dos largos e da convivência
o que às vezes
não consigo
é viver
sem todos os meus mortos
e todos os meus vivos
não que o que projeto
seja assim incontrolado
mas uma tática que guardo
no mais fundo do que ardo.
e se há vivos mortos
e mortos desenfreados
não há como senti-los
sem a estranha defasagem
que há entre a morte viva
e a defunta vida dos que jazem.
dos passos da vida e suas ingerências
o amor não é apenas
a desculpa
para manter as manhãs
da nossa luta
o passado
é apenas um disfarce
que o futuro teima em dar
quando se gasta
o futuro
é um tempo baldio e conciso
tudo que lhe tange
é a possibilidade do riso
o suor
é apenas um passo
na construção
de todos os abraços
O pranto
é apenas um impasse
dos risos todos da vida
em que se nasce
a vida é sempre infinita
apesar de todos os pesares.
dos ganhos e das perdas em singelo enredo
ganho
o que perco
o que resta em mim
é apenas o que meço
tudo que não seja tanto
por ser de menos
o que prezo
a vida, enfim
,
é exatamente
tudo que o peito
grava na gente.
não há avesso
naquilo que se sente.
dos meus tempos e das minhas desmedidas
A manhã
me contradita
tudo que me amanhece
é uma noite irrestrita
todas as horas do meu sono
olham um tempo
em que me amanheço
em contradita
a razão de ser um modo
humano em sua dita
sempre deixa meu tempo
numa cota resumida
eu sempre sou o que digo
apesar da desmedida
homem é sempre um tempo
de todas as medidas
dos personagens e outros tãos
a bunda da atriz
é grave frontispício
de tudo que o sistema
faz comício
carrega em si
toda filosofia
enclausurada nas manchetes
de cada dia
o sexo passa a ser drama
de exígua tessitura
trançado nas entrelinhas
da ditadura
a democracia
cresce na imagem
do marginal dilacerado
na paisagem
o jornal regurgita
um sangue profano
no sacro desentender
dos seus enganos
na face do senador
existe quase a certeza
de que ao homem é dada
qualquer desnatureza
seu verbo é tão baldio
e alheio ao que destaca
que chega a dizer-se tanto
nos discursos que alinhava
a mulher na foto
carrega a maquiagem
como se fora a solução
de todas as miragens
e o cronista social
atiça a conveniência
pela própria condição
de despresença
é que lhe cabe muito
nos verbos que assenta
o gerente do banco
garante a simetria
entre a dama da corte
e sua grave revelia
destrava todos os cofres
invalida suas guias
como se fora um calote
nos ombros de cada dia
o governo aparece
em sua métrica enorme
de assassinar os civis
nos militares informes
é que não pode o sistema
abdicar da função
de replicar pelos campos
as normas da escravidão
salvando a democracia
na boca de seus canhões
e ao macaco da manchete
resta a vermelhidão
uma vergonha animalesca
das coisas e das manhãs.
dos métodos e divisões da alma
subversivo
sobrevivo
entre mim
e o que digo
nada da ordem
me desonera
de ver no horizonte
o sentido das pedras
subversivo
me desfaço
nas léguas do povo
em que me acho
e as almas que tenho
amiúde
apontam todos os nortes
do que pude.
dos ilimites do futuro
Eis a síntese:
tudo que acontece
finge
um lado é fato
o outro crise
o sonho é apenas a versão
do que insiste
ainda que a razão
me tenha triste.
sonhar é só palavra
de um verbo farto
que às vezes voa
na sola dos sapatos.
dos 70 Maria em anos
aos setenta
nenhuma catarata
embotará o rumo
que o riso marca
assim Maria
quis o exercício
que dela não fosse o caos
mas um grande armistício
porque de sê-la tanto
não possa o vão vivente
aguentar a química exata
de tê-la como presente
Dos sonhos rápida instância
dá-se a ilusão
tão facilmente:
sonhos são tentáculos
tão a destempo
que escavam o futuro
de repente
nunca lhes cabe
ordenar o presente
há um passado sonhado
impreteritamente
dá-se a ilusão
tão de repente:
o sonho que montamos
nos cavalga impunemente.
dos anacronismos e dos rumos
tudo que era a guerra
virou assim, de repente
uma paz desse tudo
no quase nada da gente
é que a vontade obedece
a quem é, assim, coerente
e constrói as portas do novo
por aquilo que se sente.
e se não der a vontade
de um só, em desalinho,
junte a vontade de outros
sempre no mesmo caminho
e construa a razão
como quem mede esse grito
com todas as léguas da gente
estendidas no infinito.
Honrado
Obrigado
Belos versos... em poemas e suas poesias,parabéns.
obrigado, honrado.
Simplesmente perfeitos, seus poemas são uma perfeição inexplicável, realmente, eu amo seus poemas. Continue criando lindos poemas.