Lista de Poemas

Das feituras do verbo em rompante

ao verbo
dê-se a vazão
de navalha lúdica
de gramáticos vãos
e flua recortado
no burburinho tenso
da palavra
como se fora terra
sob a canga dos arados
 
e instale no homem
a urgente oficina
de inventar nos ombros da fala
todas as suas rimas
 
109

Vagar noturno

no fundo do copo

dramas e beijos

a angústia cabe inteira

num copo de cerveja

e quem não se mede

pela tristeza que engole

inventa um riso pela boca

num teatro enorme.

cada um é cada tudo

engasgado e entrançado

nas asperezas do mundo.

o olho escapa

das bordas do copo

e palmilha risos e seios

numa distância insólita

e o corpo consome a noite

e trama a madrugada

com a aguda extensão do tédio
que se escreve na cara.

em todos o bar agita

palavras de ordem de uma alegria
que permanece inconsumível.
135

Tribal

minha tribo

é tudo aquilo
que convence
meus sentidos
 
indígena
me desfaço

na aldeia geral
do que abraço
111

Sou

sou.

penso.

e divirjo de ser e pensar
constantemente:

os medos me caem entre os dedos
de repente
 
sou

e sempre

a vida finge pensar
aquilo que nem se sente.
 
estou

impunemente
naquilo que nem sei
se sou tão sempre.
146

Trajetória

nas ruas da vida

como ser exato

se todas as manhãs

cabem nos meus passos?
como não cabê-los

nos desvãos do mundo
explodindo em tudo o coração
navegante desses rumos?
como não sabê-los

estradas de mim mesmo

na direção exata do povo

que me coube tê-lo?
 
é que a humano

sempre se permite
amanhecer todas as manhãs
por que se grite

e é de tê-las avulsas

como tempos recatados

das razões de nós mesmos
que tenhamos projetado
87

Versos a meu pai

de onde você não estiver

eu me comprazo

em ser apenas o contraponto
do que me cala
 
de onde a vida me bastar
eu morra urgentemente
nas fibras do que não pude
me dizer no teu presente
 
143

Versos do sofrer

a dor

urge que a tenha sempre à mão
quando em vontade

se arquitete a desnecessidade
da razão
 
e sofro de mim
quando entristeço
coisa que não seja tal
e que nem seja tanto
quanto pareça
 
e consumo a mágoa
como tentativa

de me dizer não eu
desconstruindo a vida
 
sofro

com a compleição e o jeito
de restar de mim
 aquilo
que não devo
 
e no que não devo

há sempre o mêdo

de não me sobrar no sonho
que consumo

e em que não creio
 
sofro

como a circunstância
que sofre de mim

a perseverança
 
e no que não creio
já me permito

ter da razão

algum indício triste
 
 
 
 
 
 
 
 
169

Versos a Sô Dinda

a distancia

não permite

que o coração
se ponha à deriva
 
nau

ele flutua

num mar que descamba
nessa lida
 
e flui em ondas

que eu sabia

da gente que inventa
essa alegria
107

Sonata de introspecção

eu quero o aval de tuas coxas
para atravessar tranquilo

as noites de mim mesmo

e ouvir o gosto de tua voz
nas paredes de minha pátria
eu quero o aval de tuas coxas
para encontrar os caminhos
que não pude
e fruir os jogos de minha consciência

e me desmembrar urgente a memória
eu quero a sombra dos teus olhos

para estende-la nos varais do meu bairro
e tê-los sempre apontando o dia

ainda mesmo que não haja.

eu quero o aval de tuas coxas

para engolir os tragos da vida

com a infinita calma dos teus sonhos.
 
 
103

Toda praxe, toda vida

toda praxe

é suspeita

nada do que é novo
lhe enseja

é que não cabe
tradição e futuro

no exercício

de quem quer que seja
 
a praxe

é um avesso

de tudo que avante
se diz começo
 
é que ao futuro

cabe a lida

de parecer-se impróprio
nas praxes da vida
 
a praxe

é apenas um obséquio
de tudo que no passado
foi impretérito

não lhe cabe a medida
de soletrar-se avulsa
pois tudo que lhe tange
é uma constância bruta
 
a praxe

desmede-se dos homens

pois lhes tornam inconclusos
tudo o que lhes movem avante
é uma cordilheira de desusos
 
e desse usar frequente

que lhes fustiga à corrente
nada do que a praxe siga

será estrada consequente

pois o novo é sempre caminho
dos rios todos da gente. 
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Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.