim.
– Você faz tudo parecer tão fácil – eu disse.
– Você é muito gentil. Isso ajuda.
– Gosto de ser gentil. É aquele maldito Correio...
– Eu sei. Eu sei.
Olhávamos pela janela dos fundos.
Eu disse:
– Olhe para aquelas pessoas lá embaixo. Não fazem ideia do que acontece aqui em cima. Apenas caminham pela calçada. Sim, isso é engraçado... uma vez eles também tiveram que nascer, cada um deles.
– Sim, é engraçado.
Podia sentir os movimentos do corpo dela através de sua mão.
– Segure mais forte – ela disse.
– Sim.
– Vou odiar quando você tiver que ir.
– Onde está o médico? Onde está todo mundo? Mas que merda!
– Eles logo aparecem.
Logo em seguida uma enfermeira entrou. Era um hospital católico e se tratava de uma enfermeira muito bonita, morena, espanhola ou portuguesa.
– O senhor... deve sair... agora – ela me disse.
Mostrei a Fay meus dedos cruzados e sorri um sorriso torto. Não creio que ela tenha visto. Peguei o elevador e desci.
Meu médico alemão me acordou. O mesmo que me havia feito os testes sanguíneos.
– Parabéns – ele disse, com um aperto de mão –, é uma menina. Quatro quilos.
– E a mãe?
– A mãe ficará bem. Não deu nenhum trabalho.
– Quando posso ver as duas?
– O senhor será avisado. Trate de sentar, eles virão chamá-lo. – E então ele se foi.
Olhei através do vidro. A enfermeira apontou para a minha filha. Seu rosto estava bem vermelho e ela chorava mais alto do que todos os outros bebês. A sala estava cheia de bebês, todos aos berros. Quantos nascimentos! A enfermeira parecia muito orgulhosa de meu bebê. Ao menos, esperava que aquela criança fosse a minha. Ela a ergueu de modo que eu pudesse vê-la melhor. Sorri através do vidro, não sabia como agir. Ela apenas berrou para mim. Pobrezinha, pensei, pobre criatura. Eu não sabia então que ela seria linda um dia, que se pareceria muito comigo, hahaha.
Gesticulei para a enfermeira que baixasse o bebê, então dei um tchauzinho para as duas. Era uma enfermeira bacana. Boas pernas, boas cadeiras. Seios fartos.
Fay tinha uma mancha de sangue no lado esquerdo de sua boca, e eu apanhei um lenço molhado e limpei a marca. As mulheres foram feitas para sofrer, não era à toa que estavam sempre pedindo declarações de amor.
– Queria que eles me deixassem com a nenê – disse Fay –, não está certo isso de nos separarem.
– Eu sei. Mas deve haver alguma razão de ordem médica.
– Sim, mas mesmo assim não parece certo.
– Não, não é mesmo. Mas a menina parece bem. Farei o que puder para que eles a tragam o quanto antes. Deve ter uns quarenta bebês por lá. Estão fazendo todas as mães esperarem. Acho que isso deve acontecer pra que elas tenham tempo de se recuperar. Nosso bebê parece muito forte, posso lhe garantir. Por favor, não se preocupe.
– Eu ficaria tão feliz com a minha nenê.
– Eu sei, eu sei. Não vai demorar.
– Senhor – uma enfermeira gorda, mexicana, se aproximou –, vou ter que pedir para o senhor sair agora.
– Mas eu sou o pai.
– Sim, nós sabemos. Mas sua esposa precisa descansar agora.
Apertei a mão de Fay, beijei-lhe a testa. Ela fechou os olhos e pareceu dormir. Não era uma mulher jovem. Talvez ela não tivesse salvado o mundo, mas tinha feito uma grande melhoria. Um brinde a Fay.
– Cartas na rua
1 310

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Mário Quintana
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