AurelioAquino

AurelioAquino

n. 1952 BR BR

Deixo-me estar nos verbos que consinto, os que me inventam, os que sempre sinto.

n. 1952-01-29, Parahyba

Perfil
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Das larguras do tempo

Teço a vida
como alegoria
dos futuros que intrometo
pelos dias
 
o tempo
é só detalhe
dos favores do espaço
em que se cabe
 
o presente é só uma nesga
entre o futuro e o passado
que a gente enche de tudo
nas larguras em que se cabe.
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Biografia
nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.

Poemas

526

Palavras ao mar num dia qualquer de novembro

não saberei nadar nos teus tormentos
nem a alegria beber nas tuas ondas
que esfaceladas jazem no peito dessa praia
em que nenhum pirata emergiu das sombras
nenhuma nau aportou no meu cansaço
sou simplesmente mais um navegador anônimo
espactador informe desses teus abraços

negra a noite cobre o corpo e o mar descobre
a insuficiência fatídica da tarde
boio na alegria escura dos teus líquidos
e na escravatura dos teus cabelos d'água
assim deitado sobre meus pensamentos
cooptastes minha felicidade
e em vão procuro registrar a vida
no vão de molusco dos teus avatares

assim parado em ti não me ouso homem
mas uma engrenagem a mais na tua imagem
e se me perco assim do teu retrato
é que já não caibo mais em teu espaço
quero ter braços de infinitos
e cabeças cheias de eternidade
para abraçar contigo todos os universos
e deitar-me sujeito dentro da tarde

quero cavalgar teus oceanos
abraçado ao corpo do meu povo
e como mar beber essa cidade
e como gente tragar o meu esforço
quero afogar-me em teu mister
de abraçar o mundo ternamente

quero, enfim, tornar-me onda
com uma rota enfim tão definida
e espalhar-me assim pelo meu povo
e me espatifar de encontro à vida
61

Itinerário lírico da cidade de Salvador

o semblante das casas
trai um certo desejo
de afogar mais o homem
no vão do seu próprio medo

não parecem imóveis
destarte a constatação
de que, em seu bojo, habita-se
a salvo da opressão

e mesmo aquelas que riem
um riso de cor e cal
carregam um pranto escondido
nas faces dos seus degraus

e se nas ruas arrumam-se
organizadas só mentem
pela desordem dos quartos
pela fome dos viventes

e quando estão barracos
mendigando a gravidade
mais a fome arquitetam
nos limites de seus quartos

e as que são trançadas
no melhor material
guardam resquícios do medo
na liquidez do seu mal

e em tudo são parentes
daqueles que lhes invadem
num futuro em que, por fim,
explodirá o combate

II

as ruas não se alinham
como os problemas dos homens
e parecem certas correntes
nos elos das muitas fomes

e desenham-se sorrisos
na cara dessa cidade
e escondem nos passos das gentes
uma nação entre grades

desde a 7 de setembro
de uma parca independência
às ruas mais meretrizes
ou mesmo as da inocência

Salvador não se sustenta
nestes caminhos gerais
que sugando muita fartura
da fome nutre-se a paz

e se meninas vestem-se
de roupagem mais pagã
guardam nos seios escondida
a timidez da manhã

e se urbanas se dizem
no seu urbano trajeto
não escondem o que de agrário
repousa em seus tetos

Salvador é só um encontro
das ilações do concreto
138

Do genocídio em degraus correntes

as mortes
restarão escancaradas
como as portas da culpa
e as janelas da fala

os verbos
riscarão a história
com as fissuras da honra
e as rasuras da lógica

e pela multidão
em declarada lida
afundar-se-á a prazo
o que cresceu à vista
63

Viagens póstumas em deslizes

a manhã da morte
é uma noite avessa
tudo que lhe tange
é a controvérsia:
quem habitará o céu
naufragado na terra?
os deslizes do tempo
resvalam em palavras e perdas
e respiram as desculpas
por tudo que não seja.
62

De rosas e homens em sequencial jornada

a rosa
devastada
esconde a primavera
que navegava

o homem
explorado
esconde a existência
como um fardo

homem e rosa
irmanados
vegetam humanamente
um futuro claro

homem e vegetal
alegoricamente disfarçados
78

Da africana feição humana

africano
deixo-me estar inteiro
nas curvas do povo
em que me aceito

nessa dança
que abraça a vida
meus passos sejam estradas
de consumir todas as lidas

e no rosto da terra
perfilado nos ventos
voem os cabelos da história
nos abraços do tempo.
77

Do 1º de Maio em evasivas

ao trabalho
dê-se a angústia
de construir a vida
como uma luta

é que ao dar-se
em leis adversas
constrói a vida alheia
preso a moedas

e eis que traz o mundo
como um ofício
por construi-lo unânime
em todos seus indícios

ao trabalho resta dar-se
tudo que seja coletivo
115

Verões insurgentes

no cair da chuva
o verão espreita
todos os sóis
em que se deita

como uma usina
estilhaça o tempo
e tinge as manhãs
de seus comentos

e adentra o mundo
escorreito
como uma frase solta
ao sabor dos ventos
82

Das mortes sob encomenda

o homem em tubos
joga-se à certeza
de respirar todos os ares
e todas as empresas

os cifrões
pousados em sua morte
levantam arrepios
nos debruns da sorte

e navegando seu fim
como um barco perdido
o homem tenta alcançar
o oxigênio em precipício

a nuvem do seu óbito
é um cheque permitido
111

Poema em amor desenfreado

até quando a morte me retire
da imensa praça do teu corpo
eu me direi guerreiro, mesmo morto,
de tudo quando em tua vida tive

e mesmo que carbono eu te reclamo
amante mineral do teu espaço
por muito de amante ainda eu ame
os sonhos que andei nesse teu passo

assim talvez eu me construa
dessa água que acaba tua sede
e estarei vivendo mesmo líquido
nos lábios de quem em mim perdeu-se

e caminharei, agora infinito,
em amores cada vez mais tanto
que mesmo a ausência do meu grito
sussure em seu ouvido o meu canto
61

Comentários (8)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

AurelioAquino

Honrado