Marina Colasanti

Marina Colasanti

1937–2025 · viveu 87 anos BR BR

Marina Colasanti é uma renomada artista visual e escritora brasileira, nascida na Itália. Sua obra poética é marcada por uma delicadeza ímpar e uma profunda exploração do universo feminino, dos sonhos e da imaginação. Com uma linguagem acessível, mas carregada de simbolismo, ela transita entre o real e o fantástico, convidando o leitor a refletir sobre as complexidades da existência e as nuances das relações humanas. Sua produção abrange poesia, contos e livros ilustrados, consolidando-a como uma voz singular na literatura contemporânea.

n. 1937-09-26, Asmara · m. 2025-01-28, Rio de Janeiro

730 286 Visualizações

Eu sei, mas não devia

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia.

A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista que não seja as janelas ao redor.
E, porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora.
E porque não olha para fora logo se acostuma a não abrir de todo as cortinas.
E, porque não abre as cortinas, logo se acostuma acender mais cedo a luz.
E, à medida que se acostuma, esquece o sol, esquece o ar, esquece a amplidão.

A gente se acostuma a acordar de manhã sobressaltado porque está na hora.
A tomar café correndo porque está atrasado.
A ler jornal no ônibus porque não pode perder tempo da viagem.
A comer sanduíche porque não dá pra almoçar.
A sair do trabalho porque já é noite.
A cochilar no ônibus porque está cansado.
A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido o dia.

A gente se acostuma a abrir o jornal e a ler sobre a guerra.
E, aceitando a guerra, aceita os mortos e que haja número para os mortos.
E, aceitando os números, aceita não acreditar nas negociações de paz, aceita ler todo dia da guerra, dos números, da longa duração.

A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir.
A sorrir para as pessoas sem receber um sorriso de volta.
A ser ignorado quando precisava tanto ser visto.

A gente se acostuma a pagar por tudo o que deseja e o de que necessita.
E a lutar para ganhar o dinheiro com que pagar.
E a ganhar menos do que precisa.
E a fazer filas para pagar.
E a pagar mais do que as coisas valem.
E a saber que cada vez pagará mais.
E a procurar mais trabalho, para ganhar mais dinheiro, para ter com que pagar nas filas em que se cobra.

A gente se acostuma a andar na rua e a ver cartazes.
A abrir as revistas e a ver anúncios.
A ligar a televisão e a ver comerciais.
A ir ao cinema e engolir publicidade.
A ser instigado, conduzido, desnorteado, lançado na infindável catarata dos produtos.

A gente se acostuma à poluição.
As salas fechadas de ar condicionado e cheiro de cigarro.
À luz artificial de ligeiro tremor.
Ao choque que os olhos levam na luz natural.
Às bactérias da água potável.
À contaminação da água do mar.
À lenta morte dos rios.
Se acostuma a não ouvir o passarinho, a não ter galo de madrugada, a temer a hidrofobia dos cães, a não colher fruta no pé, a não ter sequer uma planta.

A gente se acostuma a coisas demais para não sofrer.
Em doses pequenas, tentando não perceber, vai se afastando uma dor aqui, um ressentimento ali, uma revolta acolá.
Se o cinema está cheio a gente senta na primeira fila e torce um pouco o pescoço.
Se a praia está contaminada a gente só molha os pés e sua no resto do corpo.
Se o trabalho está duro, a gente se consola pensando no fim de semana.
E se no fim de semana não há muito o que fazer a gente vai dormir cedo e ainda fica satisfeito porque tem sempre sono atrasado.

A gente se acostuma para não se ralar na aspereza, para preservar a pele.
Se acostuma para evitar feridas, sangramentos, para esquivar-se da faca e da baioneta, para poupar o peito.
A gente se acostuma para poupar a vida que aos poucos se gasta e, que gasta, de tanto acostumar, se perde de si mesma.

1972
Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

Marina Colasanti é uma escritora e artista visual brasileira de origem italiana. Nasceu em Asmara, na então colônia italiana da Eritreia (atual Eritreia), em 26 de setembro de 1937. É conhecida por sua obra poética, contos e livros ilustrados, com destaque para a exploração do universo feminino e do imaginário.

Infância e formação

Nasceu na África Oriental Italiana, onde seu pai, um engenheiro ferroviário, trabalhava. Aos quatro anos, com o fim da Segunda Guerra Mundial e a queda do fascismo, sua família retornou à Itália. Em 1948, aos onze anos, emigrou com a família para o Brasil, estabelecendo-se no Rio de Janeiro. Essa experiência de deslocamento e imigração marcou profundamente sua sensibilidade e sua visão de mundo.

Percurso literário

O início de sua carreira literária se deu com a publicação de poesias em jornais e revistas. Em 1965, publicou seu primeiro livro de contos, "Eu sozinha". A poesia passou a ter um papel central em sua obra a partir de "O guarda-roupa" (1977). Sua trajetória é marcada pela constante experimentação, transitando entre a poesia, o conto e a ilustração.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras de Marina Colasanti são conhecidas pela delicadeza, pela exploração do imaginário, dos sonhos e pelo foco no universo feminino. Seus temas recorrentes incluem o amor, a solidão, a busca por identidade, a passagem do tempo e a natureza. A linguagem é lírica e acessível, mas carregada de simbolismo e imagens oníricas. Ela frequentemente mescla o real e o fantástico, criando atmosferas únicas. Sua obra poética é marcada por versos que exploram a subjetividade e a introspecção. "Aquela sombra" (1999), "Fragmentos" (2004) e "Ouçam o que os olhos veem" (2011) são exemplos de sua produção poética.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Colasanti produziu sua obra em um período de intensas transformações sociais e culturais no Brasil, especialmente a partir da segunda metade do século XX. Sua escrita dialoga com correntes do modernismo e do pós-modernismo, abordando temas existenciais e sociais sob uma perspectiva sensível e introspectiva. Sua experiência como imigrante também a insere em um contexto de discussões sobre identidade e pertencimento.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Marina Colasanti foi casada com o poeta Affonso Romano de Sant'Anna, com quem teve duas filhas. Sua vida pessoal, marcada por experiências de deslocamento e pela vivência em diferentes culturas, reflete-se em sua obra através da exploração de temas como a saudade, a identidade e o sentimento de alteridade.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Marina Colasanti é amplamente reconhecida por sua contribuição à literatura brasileira. Recebeu diversos prêmios e distinções ao longo de sua carreira, incluindo o Prêmio Jabuti em várias ocasiões. Sua obra é estudada em escolas e universidades, sendo considerada um marco na literatura infanto-juvenil e na poesia contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Embora sua obra seja bastante original, pode-se identificar influências de autores que exploraram o imaginário e a subjetividade. Seu legado reside na forma como abordou temas femininos com profundidade e sensibilidade, e na sua capacidade de criar pontes entre a arte visual e a literatura, especialmente através de seus livros ilustrados. Ela abriu caminhos para a poesia que mescla o onírico e o cotidiano.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Colasanti é frequentemente analisada sob a ótica da psicologia feminina, da psicanálise e dos estudos culturais. Suas narrativas exploram o inconsciente, os desejos reprimidos e a construção da identidade feminina em um mundo patriarcal. A crítica destaca a originalidade de suas metáforas e a força de suas imagens.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Marina Colasanti também é uma reconhecida artista plástica, com trabalhos em pintura, gravura e escultura. Seus livros são frequentemente ilustrados por ela mesma, demonstrando sua versatilidade artística. A autora tem um forte vínculo com a natureza, que frequentemente aparece em sua obra como fonte de inspiração e metáfora.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Marina Colasanti está viva e continua ativa em sua produção literária e artística.

Poemas

217

JARDINAGEM ABAIXO DO EQUADOR

Deve ser erro meu
querer jardim lá onde a natureza
só pretende selva.
Gramados, convenhamos,
são coisa de europeu
com galgos gamos
e um castelo ao fundo
erva aparada em
séculos de cascos
coturnos e
sapatinhos de damas
séculos de batalhas
e sangue nas raizes.
Aqui a batalha que travo
é muito outra,
luta contra as daninhas
contra as pragas
sempre mais fortes do que grama
ou flores.
Arranco e arranco
despedaçando em vão as pobres unhas.
Onças, tamanduás, serpentes e gambás
riem de mim
no escuro não distante.
E me pergunto se não sou eu
a praga
nessa insistencia cega em extirpar
quem aqui nasce e vive
de direito.
1 075

NA CORTE DE HAAKON

Para bem degolar
um viking
agarra-se por trás
o cabelo comprido
e puxa-se com força.
Só então
na curva da garganta
afia-se o fio
da espada.

Na corte de Haakon
da Noruega
oito cabeças sobre o chão de pedra
olham a festa
com seus olhos mortos.
Chegada é a vez de
Sved
-e Sved não tem sequer
dezoito anos -
longos cabelos
para curta vida
longos cabelos
como rédea ou laço
enrolados nos punhos
do inimigo.
A garganta de Sved se tende
em arco
a espada canta
atenta ao seu chamado.

Mas num arranco
Sved
ergue a cabeça
e a lâmina decepa
aqueles punhos
que a seda envolve
como dois casulos.

Na corte de Haakon
da Noruega
pergunta a voz de Sved
aço cortante:
- Que arrogante esqueceu
suas mãos
nos meus cabelos?
1 144

CARNAVAL EM FRIBURGO

Dirigiam trator à tarde
à noite iam dançar
no baile do Euterpe.
Tinham calos nas mãos
palmas molhadas
e aquele cheiro jovem de
banho e brilhantina.
Dançavam com respeito
- não fosse a ereção
denunciar-se nas calças -
e puxavam conversa.
Mas nós, moças que tinham
passado rimel nos cílios,
só pensávamos que havia outro baile depois
no Clube Xadrez.
E que nós íamos.
Nós iamos.
985

NO SILÊNCIO

Pousado nas folhas
do pessegueiro
o raio de lua
canta.
1 191

Razão tem Ghirlandaio

Giovanna Tornabuoni não tem frente
o seu perfil lhe basta.
Lado esquerdo do rosto que
aniquila o direito
medalha sem reverso
face exposta da lua sem
outra face.

Que aia penteia Giovanna?
As mechas caídas em ondas
caídas em mar
as mechas medusas
e ao alto o cabelo partido
retido por fitas
cabelo esculpido que pousa na nuca
seu ninho.

Damasco brocado batista
com que rigor de esquadro
e de compasso
o traje se constrói arquitetura
suporte para a longa coluna
do pescoço.
Geométrico jardim brota
na manga
obedecem veludos e pistilos
à exata simetria
que ordena as flores
e corta
pelo meio
as mãos cruzadas.

Ao fundo
entre um colar e um livro
há um bilhete pintado:
mais bela seja a natureza
que se pode imitar
do que a palavra escrita.

Razão tem Ghirlandaio
mas defendendo a minha ferramenta
observo ao mestre:
para que seu recado fosse claro
foi necessário
escrevê-lo.
1 032

NO MÊS DE MARÇO

Barcos estão parados junto às ilhas
é tempo de lulas,
me diz um pescador.
Com artimanhas
não com anzol
pescam-se as lulas.
Baixa-se ao fim da linha
uma engenhoca em pontas
guarda-chuva ao contrário
sem o pano
- creio que colorida -
e puxa-se de leve
bem de leve
para que dance a ponta.
Até que a lula
curiosa e brincalhona
venha enredar-se nos arames
e seja içada a bordo.
Quando o mar está calmo
e o mês é março
cai o preço da lula no mercado.
E elas certamente não se dizem
que o predador chegou.


1 019

COMO SE FAZ

Como se faz um pão
se faz um prato.

Água, terra
- ou farinha -
e o trabalhar das mãos.
Depois a forma
e o forno.
Até que a nova cor
diga do acerto.

Só não se põe fermento.
Para o prato crescer
basta a comida.
1 070

Gardênias e um espelho

As cinco e vinte e cinco
uma luz sem relógio
lança-se de viés contra a vidraça
e estilhaça
as quatro flores brancas
frente ao espelho.

Prata despetalada
breves cacos
suspensos.
Cego o seu corte
já se desfaz a luz
e sem espada
a sombra cicatriza.

Rola decapitado o sol
atrás do monte.
Na sala o espelho è poço
de noturnas areias
que lento traga as flores
recompostas.
1 118

A mão de quem

Se tua boca, Holoferne
essa tua boca aberta pelo espanto
ou pelo último grito
pudesse falar
talvez me dissessem quem
te cortou a cabeça
se Judite
ou Caravaggio.
Foi ela mesma que empunhou a espada
abrindo passo ao sangue
rijo jato
sobre o branco lençol
ou foi o pincel que a fez surgir das sombras
para seu próprio horror
com a mão armada?
Os dedos de Judite seguram teus cabelos
leves como um afago
e não terão força, não
não terão
para amparar o peso da cabeça.
Pobre Judite, pálida assassina
a quem morte repugna.
afasta o rosto e quase se surpreende
ao ver que a espada a leva
no seu corte
Tomba ao fundo
entre os dois
um rubro pano
que Caravaggio quis
talhado em carne.

Na orelha de Judite
pende a pérola em gota
o leve laço.
E Merisi olha a cena
pelos olhos da aia
à espera de que o desejado se cumpra
e lhe caiba
sem culpa
a colheita do crime.
920

NUM MESMO CÉU

Neste hotel de aeroporto
não se ouvem aviões.
Nada me chega atrás de triplos vidros.
O único barulho é o respirar suave
do ar condicionado
e um estalar distante
quase inseto
que vem do frigobar

Ninguém me trouxe aqui.
Vim arrastando malas
sobre rodas
armada de uma chave
e direito de posse pela noite.
Só este espaço é meu
o resto desconheço.
Olho os aviões que sobem
e que descem num mesmo céu
cinzento.
E colhendo o silêncio
me pergunto
quantos já se mataram
nesses quartos
de quatrocentos dólares por dia
e tão acarpetado isolamento

Frankfurt 1994
854

Livros

6

Videos

2

Comentários (13)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Amo muito essa escritora mas confesso que nunca sonhei que escrevesse poesias acho que gosto ainda mais dela ela é muito boa

DANIELLY ROTOY ALVES.
DANIELLY ROTOY ALVES.

ADOREI SERVIU EM UMA BOA PARTE DO MEU TRABALHO. COL DECISÃO ************************************************************************* ................................................................................................................................................... ; ) :) /)...../) (=*.*=) (....)(....)

anny
anny

gostei bastante tenho q fazer um trabalho n e tao grante mesmo sendo pouco e bem contada isso importa bastante em qualquer bibliografia parabens para o autor da bibliografia e a marina colasanti uma grande mulher e grnde historia a todos meus parabens...

Dau
Dau

Muito talentosa e inteligente, parabéns. Estou orgulhosa da minha cidade por tê-la em nossa Feira do Livro!!!

vitoria
vitoria

oi marina. é que estou fazendo um trabalho sobre vocêe queria saber se voce pode me falar o que voce faz na vida por favor me responda*