AurelioAquino

AurelioAquino

n. 1952 BR BR

Deixo-me estar nos verbos que consinto, os que me inventam, os que sempre sinto.

n. 1952-01-29, Parahyba

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Das larguras do tempo

Teço a vida
como alegoria
dos futuros que intrometo
pelos dias
 
o tempo
é só detalhe
dos favores do espaço
em que se cabe
 
o presente é só uma nesga
entre o futuro e o passado
que a gente enche de tudo
nas larguras em que se cabe.
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Biografia
nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.

Poemas

3477

Ode definitiva a Reich

minha emoção
preside

a assembléia geral
do que eu não tive
 
minha razão

assume

todo e qualquer futuro
que me pune
 
hei de andar assim
incontinente

como se a vida não coubesse
naquilo que se sente
 
e sempre me permito
ainda insolvente

cobrar o que da vida

gasto assim impunemente.
 
meu corpo

é o esforço

que minha alma
apresenta
94

Ode florestal

da mata

não concluo

um indivíduo planta 
absurdo

madeira 
que nem esteja

para cobrir um vão que seja
 
o cedro

desacata

o quê de pusilânime 
na mata

e lavra o verde

do seu colo

com a concisão 
desse seu ódio.
 
o baobá

nem se merece

das larguras que não traz
 porque se esquece

que basta no seu peito 
um quê definitivo

e as maçãs que nunca deu 
tão dividido.
 
pau d’arco

já se mostre

na franja da manhã 
em que explode

roxo lençol

da ventania

na luta dessas pedras 
contra o dia.
 
 cerejeira

tão incerta

em ser madeira

que se apresta

a moldar-se em mãos

de outras terras.

 
cipó

nem se desculpe

por ser mais vário que a terra 
que ocupe
pois se perde dos caminhos 
com a mesma compostura 
de quem traz o destino 
esculpido em sua culpa
 
cacto

sabe a cordilheira 
apontando seu grito

como bandeira

e se não é árvore

antes se acha

sangrando o peito do vento 
e sua mata.
 
pinheiro

é grande continência 
resumo de si mesmo 
em urgência

e escava o dia

sem intimidade 
porque melhor 
seria ser a tarde.
 
vento

já se basta

em ser espada sem gume 
dessa mata

e corta a si mesmo 
engolindo a madrugada 
num gesto de tão conforto 
da paisagem
 
folha

apesar de pouca

é uma concisa floresta

que se culpa

pois tem a compleição

de estandarte coletivo

do batalhão dessas árvores 
em desabrigo
 
a mata

mesmo que não queira 
é um quê definitivo

da saga brasileira. 
 

80

Pequena Balada Jungiana

dentro de mim
vivem todos
desde sempre
e tudo de novo se inventa
 
o que penso

nunca é apenas

a manhã é que por tanta
ainda orienta

um dia de sentidos
e dilemas
 
dentro de mim

vige a multidão

como um deposito

de todos meus senões
e arrumá-los todos
é um ofîcio imanente
de quem traz a vida
no meio dos dentes
 
dentro de mim

caminham muitos passos
em pés que nem adivinho
como inventar outro de mim
pelos caminhos?
 
dentro de mim

todas as soluções

e uma leve compreensão

de que eu sou um

pelo rumo de minhas mãos
trançadas todas as vias

traçadas as rebeliões

em que eu me invento quase todos
em plena revolução
138

o âmbito da vida e outras refregas

o âmbito da vida

é a pátria humana

e não há que tê-lo

em limites frouxos

antes é vê-lo numa ordem
avessa a tudo que é pouco
 
o avulso da vida

é o desengano

o resto é apenas sonhar
a possibilidade do sonho
e derramá-lo pelos ossos
sem espanto
 
o inverso da vida

é um tempo plástico
esgarça-se num espaço
involuntário

onde nada se mede
pelos metros que abraça
 
o invólucro da vida

é a mágica

de construir a si própria
na prática

nada do que é retórico
lhe constata

a não ser o verso informal
de quem soletra sonhos
pela estrada
 
o espaço da vida

é quase um não
guardada a possibilidade
da revolução

e nem passos há

de exatidão

tudo que lhe caminha
está à mão  
 
 
58

ode a Havana no 495o urbano tempo

assim espalhada

nos ombros da américa
argumentas um traço

de urbana lógica:
paredes serão o limite
nas urgências da história
 
cidade não te contentas

em ser um feixe de pedras
que a teu povo convenha
melhor te dares um campo
medido assim impunemente
como se fora um jeito

de colorir seus viventes
 
Havana não reivindicas

nada do que seja fato

em tuas notícias

antes te constatas lenda

contadas em tuas esquinas

de um povo que constrói um tempo
com as certezas da vida
 
Havana estás presente
em todas as manhãs
daquilo que consentes
81

Ode preferencial à vida

da vida não se queira
ajustá-la adrede a uma norma
pois sendo única é muito mais
do que sempre nos informa
 
pois já de tê-la assentada

em planícies e em agoras

ninguém se tente a entendê-la
quando vige, ás vezes, em desoras
 
vivê-la é já não tê-la

como se era quando

pois há um futuro intestino
em cada desencontro
 
e é por demais sabê-la
transeunte vivaz do tempo
e cabê-la em cada espaço
que se desprende da gente
 
é de vê-la coração
ingenuamente
como se fora motor
do que se sente
 
é de vê-la razão
constantemente
alinhavada aos neurônios
desses todos viventes   
 
é de dar-se à vida

com o mesmo desfastio

com que os velhos canoeiros
fingem dominar os rios
95

ode à amada em vésperas de eclipse

embora lua

nenhum sol será tanto

que desvencilhe teus olhos
de tudo que em mim assiste
 
e se mesmo triste

ousar a terra ser constante
muito mais será meu canto
por tudo que você é tanta.
 
62

Ode cardíaca

I
 
nenhuma agulha

nem eletrodo tal
navegará meu coração
em todo seu vau
 
porque de sê-lo assim

às vezes e tanto magro
ainda me baste a compleição
de tê-lo sempre aos saltos
 
porque em sendo bólide
de alada contextura
possa dispo-lo à vida

e à sofreguidão das ruas
 
nenhum doutor

de tê-lo assim em mãos
compreenderá suas esquinas
com qualquer exatidão
 
porque em sendo bomba

nem se lhe aquilate o conteúdo
porquanto explodi-lo baste

na compreensão do que me pude
 
e, ao invés, não seja

de explosão tamanha

como para guardá-lo intacto
nalgum desvão da esperança
 
porque de tê-lo ao peito
ajuize-se bandeira

de afagar adredemente

a extrema noite brasileira.
 
II
 
nenhuma agulha

compreenderá minha mitral
pois, válvula, não se diz de tanto
como se fora descaminho tal
em vão eletrônica

não lhe cabe a compostura

de esquadrinhar vãos alheios

de complexa urdidura

antes lhe sinta o caminho

de parecer-se andadura

de tudo que em meu peito afaga
a estranha vazão da aventura.
 
 
 
94

indagação adverbial do mar

água em sono

quem te constrange
a não te dares por rio
mas um mangue?
 
rio em concordata

que compreensão terias
se te fizessem credor
de alguma alegria?
 
teu primado

em tudo rebenta

jeito de onda morena

que meu olhar

amanhecia

jogo de homem urgente
devedor da alegria

saldo de coisa que a gente
teima em dizer
da valentia
 
teu primado

dá-me a compreender os olhos
como instrumento

de te fazer serventia

como flecha

que destrava o arco

nas manhãs sem garantia
 
teu primado

está presente

em cada onda

que cometes

num desfastio freqüente
 
o mar

nem bem parece

os rios que não se cruzam
das mágoas todas da gente
 
no teu cartório de águas

nem lavras a certidão

de que te compreendem vasto
apesar de tanto não
água que nem comentas

o que de sólido urdistes
quando em meu peito dissestes
o teu jeito de triste

quase de alguidar

quase de louça

que me truncasse a razão

no vão da boca
 
meu corpo

não intenta

engenho maior

que me contenha

morte que me seja tanta
nos bordados da consciência
82

dos tempos e das consequências

amanhã

é um tempo gasto
toda esperança
vige inexata

tudo que o tange
é a prática
 
amanhã

é um tempo consumido
tudo que lhe mede

é infinito

é como se fora régua
que medisse o intangível
 
amanhã

é um tempo vasto
cabe qualquer futuro
nos seus atos.
 
 
114

Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !