Charles Bukowski

Charles Bukowski

1920–1994 · viveu 73 anos DE DE

Charles Bukowski foi um poeta e escritor alemão-americano, conhecido por sua obra crua, visceral e autobiográfica. Sua escrita, frequentemente associada à chamada "geração beat" e à contracultura, retrata a vida marginal, os vícios, a pobreza, o sexo e a alienação com uma linguagem direta e sem rodeios. Bukowski celebrou o submundo e os desajustados, tornando-se um ícone para muitos que se sentiam à margem da sociedade.

n. 1920-08-16, Andernach · m. 1994-03-09, San Pedro

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Como Ser Um Grande Escritor

você tem que trepar com um grande número de mulheres
belas mulheres
e escrever uns poucos e decentes poemas de amor.

e não se preocupe com a idade
e/ou com os talentos frescos e recém-chegados.

apenas beba mais cerveja
mais e mais cerveja

e vá às corridas pelo menos uma vez por
semana

e vença
se possível.

aprender a vencer é difícil –
qualquer frouxo pode ser um bom perdedor.

e não se esqueça do Brahms
e do Bach e também da sua
cerveja.

não exagere no exercício.

durma até o meio-dia.

evite cartões de crédito
ou pagar qualquer conta
no prazo.

lembre-se que nenhum rabo no mundo
vale mais do que 50 pratas.
(em 1977).

e se você tem a capacidade de amar
ame primeiro a si mesmo
mas esteja sempre alerta para a possibilidade de uma
derrota total
mesmo que a razão para essa derrota
pareça certa ou errada –

um gosto precoce da morte não é necessariamente
uma coisa má.

fique longe de igrejas e bares e museus,
e como a aranha seja
paciente –
o tempo é a cruz de todos,
mais o
exílio
a derrota
a traição

todo este esgoto.

fique com a cerveja.

a cerveja é o sangue contínuo.

uma amante contínua.

arranje uma grande máquina de escrever
e assim como os passos que sobem e descem
do lado de fora de sua janela

bata na máquina
bata forte

faça disso um combate de pesos pesados

faça como o touro no momento do primeiro ataque
e lembre dos velhos cães
que brigavam tão bem:
Hemingway, Céline, Dostoiévski, Hamsun.

se você pensa que eles não ficaram loucos
em quartos apertados
assim como este em que agora você está

sem mulheres
sem comida
sem esperança

então você não está pronto.

beba mais cerveja.
há tempo.
e se não há
está tudo certo
também.
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Biografia

Identificação e contexto básico

Heinrich Karl "Hank" Bukowski Jr. foi um poeta, contista e romancista alemão-americano. Nasceu em Andernach, na Alemanha, em 16 de agosto de 1920, e faleceu em San Pedro, Califórnia, Estados Unidos, em 9 de março de 1994. É uma figura proeminente da literatura marginal e da contracultura americana. Filho de pais alemães, mudou-se com a família para os Estados Unidos quando tinha três anos.

Infância e formação

Bukowski teve uma infância difícil marcada pela pobreza e por um relacionamento abusivo com o pai. Aos três anos, a família emigrou para os Estados Unidos, estabelecendo-se em Los Angeles. Sua adolescência foi rebelde e problemática. Frequentou a Los Angeles High School, mas abandonou os estudos precocemente. Aos 17 anos, saiu de casa. Sua formação foi autodidata, moldada por leituras intensas, pela experiência de vida nas ruas e pelos trabalhos precários que desempenhou ao longo de décadas.

Percurso literário

Bukowski começou a escrever poesia e contos ainda jovem, mas demorou décadas para ser reconhecido. Trabalhou em empregos manuais e braçais, como carteiro e em fábricas, em grande parte de sua vida adulta, muitas vezes lutando contra o alcoolismo. Publicou esporadicamente em pequenas revistas literárias underground nas décadas de 1940 e 1950. Sua carreira literária ganhou impulso a partir da década de 1960, quando se dedicou integralmente à escrita após receber uma herança que lhe permitiu deixar o emprego nos correios. Seu primeiro livro de poemas, "Flower, Fist, and Bestial Wail", foi publicado em 1960. A partir daí, produziu uma vasta obra em poesia, contos e romances.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras mais conhecidas de Bukowski incluem coleções de poemas como "Love Is a Dog from Hell" (1977), "Crimson Tears" (1978), e "The Most Beautiful Woman in Town" (1986), além de romances como "Factotum" (1975), "Women" (1978) e "Post Office" (1971). Seus temas centrais são a vida marginal, a pobreza, o alcoolismo, o sexo, a solidão, a alienação, a crítica social e a busca por sentido em um mundo caótico. Seu estilo é caracterizado por uma linguagem direta, coloquial, sem adornos, muitas vezes obscena e chocante, mas também capaz de uma profunda sensibilidade e honestidade. Ele utilizava o verso livre de forma contundente, com frases curtas e ritmo muitas vezes quebrado. Sua voz poética é confessional, crua e irónica, refletindo suas experiências de vida de forma implacável. Bukowski é considerado um renovador da poesia americana pela sua abordagem realista e pela sua capacidade de dar voz aos desvalidos.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Bukowski emergiu como uma voz dissonante em meio ao otimismo pós-guerra e ao surgimento da contracultura nos EUA. Sua obra, muitas vezes associada à Geração Beat, como Jack Kerouac e Allen Ginsberg, embora com um estilo mais sombrio e menos místico, capturou o desencanto e a rebeldia de uma parcela da sociedade que se sentia marginalizada. Ele escreveu em um período de profundas mudanças sociais e políticas nos Estados Unidos, como a Guerra do Vietnã e os movimentos pelos direitos civis, temas que, embora não diretamente abordados, permeiam o pano de fundo de sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida de Bukowski foi marcada pela luta contra o alcoolismo, por relacionamentos tumultuados e por uma série de empregos precários. Teve casamentos e relacionamentos significativos, incluindo com as poetisas Jane Cooney Baker e Linda King, e mais tarde com Linda Lee Beighle, que se tornou sua esposa e figura importante em sua vida. Sua obra é profundamente autobiográfica, sendo difícil separar o homem do escritor. Suas experiências com a pobreza e a boemia foram a matéria-prima de sua escrita. Suas crenças eram pragmáticas e cínicas, desconfiando de instituições e ideologias.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Bukowski obteve um reconhecimento tardio e muitas vezes controverso. Enquanto era idolatrado por muitos como um autêntico "escritor do povo" e um rebelde contra o sistema, era criticado por outros por seu estilo considerado vulgar ou amoral. Sua popularidade cresceu exponencialmente após sua morte, tornando-se um autor cultuado em todo o mundo, especialmente entre jovens e leitores que se identificam com sua honestidade brutal e sua visão de mundo sem filtros.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Bukowski foi influenciado por escritores como Ernest Hemingway, John Fante, D.H. Lawrence e por autores da Geração Beat. Seu legado é o de ter dado voz aos marginalizados, de ter mostrado que a literatura pode emergir de experiências de vida difíceis e de ter desafiado as convenções literárias estabelecidas. Inspirou inúmeros poetas e escritores que buscam uma linguagem autêntica e um retrato sem maquiagem da realidade. Sua obra continua a ser uma referência para a literatura underground e alternativa.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Bukowski é frequentemente analisada sob a ótica da literatura marginal, da crítica social e da representação da experiência humana em suas formas mais cruas. Os debates centram-se na sua genialidade como cronista da vida urbana e da alienação, e na sua capacidade de extrair poesia do feio e do sórdido.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Bukowski era conhecido por seu humor negro e seu cinismo. Ele tinha uma coleção de centenas de cartas de amor recebidas de fãs em todo o mundo. Passou um período em um hospital psiquiátrico em sua juventude, uma experiência que o marcou profundamente. Sua relação com os cachorros era notória. Era um observador atento da natureza humana, registrando suas observações em cadernos.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Charles Bukowski faleceu em 9 de março de 1994, em San Pedro, Califórnia, aos 73 anos, vítima de leucemia. Sua morte foi recebida com pesar por seus admiradores. Suas cinzas foram espalhadas em um de seus locais favoritos na Califórnia. Sua obra continua a ser publicada e a ser redescoberta por novas gerações, solidificando sua posição como um dos autores mais singulares e influentes da literatura americana.

Poemas

897

Nenhuma Lady Godiva

ela chegou bêbada a minha casa
montada num veado rampante em frente à varanda:
tantas mulheres querem salvar o mundo
mas não são capazes de cuidar das próprias cozinhas,
mas de mim...
entramos e então acendi três velas
vermelhas
servi o vinho e tomei algumas notas sobre
ela:
latitude atrás,
longitude na
frente. e o
resto. fantás-
tico. uma mulher assim
poderia encontrar
uma zínia em Hot Springs
Arkansas.
comemos carne de veado por três semanas.
então ela dormiu com o senhorio para ajudar a pagar
o aluguel.
então arrumei um emprego para ela como garçonete.
eu dormia o dia inteiro e quando ela chegava em casa
eu estava cheio daquela brilhante conversação que ela
tanto
adorava.
certa noite ela morreu de um jeito rápido deixando o mundo
bastante parecido com o que sempre
fora.
agora eu me levanto cedo e
desço até o setor de cargas e espero por
repolhos
laranjas
batatas
caírem dos caminhões ou serem
descartados.
à tarde já comi alguma coisa e acabo dormindo
sonhando em pagar o aluguel
com pedaços numerados de plástico
emitidos por um mundo
melhor.
606

Para As Irmãs da Caridade

é justificada
toda morte é justificada
toda matança toda morte toda
passagem,
nada é em vão
nem sequer o pescoço
de uma mosca,
e uma flor
passa através dos exércitos
e como um garotinho
gabando-se,
ergue suas
cores.
971

Mulher

esta cabeça como um disco
decorada com tudo quanto é coisa
enquanto lábio com lábio ficamos pendurados
em mecânico deleite;
minhas mãos chamejam em árias
mas eu penso em livros
sobre anatomia,
e eu deserto de ti
como nações ardem em fúria...
para se recuperar do mais lamentável erro
e se reerguer, é isto
perda e conserto
até que eles nos levem consigo.
a glória de uma tarde de sábado
como morder um pêssego velho
e você caminha pelo quarto
pesada por todas as coisas
exceto meu amor.
1 037

O Beijo de Boa-Noite Aos Vermes

sereno demais para morrer mas não para
matar tomo a pílula verde do meu
médico
bebo chá
enquanto os tubarões dançam através de vasos de
flores
dão dez voltas depois
vinte
buscando por meu coração
efeminado
numa noite louca de maio em
Los Angeles
domingo
alguém tocando
Beethoven
sento-me atrás de persianas baixadas
em emboscada
enquanto homens ambiciosos com seus carros novos e
novas loiras
comandam as ruas
sento-me num quarto alugado
esculpindo um rifle de madeira
desenhando retratos de mulheres nuas
touros
casos de amor
velhos
nas paredes com gizes de
cera
cabe a cada um de nós viver
do melhor jeito que pudermos
enquanto generais, doutores, policiais
nos advertem e
torturam
tomo banho uma vez por dia
assusto-me com gatos e
sombras
durmo mal quando durmo
quando meu coração parar
o mundo todo ficará mais rápido
melhor
mais quente
ao verão se seguirá outro verão
o ar terá o cristalino da água do lago
e assim também será o
significado
mas enquanto isso
a pílula verde
esses pisos engordurados fora da
avenida e
lá em baixo uma conspiração de vermes de vermes de
vermes
e aqui em cima
nenhuma ninfa loira
para me amar e dormir enquanto
espero.
1 671

Alguma Coisa Para Os Especuladores, Para As Freiras, Para Os Atendentes do Mercado E Para Você...

nós temos tudo e não temos nada
e alguns homens resolvem as coisas em igrejas
e outros homens resolvem as coisas partindo borboletas
ao meio
e alguns homens resolvem as coisas em Palm Springs
enfiando-as em loiras amanteigadas
com almas de Cadillac
nada e tudo,
o rosto derretendo até a última baforada
num porão em Corpus Christi
há alguma coisa para os especuladores, para as freiras,
para os atendentes do mercado e para você...
alguma coisa às 8 da manhã, alguma coisa na biblioteca
alguma coisa no rio,
tudo e nada,
no matadouro essa coisa vem correndo ao longo
do teto presa a um gancho, e você a balança –
um
dois
três
e então você consegue, $200 de carne
morta, os ossos contra os seus
alguma coisa e nada.
é sempre cedo demais para morrer e
ao mesmo tempo tarde demais,
e o sangue extraído na bacia branca
nada lhe revela de fato
e os coveiros jogando pôquer além
das 5 da manhã, esperando que o gramado
se liberte da geada...
eles não lhe revelam nada de nada.
nós temos tudo e não temos nada –
dias com arestas de vidro e o fedor insuportável
de musgos do rio – pior do que merda;
dias de tabuleiro de movimentos e contramovimentos,
o interesse gasto, tendo a derrota ou a vitória o mesmo
sentido; dias lentos como mulas
a carregá-los estilhaçados e tristes e endurecidos pelo sol
por uma estrada onde um louco aguarda sentado entre
passarinhos azuis e cambaxirras aprisionados e sugados até um cinza
quebradiço.
bons dias também de vinho e gritaria, brigas
em becos, pernas gordas de mulheres lutando ao redor
de suas entranhas enterradas em gemidos,
os sinais nas arenas como diamantes gritando
Mãe Capri, violetas rasgando o chão
dizendo para você que se esqueça dos exércitos mortos e dos amores
que lhe roubaram.
dias em que as crianças dizem coisas engraçadas e brilhantes
como selvagens tentando lhe mandar uma mensagem através
de seus corpos enquanto seus corpos ainda
têm vida o suficiente para transmitir e sentir e correr para lá
e para cá sem amarras e contracheques e
ideais e posses e opiniões
de girino.
dias em que você pode chorar o dia inteiro num
quarto verde com a porta trancada, dias
em que você pode rir na cara do entregador de pães
porque as pernas dele são muito longas, dias
de olhar para cercas...
e nada, e nada. dias de
chefes, de homens amarelos
com mau hálito e pés grandes, homens
que parecem sapos, hienas, homens que caminham
como se a melodia jamais tivesse sido inventada, homens
que pensam que é inteligente contratar e demitir e
lucrar, homens com mulheres caras que eles possuem
como 60 acres de solo a ser perfurado
ou a serem exibidas ou postas a segura distância
dos incompetentes, homens capazes de matar você
porque eles são loucos e o justificam porque
esta é a lei, homens que se plantam em frente a
janelas com 9 metros de extensão e não veem nada,
homens com iates de luxo capazes de dar a volta
ao mundo e ainda assim jamais saírem dos bolsos de seus
coletes, homens como caracóis, homens como enguias, homens
como lesmas, e não tão bons quanto...
e nada, recebendo seu último salário
num porto, numa fábrica, num hospital, numa
fábrica de aviões, em fliperamas, numa
barbearia, num emprego que você não pode
tolerar.
imposto de renda, doença, servidão, braços
quebrados, cabeças quebradas – o enchimento todo
saltando para fora como de um velho travesseiro.
nós temos tudo e não temos nada.
alguns se viram bem por algum tempo e
depois desistem. a fama os pega ou a repulsa
ou a idade ou a falta de uma dieta adequada ou a tinta
nos olhos ou crianças nas faculdades
ou carros novos ou costas lesionadas ao esquiar
na Suíça ou novos políticos ou novas esposas
ou apenas a mudança natural e a decadência –
o homem que você conheceu ontem dando ganchos
durante dez assaltos ou bebendo por três dias e
três noites nas montanhas Sawtooth agora
apenas alguma coisa debaixo de um lençol ou de uma cruz
ou de uma pedra ou debaixo de uma fácil desilusão,
ou carregando uma bíblia ou uma sacola de golfe ou uma
valise: como eles vão, como eles vão! – todos
aqueles que você jamais pensou que iriam.
dias como este. como o seu dia hoje.
talvez a chuva na janela tentando
atravessar e chegar até você. o que você está vendo?
o que é? onde você está? os melhores
dias são às vezes os primeiros, às vezes
os intermediários e até mesmo por vezes os derradeiros.
as vagas vazias não estão mal, as igrejas nos
postais da Europa não estão mal. as pessoas
nos museus de cera congeladas em sua melhor esterilidade
não estão mal, horríveis mas não mal. o
canhão, pense no canhão. e a torrada no
café da manhã o café quente a ponto de você
saber que sua língua continua aí. três
gerânios do lado de fora da janela, tentando ser
vermelhos e tentando ser cor-de-rosa e tentando ser
gerânios. não é de espantar que às vezes as mulheres
chorem, não é de espantar que as mulas não queiram
subir as colinas. você está num quarto de hotel
em Detroit atrás de um cigarro? mais um dia
dos bons. um pedacinho dele. e enquanto isso
as enfermeiras saem do prédio depois
de seu turno, tendo tido o bastante, oito enfermeiras
com diferentes nomes e lugares diferentes
para ir – atravessando o gramado, algumas delas
querem chocolate quente e um jornal, algumas delas querem um
banho quente, algumas delas querem um homem, algumas
delas dificilmente pensam em qualquer coisa. o que basta
e o que não basta. arcos e peregrinos, sarjetas
laranjas, samambaias, anticorpos, caixas de
lenços de papel.
no sol por vezes mais decente
há o sentimento levemente esfumaçado das urnas
e o som enlatado de velhos aviões de guerra
e se você entrar e correr seu dedo
pelo peitoril da janela você encontrará
sujeira, talvez até mesmo um pouco de terra.
e se você olhar através da janela
o dia chegará, e quando
ficar mais velho você seguirá olhando
seguirá olhando
chupando a língua de leve
ah ah não não talvez
alguns o fazem de modo natural
alguns de maneira obscena
em toda a parte.
1 132

Nota Para Uma Senhora Que Esperava Rupert Brooke

quê, o que você esperava? um colegial ceceando Donne? ou
um amante mais prático enchendo-a com o fedor da Vida?
sou um tolo não um cavalheiro: cruzo a Brooklyn Bridge
com Crane de pijama, mas o suicídio não funciona quando se fica velho:
há cada vez menos a matar.
então entre a pele e as costeletas de cordeiro, as enfermas gravatas
de outros armários, eu tramo tramas redondas como laranjas
preenchidas com a música de meu habilidoso resmungar.
Brooke? não. sou um macaco com uma azeitona perdida no
circo de areia de sua risada, primatas de circo, tigres de circo,
dementes financistas de circo trepando com suas secretárias antes
das 5:15... e o que você esperava?
uma face rosada driblando as cores de Picasso em seu cérebro seco?
então, o quarto estava azul com a fumaça de minha fervura, diabos,
um mar insensível
e eu sinto dedos baratinados até a última parte de seu suco,
sinto através de vinhas espinhentas amaldiçoando seu nome,
nenhum cavalheiro
nenhum cavalheiro,
o amor rejeitado como mordida de cobra,
a varanda zunindo de moscas, zunindo de moscas
e mentiras, e sua boca vermelha que gritava,
suas lâmpadas que gritavam
quebrando como contas em atraso:
BÊBADO! BÊBADO DE NOVO!
AH, SEU IDIOTA!
então, Yeats, Keats, bicos de seios... nada além de um damasco!
o que, o que houve com a Espanha? meu bom Lorca?
a revolução? é preciso juntar-se à brigada!
deixe-me sair daqui!
998

Uma Dose de Uísque Barato

eu costumava segurar meu cartão da previdência
alto no ar,
ele me disse,
mas eu era tão pequeno,
eles não podiam me ver,
todos aqueles grandalhões
a minha volta.
você está falando daquele lugar
com a grande tela verde?
perguntei.
sim. bem, não importa, eu finalmente consegui entrar
dias atrás
para colher tomates, e Jesus Cristo,
eu não conseguia ir a lugar nenhum
fazia um calor dos diabos, muito calor
e eu não conseguia colocar nenhum no saco
então me deitei debaixo do caminhão
na sombra e fiquei bebendo
vinho. Não consegui ganhar
dez centavos.
tome uma bebida, eu disse.
claro, ele disse.
duas mulheres enormes entraram e
eu digo ENORMES
e elas se sentaram junto
a nós.
uma dose de uísque barato, uma delas
disse ao atendente.
pra mim também, disse a outra.
elas fizeram subir os vestidos
em volta dos quadris e
cruzaram as pernas.
ai, ai. acho que vou pirar, eu disse
a meu amigo que colhia tomates.
Jesus, ele disse, Jesus Cristinho, não
acredito no que estou vendo.
está tudo
ali, eu disse.
você é um lutador? a mais próxima de mim
perguntou.
não, eu disse.
o que aconteceu com seu
rosto?
um acidente de automóvel na autoestrada de
San Berdoo. um bêbado passou por cima da mureta. eu
era o bêbado.
quantos anos você tem, papi?
sou velho o bastante para saber uns truques, eu disse,
despejando as cinzas de meu charuto na cerveja para me dar
força.
sabe mesmo uns truques? ela perguntou.
você já foi perseguida pelo Mojave e
estuprada?
não, ela disse.
puxei minha última nota de 20 e com o abandono
de um velho homem viril pedi
quatro bebidas.
as duas garotas sorriram e ergueram ainda mais
seus vestidos, como se isso fosse possível.
quem é seu amigo? elas perguntaram.
este é o Lord Chesterfield, eu disse a elas.
prazer em conhecer você, elas
ecoaram.
olá, vadias, ele respondeu.
atravessamos o túnel da rua 3 até chegarmos
a um hotel verde. as garotas tinham uma
chave.
havia apenas uma cama e todos deitamos
nela. não sei quem pegou
quem.
na manhã seguinte meu amigo e eu
acabamos no Mercado dos Trabalhadores Rurais
na rua San Pedro
segurando e balançando nossos
cartões da previdência.
eles não conseguiram ver o
dele.
fui o último a entrar no caminhão. uma mulher grande ficou
grudada em mim. ela cheirava a
vinho do Porto.
doçura, o que diabos aconteceu com a sua
cara?
numa feira, um urso dançarino que não
dançou.
mentira, ela disse.
talvez, eu disse, mas mantenha suas mãos
longe dos meus
bagos. está todo mundo olhando.
quando chegamos à
plantação o sol ia
já alto
e o mundo
parecia
horrível.
1 059

Assombrado Com a Vida Como Fogo

em severa divindade meu gato
dá voltas
ele dá voltas e mais voltas
com
um rabo elétrico e
olhos feito
botões de pressão
ele está
vivo e
felpudo e
definitivo como uma ameixeira
nenhum de nós entende
catedrais ou
o homem lá fora
regando o
gramado
se eu fosse completo como homem
do modo como ele é
gato –
se houvesse homens
assim
o mundo poderia
começar
ele se levanta de um salto do sofá
e cruza
os pórticos da minha
admiração.
1 157

Como Todos Os Anos Perdidos

ontem a Alice gambá
me deu
um pote de geleia de figo
e hoje ela
assobia
para o gato
mas
ele não
virá –
ele está com os cavalos
em uma
banheira de cerveja
ou
no quarto 21
no Crown Hill
Hotel
ou ele está no
Crocker
Citizens National
Bank
ou
chegou em
Nova York às
5:30 da tarde
com uma mala de papelão
e
$7.
próximo a Alice
em seu quintal
um ganso de papel
caminha
de cabeça para baixo
num painel que diz:
Laranjas da
Califórnia.
os assobios bêbados de Alice.
nada bons, nada bons.
trabalham devagar.
todo mundo dá duro
menos os
deuses.
Alice entra para uma
birita, volta a
aparecer.
assobia de novo
o caminho inteiro até
o banco da praça em
El Paso –
e seu amor surge
correndo de entre os
arbustos
os olhos brilhantes como num
filme a cores
e sem esperar
pela
segunda-feira.
nós entramos
juntos.
1 104

Pobreza

é o homem que você nunca viu que
o mantém em movimento,
aquele que deve chegar
num dia incerto.
ele não vaga pelas ruas ou
pelos apartamentos ou
pelos estádios,
ou se ele andou por aí
de algum modo nos desencontramos.
ele não é um de nossos presidentes
não está entre os estadistas e os atores.
me pergunto se ele está por aí.
caminho pelas ruas
passo por lojas de conveniência e hospitais e
teatros e cafés
e me pergunto se ele não está ali.
já faz quase meio século que procuro
e ele ainda não foi visto.
um homem vivo, vivo de verdade,
revela quando traz suas mãos pendidas
por ter acendido um cigarro
você vê seus olhos
como os olhos de um tigre mirando o passado
enquanto o vento passa.
mas quando as mãos pendem
trata-se sempre dos
outros olhos
que estão lá
sempre sempre lá.
e logo será tarde demais para mim
e eu terei vivido uma vida
entre lojas de conveniência, gatos, lençóis, saliva,
jornais, mulheres, portas e outros penduricalhos,
mas em nenhum lugar
um homem vivo.
1 130

Citações

2

Obras

11

Videos

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Mário Quintana
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