Multa
abandonei mais uma vez o emprego
e a polícia me parou
por cruzar um sinal vermelho na Serrano Ave.
eu não parava de viajar
e fiquei ali em meio a um amontoado de folhas
à altura do tornozelo
e mantive a cabeça virada
de modo que eles não pudessem sentir o cheiro
forte da bebida
e recebi a multa e voltei para o meu quarto
e consegui uma boa sinfonia no rádio
um dos russos ou dos alemães,
um dos caras morenos e duros
mas ainda assim sentia frio e solidão
e seguia acendendo cigarros
e liguei o aquecedor
e então no chão
avistei uma revista com minha foto
na capa
e avancei até ali e a apanhei
mas não era eu
porque ontem já era
e hoje é apenas extrato de tomate
e cães de corrida
e mal-estar
e mulheres algumas mulheres
momentâneas em sua beleza
como qualquer das catedrais
e agora eles tocam Bartok
que bem sabia o que estava fazendo
o que na prática significa não saber o que estava fazendo,
e amanhã suponho que retornarei para
a porra do trabalho
como um homem para a esposa e seus quatro filhos
caso me tivessem nessa
mas hoje sei que escapei de
algum tipo de rede,
30 segundos mais e eu poderia estar morto,
e é importante reconhecer
a gente precisa reconhecer
esse tipo de momento
se quisermos continuar
a avaliar as entranhas e a caveira ensacada de uma
flor de uma montanha de um barco de uma mulher
o código da geada e da pedra
tudo convergindo num sentido de momento
que limpa como o mais poderoso dos sabonetes do mercado
e traz Paris, Espanha, os gemidos de Hemingway,
a madona azul, o touro recém-nascido,
uma noite num closet pintado de vermelho
bem dentro de você,
e espero pagar a multa
mesmo que eu não tenha (eu acho) cruzado o vermelho
mas
eles disseram que eu cruzei.
Feijão Com Alho
isto basta em sua importância:
resfrie seus sentimentos,
isto é melhor do que se barbear
ou cozinhar feijão com alho.
é o mínimo que podemos fazer
esta pequena bravura de conhecimento
e claro que há
também loucura e terror
em saber
que uma parte de você
em que se deu corda como a um relógio
não pode jamais voltar a girar
uma vez que pare.
mas agora
há um tique-taque debaixo de sua camisa
e você mexe os feijões com uma colher,
um amor morto, um amor distante
outro amor...
ah! tantos amores quanto feijões
sim, conte-os agora
triste, triste
seus sentimentos fervendo sobre a chama,
abaixe o fogo.
Crianças No Céu
os garotos aparecem
os garotos escalam o
poste marrom
enquanto os aquecedores borbulham
na Espanha
os garotos escalam o
poste marrom –
Carlos Magno lutou por isto
Il Duce foi arrancado de seu carro
a pele arrancada feito um urso
e enforcado
de cabeça para baixo
por isto –
os meninos escalam
o poste marrom
3 ou 4
deles;
recém nos mudamos para
este prédio,
as pinturas ainda
guardadas, as cartas da
Inglaterra e de Chicago e
Cheyenne e
Nova Orleans,
mas a cerveja já acondicionada
e há 5 laranjas
e 4 peras sobre a mesa
então a vida não é tão
ruim
exceto pelo fato de que alguém quer
$15 para
ligar o gás;
os garotos sobem no poste de telefone
para pular sobre os tetos
azul-esverdeados
das garagens
e eu fico parado e nu
atrás de uma cortina,
fumando um charuto,
e impressionado,
impressionado como ficaria
se
a Virgem Maria
estivesse dançando
lá fora;
e através da janela
para o norte
posso ver 2 homens
alimentando
45 pombos
e os pombos
caminham em círculos separados
de 8 ou 10
como se estivessem atados uns aos outros
por uma corda girante,
e são três horas
da tarde e também
um bom charuto.
Cícero lutou por isto,
Jake LaMotta e
Waslaw Nijinsky,
mas alguém roubou
nosso violão
e eu não tomei minhas
vitaminas
por semanas.
os garotos correm pelos
telhados azul-esverdeados
enquanto ao norte os
pombos voam;
é desesperadoramente
sagrado
e eu exalo
uma fumaça cinzenta e
silenciosa.
então uma mulher num casaco vermelho,
evidentemente uma oficial,
alguma matrona do
aprendizado
decide que
o céu precisa de
limpeza:
Ei!!! garotos
desçam DAÍ
de uma vez!
é um belíssimo
cervo
correndo de um
caçador.
Agrippina lutou por isto,
até mesmo Mithridates,
até mesmo William Hazlitt.
não há nada mais a fazer
agora
senão desempacotar.
O Ex-Pugilista
ele se aferrava com força ao corpo
aguentava bem
e adorava uma briga
já levava uma sequência de sete e tinha uma pequena mancha
sobre um dos olhos,
e então topou com um garoto de Camden
cujos braços eram finos como arames –
era dos bons,
os gorilas da audiência urraram e jogaram dinheiro;
os dois caíram e se levantaram muitas vezes,
mas ele perdeu aquela
e perdeu também a revanche
na qual nenhum dos dois chegou a lutar,
agarrados um ao outro como se fossem amantes através das vaias,
e agora ele trabalha com o Mike
trocando pneus e óleo e baterias,
a mancha sobre o olho
ainda jovem,
mas você não fala com ele,
você não pergunta nada para ele
exceto talvez
será que vai chover?
ou
acha que o sol vai aparecer?
ao que ele normalmente responderia
claro que não,
mas você encheria seu tanque de gasolina
e iria embora.
Agora
eu tinha bolhas do tamanho de tomates
me cobrindo todo
eles me enfiaram cânulas
lá no hospital do condado,
e
tão logo o sol se punha
a cada dia
havia um homem no leito ao lado
que começava a urrar por seu amigo Joe.
JOE! ele urrava, Ô, JOE! JOE! J O E!
VENHA ME BUSCAR, JOE!
Joe nunca apareceu.
nunca tinha escutado lamentos como
esses.
Joe devia estar em cima de um
rabo qualquer ou
tentando completar umas palavras cruzadas.
eu sempre disse
se você quer descobrir quem são seus amigos
vá parar no hospício ou na
cadeia.
e se você quiser descobrir onde o amor não está
seja um perpétuo
perdedor.
tive bastante sorte com minhas bolhas
sendo perfurado e torturado
contra o pano de fundo das montanhas de Sierra Madre
enquanto aquele sol se punha;
enquanto aquele sol se punha eu sabia o que eu viria a fazer
quando finalmente tivesse aquela cânula em minhas mãos
como acontece
agora.
Não Apareça Por Aqui, Mas Se Você Vier...
sim, claro, estarei por aqui a não ser que tenha saído
não bata se as luzes estiverem apagadas
ou se ouvir vozes ou quando eu
possa estar lendo Proust
se alguém tiver passado um Proust por debaixo da porta
ou algum dos ossos dele para o meu ensopado,
e não posso emprestar dinheiro ou
o telefone
ou o que resta do meu carro
embora eu possa conseguir para você o jornal de ontem
uma velha camisa ou um sanduíche à bolonhesa
ou um sofá para dormir
se você não é de gritar à noite
e pode falar sobre suas coisas
isso é normal;
tempos difíceis se abatem sobre todos nós
a diferença é que não estou tentando criar uma família
para mandar para Harvard
ou comprar propriedades de caça,
não estou mirando alto
tento apenas me manter vivo
um pouco mais de tempo,
assim se você às vezes bater à porta
e eu não responder
e não houver uma mulher por aqui
talvez eu tenha quebrado a mandíbula
e esteja atrás de um arame
ou atrás das borboletas no meu
papel de parede,
quero dizer que se eu não atendo
eu não atendo, e o motivo é que
ainda não estou pronto para matar você
ou amar ou mesmo aceitar você,
significa que não quero falar
que estou ocupado, louco, satisfeito
ou preparando uma corda para o enforcamento;
então mesmo que você veja as luzes acesas
e escute algum som
de respiração ou reza ou cantoria
de um rádio ou dos dados rolando
ou da máquina de escrever –
vá embora, não é o dia
a noite, a hora certa;
não se trata da ignorância da falta de polidez,
não quero machucar ninguém, nem mesmo um inseto
mas é que às vezes eu reúno evidências de um certo tipo
que requer alguma classificação
e seus olhos azuis, sejam eles azuis
e seus cabelos, se você os tem
ou sua mente – eles não podem entrar
até que a corda esteja cortada ou atada
ou até que eu tenha me barbeado
em novos espelhos, até que o mundo
tenha parado ou se aberto
para sempre.
No 6
vou mesmo com o cavalo no 6
numa tarde chuvosa
um copo de papel com café
na mão
falta ainda um pouco,
o vento fazendo voejar em espiral
pequenas cambaxirras do
telhado da arquibancada superior,
os jóqueis surgindo
para uma meia corrida
em silêncio
e a chuva mansa fazendo
tudo
de uma só vez
parecer quase igual,
os cavalos em paz uns
com os outros
antes da guerra bêbada
e eu estou na parte coberta da arquibancada
ansiando por
cigarros
conformado com o café,
então os cavalos se aproximam
levando seus homenzinhos
dali –
é fúnebre e gracioso
e agradável
como o abrir
das flores.
Os Trabalhadores
eles riem sem parar
mesmo quando
uma placa cai
e destrói um rosto
ou deforma um
corpo
eles continuam
rindo,
quando a cor do olho
adquire uma temerária palidez
por causa da má
iluminação
eles continuam a rir;
enrugados e imbecilizados
ainda jovens
fazem piadas sobre isso:
um homem com aparência de sessenta
dirá
tenho 32, e
então rirão
todos eles rirão;
por vezes são postos
do lado de fora para tomar um pouco de ar
mas grilhões os trazem de volta
grilhões que não arrebentariam
mesmo
que pudessem;
mesmo do lado de fora, entre
homens livres
eles continuam rindo,
vagam por aí
com um passo hesitante e
tímido
como se tivessem perdido
os sentidos; do lado de fora
ruminam um pedaço de pão,
pechincham, dormem, contam os tostões,
olham perdidos para o relógio
e retornam;
às vezes em seus confins
chegam até a se pôr sérios
por um momento, falam do lado de
Fora, de quão horrível
deve ser
ficar trancado
do lado de Fora
para sempre, sem jamais poder
retornar;
faz calor enquanto trabalham
e eles suam um
pouco,
mas eles trabalham duro e
bem, trabalham tão duro
que os nervos se rebelam
e causam tremores,
mas com frequência
são elogiados por aqueles
que dentre eles
se ergueram
como estrelas,
e agora as estrelas
estão de olho
de olho também
naqueles poucos
que podem tentar
retardar o passo ou
mostrar desinteresse
ou falsificar um
mal-estar
a fim de obter uma
folga (a folga deve ser
ganha para um aumento de força
para um trabalho ainda mais
perfeito).
às vezes algum deles morre
ou enlouquece
e então de Fora
alguém novo entra
e uma oportunidade
é oferecida.
estive lá por
muitos anos;
no começo achava que o trabalho era
monótono, até mesmo
tolo
mas agora entendo
que tudo tem uma função,
e os trabalhadores
sem rostos
que vejo não são realmente
feios, e que
as cabeças sem olhos –
agora eu sei que esses olhos
podem ver
e estão aptos
ao trabalho.
as trabalhadoras
são geralmente as melhores,
adaptando-se de modo natural,
e com algumas dessas
fiz amor em nossas
horas de descanso; de início
pareciam ser
como primatas
mas depois
com iluminação
percebi
que elas eram coisas
tão reais e vivas como eu
mesmo.
noite dessas
um velho trabalhador
cego e grisalho
a serventia perdida
foi aposentado e mandado
para o lado de Fora.
discurso! discurso!
nós exigimos.
foi um
inferno, ele disse.
rimos
os 4.000 de nós:
ele mantivera seu
humor
até o
fim.
A Intelectual
ela escreve
sem parar
como um grande bocal
espalhando jatos
pelo ar,
e ela discute
sem parar;
não há nada
que eu possa dizer
que não pertença realmente
a outra pessoa,
então,
parei de falar;
e ela finalmente
saiu discutindo
porta afora
dizendo
algo como –
não estou tentando
causar uma impressão
em você.
mas eu sei
que ela
voltará, elas
sempre voltam.
e
às 5 da tarde
ela batia a minha porta.
deixei-a entrar.
não vou ficar muito tempo, ela disse,
se você não me quiser.
tudo bem, eu disse,
preciso tomar um
banho.
ela entrou na cozinha e
começou a lavar a
louça.
é como ser casado:
você aceita
tudo
como se
nada tivesse acontecido.
Domingo Antes do Meio-Dia
os galhos se quebram, os pássaros caem, os prédios ardem,
as putas resistem,
as bombas se empilham,
entardecer, manhã, noite,
manteiga de amendoim,
falcões de manteiga de amendoim,
a chuva respirando como lírios do topo de minha cabeça,
pinças pinças
beijos como grampos de aço
bocas cheias de mariposas,
chupadores com cabeça de hidra,
Flórida sob a lua cheia,
tubarão com a boca cheia de homem
homem com a boca cheia de manteiga de amendoim, chuva
chuva espiando as entranhas das horas cinzentas,
cavalos sonhando com cavalos,
flores sonhando com flores,
cavalos correndo com pedaços de horas cinzentas de minha adorada carne,
pães queimando, a Espanha inteira em chamas e
cidades a sonhar com crateras,
bombas maiores que os miolos de qualquer criatura,
vindo abaixo
são os cucos dos relógios galos?
os galos se postam junto à cerca
os galos são manteiga de amendoim cantarolante,
a CHAMA se erguerá alta, a chama será grande,
beije beije beije
até que tudo suma,
espero que hoje chova, espero
que os jatos morram, espero
que o gato encontre um rato, espero
não ver isso, espero
que chova, espero
que tudo soma daqui,
espero por uma ponte, um peixe, um cacto em algum lugar
empertigando os pelos da barba até o meio-dia
sonho flores e cavalos
os galhos se quebram os pássaros caem e os prédios
ardem, minha puta caminha pelo quarto e
me sorri.