herança
perdura em mim
o gesto mais frugal
a lógica intrinseca
do ancestral
e quando cometo a vida
em desalinho
permito uma razão
que sempre insiste
em desfazer-se da lógica
de tais lides
inventando a razão
do que é triste.
Ile Ifé
Obatalá
quem te dirá
de te dizeres tanto
como há
cabeças que nem sejam outras
das bandas de Ajalá
inventos de outros destinos
nas andanças de Ifá
Obatalá
que deitas em branco
como brancas há
as esperanças de todos
em algum lugar
em todas as giras do mundo
coisas de um bem que virá
Obatalá
que melhor não sejas
nessa energia
que trança a vida dos povos
nessa agonia
porque serás a solução
de todas as vigílias
Obatalá
que tens o mundo
em branco
de brancas as nuvens
que contentas
estendendo o teu alá
por todas as conveniências
Obatalá
que atrasas o tempo
nas desoras da vida
e que inventas os minutos
de todas as minhas lidas
Obatalá
que já redizes
o que não dito
e que perduras
alinhavado
nas entranhas do infinito
Obatalá
que viges
com a mesma complacência
com que teus filhos
soletram
as nesgas da paciência
Obatalá
que me predizes
antes de dito
e que me pões a salvo
do meu próprio grito
modernidade
como moderno
o aparelho móvel
é o tamanho exato
do homem e seu interno
o verbo que transmite
é claro e desconexo
nada do que ele é
está interno
antes se transmite
alheio a seu ego
nos programas em que a telefônica
lhe externa
avançado
o homem vira acessório
do nada
cada celular
é um trânsito infecundo
das palavras perdidas
pelo mundo
cai-lhe a vida
em programas
que tecem um sonho
e estabelecem o drama:
o homem é sempre menor
que aquele que o chama
a iniciativa da chamada
é o aval da dominância
apenso ao aparelho
o homem alinha
passos que nem são seus
pelos caminhos
falta-lhe pensar uma razão
por que caminha
guardada a desproporção
da inumana companhia
de resto
pela cidade
o homem acompanha a solidão
em direção a nada
espacial
qualquer lugar
é sempre onde
curso que se queira perto
mesmo longe.
é que ao homem é dada
essa sintonia
de querer-se pleno
mesmo baldio
por derramar-se pela vida
em desfastio.
dos tamanhos da gente
não caibo em mim
frequentemente.
é que, às vezes, a vida
sobra da gente
como se fora um rio
que procurasse corrente
pensando em todas as ondas
dos mares que se enfrenta
constantemente
a vida é um mar de outros
nos rios do que se sente.
dos 62 em anos
Aos 62
tanjo a vida
na mesma direção
das desmedidas
tudo é tanto
e tão restrito
que me resto na contradição
do que morro e vivo
aos 62
meço-me menino
nas léguas de mim
que adivinho
e o riso
é uma bandeira escancarada
nas portas do que digo
aos 62
invento a tarde
na manhã
em que me invado
e vivo tudo de mim
desenfreado.
dos quereres de futuro
a utopia
é um sonho
que se leva na mão
embrulhado na luta
tudo que seja novo
é só um traço
dos metros todos de povo
a que me abraço
dos dizeres em regra
Eu me explico
em tudo aquilo
que não digo
é que fazer
é quase tanto
daquilo em que vivo
do tempo e mais dizentes
o tempo
é um disfarce da alma
tanto mais agora
tanto mais acalma
não que fuja da lógica
dos números e dos nadas
mas que tenha a compreensão
de que não tarda
o tempo é ofício
de tanger a calma
e descobrir o vau
dos rios da alma.
o tempo
é invólucro do espaço
e toda hora e lugar
em que me abraço
não tem do rio
qualquer semelhança
pois o rio nunca para
na lembrança
não tem da rua
a mesma simetria
pois passos não lhe andam
apesar de via
o tempo
rói a intenção
como um rato
que quisesse roer
o seu retrato
pois falta-lhe a concisão
de parecer-se uno
quando imagem não seja
o que degluta
mas a própria carne
que desusa.
dos dizeres sobre a vida e outros
sobro
de tudo que me cabe
a vida é sempre maior
do que se sabe
e nem lhe resta
a contradição
de conformar-se cedo
com o que é tarde:
o tempo nem lhe cobra
os trâmites da liberdade.
Honrado
Obrigado
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.