não é de tê-las, camarada, as razões, assim à pulso, porquanto não vivê-las, fosse a emoção melhor de uso, sob os céus de Caracas inventando com o povo o gesto básico da vida que é criar o novo;
não é de tê-las, camarada, as contradições, quase à deriva, no mar insurgente dessas gentes que teimam em construir a vida;
não é de tê-las, camarada, as soluções, assim tão postas, porquanto a prática é itinerário de quem se mostra;
não é de tê-la, camarada, a revolução, assim à gotas, porquanto a liberdade é tanta que apenas lutá-la é quase pouco quando se tem no coração, como no teu, a permanência do povo
ainda bem, camarada, que mesmo ausente, ainda tens na tua saudade um largo quê de presente; por isso ainda sobras pelo mundo com a certeza da vontade e da urgência da vida que cumpristes ainda jovem na proporção de tua coerência.
83
Pequena ode panglossiana com facciosa conivência
a tristeza é só um jeito que a alegria teima em dar dentro do peito.
77
Poema à Ravenala Madagascariensis
assim, leque do mundo, nem imaginas o contraste de ti com minhas retinas
revoltas a ti mesma com a calma que anuncias e nem permites que o tempo traspasse o teu jeito de alegria
74
Pequena digressão
A distância é apenas um jeito que o tempo teima em dar no pensamento coisa de ser desatendida vividas as horas todas dos metros todos do dia nada do que é tanto pode ser tão lento em qualquer medida que não se tenha avulso na imanência da vida.
125
Das presunções e da vida
até que percebas que a vida está em cena na exata proporção do teu problema
a verdade é apenas um jeito presumido do que se apresenta
viver é quase tanto quanto inventar a cena
119
Patriótica
o raciocínio não medra quando a bruta fome ensina a sofreguidão de todas as pedras que vige tão latente e intestina qual a definitiva pose como se fora definitivo o que não houve
e rói o peito da pátria a pan-nacional sentença de que cada pátria é apenas um instante da hora definitiva da humana consciência
e há de viger o coração no brasileiro drama imbuído nesse pulsar da exausta consciência que pulsa em vão todos os sentidos
128
Poema ao falido rio
eu te percebo rio no correr das minhas veias e não importa que não o sangue seja o deslizar de tuas cheias
eu te concebo rio embora tu nem creias que um dia foste corrente de percorrer minhas veias
pois nem de águas tens a postura e a certeza de como te postas em vão atravessado na natureza
105
Poema à morte da última filha de Júlio
assim como te postas renhida a carne desabotoas o tempo no trânsito da tarde loucas as dessemelhanças que te puseram em século de desumanidades
e eis que foste trauma de músculos e vontades uma vaga impressão de que a vida vale aquilo em que se cabe
e travavas o dia como uma larga bolandeira que remisse os pecados das noites em que estejas
113
palavras ao boi no ano da graça de 1988
assim em tua semelhança eu possa pastar adredemente os quilos de razão que nunca pude e me restar tranquilo e tão somente que sozinho, ás vezes, me desfaça em ruminar a vida a tão confronto que a luta me seja tão ardente como se fora avessa ao desencontro
e não me iluda nas virginais pastagens que as aparências iluminam vastas mas me tenha atento e controlado ao conteúdo de tudo que se pasta pois rarefeito, ás vezes, em vontade me suba do peito a sofreguidão extrema das prontidões que alinho tão a custo nas pastagens gerais que já me tenham
quero-me assim em cada músculo refletir a fibra de tua indolência que mais parece uma ação fortuita daquilo que te tem como presença pois se te afirmas inválido no teu pulo mais me tenha afeito à consciência de que meu pulo é muito mais que tanto na solidez dos gados que convenham
quero atravessar tua calma com a brandura e a competência com que te alias á vitória exausta das refregas gerais de tua ausência pois as noites que se arquivam no teu lombo já pela manhã se dizem madrugadas arrancada à pulso dos teus ombros na lavratura informal da minha fala
quero beber teu tempo em cálice coerente que não me faça doer em cada esquina mas que tenha da dor o rasgo em trânsito com que as coisas sempre se alinham quero traçar as retas que me curvem sob o peso dos valores desse dia e merecer a luta em que me acho na estreiteza do leito em que me guio
quero enfrentar todo vermelho com a solidão fugaz de tua pata e me abraçar ao mundo como rubro de toda a eficiência que me invada pois do choque agudo dos contrários me suba à face uma rosa esquálida que signifique toda a vermelhidão que se pinta fatal na minha alma
quero esmagar meus passos como passeias molemente o mundo e resgatar a profunda contundência com que caminhas apesar do rumo pois distribuir os pés pela estrada tem muito mais de sólida tecitura que os teares das fábricas que alinhavam os suores dos homens em sua escravatura
quero compreender teus olhos com a languidez com que me olhas e refletir no olhar a imensa calma com que a vida o nosso olhar deflora pois que me tenha atento a cada espanto e que me tenha pronto a cada hora a fazer do meu olho uma bandeira que me tenha escrito em minha história.
73
pequena digressão latinoamericana
por sobre a américa, latina terra consentida, o povo inventa a tarde aos solavancos da vida
relembro o sentido nada do que fora tanto dir-se-ia maior do que aquilo que vivo
por sobre meus ombros os fatos se acumulam como uma escolha insone das estradas que pude
e todos os caminhos levam ao povo com a mesma simplicidade do que é e como se constrói o novo.
É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.