do mister da vida
diz que era preciso
tecer um dia fecundo
e boiar frequente em cada abraço
e entranhar-se nas coisas
e perder-se no mundo
diz que era preciso
truncar cada soluço
e beber os sais e as lágrimas
e espantar da face cada susto
diz que era preciso
engravidar a noite
e parir-se de lua
e beber os beijos que pulam
perdidos em cada rua
diz que era preciso
amanhar o corpo
e trançar no peito a saudade
e engolir no vão dos sentimentos
a textura bruta da vontade
diz que era preciso
empalmar o horizonte
com a nesga infinita
do olhar da tarde
diz que era preciso
consumir o dia
e dividir a boca
da largura da alegria
diz que era preciso
enfunar a vela dos cabelos
e partir-se do mar
e fugir-se do mêdo
diz que era preciso
amansar a incoerência
e afagar a vida
com a solicitude exata
com que se constrói a consciência
diz que era preciso
empregar o mundo
na placidez inconstante
dos sentidos
diz que era preciso
consumir o sonho
com a sofreguidão e a tática
dos grandes oceanos
diz que era preciso
nutrir-se do verso
e se achar palavra
e se nutrir do verbo
diz que era preciso
rasgar-se o peito
nos arames humanos
da grande incompreensão
diz que era preciso
amar-se o irmão
com a força do abraço
e o jeito do coração
diz que era preciso
suportar os fardos
e engolir as culpas
e inventar pecados
diz que era preciso
batalhar o pão
e compartir a fome
e fartar-se de não;
diz que era preciso
conclamar o povo
e fundir-se na praça
e fazer-se novo;
diz que era preciso, enfim
julgar o carrossel da vida
com a exatidão da anatomia
de quem se joga no mundo
com a força da alegria.
do desejo e seus circunlóquios
o desejo
não é um jeito
de querer
o que não devo
o desejo
é apenas caminho
de espantar o mêdo
o desejo
não é um jeito
de desdizer
o que não creio
o desejo
é transeunte
de muitos mares
nas avenidas
e tudo que tange
meus olhares
o desejo
não transige
com a parcimônia
do que se vive
o desejo, enfim,
é quase um sobressalto
de quem mergulha humano
na certeza do que acha.
do desenrolar das horas
o futuro
não é só um jeito
que o passado teima em dar
no pensamento
antes é viagem
descompassada
entre o que já foi
de tudos e de nadas
e mesmo futuro
ainda é passado
um presente grávido
de todos os passos
pois nunca é apenas um
é sempre vários
futuro
não lhe serve a carapuça
de retratar-se vazio
de qualquer luta
e mesmo tempo
é uma hora avessa
que vige apenas lúdica
no vão da cabeça
e no entanto
é razão inteira
de quem tem a vida
como certeza.
Dizeres a Ângela Maria
ainda assim, Abelim
terás do tempo
a compreensão verbal
de quem ousa gritar o mundo
pelos dentes
porque se cantas
não admites
que anjos tramitam pela garganta
nas notas em que insistes
e é de vê-los insones
nos bemóis mais destacados
inventando dizeres
cheios de pecados
quando cantas
nem adivinhas
que teu povo em tua voz caminha
como uma canção que tenta
construir um canto
de tudo que se lamenta.
Dizeres do sentinte
primeiro
divise-se um tempo
que não se apreste
a dizer-se menos horas
do que merece
ao sentinte
não é dada a culpa
de usar o tempo
como desculpa
primeiro
escreva-se nas veias
uma líquida moção
de que todo o sangue
está à mão
ao sentinte
é dada apenas a estrada
que nunca inventa
a retirada
primeiro
guarde-se a vida
como invólucro
de tudo
que no outro
contradiz o ódio
ao sentinte
não é dada a ilação
de sofrer a vida
em solidão
primeiro
registre-se como possibilidade
a profissão de se morrer avulso
em benefício da verdade
ao sentinte
não é dada a perda
de se sentir menor
que suas quedas
por fim
diga-se a custo
que ao sentinte
é sempre dada
a possibilidade
de viver
a longo curso
Do futuro e suas medições
meu horizonte
é do meu tamanho
tudo que lhe mede
são as réguas do meu sonho.
nada lhe traz assim
tão perdulário e conciso
quanto as vezes em que mede
todos meus infinitos
meu horizonte quase sempre
são os rumos que consigo.
de verbos e informes
A informação
se ajusta
aos moldes de quem a usa
forja na mente
uma desculpa
de quem navega
todas as notícias
de uma culpa
e se desconforma
adredemente
o conteúdo
de quem se procura.
A informação
abusa
de vínculos
tudo que lhe diz respeito
é como estrada competente
que tanto mais se caminha tanto
menos passos consente
a informação
é noturna em suas fontes
a claridade ofusca os verbos
de quem pune
e não se trai enorme
como quem se retrai
em tudo que não pode
a informação
é transversa
o sentido que indica
tergiversa e pondera
como as coisas que os homens
amiúde lhe oneram
a informação
é transeunte
nenhum caminho lhe estanca
ou resume
a expansão é sempre a norma
do que lhe assume
a informação
mais que sinapse
é contradita
dos pensamentos
que se tem em vista
pois escorrega do cérebro
aos borbotões
como se fora notícia
e rebelião
que os verbos arrumam
em todos os seus vãos
a informação
rasga a realidade
em contrafação
e o que é dito se escreve
com tintas desconexas
criando o teatro enorme
de uma vida paralela
mas no fundo
a informação carrega
tudo que ao homem
assim onera
uma certeza de gestar o mundo
por cima de qualquer pedra.
Das larguras do sonho e seus detalhes
o sonho
é sempre coletivo
tudo que lhe tange
é infinito
e, mesmo particular,
dá-se ao desplante
de parecer viés
de todos horizontes
é que lhe sobra uma nesga
de matéria itinerante
que conjuga todos os passos
de quem esteja sonhante.
de tempos e tantos
assim que a vida invente
tudo que de novo se procure
nunca se tenha como isento
aquilo que o tempo inaugura
é que assim talvez a sintonia
do que tange um futuro prometido
possa restar assim como um passado
que não se derramou em vão pelos sentidos.
De outros dizeres da vida
nem sempre
estou comigo
a largura da vida
é um grande indício
de que navegamos juntos
o infinito
e nem o passado
é definido
há um futuro dele
impreterivelmente
desmedido.
Honrado
Obrigado
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.