Das medições do caminhar
Desfaço as regras:
todo caminho
cabe nas pernas
o tamanho do passo
inventa o destino
do que traço
a vida é só estrada
de tudo que abraço.
Das medições da vida e outros afazeres
a vida
por inexata
nunca explicita
o que prolata
tudo que lhe teima
é a estranha mania
de ser plástica
a vida
por sonhar
nunca se basta
tudo que lhe é futuro
é o exato tamanho
da prática.
de águas e almas e outros tantos
mares são planícies
de líquida andadura
não se prestam aos passos
e à rapidez dessas ruas
antes caminham lentos
nas rédeas desses seus barcos
resguardada a violência
de todos seus descompassos
é como se fora uma paz
lavada nesses abraços
que a água dá nos viventes
como um recado do nada
e nas velas que o vento penteia
como bandeiras desatadas
tremulam todas as ondas
da condição dessas almas.
Da saudade como futuro
Ah! saudade
que prende o tempo no peito
e joga a manhã pelo mundo
que brinca nos olhos da vida
que salta nos ombros de tudo
Ah! saudade
um dia será a esperança
de quem espera a verdade
por certo será no futuro
o canto da liberdade
Ah! saudade
um dia virá como paz
vestida assim na cidade
perdida nos sonhos da gente
vivida nas ruas da tarde.
De ações e direções
Empírico,
nada é tão lúdico
que me faça viver
a qualquer custo
é que viver
mais que um discurso
é a travessia de um tempo
a longo curso
é construção
de uma praça coletiva
guardada a proporção
dos singulares que se viva
empírico,
nada é tão lógico
que me faça viver
fora dos ossos
viver é apenas a função
dos verbos que eu possa.
De Olinda em carnaval de tudo
até parece que o frevo
inventando a emoção
escreve assim
pelas pernas
um infinito no chão
e assim descendo a Ribeira,
ladeiras no coração,
Olinda toda me chama
em cada ângulo de casa
em cada palma de mão
as pernas fogem pro peito
ensaiam a rebelião
dos sons que o ouvido engole
com a exata compreensão
de que olinda não é cidade
é apenas uma saudade
misturada com a razão
e todos pulam seus jeitos
com a mesma sofreguidão
com que o sol esperneia
nas faces de uma canção
até parece
que o frevo
espreguiçando-se em vão
adormece já sonhando
as coisas da ilusão
e assim fingindo ser tarde
a noite mal principia
e monta toda a manhã
que meu peito consentia
e a hora nem se apercebe
de que o tempo é relativo
e esconde seus minutos
nas curvas dos meus sentidos
Olinda é quase uma guerra
de generais consentidos
soldados que sejam tantos
nas marcas de seus sorrisos
até parece que o frevo
despenca já lá do alto
e cai no peito da povo
com a mesma simplicidade
com que os neurônios inventam
as máscaras em que se cabe
Olinda assim já é tarde
pra essas coisas de cidade
antes é um grito tão tanto
barganha da liberdade
e ainda assim o perigo
de esquecer a própria vida
e nem pensar que amanhã
atravessado na avenida
o homem passeará sua dor
nos frevos
que lhe consintam
II
Olinda então já chorava
Olinda enfim já sorria
e sem caber no meu peito
em carnaval se explodia
como uma nave desfeita
em mares que eu nem sabia
o frevo assim parecia
uma alegre matemática
que dividia todo meu medo
nas contas que eu não usava
e urdia nos cabelos
uma ventania inexata
que deslocava meus sonhos
no rumo infante da praça
Olinda então consentia
arrumar esses viventes
num jeito de alegria
a que às vezes se consente
sem perceber que a vida
é muita menos verdade
e muito mais de repente
o frevo descendo a praça
é quase uma liberdade
é um jeito desajeitado
de inventar a cidade
na ponta palma dos pés
na pronta face da tarde
o frevo medra
solene
nos ombros na multidão
peso que nem seja tanto
tomado em comparação
aos pesos tantos da vida
que se carrega em vão
III
a nota
clara do frevo
não é música, é uso,
apenas publica o povo
na pauta do seu susto
o frevo não é tudo
mas abarca um jeito de inteiro
no prazer incontrolável
de se dizer brasileiro
cai pela face do povo
assim misturado à tristeza
que desce rindo nas pernas
de quem lhe cobra a certeza
o bloco é um sanguessuga
que ferve o peito de Olinda
e invade suas carnes
com a sanha
de uma sina
IV
Olinda, morena, moreno,
senzala da liberdade
revolves no passo do frevo
um futuro
que nem se sabe
e denuncias no canto
das pedras em que te cabes
os infinitos que jogas
nos ombros de tuas tardes
Olinda sabe a desejo
como uma força que invade
a franja incauta do peito
de quem do frevo nem há de
e a Sé
repousa sem jeito
numa contrição desmedida
que arruma o canto da gente
no frevo exato da vida
coqueiros balançam a tarde
numa preguiça infinita
e ventam todos os barcos
com os frevos à deriva
como uma tristeza
escondida,
Olinda,
nua assim na alegria,
drapeja bandeiras tantas
que nem sabe que sabia
Olinda, assim bailarina
de palcos e de coxias
joga o frevo no peito
com a mesma melancolia
com que arrasta o sonho
em passos que não havia
e nem se importa que a vida
contivesse o que se sentia
e que explodisse na sem razão
do que cada corpo pedia
Olinda, assim transeunte
de ruas que não devia
pesava em vão pelos passos
dos caminhos da alegria
ornada em mágoas e mágicas
de intransitiva serventia
e completava as curvas da dança
com a certeza da esperança
e um certo quê de agonia
Olinda, assim tão seu povo
cerzida às costas do frevo
inventa um carnaval
dentro de todo o medo
e nem sobra nas ladeiras
qualquer ângulo mais exato
em que não se visse da vida
uma vida em sobressalto
pulando assim na Ribeira
nos quatro cantos de tudo
Olinda cria a razão
um sentimento profundo
e constrói nas suas mãos
nas pernas do coração
o sentimento e o rumo
de montar uma esperança
nos descampados do mundo
Olinda inventa um jeito de nave
em cosmos que nem habita
e trai um jeito de infinda
apesar de tão contida
Olinda contraria a tristeza
com a mesma euforia
com que o mar lhe inventa
pelos navios dos dias
Olinda é quase um tempo
é continente e conteúdo
e mesmo assim relativa
deixa-se estar absoluta
o coração de quem lhe vê
no frevo intenso da luta
é somente um continente
da ilha de quem lhe usa
um jeito incauto de ser nada
mesmo sabendo tudo
destempo e minuto,
hora desapercebida,
que flui no vão do cérebro
nos sentidos pela avenida
e se vê Olinda
na textura do tato
na carência dos dedos
na sola dos meus sapatos
na timidez do medo
na intrepidez do enredo
que a gente ensaia sem palco
e tem-se assim Olinda
enquanto te despossuem
e ao mesmo tempo que te fazem
desfazem tanto teu uso
num carnaval diferente
que trava o peito da gente
num frevo que nem se escuta
descendo Olinda e ladeira
descamba a cidade avulsa
presa de passos e pesos
prenha de segredos e sustos
no Carmo
chego sem medo
Olinda ainda é alegre
tarde que já é cedo
noite que é quase um dia
num tempo que é só começo
Olinda flutua
na mansidão dessas águas
que se dizem suor e sangue
ou mesmo baldias lágrimas
choradas pelo vão riso
como senões imatemáticos
Olinda não se conta
pelas casas que possua
mas pelo jeito que engendra
no íntimo de suas ruas
Olinda não descansa
de ser vária e avulsa
e pesa os tempos que alinha
na cara de todos os sustos
cidade nem se apercebe
que a história continua
entrançada em suas pedras
nos passos de quem lhe usa
morena, nem se acalma
com a graça de seus viventes
e se deixa desesquecida
no coração de quem sente
V
Olinda não é porto é parto
e nem é perto, quando em barco
se escreve no mar como um salto
e nem é longe mesmo
ao largo
quando constrange a praia
com jeito de ancoradouro
de tudo que é exato
Olinda não é tanta
é toda
e nem é limitada
pois existe um jeito de Olinda
nos palmos da madrugada
em todo raio de lua
que no seu colo deságua
VI
nos Bultrins, quem sabe?
não se conte a alegria
que se desce assim do Amparo
rompendo o ventre do dia
pois se lhe ajeita um modo
de viver a serventia
que tem o cartório geral
dos sentimentos que alinha
nos Bultrins, quem sabe?
permaneça uma agonia
um tanto ou quê de provisória
que seus viventes presenciam
mas que traz uma nesga de riso
nas dobras urgentes do pranto
que escorre assim pelas ruas
com um jeito intenso de canto
nos Bultrins, a fantasia
é um sentimento inato
que recolhe no coração
a simplicidade do fato
de que o povo leva no peito
a a paciência e o trato
da força bruta das pedras
que lhe põem pelos sapatos
Nos Bultrins,
o tempo nem se apercebe
que bebe o peito do povo
numa proporção imatura
que faz um segundo ser tanto
no riso de quem lhe usa
nos Bultrins,
constantemente,
a vida se planta sem sementes
e sem orgulho
o povo se afirma
no seu pulo
nos Bultrins
há um cheiro de cidade
que se pretende desurbana
campo que nem lhe cabe
pois trai um gesto cosmopolita
na sua ruralidade
fazenda de homens e meninos
trânsito da felicidade
nos Bultrins
a alegria se anuncia
nas letras do estandarte
que balança a vida do povo
numa tal intensidade
que chega a querer ser tanto
apesar do pouco que lhe cabe
Nos Bultrins,
há reis que nem sabem
dos reinos que ainda sentem
embutidos nas camisas
como uma máquina urgente
que pulsa o tempo e o homem
com a força do presente
nos Bultrins, quem sabe?
ainda existe a compreensão
da liberdade
VII
no Amparo
tudo desce
o tempo e a cidade
e a gente que lhe preenche
as veias lúdicas de pedra
que tapetes são do tempo
de quem ainda há de
no Amparo
a alegria se permite
habitar cada garganta
como um frevo ou uma frase
que contivesse palavras
futuros e lembranças
e nessa mistura
de verbos e sentimentos
o amparo se permite
afirmar o que se segue:
o Amparo é um estado
de insensatez da matéria
mas é dessa sem razão
que contém a simetria
dos gritos que a vida engendra
no cartório da alegria
no Amparo,
havido o carnaval,
o tempo não se conta
como um coisa precisa
é uma fração que se traz
no bolso da camisa
e que se espalha na rua
à medida que o frevo atua
e espalha o resto da vida.
no Amparo,
finalmente,
nunca se acaba uma alegria
Impunemente
pois o riso é interno
ao frevo que se sente.
VIII
Ouro Preto que lhe diga
os versos que desalinha
na pauta ingente dessas ruas
por que o povo caminha.
porque de ser desmedido
caiba-lhe a contrafação
de remar contra a corrente
nos rios do coração
Ouro Preto nem se ilude
com a textura do som
um frevo que inventa um povo
com um jeito de ser de novo
o inventor da manhã
Ouro Preto nem se apercebe
nas manhãs de carnaval
que a vida tornou-se um palco
de um teatro informal
que joga os medos da vida
no meio da avenida
nos passos de um frevo tal
que desmente até a cidade
naquilo que não contém
pois traz uma felicidade
que não pertence a ninguém
pertence ao passo do frevo
e àquilo que lhe convém.
IX
Até parece que o frevo
tricotando a solidão
inventa assim pelas pernas
as urgências da multidão.
De gentes e carimbos
o funcionário
lança o despacho
como quem subscreve
um desabraço
nada do que é vida
lhe constata
apenas uma grave inapetência
e algum cansaço
o funcionário
nas entrelinhas
desmede a vida e a desídia
como se o carimbo fosse o leito
de todas as notícias
e urge em trânsito
pelos meandros do papel
e nos verbos de um chefe
de militares decibéis
o funcionário
assina sua sentença
nada do que é a vida
lhe convém
o funcionário
ao indicar-se tácito
alinha os carimbos de sua vida
em todos os seus atos
como se pudesse inventar
o trânsito de todos os seus passos
é que nada lhe sobra como viés
do que não fosse inexato:
palavras não serão verdadeiras
quando impressas em sobressalto
o funcionário lida com o papel
com a mesma solicitude
com que desmancha os borrões
de suas atitudes
o leito da sua lida
é de tamanha completude
que chega a parecer uma saída
das portas todas em que urge
o funcionário
tem da ordem a compreensão
de que o mundo se ordena
em todos os nãos
nada do que seja seu sim
pode lhe estar à mão
o funcionário
tem da lei
a exata compostura
de um verbo que não transita
no meio de suas ruas
é que lhe falta a textura
das grandes avenidas
com que os chefes alinham
o fulgor de suas vidas
II
o carimbo leva o funcionário
com os freios todos da vida
como se verbos fossem cadeias
que apreendessem adjetivos
que indicassem o rumo das gentes
ou que desfizessem os indícios
de que a liberdade é o destino
de todos os exercícios
o carimbo trunca o funcionário
na sua veia mais latente
que lhe joga contra a sentença
de tudo que não se consente
como se a vontade do homem
fosse matéria incoerente
é que lhe ordena a ordem
assim estabelecida
que um carimbo vale mais
que qualquer de suas vitimas
pois subentende a partição
das coisas todas da vida
o carimbo assim aposto
é um latifúndio resumido
dos verbos todos que o chefe
traz como subentendidos
e que lhe cobram os dirigentes
em todos os seus sentidos
III
o ente público
não tem veias
o sangue que lhe promove
é a certeza
de que os lucros serão privados
em sua toda inteireza
o ente público
por dentro da lei
é dito como se fora
a social sensatez
que vige em cada humano
na sua feição mais lúdica
com ares de particular
na sua razão mais pública
o ente público
é tão desnaturado
que um carimbo, às vezes,
lhe trai a incerteza
de que nunca foi coletivo
apesar da natureza
IV
a assinatura
posta no carimbo
comprova a razão
de todos os destinos
nada do que seja verbo
é tão cristalino
e mesmo quando não aposto
em sua forma mais crua
o carimbo informatizado
tem a mesma compostura
pois quando se assina a razão
se assassina a textura
de um carimbo tão avançado
apesar da escravatura
cada verbo do carimbo
é a contradição
de quem inverte a vida
com a mesma satisfação
com que se contém a ordem
nas vias todas do não
V
e assim o funcionário
nessa lida incoerente
destrava cada carimbo
e se trava em cada ente
em mostrar que toda ordem
quando posta adredemente
desvincula a vida da vida
e rói o sonho da gente
Das itinerâncias de mim
A máquina atiça
um jeito monótono
de mostrar a vida
e o mundo
no cartório dos trilhos
sonha velocidades
nos meus risos
o trem de mim
na sua lógica itinerante
inventa estações
por onde eu ande
como não amar
tudo que me tange?
De sentimentos e outros tais
há deles
de estranha geometria
que nem bem amanhecem
faltam pelo dia
há deles
de corpo avaro
resumo quase humano
de ossos e enfados
há deles
de profunda complacência
que nem tangem a idade
pela despresença
há deles
que se demitem da vida
como em emprego amargo
e sem saída
há deles
em cruenta luta
que suam pelos olhos
lágrimas e desusos
há deles
de latente suicídio
que trombam com a vida
em desatino
há deles
quão meninos
rótulas mal encaixadas
do destino
há deles
tão infantes
pendurados na alegria
e nos horizontes
há deles
desmanchados
em amores faltos
e persistentes boulevares
há deles
tão finalmente
que se dizem dízima
de contar a gente
das vertentes democráticas e outros desígnios
ao homem
dê-se a impressão
da controvérsia do fato
e da inconstância do não
ao homem
dê-se a completude
de que se subtraia
cada atitude
ao homem
dê-se a ilusão
de que habita a si
em todos os desvãos
ao homem
dê-se o comprimento
das léguas todas de si
e da andadura dos ventos
ao homem
dê-se a contradição
de parecer-se um sim
mesmo não
ao homem
dê-se o descaso
de perder-se pelo tempo
em cada passo
ao homem
dê-se a andadura
de um bólide avesso
a desventuras
ao homem
dê-se a constância
de parecer-se líquido
em cada esperança
ao homem
dê-se o fim
de construir todos os inícios
em todos os confins
e que a tanto
se diga mais pacato
tanto mais medre a paz
em sobressaltos
ainda que sobrem passos
nas solas dos sapatos
Honrado
Obrigado
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.