Recomeços
I
O meu destino é viver de recomeços,
Indo em busca do que vale a pena lutar e viver,
Ainda que tenha que muitas vezes sofrer
Para superar os grandes empeços
E para me erguer entre tantos tropeços.
O meu ponto de partida
É sempre a esperança na vitória da vida
Que me faz sonhar com a liberdade
E com o raiar da suprema felicidade
Na minh'alma que hoje soluça tão abatida!
II
O meu destino é viver de recomeços,
Levando comigo as angustiantes incertezas
E na minha existência as marés das tristezas
Que surgiram com os altos preços
Que paguei com os ilusórios apreços
Por tudo aquilo que nunca me enobreceu,
Pois apenas no vazio me enlanguesceu
Quando eu acreditava que poderia voar
Com asas cortadas o meu sonho de amar,
Vivendo numa ilusão que nunca me fortaleceu!
III
Só pude recomeçar porque tive humildade
Para reconhecer que precisava mudar
Os meus caminhos que só podiam me levar
Para uma infrutífera impessoalidade
Capaz de esconder qualquer luz de verdade.
Só pude recomeçar porque tive bravura
Para sair das sombras da desventura
E das armadilhas de toda forma de engano
Que pudesse me tornar insano
Em pensamentos que me levariam à amargura.
IV
Só pude recomeçar porque sou um sonhador
Que ama escrever novas histórias
Tão indispensáveis para uma vida de glórias!
Só pude recomeçar porque sou um desbravador
De esperanças contra qualquer desamor
E de discernimentos que me ajudam a pensar
Na verdade que nunca há de me desamparar.
Só pude recomeçar porque sou perseverante
Como uma estrela que, mesmo titubeante,
Nunca desiste na sua fragilidade de fulgurar.
Alento na vida
Nem a indiferença de tantas almas vazias,
Nem os flagelos da morte de todos os dias,
Nem a má conversação das pessoas iníquas,
Podem apagar as sublimes alegrias
De quem ora com um coração singelo
Em noites onde emana um fervor sincero.
Nem a decepções de quem não esperamos,
Nem as amargosas descobertas,
Nem as corrupções de milhares de vidas humanas,
Podem fechar as portas abertas
De nossa plena e inequívoca confiança
Na verdade do amor a soprar o vento da esperança.
Nem as guerras pelo mundo afora,
Nem as divisões que só criam desafetos,
Nem os muros étnicos, culturais ou raciais,
Podem atrofiar a integridade dos corações mais repletos
Da paz celestial indestrutível como uma fortaleza
Irradiante de uma aura de grande beleza.
Recantos secretos
No interior das almas, há um mundo de segredos,Um mundo inflamado por sonhos, Memórias e sentimentos, ora aceitáveis, Ora intensamente conflitantes...Como num mar soturno e misterioso,Em cada ser humano reina um mundo secreto: Inacessível a uma concepção superficial e antecipada.Como então saber quem é o nosso semelhanteSe apenas o julgamos de maneira precipitada,Como se já o conhecêssemos ''perfeitamente''?Em cada alma há abismos escondidos,Mas apenas acessíveis Aos verdadeiramente íntimos.Subjaz em cada ser uma constelação de enigmas,Cuja tonalidade das experiências mais secretasSão impróprias e perigosas para serem partilhadas Nas entediantes rodas de convivência social.Como então podemos dizer que, De antemão e sem qualquer intimidade, Conhecemos o que se passa no interior de outrem?Por que agir como se já estivéssemos ciênciaSobre a vida de cada ser humanoSe não temos paciência para descer com eleNos recintos mais escurosDe sua precária e limitada condição?Como podemos compreender O nosso próximo (que é sempre tão distante!),Se já formamos as nossas próprias ideiasImpermeáveis a qualquer teor de flexibilidadeE inférteis até para o cultivo da sabedoria?
Nos recantos de cada ser há portas, chaves,
Escadarias, aposentos para confortar esperanças,
Cadeados, retratos e um paraíso de anseios e memórias
Esperando para serem desvelados apenas
Para uma verdadeira e sincera entrega
Que sempre requer a cumplicidade de duas almas.
O coração é um tesouro
Onde estão guardadas as grandes
Verdades de cada ser humano,
As suas verdades mais inescrutáveis e recônditas.
Uma revolução no meu ser
No dia em que o conheci o teu amor,
Como tudo se transformou em mim!
Tudo ficou mais diáfano e fulgurante
Como as águas primaveris e calmas de um rio
Liberto de qualquer turbulência e agitação.
De uma longa noite vi lentamente descortinar
Um belo amanhcer envolto em alegrias;
Ao fim de uma escuridão quase absoluta
Onde só havia prantos silenciosos,
Pude ver uma manhã próspera de doces sonhos.
Tudo era para estar morto e enterrado,
Talvez só haveria indiferença e desesperança...
Mas, eis que nessa hermética floresta
De dúvidas, incertezas e confusões,
Uma clareira nasceu lá no alto e em minha direção.
Foi o sinal inaudito de uma resposta
Que o meu ser tanto precisava!
E essa foi uma entre tantas transformações
Que foram operadas no meu coração
Extenuado por tantos desânimos e interpelações.
Então, o raiar da revolução no meu ser
Despontou como nunca acontecera outrora.
Ele agitou as cordas da minh'alma,
Resplandecendo uma luz de esperança
Contra a insurgência de uma reacionária incredulidade.
Pois no dia em que conheci a tua fortaleza
Como me tornei forte, meu querido Senhor Jesus!
Desde essa, época apreciei a leveza das suas boas novas
Como um pássarinho pela primeira vez pairando
No mais alto céu em cantos de reverência e gratidão.
As nuances da tristeza
Vejo tristeza na alma de uma inocente criança
Deserdada de amor, sonhos e perspectivas.
Vejo tristeza no semblante de quem nunca alcança
O verdadeiro sentido entre tantas tentativas.
Vejo tristeza por trás dos teus belos olhares;
Vejo tristeza nas entrelinhas do teu sorriso refulgente,
Espargindo uma fragrância de ternuras salutares,
Ao mesmo tempo irradiando uma luz tênue e reticente.
A minha tristeza é ver que o espectro da tristeza
É ainda mais intenso nos corações sensíveis,
Nos corações inebriados por sua brutal aspereza.
Sinto tristeza ao contemplar as canções mais incríveis,
Aquelas canções que me edifica com a sua beleza,
Fundindo melodias de tons melancólicos e aprazíveis.
O poeta e sua missão
O poeta é quem aspira acessar o indizível
E no seu sentir, há uma intensidade
Que só se torna compreensível
Para quem partilha de sua criativa liberdade.
É a missão do poeta a de amar
Com ternura toda forma peculiar de beleza
E, de forma lúcida, sabe bem expressar
A dor do mundo com toda franqueza.
Ante a evidência do incerto, o lirismo apaixonado
Brota da alma de todo poeta entusiasmado
Para o desvelamento dos enigmas da existência.
Versado em cantar os seus sofrimentos
E falar tão bem de suas paixões e sentimentos,
O poeta é sábio para revelar o ser de uma vivência.
Os perigos de existir
Existir é sofrermos nesse mundo dia após dia
Com as agônicas dúvidas que nunca se findam
Enquanto nos entregamos com amor e paixão
Aos conhecimentos mais dolorosos e implacáveis.
Existir é nos mantermos incompletos
E insatisfeitos pelo resto de nossas vidas miseráveis...
Mesmo assim, sonhamos como poetas
Um dia voar nos céus do inescrutável.
Existir é enfrentarmos aquelas lutas permanentes
Na esperança de alcançarmos um norte,
Ainda que não saibamos ao certo
Se um dia iremos poder encontrá-lo.
Existir é sentirmos, na alma, passarem depressa
Os melhores momentos da vida,
E encarar face a face a morte que nos assola
Com as perdas e a velhice de nossos frágeis corpos.
Existir é vivermos em busca perene
De consolo no amor que promana
De uma outra alma que esteja disposta
Na partilha de afetos, beijos e abraços.
Existir é enfrentarmos os perigos
De uma doença incurável,
Bem como de uma morte eminente
Enquanto planejamos o nosso futuro.
Existir é navegarmos nos oceanos
Dos sonhos, ideias, vontades e planos;
Ao mesmo tempo, é um desafio que nos joga
Para perto dos escolhos dos medos e angústias.
Existir é vivermos sob lágrimas e suspiros
Enquanto vemos os nossos projetos
Desabarem como castelos de areia
E enquanto buscamos com bravura nos reerguer.
Existir é nos aventurarmos pelos abismos do mundo;
É, pois, sentirmos a todo o momento um risco inevitável.
Existir é uma dor de parto constante e sem trégua
Durante o curso de nossas crises e renovações.
Existir significa, em silêncio resignado,
Percebermos que somos todos passageiros
E almejarmos de maneira inquietante
Aquilo que se mantém na esfera do inacessível.
A minha vida hoje
Eu perdi para saber ganhar,
Eu já fui incauto para ser mais sábio,
Eu já duvidei para aceitar o desafio de crer,
Eu cai para então me erguer,
Eu chorei para depois rir,
Eu desisti para chegar ao fim.
Eu me frustei para desfrutar,
Eu fracassei para conquistar,
Eu me fiz pequeno para ser grande,
Eu já fui desajeitado para ser elegante,
Eu me envergonhei nas trevas
Para resplandecer a verdade do meu ser
E o valor que brota da minh'alma.
Tudo o que eu fiz,
Tudo o que eu desejei,
Foram essenciais para ser o que sou hoje.
Muito do que já fui, apenas me ensinou
A ser o que eu não quero ser
Como nos invernos de outrora;
E tudo o que eu serei amanhã
É o meu de desejo de hoje
Que levar-me-á a ser o ser
Que ainda não se configurou agora.
Mas tudo o que eu sou hoje
É um sinal na minha vida
De que eu sou responsável
Por ser quem eu sou.
Hoje eu dou valor na minha própria liberdade,
Pois já ansiei voar nos seus cumes
Para então ser como hoje:
Mais livre na tomada de boas decisões
E no vivenciar de sonhos altaneiros
Que me motivam incansavelmente
A caminhar na perseverança.
Em espírito e em verdade
Há uma urgência em meu coração
Que me leva a viver no abraço do teu amor
E na espera da promessa de tua redenção
Através da candeia de um glorioso fervor.
Eu quero tão somente adorar ao meu Pai Eterno
Em espírito e em verdade.
Hoje eu persevero para viver do superno
E da graça daquele que reina em toda majestade.
Tempos difíceis como sombras se aproximam
Para extinguir a luz da fé dos que sem reservas confiam.
Mas é agora onde surgirão os sinceros adoradores...
Nesses dias eu desperto simplesmente para louvar
Ao meu Deus soberano que logo vem para governar
Na nova Jerusalém de infinitas glórias e esplendores.
A perseverança de um sonhador
Nesses dias escuros,
Nesse tempo adoecido pelo descaso,
Busco me saciar no divinal resplendor
Da santidade e da verdade,
Do discernimento e do entendimento,
E assim não adormecer na fria letargia
Dessa maré de ilusões infindáveis.
Quão importante é, para mim, me aprazer
Na luz de um sempiterno amor
Para não perecer na desolação
Desse absurdo quase generalizado!
Como eu almejo nesse rio me banhar
A fim de me curar de tantas dores!
Quero no entardecer da minha vida
Sempre manterem abertas
As pesadas janelas do meu quarto;
Permitir que a luz do sol
Irradie um aroma de doce esperança!
Busco enxergar nessas trevas
Uma fresta de luz que possa me salvar
Desse sono que enfraqueceu os meus sentidos.
Quero que a luz da solidariedade aqueça
O meu coração amargurado
Em meio a essa onda de indiferença brutal
E em meio a essa lógica que,
Ao nos apartar da fonte da verdade,
Só nos divide ainda mais e mais.
Às vezes, num lampejo de abrupta lucidez,
Penso que o meu destino
Não é o deserto da cegueira
E, muito menos, o do nada.
Sinto nesses momentos
Que no meu ser subsiste a nostalgia
De um paraíso distante e inacessível...
Raia em mim, em certas horas,
Uma louca ânsia pela eternidade,
Uma ânsia que, no meu íntimo, é germinada
De forma um tanto inesperada
Tal como uma flor noturna cujo perfume
É doce, sereno e cheio de inocência.
Às vezes, esqueço de me inquietar
Para voltar a me esconder na letargia,
Caminhando perdido sem esperar nada
Sob uma rotina aparentemente intransponível...
Mas dentro de mim, no mais profundo de mim,
Persiste um pequeno incomodo
Que não me deixa adormecido por muito tempo:
É quando passo a imaginar o inescrutável,
E a sonhar tal como uma criança
Ao contemplar o brilho
Das estrelas sem fim no firmamento.
Ao entoar clamores aos céus,
Num sincero derramamento de lágrimas,
Sinto um contentamento estranho
A tomar conta do meu ser...
Uma luz de discernimento me liberta
De uma desoladora petrificação
E me conduz para um paraíso de inspirações
Que ofuscam as trevas
De uma terrível morte afetiva e espiritual.
Enquanto sonhar num tempo de escuridão
Não deixarei se esvair a esperança
E nem permitirei que evanesça
Um mínimo resquício de amor para viver.
Enquanto sonhar num tempo de escuridão
Irei reluzir como uma estrela,
Cujo fulgor é perseverar
Numa vida de impávida benignidade.
Enquanto viver de sonhos e clamores aos céus,
Não deixarei morrer a força espiritual do meu ser,
Cujo mérito é me manter firme
Numa vida de grande fé no Eterno
E numa vida de calorosa compaixão.
Sonhar é a minha maior liberdade
E o único meio pelo qual posso imaginar
O que ainda não posso vislumbrar na sua plenitude;
Sonhar é um dos meus maiores consolos
Para não perecer por causa dessa humanidade
Afligida pelos espinhos de sua própria desumanidade.