José Tolentino Mendonça

José Tolentino Mendonça

n. 1965 PT PT

José Tolentino Mendonça é um poeta, ensaísta e teólogo português, reconhecido pela profundidade e pela reflexão sobre temas existenciais e espirituais na sua obra. A sua poesia, marcada por uma linguagem depurada e um forte diálogo com a tradição filosófica e literária, explora a condição humana, a fé e a busca de sentido num mundo contemporâneo complexo. Com uma vasta obra que abrange poesia, ensaio e artigos académicos, Tolentino Mendonça é uma figura proeminente na cultura portuguesa, distinguindo-se pela sua capacidade de conciliar o rigor intelectual com uma sensibilidade lírica apurada. A sua contribuição estende-se para além da literatura, com um papel ativo no debate cultural e religioso.

n. 1965-12-31, Machico

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Isto é o meu corpo

O corpo tem degraus, todos eles inclinados
milhares de lembranças do que lhe aconteceu
tem filiação, geometria
um desabamento que começa do avesso
e formas que ninguém ouve

O corpo nunca é o mesmo
ainda quando se repete:
de onde vem este braço que toca no outro,
de onde vêm estas pernas entrelaçadas
como alcanço este pé que coloco adiante?

Não aprendo com o corpo a levantar-me,
aprendo a cair e a perguntar
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Biografia

Identificação e contexto básico

José Tolentino Kalid de Mendonça é um poeta, ensaísta, teólogo e académico português. Nasceu a 4 de dezembro de 1965, no Funchal, Madeira. É considerado uma das vozes mais relevantes da poesia contemporânea portuguesa, com uma obra marcada pela reflexão sobre a fé, a cultura, a história e a condição humana.

Infância e formação

Natural da ilha da Madeira, Tolentino Mendonça teve uma formação inicial marcada pela cultura insular. Frequentou o seminário e prosseguiu os seus estudos em Teologia na Universidade Católica Portuguesa, onde se licenciou. Posteriormente, aprofundou os seus estudos em Ciências Bíblicas em Roma, no Pontifício Instituto Bíblico e no Studium Biblicum Franciscanum. A sua formação intelectual e espiritual é um pilar fundamental da sua obra.

Percurso literário

O percurso literário de José Tolentino Mendonça iniciou-se com a publicação de poesia, área em que se tem destacado. A sua obra poética tem vindo a ser reconhecida pela crítica e pelo público, com diversas edições e traduções. Paralelamente, desenvolveu uma carreira como ensaísta, abordando temas de cultura, religião e filosofia, e como académico, com vasta produção científica.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra de José Tolentino Mendonça, particularmente a sua poesia, é caracterizada pela profundidade temática, pela linguagem cuidada e pela capacidade de estabelecer pontes entre a tradição e a contemporaneidade. Explora temas como a fé, o sagrado, a memória, o tempo, a fragilidade humana e a busca de sentido. O estilo é muitas vezes depurado, com um ritmo contemplativo e uma forte carga imagética, que remete para a tradição mística e filosófica. Utiliza frequentemente a metáfora e a alegoria para explorar as complexidades da existência.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Tolentino Mendonça insere-se no panorama cultural português contemporâneo, dialogando com outras vozes da poesia e do ensaio. O seu trabalho reflete um interesse profundo pelos desafios da sociedade atual, nomeadamente a secularização, a crise de sentido e a relação do ser humano com a tecnologia e com o ambiente. A sua formação teológica confere-lhe uma perspetiva única sobre as questões existenciais e espirituais da nossa época.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Tolentino Mendonça foi ordenado padre em 1990. A sua vida pessoal está intrinsecamente ligada à sua vocação religiosa e académica. O seu percurso de vida tem sido marcado pela dedicação ao estudo, à escrita e à reflexão, procurando conciliar a sua fé com o diálogo intercultural e inter-religioso.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção José Tolentino Mendonça tem sido amplamente reconhecido pela sua obra. Recebeu diversos prémios literários, incluindo o Prémio PEN Clube Português de Poesia e o Prémio Vida Literária, atribuído pela Associação Portuguesa de Escritores. A sua obra tem sido traduzida para várias línguas, atestando a sua projeção internacional. É frequentemente convidado para conferências e debates em Portugal e no estrangeiro.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Na sua obra, é possível identificar influências de autores como São João da Cruz, Meister Eckhart, Fernando Pessoa, Sophia de Mello Breyner Andresen, entre outros. O seu legado reside na capacidade de renovar a linguagem poética e de oferecer uma reflexão profunda sobre a espiritualidade e a condição humana num contexto contemporâneo, influenciando uma nova geração de leitores e escritores que procuram um diálogo entre a fé, a cultura e a arte.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Tolentino Mendonça tem sido objeto de estudo por parte da crítica literária e teológica. As suas poesias são frequentemente interpretadas como um convite à contemplação e à busca de um sentido mais profundo na existência. As suas análises sobre a cultura e a religião são vistas como um contributo para o debate sobre os desafios da contemporaneidade.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Para além da sua atividade literária e académica, José Tolentino Mendonça tem desempenhado funções de relevo em instituições culturais e religiosas, como a presidência da Fundação Francisco Manuel dos Santos e a sua nomeação como Cardeal em 2019. A sua capacidade de comunicação e o seu pensamento aberto têm-lhe valido uma forte projeção pública.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória José Tolentino Mendonça encontra-se vivo e em plena atividade literária e intelectual.

Poemas

26

A voz solitária do homem

Há palavras que escrevemos mais depressa
o terror dessas palavras derruba
o passado dos homens
são tão pouco: vestígios, índices, poeira
mas nada lhes é desconhecido
as horas em que vigiamos o escuro
os sítios nenhuns das imagens
a ligeira mudança que resgataria
o abandono, todo o abandono
2 093

Sobre um improviso de John Coltrane

Ainda espero o amor
como no ringue o lutador caído
espera a sala vazia
primeiro vive-se e não se pensa em nada
não me digam a mim
com o tempo apenas se consegue
chegar aos degraus da frente:
é didícil
é cada vez mais difícil entrar em casa
não discuto o que fizeram de nós estes anos
a verdade é de outra importância
mas hoje anuncio que me despeço
à procura de um país de árvores
e ainda se me deixo ficar
um pouco além do razoável
não ouvem? O amor é um cordeiro
que grita abraçado à minha canção
3 648

Os Girassóis

Às vezes ouves-me chorar
não é fácil deixar a tua mão

De quarto em quarto
quem espera
o terror de não haver ninguém

As paisagens alteram-se sem resolução
narrativas imortais desaparecem
e os girassóis assim
vulneráveis a desconhecidas ordens

Tu estás tão perto
mas sofro tanto
porque não vejo
como possa falar de ti
entre dois ou três séculos

2 680

Calle Principe, 25

Perdemos repentinamente
a profundidade dos campos
os enigmas singulares
a claridade que juramos
a conservar
mas levamos anos
a esquecer alguém
que nos olhou apenas
3 208

Mercado velho, Machico

Uma paisagem muito ao longe
quando se regressa
continuamos a vê-la no escuro
fechamos os olhos,sentimo-nos vivos
na sucessão dos séculos
falamos de súbito
daquilo que nos assusta
um segredo demasiado intenso
o malogro dos códigos
qualquer ideia extrema
que destrói o mundo e não queríamos
mas estamos tão pouco
onde estamos
2 007

Às escondidas

Os primeiros chuviscos restituem-nos
o incrível cheiro da terra
mas nós estaremos quem sabe longe
do que tem significado

Preenchemos a inscriçõa numa piscina municipal
não sabemos bem o motivo ou não dizemos a ninguém
como os dias nos pedem a dureza
ofegante,instintiva
que têm para os nadadores as braçadas

Uma sombra nos acalma

Uma claridade nos dói

Cedo receamos a felicidade daquelas imagens
que reeencontramos dentro de nós
e não se ligam a nada

1 957

Murmúrios do mar

"Paga-me um café e
conto-te a minha vida" o inverno avançava
nessa tarde em que te ouvi assaltado por dores
o céu quebrava-se aos disparos de uma criança
muito assustada que corria o vento batia-lhe no
rosto com violência a infância inteira disso me
lembro outra noite cortaste o sono da casa
com frio e medo apagavas cigarros nas palmas das
mãos e os que te viam choravam mas tu
,não,nunca choraste por amores que se perdem os
naufrágios são belos sentimo-nos tão vivos entre as
ilhas ,acreditas? E temos saudades desse mar
que derruba primeiro no nosso corpo tudo o que
seremos depois "pago-te um café se me contares
o teu amor"


7 444

A mão, o muro, o mundo

A mão preferida pelo silêncio
evoca sobre o muro
um alfabeto sem vincos
não é mão é uma luz que sobe pela colina
um atalho entre as estevas
um incêndio na mata
a rapariga louca,grita contra a noite
na enseada

A mão preferida pelo silêncio
folheia o livro dos incêndios
torna-se irremediavelmente suja
sobre o muro traça os vincos
os primeiros versos

A mão preferida pelo silêncio
não conhece repouso
quando atravessa a noite da enseada
é a mão trémula
pobre
assinalada pela escassez extrema dos nomes
2 352

Compaixão

Vi pela primeira vez o mar
era muito difícil frente a mim
compreender esse território absoluto
falámos só de coisas inúteis
e o mundo inteiro se escondia
somos novos. Lemos nos olhos fechados
precauções,derrotas,recusas
quando a intimidade sugere
a maior compaixão

2 649

A infância de Herberto Helder

A infância de Herberto Helder

No princípio era a ilha
embora se diga
o Espírito de Deus
abraçava as águas

Nesse tempo
estendia-me na terra
para olhar as estrelas
e não pensava
que esses corpos de fogo
pudessem ser perigosos

Nesse tempo
marcava a latitude das estrelas
ordenando berlindes
sobre a erva

Não sabia que todo o poema
é um tumulto
que pode abalar
a ordem do universo agora
acredito

Eu era quase um anjo
escrevi relatórios
precisos
acerca do silêncio

Nesse tempo
ainda era possível
encontrar Deus
pelos baldios
Isso foi antes
de aprender a álgebra
3 871

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20

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50

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Maria Cristina
Maria Cristina

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euskadia

JESUÍTA MOR É RESPONSÁVEL PELA MAIOR E MAIS HERMÉTICA BIBLIOTECA DO MUNDO, A DO VATICANO. ORDENADO CARDEAL PELA SUMIDADE DESTA ORDEM VERDUGA, O FRANCISCO