o coração do retirante é um sol falido na concordata geral dos seus sentidos
não se crava no peito como uma âncora de sangue é muito mais uma medalha que teima em ser do homem
e se ainda tramita pelos passos da vida é porque teima em ser carne de armazenar alegria
126
Ode aos 31 anos
numa tarde precoce dessas que se embainham no peito bebi um gole de mim mesmo e me entrancei com a vida trouxe-me mais ao mundo do que mesmo para comigo (vã a tentativa de me morrer mais vário na singularidade coletiva do exercício) e me vivi tres vezes em cada músculo que compunha dedos e ócios e os ossos do ofício da alegria e fingi-me solerte franzindo o juízo na similitude inequívoca das grandes sanguessugas e rompi as manchas da vida com meu punhal de risos e amanheci todas as vezes em que me tive suicidei minha agonia com o manejo intacto dos menores vaticínios rasas as dessemelhanças no meu peito de assassino e enchi-me de mim nas noites mais plásticas em que a cabeça tenta um salto e o sonho nem desmaia
117
coplas desarticuladas aos meus bigodes brancos
nem que se quisessem cordas de sofrear incautos movimentos meus bigodes poderiam arcar com a norma da vetusta compreensão do sentimento
pois de humanos em pretenso exercício mas se digam invólucros defasados de uma idade que se quer bastante e que se diz tão pouca na saudade
mas de tê-los assim amanhecidos pela brancura do tempo que me invade antes eu queira senti-lo assim bastante na compleição geral em que me ardo
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Itinerário da URSS, com piracema implícita e outras impressões
I
desde Kurkino meu olho me dizia que a felicidade congelava como o dia Moscou, indormida, nem era tanta que não fosse lógica da esperança colher futuros era apenas serventia dos prazeres que a vida sempre urdia e se roubava o céu o jato nem mentia aos que dos olhos cobravam a rapidez da alegria Moscou, em inverno posta, era um iceberg vagando em todas as minhas portas
II
Mikhail trazia Moscou na algibeira e a desmontava em verbos pela noite inteira e os cachos de sonho que empilhava na mesa tinham um gosto de futuro e alguma coisa de cerveja
Mikhail, em continência, era uma bandeira empalmando a vida com íntima certeza
III
desde Vyborg rugia o exercício de estar com a alma em constante comício
Leningrado deitada ao Neva era uma saudade estendida no peito das pedras eram-lhe íntimos os francos motivos que as ondas dão ao mar quando em seu ofício
de repente, a catedral de Santo Isaac arrepiou-se de fé nem quase exata de sua porta como uma ave voou a pássara manhã de tanta tarde
por dentro do Smolny em corredores afeito singra o sentimento a franja incauta do peito e descabela-se a razão numa fração desconforme em que o numerador é o mundo e a divisão é a sorte
IV
Em Kiev a pátria anuncia que a noite é, apenas, disfarce do dia
deitada de bruços a Ucrânia é serventia de qual cidadão permita urdir-se em alegria
Tchernovitsy alinha as horas na quântica feição da tarde e nem se teima universo porquanto basta-se cidade não dessas baldias que nem se chegam à vontade mas uma urbana atitude de campos desregrados
Tchernobil ainda vige no coração do seu átomo como uma química vontade que em cada cidadão ainda cabe
V
e meus moldavos sentimentos eram contraponto do espaço quem em mim a Moldávia urdia retirante quase de meus passos
o trem solfejava o caminho numa lauta liberdade e a Moldávia era um campo arquivada alma das cidades
VI
O Rio Prut lambia os beiços da Ucrânia em vão incontrolada e eu nem sentia a dor da brasileira trama em mim gravada
VII
Mikhail Egorovitch carpia verbos como quem roesse as lágrimas do universo
tinha a compleição de um exato camarada e o pranto fácil de quem costura a alma
Mikhail Egorovitch era tanto e pouco espargindo pelos corredores todo seu esforço
o partido em si vigia como uma nave desgarrada nos mares que seu verbo teimava em molhar de alma
VIII
em Kurkino o sol é lâmina de cortar o todo gelo que é sempre chama
a neve na vidraça é uma felicidade idônea que nem consegue gelar o coração em chamas
IX
Wladimir em sono é uma morte acampada nas cabanas dos Haslivs que se tem na alma
Wladimir deitado é bandeira consumida de tanto drapejar nos ventos que se tem na vida
Wladimir é um eletron e uma saudade infanta na grave química da pátria em que se derrama.
109
Dueto botânico em humano relato
encontras o horizonte com a mesma qualidade com que explode o riso pelo vão da tarde
ainda ssim usina de ti mesma nem adivinhas a razão por que estejas
se já repousas em noites que não vivas o vento lavra meus sonhos no ritmo em que deslizas
e quero-me planta como se humana fosses para caber num horizonte com toda tua pose
115
Do pátrio desconforto
a pátria é quase sempre um vago e efêmero desconforto
e se contrange a quem lhe ama é que a pátria nem sente aquilo que proclama
apenas resta no peito como medalha indevida desgovernada solução das vielas da vida
no vão da rua a pátria existe como ícone
no vão do peito a pátria insiste em dizer-se norma do que é triste
a pátria é só a certeza dos futuros em que não esteja
110
Onírica vazão de fatos e repentes
o sonho é um veredito que se dá ao futuro como indício de que a vontade é só uma demora em montar as peças da história
o sonho nada no presente os rios e mares que o sonhador consente
o fato é só um detalhe do sono que se sente
127
Poema à transeunte
a mulher tinha nos olhos punhados de felicidade e poucas eram as sentinelas que punha em seus olhares e assim, a pouco e pouco, eu a vi derramar-se pela avenida como uma bandeira escancarada do tamanho largo de toda sua vida
128
Ode à pequena Ana
Ana é lógico que entre tuas tranças mora o ócio e que são cabelos como impostos na vida infante que suportas e jazem no dia como óbvios apesar das armarguras que te informam
138
Das mortes em dias de vida
nos dias em que morro nem pressinto o quanto de vida houve nesse labirinto
antes a repasso como complacência para que a morte enfim nunca me convença
e se não a aquilato ou revelo seu jeito é que é mais fácil morrer com vida no peito
É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.