Dos plurais de mim em rasa feição
o que me coletiviza
é a multidão que trago
na singularidade exata
dos palmos da vida
é que a tenho
assim indivídua
guardadas as proporções
dos plurais que me diga
trago em mim,
assim, escondidas,
todas as auroras do mundo
pelas noites da vida.
sou um singular
adredemente coletivo.
Poema à Ravenala Madagascariensis
assim,
leque do mundo,
nem imaginas
o contraste de ti
com minhas retinas
revoltas a ti mesma
com a calma que anuncias
e nem permites que o tempo
traspasse o teu jeito de alegria
Pequena digressão
A distância
é apenas um jeito
que o tempo teima em dar
no pensamento
coisa de ser desatendida
vividas as horas todas
dos metros todos do dia
nada do que é tanto
pode ser tão lento
em qualquer medida
que não se tenha avulso
na imanência da vida.
Pequena digressão acerca do dia
que aquilo que alinhavo pela vida
na extensão inteira do seu curso
possa dizer exatamente tanto
quanto de verbo tenha meu discurso
pois por te-la assim sob medida
em todos os seus vãos desenfreada
admita a hipótese de morrê-la
com a certeza de todas as estradas
é que o fato de te-la assim disposta
é um terçar de armas diuturno
em que o braço quase sempre tenta
atravessar o vão do seu discurso
e a meta de vivê-la fartamente
nos contornos mais simples da vontade
é quase um exercício dos abraços
nas avenidas do país que se abrace
e assim caminhe verbo e vida
pelas estradas grávidas do povo
construindo o futuro que vigia
a plenitude de tudo que é novo.
Poema ao falido rio
eu te percebo rio
no correr das minhas veias
e não importa que não o sangue
seja o deslizar de tuas cheias
eu te concebo rio
embora tu nem creias
que um dia foste corrente
de percorrer minhas veias
pois nem de águas
tens a postura e a certeza
de como te postas em vão
atravessado na natureza
Poema à mulher da bunda grande
quando não és
enches a rua de incertezas
e nem meu peito acha
de te perder na consciência
és uma crise
alheia a vãos desejos
e a exata incompreensão
do que eu nem vejo
porque a lúdica simetria
de tua glútea paisagem
enseja a exata proporção
de todas as miragens
e nesse escândalo de carnes
que transitas na avenida
nada do que é intransitivo
cabe em tal medida
e o ritmo em que incendeias
todas as vias e todas as veias
constrange a compreensão
de que nem és sereia
pequena dialética
nada do que é pronto
me convoca
se não trago o caminho
como resposta
é que caminhar
é todo o encontro
de dizer construído
o que escondo
nada do que é a vida
nasce pronto
andar é sempre o sentido
de todo meu encontro.
Poema ao meu povo em dias de premonição
há que vê-los joões
cerzidos à parcimônia
franzidos na consciência
embutida em seus sonhos
há que vê-los aos risos
nos prantos em que se lavam
construindo as manhãs
no desespero das tardes
há que vê-los transeuntes
de sonhos tão alheios
que entornam de suas mentes
com a certeza de vivê-los
há que vê-los civis
em militares continências
brandindo a vida à pulso
pelos vãos da inocência
há que vê-los marginais
trazidos à coerência
de lutar por algo tanto
que a simples sobrevivência
há que vê-los indecisos
nas certezas que navegam
como se fossem de um mar
que as ondas sempre lhes negam
há que vê-los urbanos
nas suas rurais investiduras
como se fossem os campos
de sua eterna escravatura
há que vê-los incontidos
nas desmedidas do tempo
pelas certezas de que tudo
caminha sempre aos ventos
há que vê-los em paciência
nos horrores da batalha
tangendo sua miséria
com a urdidura da fala
há que vê-los resumidos
num infinito incoerente
que trava o jeito do mundo
no peito aberto da gente
há que vê-los marias
trançadas pelas lembranças
das mulheres que apenas vigem
nas dobras da esperança
há que vê-los imberbes
na senectude da face
meninos quase senis
nos desvãos de sua idade
há que vê-los tão magros
como interrogações urgentes
como se ossos fossem razão
de construir seus viventes
há que vê-los nas noites
embutidos nas madrugadas
como se a vida fosse um pingente
que tramitasse no nada
há que vê-los condenados
na alforria de todos
como se toda liberdade
fosse uma espécie de cobro
há que vê-los passados
num futuro tão incômodo
que pulsa pelos seus passos
como um eterno retorno
há que vê-los alegres
nessa exata pantomima
que enche o andar da vida
com os risos de quem caminha
há que vê-los materiais
no imaterial desconforto
de subverter o espírito
nos combates do seu foro
há que vê-los absolvidos
das sentenças mais incautas
que julgam o raso dos homens
com ganas de astronautas
há que vê-los reticentes
na multidão de juízos
que atropelam as gentes
quando viver é preciso
há que vê-los combatentes
nas guerras mais combatidas
rasgando seu coração
nos peitos das avenidas
há que vê-los senhores
numa terra sem escravos
como se fossem da praça
os seus sonhos mais avaros
há que vê-los, enfim, libertos
pela força dos seus pulsos
nas praças em que o tempo
tenha o povo como discurso.
pequena exposição da possibilidade
no medo
, publico
meu segredo
e construo de tarde
o que era cedo
nada do que me é tanto
é tão secreto
mesmo que pública
sua razão e manifesto
no medo
ao inverso
navego a coragem
do meu verso
palavra que seja tanta
na vida a que me presto
construindo a coragem
nas entranhas do que meço
das vigências do poema e dos braços
o verso
assim resumido
é só um desconforto
dos sentidos
é que os fatos
para dizê-los
há que dos sentidos
construir atropelos
e inventá-los pelos braços
ante a vigência dos medos
o verso é material
apenas no seu enredo
construi-lo é só um desejar
de todos os desejos.
Honrado
Obrigado
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.