Ode aos 54
aos 54
nada me convoca
a não me sentir ausente
da discórdia
fluo impunemente
pelos vincos da idade
como um barco que ousasse
todos os mares.
aos 54
permito-me a simplicidade
de militar na vida
com certa intimidade
nada que não seja nunca
e que só seja sempre
quando tarde.
aos 54
desaviso-me das vaidades
ainda que me seja franca
a inexatidão da verdade
e que navegue pelo peito
a imensidão e a filosofia
de todas as vontades.
aos 54
meço as minha réguas
com a tranqüilidade
de quem sabe
todos as léguas
em que se cabe.
aos 54
transijo com a vida
ainda que não a compreenda
como liça
mas como um grande acordo
que a natureza fez consigo
aos 54
palavras são um rito
a não ser que o verbo
seja pouco e tão restrito
que nem o grito sobre
nos ombros dos sentidos
Ode a minha amada por qualquer data inexpressiva
as horas
não serão possíveis
enquanto em tua boca
não vicejar o verbo
em que me ouço
e arrancarei
meus segundos
na inadiável felicidade
de perdurar em tua face
em qualquer tarde
e as datas
serão imprescindíveis
apenas para conter na sua forma
os risíveis instantes da vida
em que me entornas
nenhum tempo
constrangerá meu riso
à vista do teu corpo
as horas mais enormes
flutuarão
e comeremos o tempo
na frugal rebelião
de todos os insones
e ainda por muitos corpos
viajaremos amiúde
na exasperante dialética
de tudo aquilo que eu pude
e assim
por todos os momentos
as datas fluirão solertes
na ponta de nossos dedos
de teus olhos
fugirá a bruma
que embrulhará meu peito
e afagará meu sangue
e em tua veia
latejará impune
meu riso
de poeta amordaçado
calarei o sonho
com a noite em riste
e esquecerei que às vezes
algum poeta é triste.
Ode n° 2 à Intifada
todo ângulo
é palestino
guardadas as proporções
de cada esquina
toda vigência
é libertina
rasa manhã da vida
palestina
toda morte
é cordilheira
andes desatados
da manhã vermelha
toda estrela
é um abraço
do dia maior
dessa bandeira.
Odes psicológicas
I
o desejo
instaura
artifícios
pela alma
flui,
e, farpa,
rasgadamente
sobressalta
material
nem se consente
andaime do pensar
impunemente
o desejo
exara
certidões do tempo
e da carne
intui
adredemente
aquilo que nem se tem
e cala
o desejo
me repõe em atas
que nem escrevo
nas palavras
urde
uma vontade
com a mesma compleição
da liberdade
trai um gesto
que nem se cabe
na finitude das mãos
porque há de
II
do desejo
tem-se a impressão
que arde
do desejo
tem-se a ilusão
de um alarde
do desejo
tenho a compreensão
de que sou sempre tarde
III
desejo
quando singro a razão
do que não digo
desejo
quando pareço
ser um tanto eu
do meu avesso
desejo, enfim
quando desejo
ser diverso nas curvas
em que transcendo.
Ode ao não-ser
minha paixão não permite
que meu horizonte seja um dia
posto em cabides
minha paixão não admite
que o inverso de mim
seja somente o que não tive
minha paixão não se permite
ser um amor em tese
impunemente indeciso
minha paixão não se omite
em ser da revolução
até que deixe de ser triste.
Ode circunstancial e palestina
balas não desenham a tarde
balas apenas descrevem
a indignidade.
balas não são balas
apenas indicam
uma morte desnecessária.
o menino
envolto em balas
é um dedo em riste
na cara dos canalhas
o menino
envolto em medos
é um tempo
de segredos.
o menino
envolto em morte
é a descontrução
de sua sorte.
Ode aos 38 anos
apesar do tempo
já me tenho
usineiro de mim
e me convenho
na franja civil
em que já posto
gerencio alegremente
as curvas do meu rosto
sou
em todas as minhas causas
a convicção do que me falta
habito meu músculo
com o mesmo sonho
que grassa em meu discurso
e amanho meus efeitos
nas avenidas que abro
no fundo do peito
apesar do tempo
me convenho humano
trançadas as minhas esperanças
fugitivo, às vezes, dos meus planos
minha estratégia rói meu coração
com a intimidade que lhe cabe
de saber renhida a emoção
de fazer vivida a liberdade
sou quase o horizonte da minha palavra
e cavaleiro andante do que acho
guardadas as rebeliões
do meu abraço
apesar do tempo
ainda morro
e ainda nasço
e ainda assim
ainda sou
ainda humano
ainda largo.
pequena concisão da vida
a vez que nascer
é quase tanto
que morrer
e desde viver
que não se finja
de prazer
o quanto morrer
da sempre luta
de nascer.
Ode adverbial ao orgulho
a visão
me insta
a ver meu filho como nauta
navegador de mares que não posso
consumidor de ares
que me faltam.
e a emoção, de resto,
é um grande porre de adrenalina
pelo cérebro.
Odes humanas
o amor
que se pretenda
seja mais vário
do que entenda
as razões por que se quer
tudo aquilo que convenha
e que por ser tamanho
em restrição se tenha
de não contar-se tal
coisa de coração
jeito de moenda
o amor
que se pretenda
caminhe na proporção
em que seja
a pura compreensão de que se ama
e a exata compleição de quem deseja
e se tenha claro
na escuridão dos medos
e que se tenha pagão
na religião de seus segredos
o amor
que se pretenda
seja às vezes joão
apesar do anonimato
e que se tenha sempre à mão
no cartório geral
de quem se abraça.
Honrado
Obrigado
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.