Lista de Poemas

Poema de circunstância IV

a chuva
afagando telhas
derramava os céus
inventava cachoeiras

o menino
abraçando o riso
dava-se às águas
cheias do infinito

a manhã, encharcada,
nas faces do menino,
tinha uns gestos de fada

14

Paisagem marinha

a onda
bordava a praia
como tecelã privada
de suas águas

o barco
posto em descida
buscava na onda
deixar-se à deriva

o homem
largado no pensamento
esquecia a onda e o barco
nas entrelinhas do tempo
8

Dos temporais da alegria

a emoção
chovia os olhos
como temporal
do seu avesso
a manhã
debruçava um riso
nas escaramuças
largas do tempo
o homem vigia pleno
nessa alegria molhada
esparramada no peito
6

Poema em sonâmbula faina

o poeta, dormindo,
em seu escafandro
mergulha nos verbos
todos seus oceanos
a palavra
em súbito desacato
acorda o poeta
em sobressalto
o poema,
solfejando o poeta
alinha sono e sonhos
nos ditos que intenta
10

Jornada em matinais recados

as manhãs
conduzem o recado
do sol claudicante
nos ombros da tarde
dão-se à velhice
página do tempo
clara certeza
do renascer isento
tardo as manhãs
quando intento
deixar de morrer
e renascer no tempo
11

Faminta cosmologia

o cosmos
assim às pressas
passeava o infinito
em sua gesta
os raios
em súbito rompante
jogavam-se nos céus
como viajantes
o homem
deitado na calçada
passeava sua fome
como terreno cosmonauta
7

Escolares esperanças

a raiz
na quadratura da página
boiava no menino
as ondas matemáticas
o nascer da tarde
na lonjura do tempo
deixava-se paisagem
no véu do pensamento

a raiz quadrada do menino
era uma bola em movimento
7

Etarismo em jornada

rugas
desenham a face
subterfúgios do tempo
estradas da idade
pergaminho do corpo
nas lonjuras do tarde
move-las
como disfarce
é só comete-las como saudade
da história vivida
adredemente descontada
as rugas apenas cometem
os tempos em que se sabe
13

Invernos de mim

sob a manhã
o tempo dormia
todos os sonos
em que vigia
de repente
como um soluço
o mundo deu-se à chuva
molhando o futuro
a tarde intrometeu-se
derramando-se em tudo
com a noite escondida
embrulhada no meu susto
6

Madrugada in vitro

a madrugada faz cócegas
com a noite nos ombros
como um riso do tempo
lembrando seus sonhos
desemboca no homem
como foz onírica
e jaz pela cama
abraçando a vida
no colo dos ares
furando o infinito
os pássaros declaram
a cidade amanhecida
9

Comentários (10)

ShareOn Facebook WhatsApp X
Iniciar sessão para publicar um comentário.

É caro poeta...AurelioAquino...toda palavra que é dita , se transforma em alguma coisa... trabalho, alegria, tristeza , pois toda palavra é bendita... acho eu que antes de abrirmos a boca devemos pensar na sua reação... parabéns. boa tarde ademir domingos zanotelli. teu seguidor.

AurelioAquino

abraço

Boa noite meu caro poeta;;; AurelioAquino - muito lindo quando falaste sobre as memórias e as trazem sempre na alma.

Carlos Marques
Carlos Marques

Aurelio Aquino, "viver é ser todos os outros..." e quantos mais somos, mais vivemos. Nada óbvio e muito verdadeiro.

Pinto
Pinto

Abração !

nascido em 1952, paraibano, autor de "Verbos de dizer nem sempre" e "Da vida em desalinho", obras premiadas em concursos.