Charles Bukowski

Charles Bukowski

1920–1994 · viveu 73 anos DE DE

Charles Bukowski foi um poeta e escritor alemão-americano, conhecido por sua obra crua, visceral e autobiográfica. Sua escrita, frequentemente associada à chamada "geração beat" e à contracultura, retrata a vida marginal, os vícios, a pobreza, o sexo e a alienação com uma linguagem direta e sem rodeios. Bukowski celebrou o submundo e os desajustados, tornando-se um ícone para muitos que se sentiam à margem da sociedade.

n. 1920-08-16, Andernach · m. 1994-03-09, San Pedro

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O Gênio da Multidão

Há suficiente violência, traição,
ódio
Absurdo no ser humano
comum
Para abastecer qualquer exército a qualquer
dia.
E Os Melhores Assassinos São Aqueles
Que Pregam Contra Ele.
E Os Que Melhor Odeiam São Aqueles
Que Pregam o AMOR
E OS MELHORES NA GUERRA
– POR FIM – SÃO AQUELES QUE
PREGAM
A PAZ
Aqueles Que Pregam DEUS
PRECISAM de Deus
Aqueles que Pregam A PAZ
Não Têm Paz.
AQUELES QUE PREGAM O AMOR
NÃO TÊM AMOR
CUIDADO COM OS PREGADORES
Cuidado com Os Conhecedores.
Cuidado
Com Aqueles
que SEMPRE
ESTÃO LENDO
LIVROS
Cuidado com Aqueles Que Detestam a
Pobreza Ou Estão Orgulhosos Dela
CUIDADO Com Aqueles Rápidos na Prece
Porque Eles Precisam de PRECES em Troca
CUIDADO Com Aqueles Rápidos em Censurar:
Eles Têm Medo Daquilo Que
Não Conhecem
Cuidado Com Aqueles Que Buscam Multidões
Constantes; Eles Não São Nada
Sozinhos
Cuidado Com
O Homem Comum
A Mulher Comum
CUIDADO Com o Amor Deles
O Amor Deles É Comum, Busca o
Comum
Mas Há Gênio No Modo Como Odeiam
Há Gênio Suficiente No Ódio
Deles Para Matá-Lo, Para Matar
Qualquer Um.
Por Não Desejarem a Solidão
Por Não Entenderem a Solidão
Tentarão Destruir
Tudo
Que Seja Diferente
Deles Mesmos
Por Serem Incapazes
De Criar Arte
Eles Não
Entenderão a Arte
Considerarão o Fracasso
Como Criadores
Somente Como Uma Falha
Do Mundo
Por Serem Incapazes De Amar Por Completo
ACREDITARÃO Que Seu Amor É
Incompleto
E ASSIM ELES ODIARÃO
VOCÊ
E o Ódio Deles Será Perfeito
Como Um Diamante Que Cintila
Como Uma Faca
Como Uma Montanha
COMO UM TIGRE
COMO Cicuta
A ARTE Que Lhes É
Mais Fina
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Biografia

Identificação e contexto básico

Heinrich Karl "Hank" Bukowski Jr. foi um poeta, contista e romancista alemão-americano. Nasceu em Andernach, na Alemanha, em 16 de agosto de 1920, e faleceu em San Pedro, Califórnia, Estados Unidos, em 9 de março de 1994. É uma figura proeminente da literatura marginal e da contracultura americana. Filho de pais alemães, mudou-se com a família para os Estados Unidos quando tinha três anos.

Infância e formação

Bukowski teve uma infância difícil marcada pela pobreza e por um relacionamento abusivo com o pai. Aos três anos, a família emigrou para os Estados Unidos, estabelecendo-se em Los Angeles. Sua adolescência foi rebelde e problemática. Frequentou a Los Angeles High School, mas abandonou os estudos precocemente. Aos 17 anos, saiu de casa. Sua formação foi autodidata, moldada por leituras intensas, pela experiência de vida nas ruas e pelos trabalhos precários que desempenhou ao longo de décadas.

Percurso literário

Bukowski começou a escrever poesia e contos ainda jovem, mas demorou décadas para ser reconhecido. Trabalhou em empregos manuais e braçais, como carteiro e em fábricas, em grande parte de sua vida adulta, muitas vezes lutando contra o alcoolismo. Publicou esporadicamente em pequenas revistas literárias underground nas décadas de 1940 e 1950. Sua carreira literária ganhou impulso a partir da década de 1960, quando se dedicou integralmente à escrita após receber uma herança que lhe permitiu deixar o emprego nos correios. Seu primeiro livro de poemas, "Flower, Fist, and Bestial Wail", foi publicado em 1960. A partir daí, produziu uma vasta obra em poesia, contos e romances.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras mais conhecidas de Bukowski incluem coleções de poemas como "Love Is a Dog from Hell" (1977), "Crimson Tears" (1978), e "The Most Beautiful Woman in Town" (1986), além de romances como "Factotum" (1975), "Women" (1978) e "Post Office" (1971). Seus temas centrais são a vida marginal, a pobreza, o alcoolismo, o sexo, a solidão, a alienação, a crítica social e a busca por sentido em um mundo caótico. Seu estilo é caracterizado por uma linguagem direta, coloquial, sem adornos, muitas vezes obscena e chocante, mas também capaz de uma profunda sensibilidade e honestidade. Ele utilizava o verso livre de forma contundente, com frases curtas e ritmo muitas vezes quebrado. Sua voz poética é confessional, crua e irónica, refletindo suas experiências de vida de forma implacável. Bukowski é considerado um renovador da poesia americana pela sua abordagem realista e pela sua capacidade de dar voz aos desvalidos.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Bukowski emergiu como uma voz dissonante em meio ao otimismo pós-guerra e ao surgimento da contracultura nos EUA. Sua obra, muitas vezes associada à Geração Beat, como Jack Kerouac e Allen Ginsberg, embora com um estilo mais sombrio e menos místico, capturou o desencanto e a rebeldia de uma parcela da sociedade que se sentia marginalizada. Ele escreveu em um período de profundas mudanças sociais e políticas nos Estados Unidos, como a Guerra do Vietnã e os movimentos pelos direitos civis, temas que, embora não diretamente abordados, permeiam o pano de fundo de sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida de Bukowski foi marcada pela luta contra o alcoolismo, por relacionamentos tumultuados e por uma série de empregos precários. Teve casamentos e relacionamentos significativos, incluindo com as poetisas Jane Cooney Baker e Linda King, e mais tarde com Linda Lee Beighle, que se tornou sua esposa e figura importante em sua vida. Sua obra é profundamente autobiográfica, sendo difícil separar o homem do escritor. Suas experiências com a pobreza e a boemia foram a matéria-prima de sua escrita. Suas crenças eram pragmáticas e cínicas, desconfiando de instituições e ideologias.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Bukowski obteve um reconhecimento tardio e muitas vezes controverso. Enquanto era idolatrado por muitos como um autêntico "escritor do povo" e um rebelde contra o sistema, era criticado por outros por seu estilo considerado vulgar ou amoral. Sua popularidade cresceu exponencialmente após sua morte, tornando-se um autor cultuado em todo o mundo, especialmente entre jovens e leitores que se identificam com sua honestidade brutal e sua visão de mundo sem filtros.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Bukowski foi influenciado por escritores como Ernest Hemingway, John Fante, D.H. Lawrence e por autores da Geração Beat. Seu legado é o de ter dado voz aos marginalizados, de ter mostrado que a literatura pode emergir de experiências de vida difíceis e de ter desafiado as convenções literárias estabelecidas. Inspirou inúmeros poetas e escritores que buscam uma linguagem autêntica e um retrato sem maquiagem da realidade. Sua obra continua a ser uma referência para a literatura underground e alternativa.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Bukowski é frequentemente analisada sob a ótica da literatura marginal, da crítica social e da representação da experiência humana em suas formas mais cruas. Os debates centram-se na sua genialidade como cronista da vida urbana e da alienação, e na sua capacidade de extrair poesia do feio e do sórdido.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Bukowski era conhecido por seu humor negro e seu cinismo. Ele tinha uma coleção de centenas de cartas de amor recebidas de fãs em todo o mundo. Passou um período em um hospital psiquiátrico em sua juventude, uma experiência que o marcou profundamente. Sua relação com os cachorros era notória. Era um observador atento da natureza humana, registrando suas observações em cadernos.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Charles Bukowski faleceu em 9 de março de 1994, em San Pedro, Califórnia, aos 73 anos, vítima de leucemia. Sua morte foi recebida com pesar por seus admiradores. Suas cinzas foram espalhadas em um de seus locais favoritos na Califórnia. Sua obra continua a ser publicada e a ser redescoberta por novas gerações, solidificando sua posição como um dos autores mais singulares e influentes da literatura americana.

Poemas

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E As Triviais Vidas da Realeza Nunca Me Empolgaram Tampouco...

nunca me importei de ficar molhado, várias vezes eu entrava em
lugares durante uma chuva e alguém dizia: “Você está
molhado!” como se eu não tivesse nenhuma compreensão das circunstâncias.

mas parece que estou quase sempre em apuros com
a maioria das mentes: “você sabe que não penteou o
cabelo atrás?”

“seu sapato esquerdo está desamarrado...”

“acho que o seu relógio está cinco minutos atrasado...”

“seu carro precisa de uma lavagem...”

quando largarem aquela primeira bomba por aqui eles vão
entender por que razão eu ignorei tudo de cara.

os pingos de chuva de mim mesmo afinal vagando
em lugar algum
como digamos o Estrangulador de Boston.
ou como todas as garotinhas com seus
cachinhos
sentadas esperando.
1 095

Um Longo Dia Quente No Hipódromo

o dia todo lá no hipódromo queimando no sol
eles viraram tudo de ponta-cabeça, lançaram as
apostas remotas todas. tive um único vencedor, um
lance de 6 pra 1. é em dias como esse que você percebe
o logro em andamento.

eu estava no clube. encontro geralmente o
maître d’ do Musso’s no clube. naquele
dia eu encontrei meu médico. “mas onde é que você andava?”,
ele me perguntou. “nada além de ressacas ultimamente”,
respondi. “apareça mesmo assim. você não vai
querer ficar doente. podemos almoçar. conheço um
tailandês, vamos comer uma comida tailandesa. você ainda
escreve aqueles troços pornográficos?” “sim”, eu disse,
“é só assim que eu consigo fazer.” “vou me
sentar com você”, ele disse, “peguei o 6.”
“peguei o 6 também”, eu disse, “ou seja,
estamos fodidos.”

sentamos e ele me falou sobre suas quatro
esposas: a primeira não queria copular.
a segunda queria ir esquiar em
Aspen toda hora. a terceira era
louca. a quarta era ok, eles
ficaram juntos por sete anos.
os cavalos saíram do portão. o médico
apenas olhava para mim e falava sobre sua quarta
esposa. um médico bem falastrão. eu tinha
acessos de tontura ouvindo sua falação sentado
na beira da mesa de exame. mas ele tinha
trazido minha filha ao mundo e tinha cortado
fora minhas hemorroidas.

ele seguia falando da quarta esposa...

a corrida era de 6 furlongs e a menos que seja um bando
de perdedores lentos os 6 furlongs são geralmente corridos
em algo entre um minuto e nove ou dez
segundos. o primeiro cavalo era 24 pra um e tinha
pulado para uma liderança de três comprimentos. o filho da
puta parecia não ter nenhuma intenção de
parar.

“escuta”, eu disse, “você não vai olhar
a corrida?”

“não”, ele disse, “não aguento olhar, fico
aflito demais.”

ele começou de novo com a quarta esposa.

“espera”, eu disse, “estão vindo pela
reta final!”

o 24 pra um chegou com cinco comprimentos. já
era.

“não tem lógica nenhuma em nada desse troço aqui”,
disse o médico.

“eu sei”, eu disse, “mas a pergunta que você deve
me responder é: ‘por que nós estamos aqui?’.”

ele abriu a carteira e me mostrou uma foto de
seus dois filhos. falei que eram belas
crianças e que restava uma corrida.

“estou quebrado”, ele disse, “preciso ir. perdi
$425.”

“tá bom, tchau.” apertamos as mãos.

“me liga”, ele disse, “a gente vai no restaurante tailandês.”

a última corrida não foi melhor: botaram pra correr um
9 pra um que estava subindo de categoria e
não tinha vencido nenhuma corrida em dois anos.

desci a escada rolante com os perdedores. era
uma quinta-feira quente de julho. o que é que o meu médico
estava fazendo no hipódromo numa quinta? e
se eu estivesse com câncer ou gonorreia? Jesus Cristo, não
dava pra confiar mais em ninguém.

eu tinha lido no jornal entre as corridas
que uns garotos haviam invadido uma
casa e espancado uma mulher de 96 anos
até a morte e haviam espancado quase até a morte

a irmã ou filha cega de 82 anos,
eu não lembrava direito. mas haviam levado um
aparelho de televisão a cores.

pensei, se me pegarem aqui
amanhã, eu mereço perder. não
estarei aqui, creio que
não.

andei até o meu carro com o Programa
das Corridas do dia seguinte enrolado na
mão direita.
1 117

Venice, Calif., Nov. 1977:

leary se foi faz tempo e a área dos desajustados que ele criou:
os drogados, os doidos, os fanáticos, o afluxo
de idiotas em geral há muito foi corrigido pelas
instituições, incluindo a instituição da morte.
lsd está quase fora, anfetamina é padrão, barbitúricos são raros,
baseados não são valentes, cocaína e H são caras demais,
patins e raquetebol estão na moda; menos violões,
menos bongôs, menos negros; os nativos agora mascateiam bagagem
e pequenas mercadorias em vans enquanto seus estéreos
já não tocam Bob Dylan, eles viraram pequenos
capitalistas, nada exaustivo, só uma febre, e a
bicicleta de dez marchas, eles pedalam a bicicleta de dez marchas como
no sonho, todas as revoluções acabaram mas resta
um ou outro anarquista sob as palmeiras, calcando seus
cachimbos e planejando explodir qualquer coisa em absoluto por
nenhuma razão em absoluto e o mar vem e vai, vai e vem,
e em Santa Monica os musculosos continuam lá,
embora não sejam os mesmos musculosos, e o mar
vem e vai, e não há Vietnã para protestar, praticamente
nada pra fazer, raquetebol, patins e dez marchas,
e trepar é quase uma chatice, dá problema, sabe,
e vinho barato está na moda, e você pode lavar o carro no
faça-você-mesmo por vinte e cinco centavos.
1 040

As Cartas de John Steinbeck

sonhei que eu estava congelando e quando acordei e descobri
que não estava congelando de algum modo eu caguei na cama.
eu tinha trabalhado no livro de viagem naquela noite e
não tinha rendido muito bem e estavam levando meus cavalos
embora, para Del Mar.
eu teria tempo para ser escritor agora. eu acordaria de
manhã e lá estaria a máquina olhando para mim,
ela ia parecer uma tarântula; ou melhor – ia parecer
um sapo preto com cinquenta e uma verrugas.

você deduz que Camus se ferrou porque deixou outra pessoa
dirigir o carro. não gosto de nenhuma outra pessoa dirigindo o
carro, não gosto nem quando eu mesmo dirijo. bem,
depois de limpar a merda coloquei minha bermuda
amarela de caminhada e fui de carro para o hipódromo. estacionei e
entrei.

o primeiro que vi foi o meu biógrafo. eu o vi
de lado e me escondi. ele estava bem-vestido,
fumava um charuto e tinha um drinque na mão.
da última vez na minha casa ele me deu dois livros:
Scott e Ernest e As cartas de John Steinbeck.
leio esses livros quando cago. sempre leio quando cago
e quanto pior o livro melhor o movimento intestinal.
aí depois da primeira corrida meu médico sentou do meu lado.
ele parecia ter acabado de sair de uma cirurgia sem
se lavar muito bem. ele ficou até depois da
oitava corrida, conversando, bebendo cerveja e comendo cachorros-quentes.
então desatou a falar do meu fígado: “você bebe quantidades
tão absurdas que quero dar uma olhada no seu fígado. trate
de aparecer agora.” “tá bom”, falei, “terça de
tarde.”

eu me lembrei da recepcionista dele. na minha última consulta
tinha ocorrido uma inundação no banheiro e ela ficou de joelhos
no chão para secar e seu vestido havia subido bem
alto acima das coxas. eu tinha parado pra ficar olhando,
dizendo a ela que as duas maiores invenções do Homem haviam sido
a bomba atômica e o encanamento.

aí o meu médico se foi e o meu biógrafo se foi também
e eu ainda tinha $97.
lá em Del Mar eles têm uma reta curta e eles
vêm gemendo por aquela última curva, e a água dos
bebedouros tem gosto de mijo.

se o meu fígado já era então já era; algo sempre ia
primeiro e aí o restante seguia. que desfile.
não era verdade, porém, dependia da parte.
eu conhecia certas pessoas sem mente que esbanjavam
saúde.

perdi a última corrida e saí dirigindo com sorte o bastante para
pegar um Shostakovich no rádio
e quando você vê às 6:20 da tarde numa rádio AM
isso é tirar um rei com ás, rainha, valete, dez...
1 237

Ala Beneficente

e me jogaram num porão por 3 dias
e era um lugar muito escuro, e parecia que
todo mundo era louco lá embaixo e isso,
pelo menos, me mantinha feliz. mas volta e meia
um grande filho da mãe que se autodenominava
“Booboo Cullers, o grandão das Avenidas!”
vinha se meter, quero dizer ele saía de sua cama
e ele era enorme e doido e eu estava fraco, muito,
e ele batia nos outros pacientes com seus punhos,
mas eu sempre dava um jeito de rechaçá-lo
eu pegava meu jarro de água
levantava pra trás com a mão esquerda, praguejava fazendo mira.
Boo desistia.

depois de despacharem 6 mortos
um por causas naturais
5 pelas mãos do fabuloso Booboo Cullers
o grandão das Avenidas,
amarraram o enorme Booboo
com grande dificuldade,
e eu fiquei olhando enquanto os guardas batiam nele
no rosto e na barriga e na genitália até que ele
parou de gritar e cedeu
e eu sorri e me dei conta do que significava
a palavra Humanismo
apenas o máximo de conforto para o máximo número de humanos,
o que no meu entender era
muito bacana.
1 049

Eu Achei Que Ia Me Dar Bem

eu tinha acabado de vomitar fora da porta do meu carro
misturas vermelhas, vinho, cerveja e uísque.
tarde da noite no sábado
não, cedo na manhã de domingo;
eu não aguentaria muito mais; eu estava sempre
me matando
indo parar em cadeias, hospitais, soleiras de porta, pisos...
traduzido para 7 línguas
tema de meia dúzia de cursos de lit. moderna,
eu ainda não sabia nada,
não queria saber;
forcei o último jato
fechei a porta
e rodei a leste pelo Sunset –
quando vi uma coisa com longos cabelos loiros
vomitando, realmente botando pra
fora – expelindo a vida podre o trago podre –
as calças femininas caídas e arrastadas no chão,
bunda nua sob o luar hollywoodiano de cartolina –
a coisa estava realmente passando mal:
ela arfava, então andava um pouquinho,
arfava, aquela bunda branca toda,
e eu pensei, caralho, vou me dar bem –
já faz uns 2 anos e estou cansado de escrever sobre
punhetas –
mas quando me aproximei
percebi que não eram calças femininas e sim masculinas;
era só um garoto de cabelo comprido com uma grande bunda pelada,
mas ora, como dizia o meu amigão Benny –
“qual diabo é a diferença?”
e eu estava prestes a parar junto dele
quando a viatura o viu
e se intrometeu entre nós
e os dois tiras saltaram
bem felizes e empolgados com seu achado –
“ei, mãe, quê que cê tá fazendo com o furo
de fora?”
o garoto afastou as pernas, jogou os braços para o ar.
“ei, você!”, um dos tiras gritou para mim.
desliguei meus faróis e caí fora devagar como se eu não tivesse
escutado. aí pisei fundo na primeira
à direita. na Gramercy Place com Hollywood Blvd. eu parei
abri a porta e
vomitei de novo.
pobre filho da puta, pensei, em vez de
levá-lo pra casa ou para um hospital
vão levá-lo pra cadeia – aquela bunda branca toda.
talvez eles se aproveitem um pouco. bem, era tarde demais para
mim.
fechei a porta, liguei os faróis, rodei em frente,
tentando lembrar onde eu
morava.
1 122

Vá Para a Tumba Limpinho –

ninguém se importa
ninguém realmente se importa
você não sabia?
você não lembrava?
ninguém realmente se importa

até aqueles passos
caminhando para algum lugar
estão indo para lugar nenhum

você talvez se importe
mas ninguém se importa –
esse é o primeiro passo
na direção da sabedoria

aprenda

e ninguém precisa se importar
de ninguém é esperado que se importe

a sexualidade e o amor vão por água abaixo
como merda

ninguém se importa
aprenda

a crença no impossível é a
armadilha
a fé mata

ninguém se importa –
os suicidas, os mortos, os deuses
ou os vivos

pense no verde, pense nas árvores, pense
na água, pense na sorte e numa espécie de
glória
mas se liberte das amarras
rápida e finalmente
de depender do amor
ou esperar o amor de
alguém

ninguém se importa.
739

Andei Trabalhando Na Ferrovia...

o Grande Editor disse que queria me encontrar
pessoalmente antes de publicar meu livro.
ele disse que os escritores eram na maioria filhos da puta
e ele só não queria lançar alguém
que fosse
então já que ele estava pagando a passagem de trem
fui lá para
Nova Orleans
onde morei perto dele dobrando a esquina
num quarto pequeno.

o Grande Editor morava num porão com uma
prensa, sua esposa e dois
cães.
o Grande Editor também publicava uma famosa
revista literária
mas meu planejado livro
seria sua primeira tentativa na
área.
ele sobrevivia com a revista, com a sorte, com
doações.

toda noite eu jantava com o Grande
Editor e sua esposa (minha única refeição e
provavelmente a deles também).
depois nós tomávamos cerveja até a meia-noite
quando eu ia para o meu quarto pequeno
abria uma garrafa de vinho e começava a
datilografar.
ele dizia que não tinha poemas
suficientes.
“preciso de mais poemas”, ele dizia.

ele tinha vencido meus poemas antigos
e conforme eu escrevia os novos poemas ele
os imprimia.
eu estava escrevendo diretamente para o
prelo.

pelo meio-dia todos os dias eu dobrava
a esquina
batia na janela
e via o Grande Editor
alimentando a prensa com
páginas dos meus poemas.

o Grande Editor era também o Grande
Empresário, o Grande Impressor e
Inúmeras Outras Grandes Coisas,
e eu era praticamente o poeta
desconhecido por isso tudo era bem
estranho.

de todo modo, eu acenava minhas páginas pra
ele e ele parava a prensa
e abria a porta pra mim.

ele sentava e lia os poemas:
“hmmm... bom... por que você não
vem jantar esta noite?”
aí eu ia embora.

certos meios-dias eu batia na
janela
sem quaisquer poemas
e o Grande Editor me encarava
como se eu fosse uma
barata gigante.
ele não abria a porta.

“vá embora!”, eu podia ouvi-lo gritar
através da janela, “vá embora e
não volte até ter
alguns poemas!”

ele ficava genuinamente zangado
e isso me intrigava: ele esperava
de mim 4 ou 5 poemas
por dia.

eu parava em algum lugar pra beber uma
dúzia de latinhas
voltava para o meu quarto
e começava a datilografar.
a cerveja da tarde sempre tinha um gosto
bom e me vinham
alguns poemas...

levava de volta
batia na janela
acenava as páginas.

o Grande Editor sorria
agradavelmente
abria a porta
pegava as páginas
sentava e lia:
“ãmm... ãmmm... estes estão
bons... por que você não aparece
pra jantar esta noite?”

e entre a tarde
e a noite
eu voltava para o meu quarto
e assinava mais e mais
colofões.
as páginas eram grossas, de alta
gramatura, caras,
criadas para durar
2.000 anos.
as assinaturas eram lentas e
trabalhosas
escritas com caneta
especial...
milhares de colofões
e conforme eu ficava mais bêbado
para tentar não ficar
completamente louco
eu começava a fazer desenhos
e
declarações...
quando eu terminava de assinar os
colos
a pilha de páginas alcançava
dois metros de altura
no meio do
quarto.

como falei,
era um tempo muito estranho
para um escritor desconhecido.
ele me disse uma
noite:
“Chinaski, você estragou
a poesia pra mim... desde que
passei a ler a sua eu simplesmente não consigo ler
mais nada...”

grande louvor, sem dúvida, mas eu
sabia o que ele queria dizer.

todos os dias sua esposa se postava
nas esquinas
tentando vender pinturas,
suas pinturas e as pinturas
de outros pintores.
ela era uma mulher belíssima e
fogosa.

finalmente o livro ficou pronto.
isto é, menos a encadernação;
o Grande Editor não conseguia fazer
a encadernação, tinha de pagar pela
parte da encadernação e isso o
deixava puto.

mas nosso trabalho estava pronto,
o dele e o meu,
e o Grande Editor e
sua esposa me puseram no trem
de volta para L.A.

ambos parados ali
na plataforma
olhando pra mim e sorrindo
enquanto eu olhava pra trás do
assento na janela.
foi algo...

constrangedor...
por fim o trem começou
a rodar lentamente
e eu acenei e eles
acenaram
e aí quando eu já estava
quase fora de vista
o Grande Editor
ficou dando vários saltos
como um garotinho,
acenando ainda...

fui até o vagão
do bar e decidi passar
minha viagem
ali.

algumas paradas e
algumas horas depois
o portador chegou
lá atrás:
“henry chinaski! tem
algum henry chinaski aqui?”

“aqui meu bom homem”,
falei.

“porra, cara”, ele disse, “eu
estava procurando você em tudo que é
canto desse trem!”

dei gorjeta e abri o
telegrama:
“você continua um f.d.p. mas
continuamos te amando...
Jon e Louise...”

fiz sinal para o portador se mandar
pedi um scotch duplo
com gelo
peguei o copo
e o ergui no ar por um instante
brindei a eles uma quase
lírica bênção
então bebi tudo
com o trem
rodando e balançando
balançando e rodando
levando-me para mais e mais
longe
daquelas mágicas
pessoas.
1 192

Me Modernizando

bebi mais do que o normal esta noite, produzi com isso alguma
escrita mas eis ali minha máquina de escrever elétrica IBM e ambas
as fitas acabaram ao mesmo tempo: a fita de escrever e a fita apagadora
e geralmente consigo trocá-las
mas esta noite eu estava bêbado demais:

foi uma batalha da alma inserir a fita de escrever mas
no tocante à fita apagadora me faltou
alma: a fita grudenta grudava em coisas
indevidas, torcia-se como um pretzel, e a joguei fora e
tentei outra.
devem ter se passado dez minutos até que fiz
direito.
enquanto isso – eu já estava em outra garrafa, então olhei
a caixa no chão: restavam-me uma fita de escrever e uma
fita apagadora por isso recorri ao Manual de Instruções e disquei o
número 800 que acho que ficava em Maryland ou Dakota do Sul e
fiquei surpreso por ser atendido: eram 3:30 da manhã em
Los Angeles.

falei à mulher sobre a minha necessidade mas ela não entendia direito,
ficava exigindo um # do pedido.
eu estava com Richard Wagner no máximo volume no rádio e falei a ela
que eu não tinha um maldito # do pedido.
ela
desligou na minha cara e eu disquei de novo e dessa vez peguei um jovem
simpático e ele disse “que música maravilhosa o senhor está ouvindo...”, mas
o jovem simpático também exigiu um # do pedido.
sequei uma taça inteira de vinho, falei “escuta, eu não tinha um
# do pedido na primeira vez que liguei...”

“mas, senhor, na segunda vez que o senhor liga a regra é que deve ter
um # do pedido.”

“você quer dizer que não posso comprar minhas fitas? eu sou escritor, porra, como
vou fazer? você cortaria fora os chifres de um touro?”

“o senhor tem a sua última conta aí
consigo?”

“sim, sim...”

“o # do pedido deve estar na conta,
senhor...”

“estou dizendo, não tem nada aqui indicando um # do
pedido!”

“bem, senhor...”

“não, não, não!”

sequei outra taça de
vinho, “escuta, vamos fazer de conta que esta é a primeira vez que ligo
pra vocês e vamos começar pelo começo?”

“tudo bem, senhor... agora, o senhor pode listar pra mim o que
deseja?”

“obrigado! quero 18 fitas tira-tinta, item # 1136433 e quero 12
cartuchos de fita preta, item # 1299508.”

então li para ele o # do meu cartão American Express que não vou incluir
aqui.

“o senhor receberá todas as suas mercadorias dentro de 8 a dez dias, senhor...”
“obrigado!”

então, desligando, notei uma linha na minha conta anterior, ela dizia # de
pedido 11101 – isso e aquilo e traço isso e aquilo.
tinha estado ali o tempo
inteiro.

agora eu estava pronto para escrever de novo, o socorro já vinha, minha mente
livre, inclinei o corpo à frente e comecei a bater as teclas:
frsyj mrbrt ,syyrtrf sd ,ivj, sd yjsy dytuhhlr yo dysy
slibr s,pmh yjr %rp%;r smf om d%oyr pg yjs
%rp%;r.
frsyj eo%% mr yjr rsdody %sty.
1 059

Bob Dylan

esses dois jovens
no pátio do outro lado da rua
eles ouvem Bob Dylan
o dia todo e a noite toda
no aparelho de som

eles ligam aquele aparelho
no máximo volume possível
e é um ótimo
aparelho

a vizinhança toda
ganha Bob Dylan
de graça

e para mim é ainda mais grátis
porque moro no pátio
logo em frente

ganho Dylan quando cago
ganho Dylan quando trepo
e no momento em que tento
dormir.
às vezes os vejo
lá fora na calçada
bem jovens e arrumadinhos
indo comprar comida e
papel higiênico

eles formam um dos casais mais
adoráveis da
vizinhança.
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Mário Quintana
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