Lista de Poemas

das prostitutas prontidões

a mulher
era uma rosa escancarada
tudo que não era dia
estava

pela calçada
a bolsa girava
como gira a vida
e nada

o tempo só vestia a lua
para espantar as urgências
da rua
o verbo era só acinte
dos que habitam a vida
como síndicos
dos condomínios frugais
do urbano labirinto
e sonolenta e faminta
assim escancarada
a mulher era apenas um anúncio
da madrugada
149

Da prática em vínculos tácitos

a prática
divide
a suficiência do fato
e a humana crise

a prática,
como que  avisa,
tudo que é verdade
é matéria prima 

e lúdica
no desdizer da vida
a prática ensina a luta
em suas oficinas
88

Da judiciária vazão da luta

Nos autos do mundo
lavre-se o despacho:
que seja lançado o povo
às vias correntes do fato.

Nos autos do mundo
crave-se a sentença
e sejam deferidas à pulso
suas conveniências.

E que assim feito em praça
nos desvãos do seu invento 
impetre ávido na luta
as curvas da consciência
91

Da flor em quadrante

é que nos ombros da flor
por tras do seu colorido
navegam os sentimentos
na jangada dos sentidos
é como um feitiço do olho
que teima em ser abrigo
das tempestades da cor
explodindo seus sorrisos
como se à vida não bastasse
sua condição de ser riso
quando a natureza gargalha
a aventura de ser vista.
59

Versos em deslavada assintonia temporal

molho meu poema
de suor e vontade
como transeunte verbal
da liberdade

livre, concluo
por sobre os muros
as insuficiências de mim
nas nervuras do futuro

e o verso, líquido,
posto em drama,
isenta todos os presentes
dos passados que declama
129

Das palavras do povo em sintaxe exata

uso a palavra
guardada em cachos
assim como em árvores
de uma extensa mata

o verbo me semeia
numa ilusão exata
de que homens cavalgam
os rumos das palavras

e exatamente público
engulo as gramáticas
que meu povo planta
pelas praças
74

da wiphala em grávida fala

a wiphala assim tangida
é índio e alma de povo
da pátria grande
e das pátrias do novo

estandarte
não se presta à lida
de enrolar-se em mastros
mas nos braços da vida

a wiphala é um discurso
adredemente colorido
que se deita pelos Andes
inventando avenidas
156

Da ilha e seus limites

Cuba é só um jeito
de trazer a liberdade
dentro do peito
é que trazê-la assim
nesse avarandado
ressoa no tempo
como um grave salto
que a vida dá, quase sempre,
quando a história inventa
em ser do povo um espaço
que convenha

Cuba é ilha e olho
assim atravessada
na face impotente
dos canalhas

Ilha
basta-se limítrofe
de todas as liberdades
que estejam em riste





113

Auto da razão

o verbo
é só resquício
de tudo que restou
pelo comício
o amanhã de todos,
a contraluz - quem sabe?
decide o trânsito urgente
e pertinaz da liberdade
143

do poema em transversal distrato

o poema em si
é quase nada
é um pretenso fato
montado nas palavras

e no entanto
o poema fala
na vastidão do homem
a todos os cordões da alma

é que a matéria,
quando está em si, desanda
e chega a sentir no verbo
tudo que se ama
65

Comentários (10)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.

É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.