cabe ao poeta engolir as madrugadas e amanhecer o verbo no peito das palavras cabe ao poeta a estranha lida de construir andaimes nos sonhos que exercita cabe ao poeta insurgir a vida e praticar rebeliões sob medida cabe ao poeta alinhavar o tempo e caminhar pelas calçadas impunemente cabe ao poeta ser quase marinheiro e navegar as âncoras gerais que se cravam no peito cabe ao poeta promover os sábados à condição de domingos e distribuir horas de riso como gerente dos sentidos cabe ao poeta não se pentear a não ser em espelhos que apenas comente sua face cabe ao poeta abster-se da morte à tarde e nunca morrer sem verbo que lhe resguarde cabe ao poeta os infartos não os do corpo mas os da alma cabe ao poeta todo discurso que não sendo palavra tenha lógica mais justa cabe ao poeta guardar a outra face e tanger a noite do mundo com seu grito de liberdade cabe ao poeta viver cedo mesmo tarde.
100
Das militares reservas da continência
O soldado em posição de sentido nem se apercebe das continências da vida
atiça-lhe o patriotismo o sistema em descanso e uma falsa impressão de conjunção de planos
a farda é só uma bandeira das aparências e dos enganos.
142
Poemeto de razões e tanto
Mais não tenha a razão humana que o invólucro inteiro de um fato e que sobrepasse o mero espelhar de tudo que o olho lhe retrata
e não se diga inteira quando farta por lhe faltar um quê de completude pois o ser assim quase completa é que denota a escassez que lhe pune
e vague pelos sonhos mansamente armada com os versos que lhe caibam e adormeça em torno desse canto com a presteza exata dos que amam
mais não tenha a razão humana que os metros todos da verdade e que só se perca e se encontre e se eternize assim quando se invada
o mais é cabe-la pela vida no grito, na palavra e na vontade e consumi-la aos tragos quando cedo e permiti-la avante quando tarde.
84
Dizeres à guisa de votos
As ações não discursam faltam-lhes o verbo e a culpa
e são assim como transeuntes nada do que não seja lhes assume porque em vê-las assim avulsas a ninguém é dado tê-las por preclusas
as ações não se matam faltam-lhes a parcimônia e uma norma da prática
as ações dizem-se assim de distantes e baldias e nem as rezas lhes cobram alguma serventia por não tê-las sempre vividas nas desoras dos dias.
129
Da palavra e sua compleição em sentido estrito
A palavra nada todos os mares de que fala
transeunte não se admite como passagem de tudo que se disse
é que esconde no seu jeito de bólide as imanências todas que recolhe
a palavra quase sempre é um disfarce relativo e displicente nunca lhe cabe tudo do verbo que se sente.
109
Pequena ode à transgressão da ordem
Nenhuma bala cala o que vai dentro da alma. A idéia é plástica salta nos ombros de quem a lavra e cai no jeito do povo como palavra. E, assim, verbo admite-se na alma coletiva que transmite e flui em rios de amor na exata proporção do que se lute e grite.
103
Das avenças do amor em rápida simbiose
o amor é avença desregrada tudo do que é tudo é quase nada e é boiar-se no sólido como se fora bólide de atingir as luas de quem ame de faltar às tardes de quem tarde
o amor é avença desregrada é um consumir-se sobrando é um expandir-se na falta é como se fora um oceano que coubesse em todas as almas e que restasse pelos dias nas noites em que se declara
o amor é uma avença incauta nada do que é cautela lhe desata antes é imprevisto como um intenso salto que se dá ao coração com ganas de astronauta
o amor é uma avença sutil como a felicidade nada do que lhe tange inventa-se público ou como concessão de quem lhe invade
o amor é uma avença avulsa de veias e de vias é convergência inata de cada alegria e um desandar de ruas nas desoras do dia.
O amor é uma avença cogente tudo que tange os olhos atiça a alma tão sempre que nada do que é humano desencarna-se da gente
o amor é uma avença tardia tudo que lhe chega a cedo é de um tempo tão difuso que chega sempre a ser tarde nas serventias do uso
o amor é uma avença plástica tudo que lhe seja forma unanimemente lhe declara na urdidura das normas na ditadura da prática
o amor é uma avença drástica guardada a desproporção de todas as almas nada do que não seja todos poderá sê-lo na prática
95
Via operária
Era de ser pedreiro seu destino mais urgente e alinhar pedras e sonhos no seu mister de vivente
era de ser partido seu grito mais pungente e engolir os soluços sua tarefa latente
era de ser preciso uma fome mais estreita pra consumir outra fome da morte que lhe isenta
era de ser tão fecundo no exercício das fêmeas pra vingar em outras carnes o futuro que lhe convenha
era de ser maltratado pelas rodas do engenho pra descobrir no seu braço melhor mister e empenho
era de ser emudecido pelo coice do chicote pra descobrir a largura do que a palavra pode
era de ser humilhado nos desvãos de cada dia pra pescar no fundo de si o que seja a alegria
era de ser entristecido pela pouquidão do riso que invertia seu canto no sentido do martírio
era de ser sempre magro habeas corpus da fome gravado em poucas costelas e num minguado nome
era de ser explorado em cada palmo da vida somando os metros de morte chorando o peso dos quilos
era de ser comprimido o seu trabalho tão largo que até do suor se tire algum lucro ou trocado
era de ver-se infinito embora tão limitado no revés do ser ofício na produção encantado
era de ver-se gritando no coice da passeata enrolado em cada bandeira numa intimidade inata
era de ver-se em grades molde brutal do desfuturo pungida a cada do povo escrita em todos os muros
era de ver-se aos seus cerzidos nos vãos das salas traçando o gosto da vida rompendo a face da alma
115
Versos ao sol sustenido menor
assim composto tens na pauta a mesma compleição da madrugada e te revelas e te resvalas como uma garça impune pela salas
e caças a mim desenfreado eu transposto em som nessa estranha matemática que me prega na pauta de todas as minhas mágoas
É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.