Poema ao jazigo do meu pai
O jazigo de meu pai tem cordilheiras
que atravessam meu peito pela tarde
e que inventam amarguras no meu riso
e que gargalham no meu pranto quando tardo
o descanso do meu pai é óbvio
nada lhe reclama o exercício
de todos os seus ossos
o jazigo de meu pai tem bandeiras
que tremulam no vão de minha face
e que alcançam todas as palavras
das nossas eternidades
o descanso do meu pai é vário
ainda resta um interstício
entre sua morte e meu abraço.
da negritude em áfrica vertente
as áfricas
que trazes em ti
são intifadas
negras razões
de tua fala
verbo itinerante
de batalhas
que ainda trovejam
nos ombros das palavras.
as áfricas que exercitas
nos desvãos da tua carne
são os músculos atentos
de quem se arma
com a certeza da vida
e a exata compreensão
das insuficiências da tarde
as áfricas que habitas
na noite de tua face
é a bandeira que inaugura
a humana eficácia
e a certeza irrestrita
da vitória que montaste
Poema ao sagui Jesualdo
Era um tempo escasso
Jesualdo tinha as mesmas horas
de um abraço.
Era um tempo tarde
Jesualdo inventava a alegria
nos seus saltos.
Era um tempo escuso
Jesualdo e o dia nem amanheceram
sobre o muro.
Da noite em vazão estrita
assim baldia
desconvocas a vida
e, de repente,
renuncias
a todos os mandatos
do dia
à contraluz
refoges da manhã
que te anuncia
e inventas a razão
da rebeldia
ainda bem
que em teu contorno
fulgura o sol
em que me jogo.
Pequeno dizer sobre a alienação
a informação
inventa teu crânio
como bólide urgente
e estranho
tudo que repetes
como de ti parido
é uma ilusão externa
a todos teus sentidos
a verdade
posta em fórceps
emagrece as nuances
do que podes
bovino
segues um saber
de que nem sabes
e terminas carcereiro
da tua liberdade.
Poema em burocrata senda
os birôs
de militar postura
escondem dentro de si
mortes e amarguras
e dizem-se urgentes
ao explodir a prática
num coito desinformado
entre o homem e a máquina
o documento
tem uma face lógica
suores subentendidos
risos datilográficos
em cada ângulo de si
traz sempre a serenidade
de um efêmero processo
de negação da vontade
o funcionário
cidadão consentido
inventa no dorso das letras
um pretenso objetivo
de concluir contra o próximo
qualquer viés proibido
nessa oficial caminhada
de consumir seus sentidos
o funcionário e o birô
pastam letras e matemáticas
e se dados à razão
suicidam-se na prática
pois um birô requer
como arquivo latente
a vontade do funcionário
presa num documento
e formada a fração
nessa proporção burocrata
o funcionário torna-se birô
de estranha matemática
pois em não sendo mobília
é humano em lapso
rasura ensimesmada
destempero datilográfico.
Pequena ode à coerência
A Wladimir Lênin
Fica o dito como dito
mas que dize-lo tanto
seja preciso
não apenas
na balsa das palavras
mas no dorso objetivo do ofício.
Fica o dito como dito
mas que faze-lo tanto
seja infinito
enquanto perdure uma roseira amarga
pendurada no vão do nosso grito.
Paisagem I
E o mar deitado na praia
vivendo as coisas do sonho
espera que a lua acorde
e pule nua em seus ombros
e cavalgue a manhã
com a presteza dos passos
de quem inventa uma paz
rodeada de abraços
Poema ao Camarada Armando Aranha
não é de tê-las, camarada,
as razões, assim à pulso,
porquanto não vivê-las,
fosse a emoção melhor de uso,
sob os céus de Caracas
inventando com o povo
o gesto básico da vida
que é criar o novo;
não é de tê-las, camarada,
as contradições, quase à deriva,
no mar insurgente dessas gentes
que teimam em construir a vida;
não é de tê-las, camarada,
as soluções, assim tão postas,
porquanto a prática é itinerário
de quem se mostra;
não é de tê-la, camarada,
a revolução, assim à gotas,
porquanto a liberdade é tanta
que apenas lutá-la é quase pouco
quando se tem no coração, como no teu,
a permanência do povo
ainda bem, camarada,
que mesmo ausente,
ainda tens na tua saudade
um largo quê de presente;
por isso ainda sobras pelo mundo
com a certeza da vontade e da urgência
da vida que cumpristes ainda jovem
na proporção de tua coerência.
Poema à morte da última filha de Júlio
assim como te postas
renhida a carne
desabotoas o tempo
no trânsito da tarde
loucas as dessemelhanças
que te puseram em século
de desumanidades
e eis que foste
trauma de músculos e vontades
uma vaga impressão de que a vida
vale aquilo em que se cabe
e travavas o dia
como uma larga bolandeira
que remisse os pecados
das noites em que estejas
Honrado
Obrigado
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.