AurelioAquino

AurelioAquino

n. 1952 BR BR

Deixo-me estar nos verbos que consinto, os que me inventam, os que sempre sinto.

n. 1952-01-29, Parahyba

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Das larguras do tempo

Teço a vida
como alegoria
dos futuros que intrometo
pelos dias
 
o tempo
é só detalhe
dos favores do espaço
em que se cabe
 
o presente é só uma nesga
entre o futuro e o passado
que a gente enche de tudo
nas larguras em que se cabe.
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Biografia
nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.

Poemas

3477

Dissertação de espanto sobre a América Latina

desde os seios da Patagônia

que se estendem, assim, em andes desatados
montanhas que se queiram gritos

pedras que se digam tão cansadas

e que perdurem pela vida

como anseios e recados

que a terra dá aos homens

nos seus tempos de enfado
 
desde as costas de Guaiaquil
deitada em vã geografia

de casas e homens reunidos
na praça geral que não se quis
veleje por mares incontestes
a saúde dos desejos a que se apreste
aos que nunca a morte discutiu
 
desde os ombros do serrado
trançados a muque pelos ventos
desfaça-se o gosto do pecado
dos erros que se tem nas gentes
porque em vão desconsolado
o coração arquitete grave plano

de bater-se pelas ruas como soldado
de uma guerra havida impunemente
 
desde o colo da Argentina

gravado nos olhos dos infantes

que nunca se dizem retaguarda

como sempre se disseram avante
pendurados assim adredemente

nos sonhos que desfazem mansamente
como se fora a prontidão

de uma passeata quase urgente
 
desde os ombros de Cuzco
lavrado em pedra e pranto

um choro assim descontrolado
um riso sempre transeunte
e nem se disseram da cor

das dobras do horizonte

apenas cerziram à tua face

esse desenho ilógico de inca

que nem precisa amanhecer

para que a madrugada se pressinta
 
desde os sonhos de Bogotá

aranha tecida de fuligem

que sobe os morros em teu sono

e que em noites seu coração exige
nem bem trançaram suas veias

e te pusestes com gosto de menino
 
desde o raso da Catarina

que te tem serpente sem dizê-lo
e que já me diz das cores

que nunca trarás nos teus cabelos
porque morena

nem mulher se limite

com os sonhos que ouse pousar
em todos os seus cabides
 
desde Quebrada del Yuro

uma Bolívia entristecida

jogadas em camas que não queira
do tamanho de toda tua vida
 
desde Medellin

imóvel em seu paradigma
de parecer-se uma rosa
mesmo que não se diga
 
desde Brasília

adormecida em ângulos
na certeza de que o tempo
é sempre mais um tanto
 
desde o Titicaca

com seu jeito de mar arrependido
e a certeza de que a água

é mais um sonho indefinido
porque se se espalha

pelo vão do peito
melhor
morrer-se sonhando

da largura exata do teu medo
 
desde, enfim, essa América
abraçada em vão à natureza
permaneçam teus olhos como dela
como de si te venha tal delicadeza
161

Descaminho

a ponte estava lá

entre mim e a verdade
quanto menos pudesse

mas havia a possibilidade
não que a houvesse definitiva
como um estatuto

que contivesse a saída

mas um tênue indício

de que a vida pode, às vezes,
ser vivida ex oficio
 
a ponte estava lá
dentro de mim
inconstruída

como se fosse um caminho
de inventar a vida
 
a ponte estava lá

e, no entanto,
distraída
permanecia assim

como uma lembrança esquecida.
114

Das razões da caminhada

que aquilo que alinhavo pela vida

na extensão inteira do seu curso
possa dizer exatamente tanto
quanto de verbo tenha meu discurso
 
pois por te- la assim sob medida
em todos os seus vãos desenfreada
admita a hipótese de morrê-la

com a certeza de todas as estradas
 
é que o vão de te-la assim disposta
é um terçar de armas diuturno

em que o braço quase sempre tenta
atravessar o vão do seu discurso
 
e a meta de vivê-la fartamente

nos contornos mais simples da vontade
é quase um exercício dos abraços

nas avenidas do país que se abrace
 
e assim caminhem verbo e vida
pelas estradas grávidas do povo
construindo o futuro que vigia

a plenitude de tudo que é novo.
86

Desmedidas

desconfie dos tempos
postos em medidas
nada do que é exato
é totalmente a vida
 
sua matemática

é de estranha lida

nunca se contém números
mas em desmedidas
 
suas infinitudes

são tão restritas

que cabem quase sempre
nos bolsos da camisa
 
suas multiplicações

apenas recomeçam

as divisões que as horas
ensejam em seus tropeços
coisa de nem ser avaro
porque pleno e avesso
 
desconfie dos absolutos

e dos sempres invioláveis

por trás de cada infinito

há um susto mensurável

não com os metros do que se possa
mas com as réguas da vontade
 
desconfie dos relativos

e das vicissitudes dos espaços
tudo cabe num metro

apesar de incontrolável

é que a vida é quase absoluta
quando nela se cabe
 
desconfie da desconfiança
usada como arma

ela apenas se presta à razão
de quem se amarga
é que a vida não é dada
às incertezas de quem a traga
 
desconfie das manhãs arrazoadas
postas num tempo sem debates
nada do que é o tempo

resvala apenas em palavras
 
desconfie das amarguras
um tanto adredemente
nada que não respingue

na condição de contente

e na informalidade dos anos
que se tem como vivente
 
mas, sobretudo,

desconfie do tempo e dos verbos
em que se esteja navegando
sem os mares por perto.
119

discurso da morte

o morto

navega quase impunemente
na balsa dos olhos

de quem sente
 
e trai um tempo

com jeito de arma
molhados passos e prantos
que se amontoam na alma
 
a carne

de dureza tanta
rasga o vão da vida
como uma lâmina
 
as mãos

dormem lânguidas
como pássaros inúteis
e sem dramas
 
o morto navega

ainda impunemente

a balsa do seu corpo
nos olhos dos presentes
 
rasga objetivo

a íris mais urgente

num rio de saudade

que se comprime nos dentes
 
sem vau

o morto bóia

os quilos de passado
nos ombros da memória
 
e do transeunte
portador da vida

salta um cheiro de dó
informalmente reprimido
 
a morte sempre esquece
de esquecer a vida
119

De terras de onde vier, quem virá?

das terras de onde não venho
nem o medo me acontece
pois tudo que me é outro
ainda assim me parece
como as luas que invento

e que se põem no meu tempo
 
das terras de onde não venho
melhor deixar-me alheio

que navegar nesse vau

de rios que me concedo
em que a correnteza nem teima
em lavar-me do meu medo
 
das terras de onde não venho
a poesia não medra

como o mel inconsumível

que brota de toda pedra
e que descompassa o coração
com a insistência da guerra
 
das terras de onde não venho
melhor fincar-se a bandeira
no espaço da consciência

em que drapeja a centelha
do tanto que seja o sonho
de tudo que não se queira
 
das terras de onde não venho
o outro me aconselha

a ver em tudo só terra

de uma mesma bandeira
que escorrega pela alma
e o coração incendeia
 
das terras de onde não venho
proceda meu coração

com a certeza do rumo

de um país temporão
que teima em ser usina
de fabricar solidão
 
das terras de onde não venho
tenha-se enfim a certeza

de que nem sempre me é estranho
o descaso da natureza

que meu peito teima em conceber
apesar de uma vã incerteza
 
II
 
outro

a terra

o bruto

grito e guerra

de tudo que não sou
e pedra
 
outro

eu
 incorre
e torna-se em mim
e morre
como se não estranhas fossem
a posse e a morte
 
outro

sou eu

e como eu divirjo
da consciência
que não outro
nem duvido
 
outro

sou eu

pelas calçadas

das ruas

em que me abraço
 
outro

sou eu

pelos destinos

em que nem caibo
 
outro

sou eu

pelo desuso
das almas
 
outro

sou eu

a tanto custo
pelo que
 sou eu

e luto.
 
III
 
das terras de onde venho
invento a compreensão

que outras terras dizem de todos
e tão assim servirão
que nas dobras do futuro
de uns e outros serão
 
as terras de onde venho
sempre em mim caberão
apesar de sobrarem fartas
na simples sem razão
de ser uma pátria só
quando todas já nem são
 
pois a pátria do homem
é sempre o coletivo

não a terra que lhe cabe
como espaço restrito
é antes a compreensão
de que as pátrias acabam
e só indicam a verdade
de que apenas habitam, no homem,
a carteira de identidade.
115

discurso em andante compasso

haverá manhãs

em que meu pai me faltará
e eu, jogando à vida,
inventarei as tardes

em que ele esteja
 
haverá manhãs

em que me faltarei

e caminharei pelas noites
como um falido vagalume
 
haverá manhãs

em que as manhãs faltarão

e os homens caminharão sem tempo
pelos sovacos do mundo
 
haverá espaços

em que as noites faltarão

e a estrela da manhã
adormecerá encoberta

nas dobras do teu vestido de tule
 
haverá corações
engordurados

e a estranha sensação
de vãos pecados
 
haverá razões
desencontradas

e a urgente razão
dos astronautas
 
haverá senões

em cada face

e haverá um verbo
que me baste
 
haverá um caos

em cada esforço

e o exato ângulo do peito
em que me morro
 
haverá vontades

que não se aprestem
a remoer os fatos
através dos séculos
 
haverá soluções

de problemas não postos

e uma leve fímbria de tarde
em cada nesga de remorso
 
haverá manhãs

em que meu pai me faltará
e eu amolgarei os tempos
em que ele estivesse
 
haverá desusos
frequentemente

e a leve compreensão
do que se sente
 
haverá multidões

que se farão sozinhas

e canções de mil invernos
nas esquinas dos dias
95

De sonhos como sentido

futuros
,
engavetados na memória,
sonhos dizem apenas

o óbvio:
 sonhos
são apenas
 os tempos
do que eu posso.
71

Distrato da fome

a fome não prescreve.
como rasurar a vida
se nem tanto e pouco
é o que se deve?
a fome é intacta

nada que não seja tanto

lhe desarma.

a fome é avara,

tudo que lhe seja nada escancara

a vergonha de ser humana

na cara de quem cala.

a fome presta-se ao poema

como um quê intransitivo

que nem transige, nem constrange

o que se dera por arte sendo sangue.
É que a palavra

sempre se permite

a dizer-se esperança

mesmo quando em riste

é que os homens anoitecem

quando a manhã é pouca

e não se tenha do pão

como amanhar a desculpa

função que nem seja quanta

de quantas inda há

pra se inventar a luta.
 
a fome é invólucro

de uma carne inóqua e transitória

que tanto mais exista

tanto menos importa

a fome é uma instância

de um tempo inumano

de consumir os homens e a esperança

a fome não se contrata

seu projeto nem de longe se arquiteta
como um vão exeqüível de curvas e retas
antes é um aviso urgente

de quanto tudo não houve

a fome é bandeira

de escancarar o homem pela vida

e nunca é só desejo

apesar da desmedida  
97

de tempos e verbos

nada

haverá
 em tudo

que não diga mais
que um verbo
 em desuso

guardadas as proporções
de todos os discursos
 
tudo

haverá
 em nada

que não transite incólume

como a madrugada
guardada a razão
de um tempo mudo
grávido de palavras.
75

Comentários (10)

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É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !