Lista de Poemas

do cacto em contubérnio inato

o cacto
é só um pacto
entre o espinho
e o espaço
a terra
é só o ato
de tangê-los
no deserto dos fatos
a paisagem
é só o desacato
da flor que se inventa
nos soluços que prolata
160

Dos egos e das avenidas

É que a vida
posta na avenida
antes de ser minha
é sempre coletiva
as larguras do eu
medem exatamente
onde se souber nos outros
tão completamente
que trazê-los no coração
seja um jeito da gente.
É assim como uma procissão
de tudo que se sente.
47

De bordados e sonos em rápido olhar

Tanger o sono para os olhos
inventa um sonho apressado
que mistura o jeito do dormir
com os futuros do passado
é assim como se o tempo
fosse um imenso bordado
em que se bordando o amor
com as agulhas da calma
espetassemos as linhas do coração
nos bastidores da alma.
52

À guisa de mote

É preciso dizer a todos dessa vida

a comunhão que tudo alavanca

e espalhar pelo povo a esperança

nas praças, vielas e avenidas

como se fosse assim uma cantiga

dos desejos que teimamos em criar

nas estradas que sonhamos ao amar

com a força secular de nossa raça

cantando e dançando pelas praças

cantando com o banjo na beira do mar.



84

Da passeata em avanço

a passeata navega as ruas
com a exata compostura
de uma nau que singra as praças
dos combates, dos verbos e da luta

cada transeunte em passo
é um descompasso consentido
das dores todas que atiça o povo
e joga os homens na avenida.

a passeata navega também as luas
que o futuro dos passos realiza.
67

Da recorrente condição de ser todos

Todo singular
é tão coletivo
que mostra seus ancestrais
em cada choro, em cada riso.

É que não há como detê-los
nessa transeunte lida
onde nem preciso ser só eu
para me jogar pela vida

cada um,
a cada momento,
é só uma passeata do coletivo
no descampado do tempo.
75

Mãe

minha mãe
tem caminhos
por onde ando displicente
como se fosse uma romaria
de passados e presentes
jogados no coração
assim tão constantemente 
como a razão do amor
que cai dos olhos da gente
98

Do grito insubstituível da vida

Meu vínculo 
é o que sinto
pensar é só preciso
naquilo que o coração 
é meu indício

A razão é quase gesto
de que prescindo
quando o coração aponta
os verbos do que digo.

Meu vínculo 
é o que grito
na rua geral da vida
em que me infinito.
124

Das saliências introspectivas do medo

No medo

rescindo meu segredo

e construo de tarde

o que era cedo




nada do que me é tanto

é tão discreto

mesmo que pública

sua razão e manifesto




no medo, ao inverso,

navego a coragem

do meu verso

palavra que seja planta

no verbo a que me empresto

construindo a paisagem

das estradas do que meço.
91

Quebrada del Yuro habita o mundo

outubro em oito
o tempo grita
no espaço da carne
comunista

o guerrilheiro
maior que a morte
inventa a história
e sua sorte

e as léguas de si
que joga no mundo
constroem o futuro
e a certeza de tudo.
165

Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.