meu âmbito é estar em trânsito e anunciar-me à vida e nem tanto e nem ser adrede em cada pranto por cada grão de riso que encontre
meu âmbito é estar humano e parecer-me crível a tudo que eu canto.
107
quando idéia
quando idéia, já tão velha a matéria, saio de mim em aventura e chego a dizer-me verbo de estranha criatura idéia que nem seja tanta como o músculo que sustenta a garganta e me propõe ações de esperança.
quando matéria, já tão gasta a idéia, ouso dizer do mundo a razão que meu braço carrega verbos e fardos e trunca a rota da fala com a mesma simplicidade com que a esperança se deita na paz de quem nem sabe.
110
Poema de circunstância
era um tempo de agosto 13 os dias, se tanto e assim, de repente, em horas avulsas a alegria deu um salto com ares de luta
e eu me pus em mim com a certeza intacta de que a vida é um tempo dos agostos e das lutas que nos faltam.
109
poema em revolução
quero-a revolução como exercício de amolgar a vida como ofício
quero-a revolução como norma e indício de que a vida cabe inteira em qualquer sentido
quero-a revolução descontraída que paste a tarde humana e me decida
quero-a revolução em cambulhadas engolfando as manhãs por que me arda
quero-a revolução exata no seu ilimite e que não me faça noite mesmo quando triste
quero-a revolução destemperada amanhando a consciência da madrugada
quero-a revolução tão crua e tanta e que não seja nem verbo nem garganta
quero-a revolução desde a aurora pra que nasçam todos os sóis pela história
quero-a revolução adredemente amada deitadas pelas sarjetas porque tão vasta
quero-a revolução ensandecida nas esquinas mais gerais de toda a vida
quero-a revolução como armistício das guerras que trazemos nos sorrisos
quero-a revolução porque definitiva no atravessar dos horizontes das vigílias
quero-a revolução e simplesmente cavalgando minha vida impunemente.
108
Poemeto ao Galo da Madrugada
No Galo da Madrugada não existe compasso tudo que é medido se desmente no passo o frevo solta o Recife no meio do meu abraço e o povo inventa a vida pela sola dos sapatos.
137
Poema ao catador de papéis
catas o lixo como te constatas ausência de tanta eficácia
carpes a vida intransformada repetição do que é tudo em nada
buscas as letras de verbos intransponíveis que nem precisam de olhos para serem lidos
fardos que sintas em tuas costas de consumir verbos que nem notas
e lavras o lixo em concordata numa digressão desmatemática.
107
Poema ao Camarada Armando Aranha
não é de tê-las, camarada, as razões, assim à pulso, porquanto não vivê-las, fosse a emoção melhor de uso, sob os céus de Caracas inventando com o povo o gesto básico da vida que é criar o novo;
não é de tê-las, camarada, as contradições, quase à deriva, no mar insurgente dessas gentes que teimam em construir a vida;
não é de tê-las, camarada, as soluções, assim tão postas, porquanto a prática é itinerário de quem se mostra;
não é de tê-la, camarada, a revolução, assim à gotas, porquanto a liberdade é tanta que apenas lutá-la é quase pouco quando se tem no coração, como no teu, a permanência do povo
ainda bem, camarada, que mesmo ausente, ainda tens na tua saudade um largo quê de presente; por isso ainda sobras pelo mundo com a certeza da vontade e da urgência da vida que cumpristes ainda jovem na proporção de tua coerência.
84
Poema ao jazigo do meu pai
O jazigo de meu pai tem cordilheiras que atravessam meu peito pela tarde e que inventam amarguras no meu riso e que gargalham no meu pranto quando tardo
o descanso do meu pai é óbvio nada lhe reclama o exercício de todos os seus ossos
o jazigo de meu pai tem bandeiras que tremulam no vão de minha face e que alcançam todas as palavras das nossas eternidades
o descanso do meu pai é vário ainda resta um interstício entre sua morte e meu abraço.
125
Poema ao inconstruído rio
eu te percebo rio pelo que contas de minhas veias e não importa que incolor exemplifiques o rubro dos meus medos toda tua trajetória é um desembocar inato do mar que trazemos no peito guardado a sete chaves
98
Da vida em ombros de verbos
o dorso da vida é largo cabe tudo quanto vivo e nem lhe sobra espaço para não conter o que digo é que palavra é um tempo num espaço tão contido que às vezes explode a razão de se dizer o que disse e o verbo toma partido na deslembrança de tudo como se fora um discurso que não quisesse ter curso e se perdesse nas ruas das inconstâncias do uso
É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.