aos 54 nada me convoca a não me sentir ausente da discórdia fluo impunemente pelos vincos da idade como um barco que ousasse todos os mares.
aos 54 permito-me a simplicidade de militar na vida com certa intimidade nada que não seja nunca e que só seja sempre quando tarde.
aos 54 desaviso-me das vaidades ainda que me seja franca a inexatidão da verdade e que navegue pelo peito a imensidão e a filosofia de todas as vontades.
aos 54 meço as minha réguas com a tranqüilidade de quem sabe todos as léguas em que se cabe.
aos 54 transijo com a vida ainda que não a compreenda como liça mas como um grande acordo que a natureza fez consigo
aos 54 palavras são um rito a não ser que o verbo seja pouco e tão restrito que nem o grito sobre nos ombros dos sentidos
57
Ode de infância em passo
A pipa que eu soltava era um sonho encabrestado tudo que era de mim voava tanto que meus olhos projetavam os futuros todos da vida embrulhados num jeito de passado.
Eu voava tanto que meu tempo criou asas.
159
o âmbito da vida e outras refregas
o âmbito da vida é a pátria humana e não há que tê-lo em limites frouxos antes é vê-lo numa ordem avessa a tudo que é pouco
o avulso da vida é o desengano o resto é apenas sonhar a possibilidade do sonho e derramá-lo pelos ossos sem espanto
o inverso da vida é um tempo plástico esgarça-se num espaço involuntário onde nada se mede pelos metros que abraça
o invólucro da vida é a mágica de construir a si própria na prática nada do que é retórico lhe constata a não ser o verso informal de quem soletra sonhos pela estrada
o espaço da vida é quase um não guardada a possibilidade da revolução e nem passos há de exatidão tudo que lhe caminha está à mão
64
Ode eclesial
I
na nave deus é barco de tanger a vida.
o homem em ondas é mar que não se teve e que apenas transita entre um rasgo de esperança e aquilo que nem se cogita.
deus e homem apenas se contemplam um esculpido em perdas o outro em paciência
II
em oração impune e mansamente o homem constrói andaimes pela alma das gentes
deus em si constrói-se e se constata como um verbo intransitivo de estranha matemática
e deixa-se mínimo nessa íntima sintaxe que lhe conjuga tão incerto em verbos que nem prolata.
III
na nave a salvação é uma bandeira de espalhar pretextos pela noite brasileira conforma-se à norma decretada a priori de que a paz é apenas um susto que se reteve na memória.
homem, deus é tanto que teima em ser altar imune à confiança.
na nave, entretanto, deus e o homem escondem de si qualquer desesperança.
82
Ode cardíaca
I
nenhuma agulha nem eletrodo tal navegará meu coração em todo seu vau
porque de sê-lo assim às vezes e tanto magro ainda me baste a compleição de tê-lo sempre aos saltos
porque em sendo bólide de alada contextura possa dispo-lo à vida e à sofreguidão das ruas
nenhum doutor de tê-lo assim em mãos compreenderá suas esquinas com qualquer exatidão
porque em sendo bomba nem se lhe aquilate o conteúdo porquanto explodi-lo baste na compreensão do que me pude
e, ao invés, não seja de explosão tamanha como para guardá-lo intacto nalgum desvão da esperança
porque de tê-lo ao peito ajuize-se bandeira de afagar adredemente a extrema noite brasileira.
II
nenhuma agulha compreenderá minha mitral pois, válvula, não se diz de tanto como se fora descaminho tal em vão eletrônica não lhe cabe a compostura de esquadrinhar vãos alheios de complexa urdidura antes lhe sinta o caminho de parecer-se andadura de tudo que em meu peito afaga a estranha vazão da aventura.
100
ode a Havana no 495o urbano tempo
assim espalhada nos ombros da américa argumentas um traço de urbana lógica: paredes serão o limite nas urgências da história
cidade não te contentas em ser um feixe de pedras que a teu povo convenha melhor te dares um campo medido assim impunemente como se fora um jeito de colorir seus viventes
Havana não reivindicas nada do que seja fato em tuas notícias antes te constatas lenda contadas em tuas esquinas de um povo que constrói um tempo com as certezas da vida
Havana estás presente em todas as manhãs daquilo que consentes
86
ode aos meus possíveis adversários
ganhaste o jogo, em qualquer circunstância, não concorro
perco, até adredemente, pra me guardar em lutas que a história me consente.
102
modernidade
como moderno o aparelho móvel é o tamanho exato do homem e seu interno o verbo que transmite é claro e desconexo nada do que ele é está interno antes se transmite alheio a seu ego nos programas em que a telefônica lhe externa
avançado o homem vira acessório do nada cada celular é um trânsito infecundo das palavras perdidas pelo mundo
cai-lhe a vida em programas que tecem um sonho e estabelecem o drama: o homem é sempre menor que aquele que o chama a iniciativa da chamada é o aval da dominância
apenso ao aparelho o homem alinha passos que nem são seus pelos caminhos falta-lhe pensar uma razão por que caminha guardada a desproporção da inumana companhia
de resto pela cidade o homem acompanha a solidão em direção a nada
136
ode à amada em vésperas de eclipse
embora lua nenhum sol será tanto que desvencilhe teus olhos de tudo que em mim assiste
e se mesmo triste ousar a terra ser constante muito mais será meu canto por tudo que você é tanta.
68
Ode de marujo e mar e substantivas tardes
Salgadas já não trago minhas mágoas pois a bombordo ninguém informa os mares que carrego em revolta
a tarde nem é substantiva é muito mais um tempo que esqueço no bolso da camisa
marujo nem me encontro lavrando as costas do mar quando me sonho
mar nem me atrevo a despejar as ondas dos meus medos.
É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.