Olinda em frevo andante
O frevo assim compassado
nos ombros da avenida
é como se fosse um recado
escrito no vão da vida
os pés se inventam pássaros
voando nos sustenidos
como se fosse um abraço
no coração de Olinda
e o povo constrói um riso
na mais profunda certeza
de que o frevo é só um jeito
de espantar a tristeza
escrevendo com as pernas
os infinitos que queira.
Poema ao retrato de Olga Benário Prestes
na casa do sapateiro Francisco
nunca espaço te coube
e murchavam todas as horas
e marchavam públicas as dores
na casa do sapateiro Francisco
havias em fotografia
como se fosses tão tanta
que Chico inventava os dias
na casa do sapateiro Francisco
no exercício do que não dizias
eras um rosa arquitetada
no juízo de quem te via
na casa do sapateiro Francisco
apesar da objetividade do retrato
tinhas um jeito de história
e um gosto intenso e farto
de memória.
Das circenses conjecturas do ego
Fica decidido:
tudo que sinto
é o picadeiro
do meu riso
fica decidido:
nenhuma palavra
restará calada
no trapézio da fala
fica decidido:
o mundo será o circo
dos malabares que jogo
no meu grito
fica decidido:
todos serão a corda
em que me equilibro.
discursos temporais da velhice
eis a sinergia:
a alegria é sempre maior
que a tristeza presumida
o tempo e o riso cabem mais
nas entrelinhas da vida
É que sua lavratura,
demandada pelos anos,
abrange todas as medidas
do envólucro humano
eis que consumir o tempo
é uma alegria orquestrada
ao homem cabe compô-la
das notas em que não se cala.
Das presunções e da vida
até que
percebas
que a vida
está em cena
na exata proporção
do teu problema
a verdade é apenas
um jeito presumido
do que se apresenta
viver é quase tanto
quanto inventar a cena
Poema à batina do meu pai
a batina do meu pai
não me dizia
que o inverso do ontem
não havia
e que deus era apenas
uma grave alegoria.
assim posta em meu olho
a fotografia
deixa rastros de uma verdade
que mentia
em mim sabia a saudade
nele era agonia.
Da vida em ombros de verbos
o dorso da vida é largo
cabe tudo quanto vivo
e nem lhe sobra espaço
para não conter o que digo
é que palavra é um tempo
num espaço tão contido
que às vezes explode a razão
de se dizer o que disse
e o verbo toma partido
na deslembrança de tudo
como se fora um discurso
que não quisesse ter curso
e se perdesse nas ruas
das inconstâncias do uso
pequena digressão latinoamericana
por sobre a américa,
latina terra consentida,
o povo inventa a tarde
aos solavancos da vida
relembro o sentido
nada do que fora tanto
dir-se-ia maior
do que aquilo que vivo
por sobre meus ombros
os fatos se acumulam
como uma escolha insone
das estradas que pude
e todos os caminhos
levam ao povo
com a mesma simplicidade
do que é e como se constrói o novo.
Pequena digressão do ilimite
Só se é indivíduo
quando coletivo
pois é preciso ser dito
o homem vive sempre
embrulhado no infinito
pois é preciso ser vasto
para ser limitado
e é preciso ser único
para ser vário
é preciso levar em conta
que a matemática de mim
não é espontânea
mas é preciso, assim mesmo,
ter vontade na substância
é preciso estar perto
pra se ter distância
é preciso ser humano
para ter esperança.
Poema ao inconstruído rio
eu te percebo rio
pelo que contas de minhas veias
e não importa que incolor
exemplifiques o rubro dos meus medos
toda tua trajetória
é um desembocar inato
do mar que trazemos no peito
guardado a sete chaves
Honrado
Obrigado
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.