Charles Bukowski

Charles Bukowski

1920–1994 · viveu 73 anos DE DE

Charles Bukowski foi um poeta e escritor alemão-americano, conhecido por sua obra crua, visceral e autobiográfica. Sua escrita, frequentemente associada à chamada "geração beat" e à contracultura, retrata a vida marginal, os vícios, a pobreza, o sexo e a alienação com uma linguagem direta e sem rodeios. Bukowski celebrou o submundo e os desajustados, tornando-se um ícone para muitos que se sentiam à margem da sociedade.

n. 1920-08-16, Andernach · m. 1994-03-09, San Pedro

1 061 788 Visualizações

Como Ser Um Grande Escritor

você tem que trepar com um grande número de mulheres
belas mulheres
e escrever uns poucos e decentes poemas de amor.

e não se preocupe com a idade
e/ou com os talentos frescos e recém-chegados.

apenas beba mais cerveja
mais e mais cerveja

e vá às corridas pelo menos uma vez por
semana

e vença
se possível.

aprender a vencer é difícil –
qualquer frouxo pode ser um bom perdedor.

e não se esqueça do Brahms
e do Bach e também da sua
cerveja.

não exagere no exercício.

durma até o meio-dia.

evite cartões de crédito
ou pagar qualquer conta
no prazo.

lembre-se que nenhum rabo no mundo
vale mais do que 50 pratas.
(em 1977).

e se você tem a capacidade de amar
ame primeiro a si mesmo
mas esteja sempre alerta para a possibilidade de uma
derrota total
mesmo que a razão para essa derrota
pareça certa ou errada –

um gosto precoce da morte não é necessariamente
uma coisa má.

fique longe de igrejas e bares e museus,
e como a aranha seja
paciente –
o tempo é a cruz de todos,
mais o
exílio
a derrota
a traição

todo este esgoto.

fique com a cerveja.

a cerveja é o sangue contínuo.

uma amante contínua.

arranje uma grande máquina de escrever
e assim como os passos que sobem e descem
do lado de fora de sua janela

bata na máquina
bata forte

faça disso um combate de pesos pesados

faça como o touro no momento do primeiro ataque
e lembre dos velhos cães
que brigavam tão bem:
Hemingway, Céline, Dostoiévski, Hamsun.

se você pensa que eles não ficaram loucos
em quartos apertados
assim como este em que agora você está

sem mulheres
sem comida
sem esperança

então você não está pronto.

beba mais cerveja.
há tempo.
e se não há
está tudo certo
também.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Heinrich Karl "Hank" Bukowski Jr. foi um poeta, contista e romancista alemão-americano. Nasceu em Andernach, na Alemanha, em 16 de agosto de 1920, e faleceu em San Pedro, Califórnia, Estados Unidos, em 9 de março de 1994. É uma figura proeminente da literatura marginal e da contracultura americana. Filho de pais alemães, mudou-se com a família para os Estados Unidos quando tinha três anos.

Infância e formação

Bukowski teve uma infância difícil marcada pela pobreza e por um relacionamento abusivo com o pai. Aos três anos, a família emigrou para os Estados Unidos, estabelecendo-se em Los Angeles. Sua adolescência foi rebelde e problemática. Frequentou a Los Angeles High School, mas abandonou os estudos precocemente. Aos 17 anos, saiu de casa. Sua formação foi autodidata, moldada por leituras intensas, pela experiência de vida nas ruas e pelos trabalhos precários que desempenhou ao longo de décadas.

Percurso literário

Bukowski começou a escrever poesia e contos ainda jovem, mas demorou décadas para ser reconhecido. Trabalhou em empregos manuais e braçais, como carteiro e em fábricas, em grande parte de sua vida adulta, muitas vezes lutando contra o alcoolismo. Publicou esporadicamente em pequenas revistas literárias underground nas décadas de 1940 e 1950. Sua carreira literária ganhou impulso a partir da década de 1960, quando se dedicou integralmente à escrita após receber uma herança que lhe permitiu deixar o emprego nos correios. Seu primeiro livro de poemas, "Flower, Fist, and Bestial Wail", foi publicado em 1960. A partir daí, produziu uma vasta obra em poesia, contos e romances.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras mais conhecidas de Bukowski incluem coleções de poemas como "Love Is a Dog from Hell" (1977), "Crimson Tears" (1978), e "The Most Beautiful Woman in Town" (1986), além de romances como "Factotum" (1975), "Women" (1978) e "Post Office" (1971). Seus temas centrais são a vida marginal, a pobreza, o alcoolismo, o sexo, a solidão, a alienação, a crítica social e a busca por sentido em um mundo caótico. Seu estilo é caracterizado por uma linguagem direta, coloquial, sem adornos, muitas vezes obscena e chocante, mas também capaz de uma profunda sensibilidade e honestidade. Ele utilizava o verso livre de forma contundente, com frases curtas e ritmo muitas vezes quebrado. Sua voz poética é confessional, crua e irónica, refletindo suas experiências de vida de forma implacável. Bukowski é considerado um renovador da poesia americana pela sua abordagem realista e pela sua capacidade de dar voz aos desvalidos.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Bukowski emergiu como uma voz dissonante em meio ao otimismo pós-guerra e ao surgimento da contracultura nos EUA. Sua obra, muitas vezes associada à Geração Beat, como Jack Kerouac e Allen Ginsberg, embora com um estilo mais sombrio e menos místico, capturou o desencanto e a rebeldia de uma parcela da sociedade que se sentia marginalizada. Ele escreveu em um período de profundas mudanças sociais e políticas nos Estados Unidos, como a Guerra do Vietnã e os movimentos pelos direitos civis, temas que, embora não diretamente abordados, permeiam o pano de fundo de sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida de Bukowski foi marcada pela luta contra o alcoolismo, por relacionamentos tumultuados e por uma série de empregos precários. Teve casamentos e relacionamentos significativos, incluindo com as poetisas Jane Cooney Baker e Linda King, e mais tarde com Linda Lee Beighle, que se tornou sua esposa e figura importante em sua vida. Sua obra é profundamente autobiográfica, sendo difícil separar o homem do escritor. Suas experiências com a pobreza e a boemia foram a matéria-prima de sua escrita. Suas crenças eram pragmáticas e cínicas, desconfiando de instituições e ideologias.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Bukowski obteve um reconhecimento tardio e muitas vezes controverso. Enquanto era idolatrado por muitos como um autêntico "escritor do povo" e um rebelde contra o sistema, era criticado por outros por seu estilo considerado vulgar ou amoral. Sua popularidade cresceu exponencialmente após sua morte, tornando-se um autor cultuado em todo o mundo, especialmente entre jovens e leitores que se identificam com sua honestidade brutal e sua visão de mundo sem filtros.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Bukowski foi influenciado por escritores como Ernest Hemingway, John Fante, D.H. Lawrence e por autores da Geração Beat. Seu legado é o de ter dado voz aos marginalizados, de ter mostrado que a literatura pode emergir de experiências de vida difíceis e de ter desafiado as convenções literárias estabelecidas. Inspirou inúmeros poetas e escritores que buscam uma linguagem autêntica e um retrato sem maquiagem da realidade. Sua obra continua a ser uma referência para a literatura underground e alternativa.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Bukowski é frequentemente analisada sob a ótica da literatura marginal, da crítica social e da representação da experiência humana em suas formas mais cruas. Os debates centram-se na sua genialidade como cronista da vida urbana e da alienação, e na sua capacidade de extrair poesia do feio e do sórdido.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Bukowski era conhecido por seu humor negro e seu cinismo. Ele tinha uma coleção de centenas de cartas de amor recebidas de fãs em todo o mundo. Passou um período em um hospital psiquiátrico em sua juventude, uma experiência que o marcou profundamente. Sua relação com os cachorros era notória. Era um observador atento da natureza humana, registrando suas observações em cadernos.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Charles Bukowski faleceu em 9 de março de 1994, em San Pedro, Califórnia, aos 73 anos, vítima de leucemia. Sua morte foi recebida com pesar por seus admiradores. Suas cinzas foram espalhadas em um de seus locais favoritos na Califórnia. Sua obra continua a ser publicada e a ser redescoberta por novas gerações, solidificando sua posição como um dos autores mais singulares e influentes da literatura americana.

Poemas

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Viciado Em Cavalo

nós trabalhávamos em banquetas lado a lado.
ele era negro e eu era branco
mas não é uma história racial –
nós éramos camaradas de apostas em cavalo
e ficávamos ali sentados enfiando cartas
a noite toda e por horas extras.
nossos olhos pareciam olhos de drogados:
estávamos viciados em Cavalo.
pelas 2 da manhã eu dava um salto e jogava minhas cartas todas no chão,
“ah, jesus!”, eu gritava, “ah, jesus cristo!”
“o quê o quê?”, meu camarada perguntava.
eu ficava ali parado com um cigarro queimando meus lábios:
“ah, jesus do céu, eu saquei! eu saquei! ah, jesus do céu,
é tão simples! me veio do nada! por que é que eu nunca tinha pensado?”
“o que é?”, ele perguntava, “me conta.”
então o supervisor vinha ver:
“Bukowski, qual é o maldito problema com você? cuide da sua estante! você
enlouqueceu?”
eu ficava ali parado e acendia calmamente um novo cigarro:
“escuta, bebê, cai fora! você me irrita! vou ser o primeiro a te contar, bebê,
meus dias de trabalho aqui estão definitivamente contados! eu saquei! eu realmente saquei
agora!”
“seus dias de trabalho aqui, Bukowski, estão definitivamente contados! agora cuide da sua estante e
pare de gritar!”
eu olhava pra ele como um cocô de cachorro e pegava o rumo da
latrina. por que é que eu não tinha pensado antes? eu ia comprar uma casa em Hollywood
Hills, beber e trepar a noite toda, ficar na jogatina o dia
todo.
então eu voltava, calmo.
ficava tudo bem até 4 da manhã e aí meu camarada dava um salto
jogando a correspondência pela estante toda:
“está tudo acabado! está tudo acabado! eu saquei! ah, meu deus, eu saquei!
é tão simples! tudo que você precisa fazer é pegar o cavalo que...”
“sim, sim?”, eu perguntava.
e o supervisor vinha correndo de novo
e perguntava ao meu camarada:
“e agora qual é o maldito problema com você? tá louco também?”
“escuta, cara, sai fora! tira essa cara da minha cara
ou eu te tiro no tapa!”
“tá me ameaçando, cara?”
“eu tô te dizendo, já era pra mim esse emprego! agora sai
fora!”

nós corríamos ao hipódromo no dia seguinte pra cair matando
mas de noite já estávamos de volta em nossas banquetas postais, como
sempre. sem dúvida, não faz muito sentido trabalhar a 20 ou 30 pratas por noite
quando você perde 50 pratas por dia. ele largou primeiro e eu logo
larguei atrás. vejo ele na pista todos os dias agora.
a esposa cuida dele. “eu finalmente aperfeiçoei minha jogada”, ele me diz.
“claro”, eu digo e me afasto pensando, esse filho da puta é realmente louco,
então vou até o guichê de 5 pela vitória pra apostar no meu esquema mais recente,
basta pegar a média de velocidade, acrescentar os 2 primeiros números na coluna de
dinheiro recebido, aí você...
1 168

Latrina Dos Homens

olha só esse aqui:
primeiro antes de cagar ele limpa com
tranquila graça a
tampa do assento, realmente lustra o maldito
troço
aí ele espalha papel higiênico pelo assento,
bem bonitinho, chegando até mesmo a
suspender um bocado de papel onde sua poderosa genitália
balançará, e aí ele baixa com
dignidade e virilidade
suas cuecas e calças
e
senta e
caga
quase sem paixão
brigando com um velho jornal sujo
entre seus pés e lendo sobre o jogo de basquete
de ontem –
isso que você vê aqui é um Homem: conhecedor do mundo, e nada de chatos pro
bebezinho, e uma cagada
tranquila bem
tranquilona, e ele limpa a bunda
enquanto conversa com o sujeito que lava as mãos
na pia mais próxima,
e se você estiver parado por perto
aqueles pequenos olhos de camundongo incidirão sobre os seus sem o menor
tremor, e aí –
as cuecas sobem, as calças sobem, o cinto se afivela, ressoa a
descarga,
lavam-se as mãos
e aí ele se posta diante do espelho
inspecionando a glória de si mesmo
penteando o cabelo cuidadosamente em perfeitas e
delicadas arremetidas, finalizando,
então botando aquela
cara
perto do espelho
e se olhando por dentro e por fora, então
satisfeito
ele sai
primeiro se certificando de te dar um pé na bunda
ou o ponderoso insulto apavorante de seus olhos
vazios, e aí com
o rodopio de suas emudecidas nádegas egoístas
ele sai do banheiro dos homens,
e sou deixado ali com toalhas de rosto como flores
espelhos como o mar
e sou deixado com a mais doentia das esperanças
de que um dia o ser humano verdadeiro vai chegar
para que haja algo pra salvar
cagar então
nem se
fala.
1 094

Língua Cortada

ele mora nos fundos e aparece na minha porta
carregando a espingarda numa das mãos.
“escuta”, ele diz, “tinha um cara sentado
no seu sofá na varanda enquanto você estava
fora. agindo estranho. perguntei o que ele
queria, ele disse que queria falar com você.
falei que você não estava. você conhece um
negro alto chamado ‘Dave’?”
“não conheço ninguém assim...”
“vi esse cara na rua depois e
perguntei o que ele estava fazendo na vizi-
nhança.”
“não conheço nenhum negro alto chamado ‘Dave’.”
“andei vigiando sua casa. botei pra correr um par
daqueles alemães. você não quer saber de alemão nenhum,
quer?”
“não, Max, não gosto de alemães, franceses e sobretudo
não gosto de ingleses. os mexicanos e os gregos são
ok mas tem algo que me desagrada na expressão que eles têm no
rosto.”
“tem aparecido mais alemães do que qualquer outro tipo.”
“bota pra correr...”
“tá bom, pode deixar... quando você viaja de novo?”
“amanhã.”
“amanhã...?”
“amanhã, sim, e se você encontrar um filho da puta sentado no
meu sofá da varanda, pode estourar a porra da cabeça dele...”
“tá bom, pode deixar...”
“obrigado, Max...”
“sem problema...”
ele volta para o pátio dele nos fundos com sua
espingarda e
entra.

“meu deus”, diz Linda Lee, “sabe o que você
fez?”
“sim”, eu digo.
“ele acredita em você. quando a gente voltar vai ter
um cadáver na varanda.”
“tudo bem...”
“você não lembra quando eu tirei meu dia de silêncio?
você disse pra ele que tinha cortado minha língua... e ele
levou a sério...”
“Max é o único amigão de verdade que eu
tenho...”
“você é um cúmplice...”
“não gosto de caras não convidados sentados no meu sofá
da varanda esperando por mim...”
“digamos que seja um poeta, um cara que admira a sua
obra?”
“como eu disse, ‘Max é o único amigão de verdade que eu tenho.’
vamos fazer as malas...”
“o que houve com meu vestido verde?”,
ela pergunta.
1 185

Fazendo Cabeças

ela ainda faz.
ela esculpe cabeças de homens
depois vai pra cama com
eles
creio que para equiparar a argila
com a carne.

foi assim que a
conheci.

não fiz objeção
mas em tais casos
você sempre acha que é
você.

mas depois
descobri
que eu não era o
primeiro

e depois de começar a morar com
ela
eu olhava aquelas cabeças esculpidas
de homens
sobre uma mesa
e em cima da tv
e
aqui e ali
e pensava
puxa vida.

e aí ela me dizia
“escuta, você sabe que cabeça eu
gostaria esculpir?”

“hmm hmm.”

“eu gostaria de esculpir o grande Mike
Swinnert... ele tem um crânio interessante...
você já reparou na boca dele, nos
dentes?”

“sim, já...”

“eu gosto da esposa dele também... mas acho que gostaria
de fazer o Mike primeiro... você não ficaria
com ciúme, né?”

“ah, não. eu vou nas corridas ou algo assim
pra você se concentrar...”

“é meio embaraçoso eu
pedir pra ele. ele é seu amigo. você se
importaria de pedir...?”

Mike não tinha carro então fui
pegá-lo e voltei com ele. enquanto estacionávamos
ele disse “seguinte, posso comer ela se eu
quiser, você sabe. você se importaria?”
“bem, acho que me importaria”, falei.
ele me olhou daquele jeito: “tá bom,
por você vou me segurar.”

acompanhei Mike até a argila e então
desci as escadas.

fui de carro para o hipódromo e tive
um dia terrível no
hipódromo...

certa vez caminhei com ela pelo McArthur Park
enquanto ela selecionava homens com
cabeças interessantes e
eu me aproximava deles e perguntava se ela
poderia esculpir suas cabeças. eu até
lhes oferecia dinheiro. todos
recusavam, sentindo que havia algo de
errado. eu também sentia que havia algo de
errado, sobretudo comigo.

não foi muito tempo depois disso que
a escultora e eu
nos separamos.

ela tinha até se mudado de cidade mas
me vi voando para outro
estado pra vê-la – duas vezes. e
a cada vez notando
mais cabeças masculinas espalhadas pelo
apartamento.

“quem é esse cara?”, perguntei
sobre uma delas.

“ah, esse é o Billyboy, o
ginete...”

fui embora 2 ou 3 dias
depois...

as vidas seguiram e 2 ou 3 mulheres depois
meu amigo Jack Bahiah apareceu. nós
falamos disso e daquilo e aí Jack
mencionou que havia voado ao
encontro da escultora.

“ela fez a sua cabeça, Jack?”

“fez, cara, ela fez a minha cabeça mas
não ficou parecido comigo, cara. adivinha com
quem ficou parecido, cara?”

“sei lá, cara...”

“ficou parecido com você...”

“Jack, meu rapaz, você sempre soube dizer
muita sacanagem...”

“sem sacanagem, cara, sem sacanagem...”

Jack e eu bebemos bastante vinho naquela noite, ele
vira os copos muito bem.

“ela estava nos meus braços na cama
e falou ‘Deus, eu amo ele, Jack, sinto
falta dele!’, e aí começou a chorar.”

não odeio Jack nem um pouco por comê-la
por dormir encostado nela quando eu tinha dormido
encostado nela por 5 ou 6 anos, e isso demonstra
a durabilidade dos humanos: sabemos extirpar o
troço e destruí-lo e esquecer.

sei que ela ainda esculpe cabeças
de homens e não consegue parar. ela me disse uma vez
que Rodin fez algo similar de um
modo ligeiramente diferente. tá bom.

desejo a ela a sorte da argila e
a sorte dos homens. tem sido uma longa
noite rumo ao meio-dia, por vezes, para a maioria
de nós.
1 192

Correções de Mim Mesmo, Sobretudo Segundo Whitman:

eu quebraria os bulevares como palhas
e jogaria os velhos poetas confusos que sorvem leite
e levantam pesos
nas detenções de bêbados de Iowa
até San Diego;
eu anunciaria minha própria firme reivindicação de imortalidade
bem quieto
já que ninguém escutaria mesmo,
e eu quebraria a Vitrola
eu quebraria a alma de Caruso
numa noite quente cheia de moscas;
eu sairia empinando uma bunda judaica
requebrando pelos bulevares
numa velha bicicleta italiana de corrida,
lançando olhares para trás
sempre sabendo
como boas-noites na Alemanha
ou luvas atiradas ao chão,
acontece.

eu choraria pelos exércitos da Espanha,
eu choraria pelos índios viciados em vinho,
eu choraria, inclusive, por Gable morto
se conseguisse achar uma lágrima;
eu escreveria introduções para livros de poesia
de rapazes que já perderam metade da audição
devido à palavra;
eu mataria um elefante com um facão de caça
para ver sua tromba cair
feito uma meia vazia.

eu encontraria coisas na areia e coisas
embaixo da minha cama: marcas de dentes, marcas de braço, sinais,
pontas, manchas de tinta, manchas de amor, rabiscos
de Swinburne...

eu derrubaria as montanhas por seus caroços de azeitona,
eu prantearia mergulhadores de narizes mortos
com isso aís,
e por falar nisso
eu esmagaria e mataria mais uma mosca
ou escreveria
mais um poema inútil.
939

Fato

eu tenho 90 mil dólares
no banco
tenho 50 anos de idade
peso 130 quilos
nunca acordo com despertador
e estou mais próximo de Deus
do que o
pardal.
1 122

Simples Assim

uma das mais lindas loiras do cinema
inacreditáveis seios quadris pernas cintura
tudo,
naquele acidente de carro
a cabeça dela instantaneamente arrancada do
corpo –
simples assim –
lá se foi a cabeça rolando pelo acostamento da
estrada,
batom nos lábios, sobrancelhas delineadas, pó bronzeador aplicado,
bandana nos cabelos, ela foi rolando
como uma bola de vôlei
e o corpo ficou sentado no carro
com aqueles seios quadris pernas cintura,
tudo,
e no necrotério eles juntaram a cabeça de novo,
costuraram a cabeça
de volta,
deus do céu, disse o cara com a linha,
que desperdício.
aí ele saiu e foi pedir um hambúrguer, batata frita
e 2 xícaras de café,
preto.
1 182

Canção de Amor

eu comi a sua xota como um pêssego,
engoli a semente
a lanugem,
trancado entre as suas pernas
eu chupei e mastiguei e lambi e
engoli você,
senti o seu corpo todo se sacudindo e retorcendo como
um corpo
metralhado
e eu moldei minha língua numa ponta
e os sucos desceram escorrendo
e eu engoli
enlouquecido
e chupei suas entranhas todas para fora –
sua xota inteira chupada pra dentro da minha boca
eu mordi
eu mordi
e engoli
e você também
ficou louca
e me afastei e beijei
então sua barriga
seu umbigo
então deslizei de volta para dentro de suas pernas de flor branca
e beijei e mordi e
mordisquei,
o tempo todo
mais uma vez
os fabulosos pelos da xota
acenando e acenando
e fico afastado pelo máximo tempo suportável
então me joguei na coisa
chupando e lambendo,
pelos na minha alma
xota na minha alma
você na minha alma
numa cama milagrosa
com crianças gritando lá fora
enquanto andam de patins
bicicletas às
5 da tarde
nessa maravilhosa hora das
5 da tarde
todos os poemas de amor foram escritos:
minha língua penetrou sua xota e sua alma
e a colcha azul estava lá
e as crianças no beco
e aquilo cantava e cantava e cantava e
cantava.
1 268

Ligação Telefônica da Minha Filha de Cinco Anos Em Garden Grove

oi, Hank!
ainda estou subindo na árvore e não
caí, então acho que nunca vou cair
agora...
terça de noite! mamãe, mamãe, o Hank vem nos visitar
terça de noite! podemos dormir juntos, Hank?
que bom. e podemos brincar na caixa de areia antes
do jantar.
sabe, a gente limpou a caixa, vovó e mamãe e eu,
tiramos um monte de aranhas com a mangueira e
limpamos o toldo. só tem um lugar em que ela tá
toda fodida... falei o quê?, “só tem um lugar
em que ela tá toda fodida”
é embaixo no canto
e você e eu podemos cavar
pra tirar a gosma
de lá...
1 082

A Abelhona

naquela roupa ela era uma abelhona,
listras pretas sobre o amarelo,
e clish clish slitch fazia
a arma, a arma ali o tempo todo,
e os troços duros que nem olhos,
pedras no fundo de um laguinho rançoso,
e eu a conheci no Vince’s
embora o teor da nossa conversa
me escape, e ela me levou para o
apartamento dela, um lugar muito estiloso
com um par de camas, um piso encerado
na cozinha e uma tv andando solta
como um tigre, e eu larguei os bifes,
o uísque e a cerveja na mesa,
e mais tarde comemos, ela fez uma boa salada,
e bebemos um pouco e olhamos o
tigre andando e aí matei o troço
e contei à abelhona que eu estava morrendo,
haviam tirado minhas fontes,
que ir em frente parecia um disparate,
a bebedeira só me expulsava de
um nível de fracasso para outro,
mas isso ela não entendeu,
e mais tarde na cama
ela montou em mim
aquela abelhona
e eu apertei as nádegas da bunda dela
e era real o bastante, o ferrão estava
virado pra baixo, e falei,
lindo ah lindo,
mas não pude fazer nada,
eu estava morrendo e ela estava morta,
e mais tarde, vestido de novo,
eu disse tchau junto à porta,
eu disse perdão, e aí a porta
foi fechada
e eu desci correndo as escadas            desci correndo
para respirar o ar da rua
aqueles olhinhos de pedra chocalhando na
minha cabeça, e entrei no meu carro
e dirigi 30 quilômetros para o sul até a praia
e fiquei no píer
e olhei as ondas,
imaginei gigantescas batalhas marinhas,
me transformei em sal e areia e som,
e logo aqueles olhos sumiram
e eu acendi um cigarro,
tossi e voltei
para o carro.
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Mário Quintana
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