em pássara consciência
de bólide
não se avoque
por pássaro se ter
mais a molde
enseje continência
quando infinita
e se preste mais a pulso
quando incontida
tenha no jeito
a concisão e a urgência
de um sonho gravado
no vão da paciência
do tempo
não se provoque
a ser apenas fração
que me console
que seja bólide
e que não seja
engastada na conveniência
de toda a natureza.
dos usos da verdade e seus modos
a verdade
nunca trai o gesto
de absolutizar a vida
em seu interno
a verdade
é tática
sempre lhe cabe um futuro
por inexata
a verdade, amiúde,
tem estratégias
é que lhe parece jovem
ser velha.
itinerário avante
ao riso
dê-se a fala
de quem habita inteiro
sua alma
ao povo
dê-se a palavra
de quem cogita
todas as praças
ao mundo
dê-se a vontade
de habitar impune
a liberdade
dos viveres das gentes
quando se vive
humanamente
a vida sempre inventa
de inventar a gente
é que lhe invade um jeito
de ser completamente.
encruzilhada
saio da inércia
em que me acho
a encruzilhada é uma véspera
do abraço
não é preciso que a tenhamos
como um caminho
que deixou de definir-se apenas
mas há que compreendê-la
na sua gesta insana
de conduzir a todas as razões
porque se chama
aliás
porque chama
a encruzilhada sempre é
de quem ama
nunca está onde se chega
nunca chega onde desama
porque é por tê-la na alma
que se é humano
há que sê-la na compreensão
de que a vida é problema
que sabe a solução
em cada dilema
e que se perde nas trocas
que o homem manipula
como se dar fosse moeda
que encontrasse recusa
na encruzilhada
me apercebo
que a coragem
é um tipo escancarado de medo
que nem chega a ser diferente
de todos os seus outros enredos.
Gestos e efemérides
traio meu gesto
quando me permito
ser menor que meus sentidos
e sobro no tempo
em que não divirjo
das facilidades da rosa
das dificuldades do umbigo
traio a mim
quando não digo
a sem razão do meu corpo
em precipício
sobro da vida
impunemente
quando a manhã que me cabe
deixa de ser da gente
e quase me permito
nessa geografia inexata
dos pontos cardeais
de todas as minhas mágoas
Excerto das notas acerca do presumido nada
a morte é apenas
uma notícia da vida
jeito de ser cometida
a nossa revelia
nem tão plena
que não seja avara
nem tão triste
que não seja comedida
porque de tê-la pelos tempos
nessa simbiose constrangida
ao homem descabe tê-la
como um avesso do nada
é que a morte sempre cabe
em cada desvão da madrugada
assim de sua feição
como viés da vida
nunca lhe cabe a semelhança
de um gesto comedido
é que lhe trai a razão
de ser sempre conteúdo
de um não atravessado
na garganta de tudo
a morte é apenas
um descomeço da vida
e continua seu exercício
como uma praça infinita
onde habitassem todos os ausentes
no tamanho exato
de todas as suas lidas
assim de sua gesta
em contrafazer a desmedida
nunca lhe sobra a confissão
de ser compreendida
é que de sua feitura
nas dobraduras da vida
nunca lhe sabe a homem
o que não é medido
antes lhe sobre a compleição
de um exato infinito.
memória
A memória
não preside
apenas auxilia
as dores que não tive
é que vivê-la
pode ser um jeito
de trazer o fato
pra dentro do peito
e tê-la como assente
no cartório da vida
coisa de ser quase falsa
mesmo objetiva
pois tange a franja da alma
como uma tristeza
que apenas deixou de ser alegre
por desnatureza.
A memória
não existe
é apenas um navio
que teima em trafegar no fato
dos mares que nem vivo.
É que em suas ondas
não navegam propriamente
antes inventam águas
em que nem se está presente.
A memória
é um cabide
em que toda a paciência
está em riste
cabe apenas trazê-la
muito amiúde
e consumi-la adredemente
naquilo tudo que eu pude.
A memória
não se anuncia
antes é propaganda
do que não vigia
e esse seu jeito de fato
é apenas alegoria
que as sinapses jogam
pelo vão dos dias.
A memória
é sempre intacta
basta não tê-la
como matemática
é preciso cabê-la
sempre avulsa
e em números
em que se caiba.
A memória
é uma gestão pacata
nada lhe gerencia
mais que a alma
porque é de tê-la própria
assim aos borbotões
que se distingue quando em paz
que se atinge quando não
é maneira de viver morrendo
inventando vivas as razões.
A memória enfim
é quase um não
que nem chega a ser exata
quando próxima da razão.
Exercícios
garçon
quase não sirvo
os restos da vida
que admito
pedreiro
já não sento
os tijolos da alma
que aguento
magarefe
não me atrevo
a matar as reses
do meu medo
motorista
não insisto
em guiar os passos
do meu grito
caseiro
já não guardo
as casas que em meu peito
trago
engenheiro
não construo
as pontes
dos meus usos
madrugada a tempo solto
os galos
noticiam o dia
com a postura indefinida
de jornalistas da rotina
e construindo as horas
no fundo dessa América Latina
eu ouço o jornalismo inato
das aves de minha pátria.
Honrado
Obrigado
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.