AurelioAquino

AurelioAquino

n. 1952 BR BR

Deixo-me estar nos verbos que consinto, os que me inventam, os que sempre sinto.

n. 1952-01-29, Parahyba

Perfil
314 648 Visualizações

Das larguras do tempo

Teço a vida
como alegoria
dos futuros que intrometo
pelos dias
 
o tempo
é só detalhe
dos favores do espaço
em que se cabe
 
o presente é só uma nesga
entre o futuro e o passado
que a gente enche de tudo
nas larguras em que se cabe.
Ler poema completo
Biografia
nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.

Poemas

3641

ode ao retirante

o coração do retirante
é um sol falido
na concordata geral
dos seus sentidos

não se crava no peito
como uma âncora de sangue
é muito mais uma medalha
que teima em ser do homem

e se ainda tramita
pelos passos da vida
é porque teima em ser carne
de armazenar alegria
126

Ode aos 31 anos

numa tarde precoce
dessas que se embainham no peito
bebi um gole de mim mesmo
e me entrancei com a vida
trouxe-me mais ao mundo
do que mesmo para comigo
(vã a tentativa de me morrer mais vário
na singularidade coletiva do exercício)
e me vivi tres vezes
em cada músculo que compunha
dedos e ócios
e os ossos do ofício da alegria
e fingi-me solerte
franzindo o juízo
na similitude inequívoca
das grandes sanguessugas
e rompi as manchas da vida
com meu punhal de risos
e amanheci todas as vezes
em que me tive
suicidei minha agonia
com o manejo intacto
dos menores vaticínios
rasas as dessemelhanças
no meu peito de assassino
e enchi-me de mim
nas noites mais plásticas
em que a cabeça tenta um salto
e o sonho nem desmaia
117

coplas desarticuladas aos meus bigodes brancos

nem que se quisessem cordas
de sofrear incautos movimentos
meus bigodes poderiam arcar com a norma
da vetusta compreensão do sentimento

pois de humanos em pretenso exercício
mas se digam invólucros defasados
de uma idade que se quer bastante
e que se diz tão pouca na saudade

mas de tê-los assim amanhecidos
pela brancura do tempo que me invade
antes eu queira senti-lo assim bastante
na compleição geral em que me ardo
102

Itinerário da URSS, com piracema implícita e outras impressões

I

desde Kurkino
meu olho me dizia
que a felicidade congelava
como o dia
Moscou, indormida,
nem era tanta
que não fosse lógica
da esperança
colher futuros
era apenas serventia
dos prazeres que a vida
sempre urdia
e se roubava o céu
o jato nem mentia
aos que dos olhos cobravam
a rapidez da alegria
Moscou, em inverno posta,
era um iceberg vagando
em todas as minhas portas

II

Mikhail trazia Moscou
na algibeira
e a desmontava em verbos
pela noite inteira
e os cachos de sonho
que empilhava na mesa
tinham um gosto de futuro
e alguma coisa de cerveja

Mikhail, em continência,
era uma bandeira
empalmando a vida
com íntima certeza

III

desde Vyborg
rugia o exercício
de estar com a alma
em constante comício

Leningrado
deitada ao Neva
era uma saudade estendida
no peito das pedras
eram-lhe íntimos
os francos motivos
que as ondas dão ao mar
quando em seu ofício

de repente,
a catedral de Santo Isaac
arrepiou-se de fé
nem quase exata
de sua porta
como uma ave
voou a pássara manhã
de tanta tarde

por dentro do Smolny
em corredores afeito
singra o sentimento
a franja incauta do peito
e descabela-se a razão
numa fração desconforme
em que o numerador é o mundo
e a divisão é a sorte


IV

Em Kiev
a pátria anuncia
que a noite é, apenas,
disfarce do dia

deitada de bruços
a Ucrânia é serventia
de qual cidadão permita
urdir-se em alegria

Tchernovitsy alinha as horas
na quântica feição da tarde
e nem se teima universo
porquanto basta-se cidade
não dessas baldias
que nem se chegam à vontade
mas uma urbana atitude
de campos desregrados

Tchernobil ainda vige
no coração do seu átomo
como uma química vontade
que em cada cidadão ainda cabe

V

e meus moldavos sentimentos
eram contraponto do espaço
quem em mim a Moldávia urdia
retirante quase de meus passos

o trem solfejava o caminho
numa lauta liberdade
e a Moldávia era um campo
arquivada alma das cidades

VI

O Rio Prut lambia os beiços
da Ucrânia em vão incontrolada
e eu nem sentia a dor
da brasileira trama em mim gravada

VII

Mikhail Egorovitch
carpia verbos
como quem roesse as lágrimas
do universo

tinha a compleição
de um exato camarada
e o pranto fácil
de quem costura a alma

Mikhail Egorovitch
era tanto e pouco
espargindo pelos corredores
todo seu esforço

o partido em si vigia
como uma nave desgarrada
nos mares que seu verbo
teimava em molhar de alma

VIII

em Kurkino
o sol é lâmina
de cortar o todo gelo
que é sempre chama 

a neve na vidraça
é uma felicidade idônea
que nem consegue gelar
o coração em chamas

IX

Wladimir em sono
é uma morte acampada
nas cabanas dos Haslivs
que se tem na alma

Wladimir deitado
é bandeira consumida
de tanto drapejar nos ventos
que se tem na vida

Wladimir é um eletron
e uma saudade infanta
na grave química da pátria
em que se derrama.
109

Dueto botânico em humano relato

encontras o horizonte
com a mesma qualidade
com que explode o riso
pelo vão da tarde

ainda ssim
usina de ti mesma
nem adivinhas a razão
por que estejas

se já repousas
em noites que não vivas
o vento lavra meus sonhos
no ritmo em que deslizas

e quero-me planta
como se humana fosses
para caber num horizonte
com toda tua pose
115

Do pátrio desconforto

a pátria
é quase sempre
um vago e efêmero
desconforto

e se contrange
a quem lhe ama
é que a pátria nem sente
aquilo que proclama

apenas resta no peito
como medalha indevida
desgovernada solução
das vielas da vida

no vão da rua
a pátria existe
como ícone

no vão do peito
a pátria insiste
em dizer-se norma
do que é triste

a pátria é só a certeza
dos futuros em que não esteja
110

Onírica vazão de fatos e repentes

o sonho
é um veredito
que se dá ao futuro
como indício
de que a vontade
é só uma demora
em montar as peças
da história

o sonho
nada no presente
os rios e mares
que o sonhador consente

o fato é só um detalhe
do sono que se sente
127

Poema à transeunte

a mulher tinha nos olhos
punhados de felicidade
e poucas eram as sentinelas
que punha em seus olhares
e assim, a pouco e pouco,
eu a vi derramar-se pela avenida
como uma bandeira escancarada
do tamanho largo de toda sua vida
128

Ode à pequena Ana

Ana é lógico
que entre tuas tranças
mora o ócio
e que são cabelos
como impostos
na vida infante
que suportas
e jazem no dia
como óbvios
apesar das armarguras
que te informam
138

Das mortes em dias de vida

nos dias em que morro
nem pressinto
o quanto de vida houve
nesse labirinto

antes a repasso
como complacência
para que a morte enfim
nunca me convença

e se não a aquilato
ou revelo seu jeito
é que é mais fácil morrer
com vida no peito
119

Comentários (8)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

AurelioAquino

Honrado