não saberei nadar nos teus tormentos nem a alegria beber nas tuas ondas que esfaceladas jazem no peito dessa praia em que nenhum pirata emergiu das sombras nenhuma nau aportou no meu cansaço sou simplesmente mais um navegador anônimo espactador informe desses teus abraços
negra a noite cobre o corpo e o mar descobre a insuficiência fatídica da tarde boio na alegria escura dos teus líquidos e na escravatura dos teus cabelos d'água assim deitado sobre meus pensamentos cooptastes minha felicidade e em vão procuro registrar a vida no vão de molusco dos teus avatares
assim parado em ti não me ouso homem mas uma engrenagem a mais na tua imagem e se me perco assim do teu retrato é que já não caibo mais em teu espaço quero ter braços de infinitos e cabeças cheias de eternidade para abraçar contigo todos os universos e deitar-me sujeito dentro da tarde
quero cavalgar teus oceanos abraçado ao corpo do meu povo e como mar beber essa cidade e como gente tragar o meu esforço quero afogar-me em teu mister de abraçar o mundo ternamente
quero, enfim, tornar-me onda com uma rota enfim tão definida e espalhar-me assim pelo meu povo e me espatifar de encontro à vida
61
Itinerário lírico da cidade de Salvador
o semblante das casas trai um certo desejo de afogar mais o homem no vão do seu próprio medo
não parecem imóveis destarte a constatação de que, em seu bojo, habita-se a salvo da opressão
e mesmo aquelas que riem um riso de cor e cal carregam um pranto escondido nas faces dos seus degraus
e se nas ruas arrumam-se organizadas só mentem pela desordem dos quartos pela fome dos viventes
e quando estão barracos mendigando a gravidade mais a fome arquitetam nos limites de seus quartos
e as que são trançadas no melhor material guardam resquícios do medo na liquidez do seu mal
e em tudo são parentes daqueles que lhes invadem num futuro em que, por fim, explodirá o combate
II
as ruas não se alinham como os problemas dos homens e parecem certas correntes nos elos das muitas fomes
e desenham-se sorrisos na cara dessa cidade e escondem nos passos das gentes uma nação entre grades
desde a 7 de setembro de uma parca independência às ruas mais meretrizes ou mesmo as da inocência
Salvador não se sustenta nestes caminhos gerais que sugando muita fartura da fome nutre-se a paz
e se meninas vestem-se de roupagem mais pagã guardam nos seios escondida a timidez da manhã
e se urbanas se dizem no seu urbano trajeto não escondem o que de agrário repousa em seus tetos
Salvador é só um encontro das ilações do concreto
138
Do genocídio em degraus correntes
as mortes restarão escancaradas como as portas da culpa e as janelas da fala
os verbos riscarão a história com as fissuras da honra e as rasuras da lógica
e pela multidão em declarada lida afundar-se-á a prazo o que cresceu à vista
63
Viagens póstumas em deslizes
a manhã da morte é uma noite avessa tudo que lhe tange é a controvérsia: quem habitará o céu naufragado na terra? os deslizes do tempo resvalam em palavras e perdas e respiram as desculpas por tudo que não seja.
62
De rosas e homens em sequencial jornada
a rosa devastada esconde a primavera que navegava
o homem explorado esconde a existência como um fardo
homem e rosa irmanados vegetam humanamente um futuro claro
homem e vegetal alegoricamente disfarçados
78
Da africana feição humana
africano deixo-me estar inteiro nas curvas do povo em que me aceito
nessa dança que abraça a vida meus passos sejam estradas de consumir todas as lidas
e no rosto da terra perfilado nos ventos voem os cabelos da história nos abraços do tempo.
77
Do 1º de Maio em evasivas
ao trabalho dê-se a angústia de construir a vida como uma luta
é que ao dar-se em leis adversas constrói a vida alheia preso a moedas
e eis que traz o mundo como um ofício por construi-lo unânime em todos seus indícios
ao trabalho resta dar-se tudo que seja coletivo
115
Verões insurgentes
no cair da chuva o verão espreita todos os sóis em que se deita
como uma usina estilhaça o tempo e tinge as manhãs de seus comentos
e adentra o mundo escorreito como uma frase solta ao sabor dos ventos
82
Das mortes sob encomenda
o homem em tubos joga-se à certeza de respirar todos os ares e todas as empresas
os cifrões pousados em sua morte levantam arrepios nos debruns da sorte
e navegando seu fim como um barco perdido o homem tenta alcançar o oxigênio em precipício
a nuvem do seu óbito é um cheque permitido
111
Poema em amor desenfreado
até quando a morte me retire da imensa praça do teu corpo eu me direi guerreiro, mesmo morto, de tudo quando em tua vida tive
e mesmo que carbono eu te reclamo amante mineral do teu espaço por muito de amante ainda eu ame os sonhos que andei nesse teu passo
assim talvez eu me construa dessa água que acaba tua sede e estarei vivendo mesmo líquido nos lábios de quem em mim perdeu-se
e caminharei, agora infinito, em amores cada vez mais tanto que mesmo a ausência do meu grito sussure em seu ouvido o meu canto
É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.