AurelioAquino

AurelioAquino

n. 1952 BR BR

Deixo-me estar nos verbos que consinto, os que me inventam, os que sempre sinto.

n. 1952-01-29, Parahyba

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Das larguras do tempo

Teço a vida
como alegoria
dos futuros que intrometo
pelos dias
 
o tempo
é só detalhe
dos favores do espaço
em que se cabe
 
o presente é só uma nesga
entre o futuro e o passado
que a gente enche de tudo
nas larguras em que se cabe.
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Biografia
nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.

Poemas

3477

Interlóquio matinal

súbita

a manhã nem é tanta
que me cubra o peito
de esperança
 
súbita

a manhã nem é humana

que esconda o ranger de dentes
e a inconstância
 
sórdida

a manhã nem se levanta
no estandarte do peito
de quem desama
 
sólida

a manhã se inflama
se se constrói a razão
por que se ama
 
113

Indagação II

e tudo está claro

a vida e as mãos

apenas sobrevivem

onde nunca estão

pois por mais que no corpo estejam
envoltas no tempo e nas luvas
ninguém consegue entendê-las
no espaço exato em que as usa.
91

elegia prosaica ao caldo-de-cana com pão doce

o rio verde

é quase uma alegria

que amolga o instinto

na garganta

e como porto

tange a língua

como as mulheres tangiam
as panelas gerais

da minha infância
 
pão invente-se pão

menos por ser pasto
mas por trazer-nos à mão
um sentimento arcaico

e um gosto transeunte e laico

dos enredos disformes da razão
 
e ainda que pasto

seja a condição

pra se ter o peito livre
grávido da nação
155

Excertos da trajetória

os olhos

laçam a manhã
e pela pátria
resta no cérebro
a sensação exata
de que é pouco

o que lhe falta
 
os olhos

laçam a manhã

e pela lógica

há ainda um tempo do povo
navegando a história
 
os olhos

laçam a manhã

e pelo futuro

caminha o passado
desobrigado dos muros
57

excertos do tempo

não há um tempo

de dizer as horas

na compreensão intensa 
dos momentos

não há um tempo

de demoras

quando vamos levando

a consciência

é que a vida é pouca 
nas ausências.
 
não há um tempo

de discórdias

mas a exata compreensão 
ilógica

de que o homem apenas luta 
contra a história

não há um tempo

de sofreguidão

pois as horas teimam

em dizerem não
é que a emoção é campo

de se ter à mão 
 
não há um tempo

de reformas

a revolução é o único tamanho 
dela própria

não há um tempo

de facilidades

a mudança é apenas uma flor 
que há-de

é que os olhos são curtos

para sentirem o infinito

da verdade
 
não há um tempo de mares

mas sonhos e navios pelas tardes 
não há um tempo de águas

nos homens

há um leve rumor das cachoeiras 
em que deságuam
é que a vida nem sempre

escorre pelas mágoas
 
não há um tempo de poesia 
em que se caiba

o poema sempre tamanha 
o que lhe invade 
é que o discurso do homem

é de uma métrica

ainda tarde

que sobra no peito das gentes 
como um sol de alvaiade 
e a vida nunca é completa 
por mais que verso haja 
pois quando plena

apenas pela palavra 
quem preencheria os metros 
da fluidez dessas almas? 
 
não há um tempo de poesia 
apesar de sua tática

de discursar a coisa em verso
 transitada pela alma 
como forma mais condizente 
de se dizer a palavra
é que a prosa tem viés

de estranha matemática 
que soma verbos e veias

em equações inexatas

que sempre esquecem um pedaço 
do que vai pela alma
 o verso pelo contrário

tem o tamanho da vida

pois sempre tende ao infinito 
apesar de tão contido

nas meias dúzias de palavras 
que o homem leva consigo

e que é sempre bem maior 
que seu próprio sentido
 
não há um tempo a desoras

todo tempo é permitido

nas curvas em que se faz da vida
 um desacato aos sentidos
é que o tempo não acata

o que se faz sem seu juízo

pois as horas que lhe são próprias 
deságuam na própria vida

e o homem tem seus minutos

na circunstância não dita

de que é apenas um

numa nave coletiva
 
mas há um tempo de necessidades 
em que cada um é preciso

desde o resgate dos homens

à medição do infinito 
por terem os dois o tamanho 
de todos os nossos gritos

110

em torno do meu país

na favela

as balas vão
aquelas do coração
e as da guerra
 
na favela

chora-se em dobro
as lágrimas de pedra
e as do choro
 
líquidas

as últimas
são mares

em que se afoga
a vida e seus pesares
 
sólidas

as de pedra

são os gritos de quem luta
melhor dizê-las verbos
pela rua suja
 
na favela

o poema se escreve

com o sangue e a vontade
de quem deve
 
poema em dobro
retroativo

que teima em ser de pedra
apesar dos sentidos
 
na favela

a palavra medra

como o sacrifício
semente que não plantada
pergunta que nem se diga
 
na favela

a morte habita

uma intimidade
comedida
parente que nem seja íntima
da vida.
102

Inversão

inverto.

sou aquilo

que nem me conheço.
 
invento.

sou o contrário
do meu medo.
 
intento.

ouso amar-me
como invento.
56

Frevo II

assim no frevo desatado
das amarras todas da vida
quem poderá não descobrir
o rumo tanto da avenida
 que se alarga pelo peito
como um imenso grito
que sonha todos os mares
e afoga todos os sentidos
 
é que ao frevo compete

um dançar tão renitente

que chega a molhar a liberdade
dos ossos todos da gente

como se fora rebelião

de tudo que se consente
 
não lhe cabe a desfaçatez
de parecer-se inanimado
pois antes fora um pendão
pela avenida desfraldado
juntando todo perdão
terçando todo pecado
 
assim se faça compostura
de quem lhe traz pelos pés
como uma escrita inventada
em que lhe caiba o viés

de parecer-se deflagrado
nas costas de quem lhe usa
como uma bomba-relógio
dos tempos que se procura
 
urdido em todos os cantos
cantado em todos os ócios
caiba-lhe a contrafação

a tudo que seja o ódio
por lhe restar a candura

das humanas composturas
como se fora bandeira

de tremular em quem lhe cuida
 
o som seja o indício

de que a vida vaga e prossegue
rompendo todas as cercas
cercando todos os medos
construindo um quê de sonho
no meio dos seus segredos
 
o frevo assim desatado

é uma forma indefinida

na rua tanta do nada

de construir todas as vidas
como se o passo fosse razão
 pra derramar-se tão frequente
como um caminho aberto
no peito todo da gente
113

Da duvidosa certeza da verdade

miro a certeza
meu fuzil de dúvidas
é só a desculpa
para mantê-la íntegra na luta
 
miro a certeza
como andaime
que construo nos passos
em que caibo
 
miro a distância
e faço-me estrada
de transitar certezas
pelas madrugadas.
113

Insinuações impatrióticas e alguns senões

frequentemente

desalinhavo o destino nas manhãs

e destravo a vida tão impunemente

que o futuro é como se fora um edredon
por onde cabem todos os viventes.

e nesses alinhavos

desvencilho- me da nação em desalinho
o universo sempre é a pátria

de todos os meus caminhos.
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Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !