Ode às ovelhas da pátria
Vazia
a ovelha se anuncia
e quase humana
bebe a mídia
é que lhe falta pensar
no meio da notícia.
Adrede
a mídia espalha
aquilo que a ovelha
diz navalha
e corta seu coração
numa pretensa batalha.
sem saber que não sabe
a ovelha raciocina
com o neurônio alheio
de sua sina.
Ode eclesial
I
na nave
deus
é barco
de tanger a vida.
o homem
em ondas
é mar que não se teve
e que apenas transita
entre um rasgo de esperança
e aquilo que nem se cogita.
deus e homem
apenas se contemplam
um esculpido em perdas
o outro em paciência
II
em oração
impune e mansamente
o homem constrói andaimes
pela alma das gentes
deus em si
constrói-se e se constata
como um verbo intransitivo
de estranha matemática
e deixa-se mínimo
nessa íntima sintaxe
que lhe conjuga tão incerto
em verbos que nem prolata.
III
na nave
a salvação é uma bandeira
de espalhar pretextos
pela noite brasileira
conforma-se à norma
decretada a priori
de que a paz é apenas um susto
que se reteve na memória.
homem,
deus é tanto
que teima em ser altar
imune à confiança.
na nave, entretanto,
deus e o homem escondem de si
qualquer desesperança.
Ode de marujo e mar e substantivas tardes
Salgadas
já não trago
minhas mágoas
pois a bombordo
ninguém informa
os mares que carrego
em revolta
a tarde
nem é substantiva
é muito mais um tempo
que esqueço no bolso da camisa
marujo
nem me encontro
lavrando as costas do mar
quando me sonho
mar
nem me atrevo
a despejar as ondas
dos meus medos.
odes filosóficas e ditirambos desconexos
I
o princípio
não inicia
apenas esquece em si
o que havia
e é não sendo
como se permitia
construindo a descontrução
do dia.
e não é por sê-lo
assim avesso
que trai o jeito
de ser começo
mas por ter-se a prumo
em desafio
ao eximir-se dos fins
por que se cria.
II
o princípio
é um fim em vão
resta-lhe no tempo
um inteiro não
mas dá-se a futuros
com a mesma simetria
com que a noite
inventa de ser dia.
III
o princípio
não é resposta
antes se tem
como pergunta
de todas as portas
indaga
quando é
o que não sendo
na alma
e resta
no espaço
como adaga
que nem se dissesse lâmina
de cortar a fala
o princípio
medra
como uma ilusão
da pedra
um rastro manso
da matéria
IV
o princípio
tem-se a custo
como desrazão
do discurso
posto em palavras
não transita
uma verdade que se quer
absoluta
é-lhe íntimo
o curso
dos melhores rios
do uso
e acostuma-se
à corrente
como barco definitivo
que aparenta
singrar com jeito
o peito do infinito.
Palavras a Osagyian
o pilão anuncia
que o mundo em vão
tem duas vias
pois outras há
e vidas tantas
que é como não tê-las
em todas as gargantas
quando osagyian
inventa o dia
o pilão
nem há
quando o inhame
é outro altar
que se espalha no dia
ao deus-dará
como se fora contradição
entre a razão e o orisá
osagyian
por sobre a vida
é uma razão inteira
de se dizer da fé e da fala
como uma estranha bandeira
de inventar um pilão
que pilasse a alma brasileira.
Palavras ao georgiano Stalin com cópia para o Camarada Maia
no vão da resolução
a emoção flutua
e a Geórgia bóia
na liquidez da rua
e é difícil saber
se pela rua
os perdões caminham
à luz da lua
mas é preciso saber
que a emoção é gasta
quando consome a razão
sem matemática.
Palavras a Haidée Santamaria
que meu coração
seja uma ilha
de receber todas as naus
de Haidée Santamaria
que teu coração
tenha em Cuba
todos os sonhos
de tua luta
que teu coração
seja na prática
qualquer tua razão
de camarada
Ode ao Cometa Halley
até que não cometas
o incrível absurdo
de refletir na tua cauda
a palidez de nossos muros
seguirás urgente em tanto espaço
constrangido no brilho que discursas
por ver os homens ainda consumidos
na lavratura intensa do futuro
cometa, não comentas,
nessa tua caminhada,
os sóis que brilham no tempo
nos passos dessa estrada.
palavras ao boi no ano da graça de 1988
assim em tua semelhança
eu possa pastar adredemente
os quilos de razão que nunca pude
e me restar tranquilo e tão somente
que sozinho, ás vezes, me desfaça
em ruminar a vida a tão confronto
que a luta me seja tão ardente
como se fora avessa ao desencontro
e não me iluda nas virginais pastagens
que as aparências iluminam vastas
mas me tenha atento e controlado
ao conteúdo de tudo que se pasta
pois rarefeito, ás vezes, em vontade
me suba do peito a sofreguidão extrema
das prontidões que alinho tão a custo
nas pastagens gerais que já me tenham
quero-me assim em cada músculo
refletir a fibra de tua indolência
que mais parece uma ação fortuita
daquilo que te tem como presença
pois se te afirmas inválido no teu pulo
mais me tenha afeito à consciência
de que meu pulo é muito mais que tanto
na solidez dos gados que convenham
quero atravessar tua calma
com a brandura e a competência
com que te alias á vitória exausta
das refregas gerais de tua ausência
pois as noites que se arquivam no teu lombo
já pela manhã se dizem madrugadas
arrancada à pulso dos teus ombros
na lavratura informal da minha fala
quero beber teu tempo em cálice coerente
que não me faça doer em cada esquina
mas que tenha da dor o rasgo em trânsito
com que as coisas sempre se alinham
quero traçar as retas que me curvem
sob o peso dos valores desse dia
e merecer a luta em que me acho
na estreiteza do leito em que me guio
quero enfrentar todo vermelho
com a solidão fugaz de tua pata
e me abraçar ao mundo como rubro
de toda a eficiência que me invada
pois do choque agudo dos contrários
me suba à face uma rosa esquálida
que signifique toda a vermelhidão
que se pinta fatal na minha alma
quero esmagar meus passos
como passeias molemente o mundo
e resgatar a profunda contundência
com que caminhas apesar do rumo
pois distribuir os pés pela estrada
tem muito mais de sólida tecitura
que os teares das fábricas que alinhavam
os suores dos homens em sua escravatura
quero compreender teus olhos
com a languidez com que me olhas
e refletir no olhar a imensa calma
com que a vida o nosso olhar deflora
pois que me tenha atento a cada espanto
e que me tenha pronto a cada hora
a fazer do meu olho uma bandeira
que me tenha escrito em minha história.
Ode a Marie Carida Roman (sobrevivente do Haiti)
a vida
nem sempre é estrangeira
há que cantá-la sempre
com a intimidade tanta
daqueles que fazem do riso
a essência da esperança
dize-la assim avara
sem jeito de caminho
é não compreende-la
em todos os seus vãos
porque há de sabe-la
qualquer um que a exercite
pois cantos há que a encantam
e os há mesmo quando triste
basta dizer as palavras
das vidas a que se permite
a vida
quando em riste
jeitos há de compreendê-la crise
a inventar-se como tanto
coisa de trazê-la em revoluções
por caminhos inatos e bastantes
Honrado
Obrigado
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.