AurelioAquino

AurelioAquino

n. 1952 BR BR

Deixo-me estar nos verbos que consinto, os que me inventam, os que sempre sinto.

n. 1952-01-29, Parahyba

Perfil
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Das larguras do tempo

Teço a vida
como alegoria
dos futuros que intrometo
pelos dias
 
o tempo
é só detalhe
dos favores do espaço
em que se cabe
 
o presente é só uma nesga
entre o futuro e o passado
que a gente enche de tudo
nas larguras em que se cabe.
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Biografia
nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.

Poemas

3604

pequena alusão ao meu País

lavro a esperança

com a mesma magnitude

com que a chuva cria

os mares que não pude

e se não me estranho

é que me permito

ser um impatriota

com todas as nações em riste.
 
é muito pouco

ser brasileiro

quando vai pela alma
o mundo inteiro.
 
122

Palavras a Haidée Santamaria

que meu coração

seja uma ilha

de receber todas as naus
de Haidée Santamaria
 
que teu coração
tenha em Cuba
todos os sonhos
de tua luta
 
que teu coração
seja na prática
qualquer tua razão
de camarada
 
82

ode a minha mulher por culpa do seu não aniversário

rosas serão muitas
as que nunca porei
na tua nuca
 
rosas serão tantas

as que engolirei em ti

nas artimanhas da lembrança
 
flores serão todas

de tudo que eu plantar em mim
no jardim de tua boca
85

na minha morte

na minha morte

estarei presente

mesmo que não a tenha
compreendido

habitarei o fogo

em carne e ossos

e desabitarei a vida

o melhor que possa.
 
minha morte

não existe

os homens é que teimam
em dize-la triste
 
na minha morte

a vida estará presente.

a minha e toda outra

que leve de mim

a compreensão do tarde

e a não compreensão do que se sente.
 
na minha morte

desarquiteto o limite

deixo de ser só homem
adredemente restrito

e caibo na rebelião

de todos os meus sentidos
aqueles que trouxeram à mão

e todos os outros que nem tive
 
na minha morte
me definitivo
passo a ser um ego coletivo.
 
 

151

palavras ao boi no ano da graça de 1988

assim em tua semelhança

eu possa pastar adredemente

os quilos de razão que nunca pude
e me restar tranquilo e tão somente
que sozinho, ás vezes, me desfaça
em ruminar a vida a tão confronto
que a luta me seja tão ardente
como se fora avessa ao desencontro
 
e não me iluda nas virginais pastagens
que as aparências iluminam vastas
mas me tenha atento e controlado

ao conteúdo de tudo que se pasta
pois rarefeito, ás vezes, em vontade

me suba do peito a sofreguidão extrema
das prontidões que alinho tão a custo
nas pastagens gerais que já me tenham
 
quero-me assim em cada músculo
refletir a fibra de tua indolência

que mais parece uma ação fortuita
daquilo que te tem como presença

pois se te afirmas inválido no teu pulo
mais me tenha afeito à consciência

de que meu pulo é muito mais que tanto
na solidez dos gados que convenham
 
quero atravessar tua calma

com a brandura e a competência

com que te alias á vitória exausta

das refregas gerais de tua ausência

pois as noites que se arquivam no teu lombo
já pela manhã se dizem madrugadas
arrancada à pulso dos teus ombros

na lavratura informal da minha fala
 
quero beber teu tempo em cálice coerente
que não me faça doer em cada esquina
mas que tenha da dor o rasgo em trânsito
com que as coisas sempre se alinham
quero traçar as retas que me curvem
sob o peso dos valores desse dia

e merecer a luta em que me acho

na estreiteza do leito em que me guio
 
quero enfrentar todo vermelho

com a solidão fugaz de tua pata

e me abraçar ao mundo como rubro
de toda a eficiência que me invada
pois do choque agudo dos contrários
me suba à face uma rosa esquálida
que signifique toda a vermelhidão
que se pinta fatal na minha alma
 
quero esmagar meus passos

como passeias molemente o mundo

e resgatar a profunda contundência

com que caminhas apesar do rumo

pois distribuir os pés pela estrada

tem muito mais de sólida tecitura

que os teares das fábricas que alinhavam
os suores dos homens em sua escravatura
 
quero compreender teus olhos

com a languidez com que me olhas

e refletir no olhar a imensa calma

com que a vida o nosso olhar deflora
pois que me tenha atento a cada espanto
e que me tenha pronto a cada hora

a fazer do meu olho uma bandeira

que me tenha escrito em minha história.
75

ode desenfreada de amor ao povo

coletiva a mente

constata a exatidão

de que não há por povo

o que se queira não

todo povo é resultado

de uma razão diferente

que não se encontra nos genes
nem nos corpos das gentes
mas transita quase sempre

na simples compleição

do espaço pouco amestrado
das fibras do coração
 
porque senti-lo no peito

é quase rebelião

por compreendê-lo a jeito
de cada revolução
que se amanha nos gestos
palavras do coração

e nem importa que o ritmo
de suas mágoas viceje
como uma flauta invertida
em música que nunca teve
a não ser o som avaro
de sua tanta alegria

que ri do peso das horas
e das curvas da agonia
 
povo se sabe a povo

em cada um comprimido
e mesmo que seja uno

é um pequeno infinito
que a duras penas se vive
com a força de um grito
 
 
povo grita no sangue

como uma mansa corredeira
que sobe o caminho das horas 
inventando um tempo à meias
e que deságua de repente
como uma nave inconseqüente
na imensidão das estrelas
 
povo grita na carne

como uma onda guerrilheira
que emboscasse no peito
a razão porque se queira
navegar nos mares tantos
de todas as suas veias
 
povo sabe a suor
derramado impunemente
nas maravilhas do ofício

de se saber tão urgente
coisa de um quê construído
pelos andaimes da gente
 
povo sabe a alegria

um riso desordenado
que começa pelos olhos
e se espalha pela face
é como sentir a ilusão
de estar encantado
 
povo é tudo que a gente
por mais que não se diga
guarda no gesto inteiro

traz no bolso da camisa
escondido pelo peito

como bandeira da vida

povo sabe a intimidade
coisa de não se sentir baldio
nos metros de solidão
que se costura a fio

cosendo as coisas da vida
nesse imenso navio

que trafega em mares não ditos
como um grande desafio

povo sabe a usina

de construir novos tempos

e de viver pelas horas
consumindo o momento

como uma grande bolandeira
dos destinos da gente

povo enfim é tanto

que nem se diga a razão

de não ser por muito pouco
todo nosso coração

trançado à força da hora

que não se vive em vão.    
92

Ode cardíaca

I
 
nenhuma agulha

nem eletrodo tal
navegará meu coração
em todo seu vau
 
porque de sê-lo assim

às vezes e tanto magro
ainda me baste a compleição
de tê-lo sempre aos saltos
 
porque em sendo bólide
de alada contextura
possa dispo-lo à vida

e à sofreguidão das ruas
 
nenhum doutor

de tê-lo assim em mãos
compreenderá suas esquinas
com qualquer exatidão
 
porque em sendo bomba

nem se lhe aquilate o conteúdo
porquanto explodi-lo baste

na compreensão do que me pude
 
e, ao invés, não seja

de explosão tamanha

como para guardá-lo intacto
nalgum desvão da esperança
 
porque de tê-lo ao peito
ajuize-se bandeira

de afagar adredemente

a extrema noite brasileira.
 
II
 
nenhuma agulha

compreenderá minha mitral
pois, válvula, não se diz de tanto
como se fora descaminho tal
em vão eletrônica

não lhe cabe a compostura

de esquadrinhar vãos alheios

de complexa urdidura

antes lhe sinta o caminho

de parecer-se andadura

de tudo que em meu peito afaga
a estranha vazão da aventura.
 
 
 
101

ode a Havana no 495o urbano tempo

assim espalhada

nos ombros da américa
argumentas um traço

de urbana lógica:
paredes serão o limite
nas urgências da história
 
cidade não te contentas

em ser um feixe de pedras
que a teu povo convenha
melhor te dares um campo
medido assim impunemente
como se fora um jeito

de colorir seus viventes
 
Havana não reivindicas

nada do que seja fato

em tuas notícias

antes te constatas lenda

contadas em tuas esquinas

de um povo que constrói um tempo
com as certezas da vida
 
Havana estás presente
em todas as manhãs
daquilo que consentes
87

Ode a minha amada por qualquer data inexpressiva

as horas

não serão possíveis
enquanto em tua boca
não vicejar o verbo
em que me ouço
 
e arrancarei

meus segundos

na inadiável felicidade
de perdurar em tua face
em qualquer tarde
 
e as datas

serão imprescindíveis

apenas para conter na sua forma
os risíveis instantes da vida

em que me entornas
 
nenhum tempo
constrangerá meu riso
à vista do teu corpo
 
as horas mais enormes
flutuarão

e comeremos o tempo
na frugal rebelião
de todos os insones
 
e ainda por muitos corpos
viajaremos amiúde

na exasperante dialética
de tudo aquilo que eu pude
e assim

por todos os momentos
as datas fluirão solertes
na ponta de nossos dedos
 
de teus olhos

fugirá a bruma

que embrulhará meu peito
e afagará meu sangue
 
e em tua veia
latejará impune
meu riso

de poeta amordaçado
 
calarei o sonho

com a noite em riste

e esquecerei que às vezes
algum poeta é triste.
138

Ode aos 54

aos 54

nada me convoca

a não me sentir ausente

da discórdia

fluo impunemente

pelos vincos da idade

como um barco que ousasse
todos os mares.
 
aos 54

permito-me a simplicidade
de militar na vida

com certa intimidade
nada que não seja nunca
e que só seja sempre
quando tarde.
 
aos 54

desaviso-me das vaidades
ainda que me seja franca
a inexatidão da verdade

e que navegue pelo peito
a imensidão e a filosofia
de todas as vontades.
 
aos 54

meço as minha réguas
com a tranqüilidade
de quem sabe
todos as léguas
em que se cabe.
 
aos 54

transijo com a vida

ainda que não a compreenda
como liça

mas como um grande acordo
que a natureza fez consigo
 
aos 54

palavras são um rito
a não ser que o verbo

seja pouco e tão restrito
que nem o grito sobre
nos ombros dos sentidos  
 
 
59

Comentários (8)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

AurelioAquino

Honrado